A ARQUITETURA do DESEMPREGO por bruno edson dos santos

 

Hoje em dia, o desemprego desponta como um dos mais graves problemas das sociedades urbanas. Em face a essa chaga das sociedades pós-modernas, listam várias causas, e um motivo bastante apontado é o uso da tecnologia em geral, e em particular a automação de processos industriais alcançado com a informática. Mas, seria interessante analisar até que ponto isto é uma realidade e não um lugar comum que, de tão repetido não há mais questionamentos.Em primeiro lugar, não se deve esquecer que a história da evolução tecnológica é a história da própria evolução humana. Veja que, a tecnologia aqui referida é qualquer invenção de instrumentos que venha a facilitar a vida prática do homem.Acredita-se que a primeira grande revolução tecnológica tenha acontecido há cerca de 700 mil anos, e consistiu na descoberta da primeira fonte de energia: o adestramento do cachorro. Efetivamente, o homem descobriu que poderia utilizar esses animais como fonte de energia, isto é, puxar trenós durante as eras glaciais. Mas por que cachorros? É que esses animais acompanhavam as hordas humanas nas caçadas a fim de se alimentarem dos restos deixados. Aliás, a invenção da roda foi tardia por causa de uma simples questão prática: a roda sobre o gelo não serve para nada. E daí para frente o homem sempre procurou saber em que suas invenções e descobertas poderiam melhorar a sua qualidade de vida.

Nas primeiras civilizações urbanas surgidas na região mesopotâmia a aproximadamente 3.000 A.C., ocorreram então um gritante salto tecnológico, com invenções que melhoraram a qualidade de vida e a organização social, como por exemplo, a invenção da escrita, o desenvolvimento da agricultura, adestramento do gado, a evolução da arquitetura, da matemática, da astronomia – possibilitando as viagens noturnas – o comércio.

Bem, apesar de todos esses avanços, o problema do desemprego aparece como doença social somente na sociedade pós-industrial. Por quê?

Primeiramente, precisamos ver a importância das mudanças nas relações humanas, nos fatores de poder, nas economias, nos sistemas de produção, distribuição e propagandas ocorridas nos últimos 20 anos e que cunhou o termo sociedade pós-industrial. É um tanto difícil detalhar as mudanças, mas uma que parece saltar a vista é a mudança no trabalho, e é aí que entramos na sensível relação desemprego-automação.

Indubitavelmente, o desenvolvimento da automação industrial, tirou inicialmente o homem dos lugares perigosos do chão-de-fábrica e forçou-os a se deslocar para o terceiro setor, o de serviços. Assim, a nova sociedade se funda mais no tempo vago e não no trabalho, mais na criatividade do que na produção, mais nas idéias do que no esforço físico. Até então a mudança andava num processo gradual e em equilíbrio. Só que o desenvolvimento da eletrônica, da informática e em especial, dos microprocessadores, rompeu o equilíbrio simplesmente robotizando as indústrias, fato que acabou melhorando a qualidade do produto, baixando seu custo, e se configurando como um “grande causador do desemprego em massa”.

Grande causador do desemprego? Nem tanto.

Na sociedade contemporânea, o problema do desemprego parece se alastrar por todos os países, desrespeitando fronteiras entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido. Numerosas são as explicativas e incontáveis são os fracassos nas estratégias para conter esse flagelo. Seria conveniente, ao menos analisar aqui algumas razões que, sem dúvida, motivam em algum grau esse desemprego crônico.

Muitos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento sofrem um sério desaquecimento da economia, com cada vez menos investimentos no setor produtivo, principalmente na indústria, e conseqüente falta de criação de postos de trabalho. Baixos salários, forçados pelas freqüentes flexibilizações dos contratos de trabalho a fim de reduzir custos de produção, provocam uma sensível queda no nível de consumo da população, que por sua vez, provocam queda na produção por falta de vendas, e portanto demissões por falta de produtividade. Esse ciclo maligno ocorre em diversos mercados em alguma medida, e mais claramente em algum produto, tal como no mercado automotor, mas a maioria dos países ocidentais sofreu esse ciclo vicioso nos últimos anos com uma redução latente no nível de consumo.

Em muitos desses países, juros altos são implementados pelos Banco Centrais (o Brasil é campeão nesse quesito), a fim de atrair investimentos estrangeiros, que na maior parte das vezes, são aplicados no setor financeiro e não no produtivo, justificado pelo retorno fácil e rápido assim como pela liquidez imediata. Esses juros altos aumentam a dívida interna dificultando a aplicação de recursos no setor público e até estrangulando os investimentos no social. Além disso, dificultam, quando não impedem, o acesso ao crédito para as empresas em geral, principalmente para as indústrias que precisam de um alto capital de instalação a fim de adquirir os ativos necessários para o seu funcionamento e para o agronegócio que precisa de crédito para as colheitas.

Outro fator é a globalização, aliás, essa globalização “assimétrica”. Os mercados subdesenvolvidos acabam (por imposição dos órgãos internacionais como FMI, Banco Mundial e OMC) diminuindo alíquotas de importação, desprotegendo então, suas indústrias internas que acabam fechando porque não puderam competir com igualdade contra mercadorias produzidas com mão-de-obra barata (às vezes semi-escrava) ou com fortíssimos subsídios, vantagens fiscais, isenções de tarifas, ou outro fator que constituem “dumping”. Já os países poderosos protegem-se com altas alíquotas, cotas, subsídios ou simplesmente proibição de comércio, como é o caso que acontece com Cuba.

Nos anos 80, com o auge do neoliberalismo, e sob a filosofia do Estado mínimo, ou seja, com o mínimo de déficit fiscal e, portanto muito eficiente, diversos países privatizaram suas empresas. Essas empresas, que em muitos casos eram verdadeiros “cabides” de emprego, passaram por “reestruturações”, procurando aumentar a eficiência, o que na maioria das vezes significou, demissões em massa.

Vale também verificar que, principalmente nos países industrializados, os próprios empresários não aplicam seus lucros nos reinvestimentos produtivos, e sim no mercado financeiro pelas mesmas razões explicadas anteriormente.

No meio de todo este contexto, é óbvio que o uso da tecnologia é o agente menos nocivo do desemprego. Mas também é inegável que, principalmente nos países desenvolvidos, ocorre sim um processo de substituição da mão-de-obra humana por robôs, computadores e máquinas em geral que realizam o trabalho de modo mais rápido, eficiente e preciso.

Sem dúvida o alto desemprego é um produto direto e proposital dessas ideologias neoliberais e economias de mercado. Isso por que o desemprego tem uma função estrutural na economia de mercado, precariza o emprego existente através da ameaça ao empregado de que ele é facilmente substituível, possibilitando assim diminuição do salário e dos direitos trabalhistas em geral, aumentando os lucros das empresas.

Há tempos o desemprego deixou de ser um problema econômico para se tornar num dos mais urgente e grave problema social. O desempregado fica exposto à miséria, sem acesso à bem nenhum e, portanto, na prática, sem direitos. Principalmente o mais importante deles, o direito a vida. Exato, pois nenhuma providência é tomada para lhe fornecer acesso à saúde, alimentação, moradia e outras coisas dos quais o estado neoliberal cada vez mais se “esquece”. O indivíduo fica dependente somente de suas próprias forças, que no caso do desempregado é simplesmente nenhuma. Quando ele tenta se apossar desesperadamente desse direito, então passa a ser um marginal, alguém que não merece viver junto aos demais cidadãos “civilizados”.

Bem, os Estados não fazem nada? Eles tentam diversas armas. Uma das principais, que é imposta pelo mesmo sistema que deseja o desemprego, é a tal flexibilização dos contratos de trabalho. Vislumbraram um dia, magicamente, que as dificuldades de contratação e demissão eram onerosos para as empresas, encareciam a produção, impedia a concorrência e portanto geravam desemprego. Então vamos a solução! Extinguiram quase totalmente os direitos trabalhistas, jogaram no lixo o salário mínimo, acabaram com a jornada máxima de trabalho, faltaram apenas retornar novamente a escravatura e, no entanto as empresas beneficiadas (muitos vezes os próprios estados) com essas tais flexibilizações não geraram um único emprego. Apenas por uma simples razão: não precisavam de mais trabalhadores. Talves acreditam ainda que a prosperidade da empresa resulta na prosperidade dos trabalhadores, só que às empresas se oferecem todo o tipo de vantagem, subsídios, contratos vantajosos, incentivos fiscais entre outras coisas. Ela aceita, e, no entanto não abrem sequer um posto de trabalho e ainda por cima fecha ou ameaça fechar se tudo não ocorrer conforme sua vontade. Os órgãos internacionais, eternos protetores do mundo livre, defendem e incentivam as flexibilizações dos contratos.

Pelo que se viu até aqui, diversos são os fatores que provocam o fim do emprego, mas principalmente nos países industrializados o avanço tecnológico provocou fato inédito: Para se produzir todos os tipos de bens e serviços, já não fazem falta todos os trabalhadores. Portanto sonhar com o pleno emprego, como no período pós Segunda Guerra até os anos 80, é UTOPIA. Não estamos vivendo uma crise passageira no qual o próprio sistema – como se um dia tivesse conseguido – inventará um remédio.

A visão mais terrível disso é que, sem uma justa distribuição de renda e bens produzidos pela tecnologia, uma quantidade cada vez maior de seres humanos não será mais útil a uma pequena parcela que molda a economia e detém o poder. Segundo a lógica reinante, essa multidão toda não tem razão para viver neste mundo.

Para que a máquina, como bem de capital e consumo, cumpra o desejo de Orwell em seu clássico 1984: “Num mundo em que todos trabalhassem pouco, tivesse bastante que comer, morasse numa casa com banheiro e refrigerador, e possuíssem automóvel ou mesmo avião, desapareceria a mais flagrante e talvez mais importante forma de desigualdade”, é necessário que a riqueza gerada seja justamente distribuída. Que todas as pessoas tenham acesso a esses benefícios, e não só agentes econômicos, os donos de empresas e burocratas, enquanto que o trabalhador desempregado fica sem acesso a bem nenhum.

Será que a saída é impedir que as tecnologias possam melhorar os produtos em qualidade e quantidade em nome do emprego total? Acho que essa não é a saída. A justa distribuição da riqueza é sim, um assunto de amplo debate em toda a sociedade e os Governos tem o dever de dar respostas a seus povos.

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