CIBERCULTURA e INCLUSÃO DIGITAL por hugo laboran

a-cibercultura-e-inclusao-digital-foto-cd.jpg“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminuiu-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; Eles dobram por ti…” Jonh Donne

O corpo cibernético

O que distingue o espécime humano dos demais animais é a sua capacidade de criar cultura. A partir da comunicação, das formas mais distintas de linguagem, nossa espécie pode viver em sociedade e interagir, sempre de acordo com os padrões culturais estabelecidos em cada agrupamento social.

Não se pode datar ou compreender exatamente como e onde esse processo teve início, pois essas culturas se perderam na história, restando poucos resquícios que apenas nos permite exercitar a imaginação e confabular teorias. Com o avanço da organização social, o que se entendia por pequenos grupos foram crescendo, e produzindo mais valores e costumes, transmitidos por gerações. Esse acúmulo de conhecimentos e sua organização deu início ao que se entende por corpo social. O corpo social é como uma grande colméia, com indivíduos e produções culturais compondo sua estrutura.

Cada corpo social é regido por um sistema de valores tradicionais e mutáveis, sobre o qual o indivíduo isolado recebe mais pressão e influência do que é capaz de exercer. O corpo social é uma cadeia flexível e adaptável, sujeito à assimilação e absorção de conhecimento cultural, porém ligado as suas necessidades urgentes e eminentes de manutenção da espécie.

O ser humano, a partir do surgimento da rede mundial de computadores, ou simplesmente internet, reproduz o conceito de corpo social em uma estrutura muito mais complexa e intangível, sujeita a desavenças e especulações inconclusas, por vezes incompreensíveis, onde o único solo fértil que encontra na atualidade é o da conjectura e ficção. Surge o conceito do espaço cibernético, ou ciberespaço, que consiste no conjunto de informações e caminhos virtuais que circulam pelas redes, sob a forma binária (1 e 0), e transmitidos por ondas de fótons através de condutores e semicondutores eletromagnéticos. Esses elementos compõe o soma cibernético, ou simplesmente, cibersoma, que é o canal onde tais informações viajam, trata-se de um canal virtual, pois ele não possui forma física e tampouco pode ser situado no espaço, existindo somente enquanto informação numérica.

Para que haja funcionalidade no cibersoma, é necessário que exista o elemento humano, capaz de interagir e comunicar-se por intermédio deste. Quando o ser humano atua sobre o cibersoma, têm-se o conceito de cibercultura, que é tudo aquilo produzido a partir do espaço cibernético, e para o espaço cibernético. O princípio básico para a cultura de redes é a conexão, a ligação entre eminentes humanos por meio das redes virtuais e sua interação a partir desse espaço.

A explosão tecnológica no final do século XX ultrapassou as expectativas de muitas pessoas, mesmo tendo sido prevista pela Lei de Moore, proposta em 1964, que predizia que a cada 24 meses a capacidade de armazenamento de um processador dobrava, enquanto que seu custo permanecia o mesmo. Essa explosão repentina teve repercussões tanto construtivas, ampliando o espectro da comunicação, refletiu-se na situação política do globo, encurtando distâncias antes inatingíveis, como destrutivas, emergindo em segmentos sociais uma espécie de tecnofobia, nos Estados Unidos, comunidades inteiras uniram-se, estabeleceram cultos religiosos, predizendo a tecnologia como causadora da destruição humana, estando alheios a quaisquer formas de tecnologia, inclusive a luz elétrica. O mesmo pode-se evidenciar em comunidades na Bolívia, para as quais centenas de emigrantes mexicanos mudaram-se receando a industrialização do México.

O corpo social assume aspectos biológicos quando sujeito a elementos novos e surpreendentes como a tecnologia, tal como uma farpa sob a pele, é rapidamente envolvida por líquidos inflamados, que contém agentes combativos, isolando o corpo estranho e expelindo-o. Em contrapartida o advento da internet possibilitou à organização social vislumbrar um conceito de globalização de mundo, o mundo como um todo, holístico e uno, onde cada indivíduo é parte constituinte e atuante, onde quer que se situe, a localização passa a ser um mero detalhe ante as possibilidades de interação social oferecidas pelo novo corpo, sobreposto e exterior ao corpo social, o corpo cibernético.

Esse novo, incompleto e ilimitado corpo, representa para a humanidade possibilidades além de sua débil compreensão, ele pressupõe mudanças drásticas no corpo social, a partir da interação de diversas culturas por meio de equipamentos conectados ao espaço cibernético. A indução de um sistema de tradução universal. É a predição da comunicação global sem fronteiras, onde a linguagem distinta deixa de ser uma barreira para a interação humana, e a partir da linguagem a cultura sofre fusões internacionais, inter-relacionais, onde o indivíduo isolado, o eremita urbano, rural e social assume e reassume suas características humanas.

O sistema ou modo de produção social isolou e fragmentou a sociedade em detrimento da indústria cultural, essa fragmentação cria especialidades e centralização entre o indivíduo, e este se torna alheio ao todo, pois é induzido a observar somente a parte e conduzido pelo aparelho, um transporte que o priva do movimento, seja o movimento físico, seja o movimento das sinapses cerebrais.

Essa fragmentação do tecido social produz culturas estáticas e pouco mutáveis, em detrimento do status quo que as rege. O movimento é definido pela mobilidade da matéria, ou seja, o corpo está em determinado lugar e pelo gasto de energia transporta-se para um lugar distinto. Na cibercultura o movimento do corpo depende de sua interface, o indivíduo estático é munido de movimentação, de transporte pelo espaço cibernético, ele não encontra barreiras, sua velocidade é incomensurável e sua dimensão é intangível.

O desfragmentador de disco

No corpo cibernético, a fragmentação do aparelho de interface (Hardware, Software), recebe a interferência de um programa do sistema conhecido como desfragmentador de disco, um utilitário que analisa discos locais, localiza e consolida arquivos e pastas fragmentados, revertendo o processo de fragmentação, que pode gerar perda de dados, lentidão do sistema e inconsistência no volume. O problema da divisão exagerada de componentes do sistema encontra solução no espaço cibernético, mas no corpo social e no sistema social não existem alternativas semelhantes.

Assimilar a experiência organizacional e desfragmentada do corpo cibernético para o corpo social é uma tarefa hercúlea, e as próximas gerações poderão perceber cada vez mais essa influência, na medida em que tiverem toda a sua vivência permeada por uma interface digital, conectando-as a tudo e a todos. No século XXI, a Era da Conexão apresenta a junção do espaço urbano e espaço virtual, trazendo mobilidade, uma janela com vista para todo o conhecimento e informação produzidos pela nossa cultura.

Os críticos da cibercultura apontam um vitalismo social baseado no hedonismo proporcionado pelo entretenimento, um ativismo global em torno do nonsense (ausência de sentido em todas as coisas), uma micro-política em torno do anarquismo e de revoluções anárquicas, onde o sentido de posse, e de direitos autorais, quaisquer que sejam tornam-se nulos. O advento do sistema operacional linux, o primeiro exemplo de software corporativo e livre, com distribuição aberta a todos, é o maior exemplo da anarquia cibernética, onde o que se entende por “linuxização do acesso”, é a possibilidade dos usuários construírem uma sociedade de informação livre, onde a comunicação agrega todos os aparelhos comunicativos, como diz Lemos:

“Cria-se, na era da conexão, um ambiente de acesso e troca de informações que envolve os usuários. A fase atual da computação ubíqua, dos objetos sencientes, dos computadores pervasivos e do acesso sem fio mostra a emergência da era da conexão e da relação cada vez mais intrínseca entre os espaços físicos da cidade e o espaço virtual das redes telemáticas. O desafio da gestão informacional, comunicacional e urbanística das cidades passa pelo reconhecimento dessa era da conexão e da mobilidade.” Lemos, 2004

O consumo de informação assume então dimensões práticas, assim como a sociabilidade, de forma jamais experimentada pela história humana. O valor material da informação assume valores binários, a anarquia corporativista e libertária do ciberespaço derruba as ditaduras culturais, noticiarias e informacionais, enquanto em um canal de tevê ou emissora de rádio o espectador apenas recebe informações, na universo cibernético ele as escolhe, ele as constrói, no universo cibernético o indivíduo têm o poder da integração.

A distância existente entre os usuários da internet e o acesso ainda é o maior obstáculo para a denominada inclusão digital. Felizmente, grande parte das pessoas sentem a necessidade de entrar em contato com o mundo digital, em oposição ao ostracismo cultural gerado pela tecnofobia. Mas esse acesso, principalmente nos países mais pobres e desiguais, também caracterizado pelo preço inacessível dos computadores, representa a maior barreira para a inclusão. Os 54 países africanos já possuem acesso à internet, mas apenas 1% da população do continente vivenciam essa realidade, ainda assim de modo bastante tímido. A concentração dos mecanismos digitais nas mãos de poucos revela a timidez prática da inclusão. A ONU (Organização das Nações Unidas) considera a inclusão como fator primordial na visibilidade dos países pobres, pois quando conectados ao ciberespaço, sua capacidade de representação e voz ante ao mundo global pode aumentar significativamente, assim como a resposta da comunidade internacional.

O corporativismo internacional, aliado ao capital estrangeiro, já prevê a inclusão digital como uma possível arma da rebelia anárquica, e os grandes grupos já se mostram prontos a fazerem aquisições de servidores, que promovem a informação, e veículos de notícias e controle da internet, subsidiada aos EUA, que detém o controle dos portais. As grandes corporações já assumem uma linha ofensiva no intuito de deter, controlar e restringir o universo de informações dos servidores e dos usuários. Mas elas ainda encontram fortes restrições ante a liberdade do ciberespaço, que não é regido por códigos de leis, mas pelos usuários e suas vontades.

A restrição legal do uso da internet é um assunto polêmico e muitas vezes indiscutível para muitos usuários, que consideram uma utopia tentar controlar sua liberdade de acesso. Os governos, por seu lado, sofrem pressões multilaterais para prover soluções para o tráfego descontrolado e desenfreado dos usuários, a partir de fatos cruciais como a pedofilia, racismo e dezenas de outros fatos da crueldade humana.

Para que seja livre o espaço cibernético precisa de valores, valores humanos, mas tal liberdade não pode ser restringida por fatos isolados, porém devem ser identificados e punidos aqueles que destroem esses valores. O ciberespaço não pode estar acima o espaço humano, mas tornar-se uma ferramenta para ampliá-lo, para dotá-lo de uma unidade total e irrestrita, onde os espaços físicos deixem de ser entraves para a interação entre povos e culturas, assim como seus costumes, linguagem e sentimentos, todos eles humanos e fundamentais.

Schopenhauer diz em seu livro A Arte de Insultar: “O Mundo é o pior de todos os mundos possíveis”, talvez ao se referir ao mundo dos homens, ao mundo mortal e cruel dos sistemas sociais que fragmentam a vida humana. O cibermundo, o mundo digital, é antes de tudo a superação do nosso mundo tão terrível aos olhos do filósofo alemão, é a esperança humana de que o nosso sistema operacional seja desfragmentado, como um disco, unindo pedaços partidos e perdidos, para que nenhum valor e virtudes humanas se percam na infinita dimensão espaço-temporal do universo. O corpo cibernético, deve se assimilar ao corpo social, promovendo a revolução da compreensão, para que o espaço passe a ser universal e o tempo, o tempo de todos, o tempo da vida.

O conceito de corpo cibernético é relativamente novo e necessita de constantes mudanças, tanto de ordem tecnológica quanto de aceitação humana. A aversão que ainda se mostra presente a esse novo conceito poderá ser combatida com o tempo, a partir da politização das futuras gerações, advento de maiores possibilidades de vivencia do mundo digital por parte de todos.

A inclusão digital é determinante desse processo, que também pode medir como o crescimento da internet irá afetar a participação política e o poder político, talvez a internet não transforme pessoas apolíticas em pessoas politizadas, não transforme o individuo passivo em ativo, e tampouco o desinteressado em interessado, mas ela representa todo o poder dessa transformação, o poder das possibilidades, dos sonhos e dos sentimentos de liberdade, acessibilidade e encurtamento de distâncias, além da quebra de muitas barreiras. A revolução cibercultural pode não ser tão revolucionária, mas como toda revolução, representa a maior necessidade do mundo: a mudança.

Uma resposta

  1. Concordo em partes, pois acho que a revolução digital está ainda muito longe. Bom artigo, o tema cybercultura carece de boas informações.

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