Arquivos Diários: 29 novembro, 2007

POEMA de otilia martel/ Porto/Portugal

Sonho-te
Que sonhando-me
Sonhas-me,
Em teus braços,
Mil beijos
Sussurrados
Sonho-te
E sonhando-me
Amo-te
No rasgar da pele
Buscando
carícias longas
Entregando-me

Sonho-te
No abraço incontido
Corpo entregue
Vencido
Em noites de vendaval

E esse perfume errante
– seiva quente –
dá vida dá alento
Mesmo que não passando
De ilusão,
Que se desfaz em nada,
Tal qual nuvem
Em tarde de Verão.

Sonho-te
Que sonhando-me
Sonhas-me…

Amando-te…  

POEMA de ANTONIN ARTAUD – 1896/1948*

“Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.
Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre
morto.
Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto

Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Este Artaud, mas, por falta do que fazer…

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.

 

 

 

POEMAS MAL_DITOS de julio almada*

 Um poeta em seu reino dos céus

Tem sempre esse inferno particular:

Se cortando na sutileza dos véus

Olha no olho do que há para revelar 

Vê claro o que claramente oculto

É o mais escondido dos tesouros.

logo o acusam de estar em surto

ao dançar com a alma dos touros. 

Chega de promessas do paraíso

repleto de prazeres artificiais.

Escrevo uma dor ácida e aviso:

sou o menos morto dos mortais! 

Vestido com a ousadia nua:

Como flor de lótus nos funerais.

Quero a tinta que a beleza sua

E deitar vivo, aonde a vida jaz. 

* do livro POEMAS MAL_DITOS.