Arquivos Diários: 10 dezembro, 2007

OFERTÓRIO/corpo poema de jb vidal*

ando a oferecer à quem possa interessar,
este corpo injecto de sensações
das mais puras às mais imundas,
um corpo que sente e dá sentido,
um corpo que ama e odeia,
lamenta, sorri, avança, recua, tem fome e busca outro,

um corpo viril e espartano
vítima de elogios e difamações,
um corpo que treme diante das salivas vaginais
e se entrega à loucura como última saída,
que espermeia bucetas de rainhas e criadas
e se prostra inútil diante do nada,

um corpo que experimenta prazeres e dores,
dos mais sutis às mais diabólicas,
um corpo que sente a agonia dos ossos
anunciando o limite das células cansadas,
um corpo que trabalha e produz falsidades
e termina o dia evacuando ilusões,

um corpo perfumado e fétido
abalado e abatido,
com a boca sangrando de  beijos infernais,
um corpo que interrompe o vento e faz a sombra,
que semeia gente e colhe iras
cai, rasteja, levanta e vomita ladainhas,

um corpo pronto para morrer,
pois sentiu de toda podridão,
carrega consigo os vermes que limparão seu esqueleto
branco-sujo pelas carnes amoldadas,
um corpo que, apodrecendo, levanta o braço com dedo em riste
acusa a humanidade de ter falhado

* poema do livro OFERTÓRIO a ser publicado em 2008.

SURPRESA do EQUILIBRISTA poema de sergio bitencourt*

Na profusão dos dias, aventureiro
Na difusão das trajetórias,dinheiro
Nas aparentes escapatórias, prisioneiro.
 
De súbito no centro da corda, bamba
Na percepção acorda e tomba,
Na queda aborda e bomba!!!
 
Eclode aos pedaços,
Junta-se, enlaça-se, flui e ligeiro
A ventura chama para tomar altura
No Verdadeiro.
 
Feliz fluxo, não transborda,
Não há, Não houve, Não Haverá
Corda.
 
TUDO INTEIRO!!!

*o autor é engenheiro civil e poeta.

APELAÇÃO poema de altair de oliveira*

Cauteloso, silente e lentamente
faço coisas que sei que Deus duvida
me divido por quatro e sofro um pouco…
fico louco pra tudo se acabar
vejo o mundo rodando e penso penso.

E medito no dito por não dito
e me dito meu grito mais imenso
e ensaio o que digo e o que não digo
se desmaio, se corro ou se gargalho
qualquer coisa que afaste do perigo
que mendigue derrota aos inimigos
mas me safe na hora do sufoco

*poema do livro O Embebedário Diverso – 1996

O SINTOMA é a DOENÇA por walmor marcellino

Pode parecer alucinação ou mera alienação, mas existem sintomas que são as próprias doenças. Melhor, como na psicanálise, a forma do encobrimento é a razão de ignorar qual a falta; ou, como diria o Conde de Abranhos, a existência é a própria essência, e a manifestação é o fenômeno. Depois dessa enxúndia, vou obrigado a tratar a questão: o Paraná é uma falcatrua intelectual; é uma farsa cultural engendrada pelos políticos. Aqui, os políticos são pobres de espírito; e acusam a população iletrada.
Que me perdoem os estudiosos tantos que há, os cientistas e professores dedicados ao saber e a ensinar; os profissionais (e mesmo os amadores da sabedoria) ainda que ocupados e centrados nas especializações   que assim marcham com os videotontos e celularizados das notícias ligeiras e informações “de passagem”. Que me desculpem os ex colegas da informação e da crítica nos meios macluhanianos; e os intelectuais que perderam a bússola ante as variações de ímãs (não imãs ou xamãs!). Escusem-me a veleidade tardia de comentar aspectos das relações sociais, no ensejo de uma autocrítica; porém não se apoquentem porque são nímias observações, às vezes contundentes, sobre a incultura do Paraná, ou o tratamento que os poderes jurídico-políticos — governo,  prefeituras e entidades interventoras na prática cidadã e sua criação cultural — dão ao que chamamos criação, organização e produção de cultura.
Executivo estadual e prefeituras escolhem espaços onde assentam um coxo com farelo e água, e ali a alimária se espoja, e a saparia deve cultuá-los até que se dê o coroamento — uma homenagem: um retrato, um busto, o nome de uma pocilga em reconhecimento ao imbecil que nem tem consciência de que “sua cultura” é uma incultura pedante, e sua atitude de regente político da sociedade um resultado do famulismo e familismo a que foi submetido o Paraná nos últimos 25 anos.
Esperava-se que dos novos partidos políticos, como das escolas superiores, viesse o sopro renovador, mas qual! Os vícios se entranharam em todas as instituições, e a intelectualidade tornou-se mais servil e oportunista, dando maus exemplos para os disputantes à cidadania. Quem souber diga, relate que estudo universitário se debruça sobre as realidades institucionais e seus agonistas? Que projeto governamental aponta possibilidades sociais nas ciências e nas artes; que instituição especializada mostra o horizonte e descortina os caminhos para as Índias?