10 NOTAS ANTIPATRIÓTICAS – por alexsandro a. de oliveira

 ou por uma vida para além da Pátria e

do Estado.
 

Nota 1 – Todo patriotismo é coisa inventada e imposta.

Nota 2 – Onde há Estado a noção de Pátria se faz necessário. A construção da lealdade ao Estado passa pela construção da obediência patriótica. Tudo aquilo que é usado para definir a pátria, o espírito patriótico, é usado para assegurar a permanência do Estado. A Pátria compartilhada legitima a unificação política do Estado. É sobre a bandeira da Pátria que o Estado é defendido.

Nota 3 – Um Estado, um sentimento patriótico – o estabelecimento de um padrão de sentimentos que devem ser vividos e experimentados. Os traços culturais são usados para construir a noção de Pátria. A construção do conceito de Pátria passa pela eliminação da alteridade. Pátria é uma noção reacionária. O discurso patriótico é coercitivo. Se não se tiver pela Pátria um amor fiel corre-se o risco do estigma, da exclusão, de ser considerado um herege.Nota 4 – Patriocentrismo – o fenômeno que coloca a pátria como centro do universo, uma derivação do etnocentrismo e sociocentrismo.

O etnocentrismo alimenta as mais diversas formas de preconceitos, racismos, fanatismos, xenofobias. Um de seus maiores problemas se encontra na desqualificação do outro. O etnocentrismo é uma característica comum a diversas sociedades. Seu limite se encontra na percepção do outro, mais especificamente na ignorância, no desconhecimento do que o outro de fato representa e da importância do outro enquanto outro.

O patriocentrismo possui um traço comum com o etnocentrismo: uma atitude de superioridade frente a outras sociedades e culturas a partir de uma percepção auto-referencial – os membros de uma sociedade percebem-se não apenas diferente, mas superiores.

Um outro problema é quando se começa a considerar como únicos possíveis os pontos de vista dado pela visão patriótica. Internamente ao Estado tal noção dominante e tida como superior pode levar a não aceitação das discordâncias e a censura destas. Tal visão é absorvida pelo sujeito que passa a considerar esta visão como estando ligada a sua situação e as suas atividades próprias. Cria-se um estado de espírito no qual o sujeito deixa de compreender sua própria situação e passa a compreender tudo pela visão da pátria e do Estado. Ele só compreende a pátria na perspectiva dela mesma. Tanto elementos afetivos quantos intelectuais estão em jogo. O sujeito perde a sua singularidade em prol de uma identificação com elementos que lhes são exteriores e estranhos. Não compreende que muito daquilo que ele venera foi construído em momentos que lhes são totalmente distantes, tanto no tempo quanto no espaço, e em circunstâncias das quais ele desconhece e que não teve nenhuma participação. – um exemplo são os símbolos patrióticos.

Nota 5 – O que alimenta tal atitude patriótica é a incapacidade de compreender a complexa trama de elementos que envolvem a construção do seu conteúdo e do seu funcionamento. Havendo, por conseguinte, uma redução dos seus elementos componentes dentro de uma elaboração de visão de mundo extremamente centrada em um conteúdo moral a incapacidade de compreender e de conceber a pátria como uma invenção, como uma construção, pode levar a geração de um conteúdo moral que busca evitar qualquer esforço reflexivo, qualquer analise sobre as implicações de se viver sob um regime patriótico. Esse conteúdo moral pode chegar às raias da crueldade, da brutalidade, do totalitarismo e do fascismo. Tal conteúdo moral quase sempre desqualifica os esforços do pensamento criterioso e analítico. Assim, a incapacidade de autocrítica somada a condenação a qualquer tipo de crítica fazem do patriocentrismo uma atitude arrogante, fundado em idéias preconcebidas que constrói seus discursos tendo por base pressupostos arbitrários, caprichosos e injustos.

Tais comportamentos morais e afetivos que definem e caracterizam o afeto patriótico são de extrema relevância para compreensão de como se constroem os instrumentos de sedimentação dos sujeitos em um Estado, ao Estado, sobretudo para compreensão dos estudos sobre os estados de ânimos sociais, agitações ou controle dessas agitações. Assim, a noção de Pátria serve como tensor que se estende entre o Estado e os sujeitos.

Nota 6 – Tal sentimento de Pátria não é algo inerente aos indivíduos, esta noção delineia-se a partir do processo de socialização, do processo de descoberta do ambiente cultural no qual o individuo encontra-se inserido. Entretanto, não há garantias de que tal sentimento venha a ser vivido com toda fidelidade. Para que tal fidelidade venha se estabelecer todo um processo de (des)construção da imagem de si e, sobretudo da imagem do outro, deve acontecer.

O homem da pátria acredita saber diferenciar o justo do injusto, o bem do mal. Ele procura respeitar as instituições e exige que os outros façam o mesmo, ele é um soldado sem farda. Ele se crer fazendo sua parte para manutenção da lei, da ordem e da paz social; ele também se vê como um homem trabalhador e honesto, que oferece a sua força de trabalho para o desenvolvimento e futuro do seu país; acredita na ascensão social, que se fizer sua parte para o bom funcionamento da pátria há de prosperar junto com ela. Daí que o patriota alimenta sua capacidade de julgamento sempre na mesma direção: tudo aquilo que for diferente do seu ponto de vista deve ser condenado; tudo aquilo que não girar em torno das suas convicções é uma oposição que deve ser excomungada; tudo aquilo que for diferente é uma ameaça em potencial à conservação e manutenção da sociedade. Ele identifica aquilo que é a pátria com aquilo que é “bom” para todos, independentemente de quem se trata – a vida é a pátria, homens e mulheres são a pátria, o social é a pátria; e tudo que assim não for dever ser renegado.

Nota 7 – A pátria não é um acontecimento natural. É algo que possui uma temporalidade, que pode ser datada em termos do seu nascimento e morte. Os traços geográficos que a delineia foram rabiscados pelo desenrolar das tramas históricas, na maioria das vezes produto de lutas e mesquinharias. Imagens, falas, sentimentos, expressões de vidas, línguas, corpos, sensações, vegetações, animais, paisagens, foram juntados, costurados, colados na especificidade e particularidade de um momento, a eles se juntaram discursos, sentidos foram criados, passando a afetar uma cosmovisão. A pátria é uma produção, não do seu povo, mas, das relações de poder a ela subjacentes. O povo foi uma de suas capturas. Ele é um de seus reféns. Assim como o é a natureza, as crenças, os valores e todos os produtos culturais nascidos das relações entre os sujeitos.

Quem olha do presente para o passado é levado a acreditar que a pátria é fruto de um processo coerente e ordenado, que ela é o produto final e glorioso de sua própria evolução. Somos levados a esquecer que as inúmeras práticas vividas e discursos pronunciados em termos patrióticos assim o foram na dispersão do tempo e do espaço, enfim, o ajuntamento das práticas e dos discursos que dão forma a pátria não são frutos de um acontecimento lógico, controlado, calculado ou previsível. O surgimento da pátria é fruto do silenciamento de uma multiplicidade de vozes, do apagamento de uma multiplicidade de imagens e práticas. Vozes e praticas que foram recortadas em seus múltiplos dizeres e fazeres, que foram selecionadas e moduladas para que, em seguida, fossem reapropriadas para servirem ao propósito “maior”: elementos constituintes de uma pátria-mãe. É por conta disto que devemos questionar sobre como foi e como é possível uma pátria, a que preço ela se tornou e se torna possível.

Nota 8 – A idéia de pátria como algo natural ou desde sempre ai acaba por encobrir o fato de ser ela um produto político e que enquanto tal deve ser compreendida. Apoderando-se de símbolos, de fatos e de expressões a pátria vai reagir e funcionar a partir de uma totalidade maior: o Estado-nação. Movendo-se dentro deste espaço nacional, delimitado por suas fronteiras, descobrimos assim um jogo entre o artificial e o artifício: se o Estado é artificial, a Pátria é um artifício deste. (Pensemos o artificial como sendo um produto de uma época, fruto de circunstâncias de época.)

O discurso patriótico é meta-histórico na medida em que faz uso de significações teleológicas que partem de um passado redentor a um futuro promissor.

Onde devemos procurar a origem da pátria? No emaranhado dos artifícios que dão forma ao seu discurso. Pátria não possui essência. A identidade que ela faz nascer é artificial, como qualquer identidade, como qualquer processo de identificação.

O desmonte da noção de Estado é correlato ao desmonte da noção de Pátria. Questionar o Estado só faz sentido se questionarmos a noção de Pátria.

Nota 9 – Haveria em nós um instinto de idolatria? É provável. Para dar vida aos nossos interesses projetamos sobre a face da terra os nossos sonhos, forjamos o tempo e nele inserimos a história, nossa história ou aquilo que consideramos como nossa história. Nela mesma, toda terra é neutra, suas fronteiras são acidentes geográficos, os contornos que traça não visa determinar estados morais. Mas o homem estabeleceu sobre ela determinações estranhas à natureza e às forças que a anima. Assim, como idolatras, passamos a adorar os objetos ridículos da nossa própria criação. É interessante constatar que entre a ficção e a evidência todo entusiasmo do homem recai sobre a primeira. Se há uma fonte sobre a terra de onde jorra o mal, ela não é outra se não esta capacidade de ficcionar e de levar a ficção às últimas conseqüências, dar às ficções humanas um caráter de absoluto. A pátria se soma a tantas outras ficções que idolatramos e a tantos outros falsos absolutos.

Não há noção de pátria que não traga uma dose exagerada de idolatrias, doutrinas e farsas. Todo ato de adoração à pátria é um ato de adoração aos crimes que foram cometidos para que esta aparecesse e se mantivesse. Quem ama uma pátria faz de tudo para que outros também a amem. Não há fervor patriótico sem uma quantidade considerável de intolerância, fé cega, intransigência ou proselitismo.

A pátria é uma assassina em potencial. Há na história humana dois motivos pelos quais mais se matou ou se morreu: por um deus ou por uma pátria. Devoção fervorosa e sangue. Gemidos e hinos. Fé religiosa e devoção patriótica se igualam no número de vítimas que fizeram. Os mais violentos crimes foram e são cometidos em nome de uma ortodoxia, religiosa ou política, não importa.

Daí o patriota ser um fanático fervoroso. E por ser assim, ele é um perigo. Os melhores e mais eficazes assassinos pode ser encontrados entre os patriotas e fanáticos: morrem e matam em nome de uma crença, de uma ficção.

A pátria é um conjunto de signos: honrar uma pátria, fazer guerras por uma pátria. Não perceber que por causa dela a vida deixa criar, que o sangue que ela faz correr, o sangue que ela exige, em nome de “proteção”, é o mesmo sangue que poderia está sendo dirigido para uma vida mais cheia de possibilidades.

Nota 10 – A pátria se consagra em um despotismo dos princípios: ela se coloca como sendo e tendo o ideal correto a ser seguindo; ela consagrou o futuro como um alojamento de bem-aventuranças para aqueles que a legitimam; ela faz parecer que a segurança reside por detrás de seus muros. A pátria se quer no plural: ‘Nós’. E nesse ‘Nós’ ecoa uma forma de fascismo. Dentro dela as instituições visam gerenciar a boa conduta, o porte correto, a regulamentação das opções. Ela quer ser percebida como o paraíso, ela concorre com o paraíso celestial. Artesã de espíritos ardentes, não perdoa aqueles que vivem sem as suas verdades. Um sujeito desprovido da crença patriótica é um ser estranho à pátria. Ela demanda certezas, impõe convicções, elimina as dúvidas e os duvidosos.

As convicções patrióticas se estabelecem como forças dominadoras – debaixo de sua bandeira se esconde uma arma.

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