A CONSTRUÇÃO do DEMÔNIO por alicia castilla

Ao longo da historia, o recurso mais utilizado para manter as sociedades coesas e sob controle, tem sido a construção de demônios. Já que o próprio, com sua cor vermelha e seus chifres, há muito tempo não intimidava mais ninguém, foi necessário se construir outros estereótipos, na medida do poder dominante.

Assim, no tempo, a ameaça a combater foram os cristãos, séculos depois as bruxas, mais tarde os judeus, os comunistas, ente outros. A função social destes demônios era e ainda é, a de poder manter a população amedrontada, condição necessária para que esta aceite mecanismos de repressão que precisam de verbas extraordinárias e que na maioria das vezes se utilizam de fundos destinados originariamente à educação ou à saúde.

Outra utilidade importante do demônio é a de servir de justificativa para os abusos do Estado nas constantes invasões à intimidade das pessoas.

Nos Estados Unidos, nas primeiras décadas do século XX, o demônio de turno era o álcool. A fabricação, distribuição e venda estavam penadas por lei o que significava enormes despesas no combate à produção, ao tráfico e ao consumo. Somam-se a isso, inúmeras mortes não somente em ações policiais como também devido à falta de controle de qualidade do álcool consumido pela população.

Quando a razão venceu a intolerância e o país como um todo, entendeu e aceitou o fracasso da “guerra contra o álcool”, iniciou-se uma política de descriminalização, que permitiu controle de qualidade da produção, acesso ao sistema de saúde para aqueles que tivessem problemas com o álcool, boa arrecadação tributária e geração de empregos.

Como nada é necessariamente bom para todos, aqueles que viviam e lucravam com a proibição ficavam desempregados. Toda a inteligência a serviço do combate ao álcool, a possibilidade de se imiscuir na vida privada das pessoas, iria se perder por falta de um novo demônio.

Tornou-se necessário fabricar às pressas, outro inimigo. Ao mesmo tempo, havia uma necessidade xenófoba de hostilizar a população de migrantes mexicanos. Foi cunhado assim, o termo marijuana e deflagrado o maior lobby (ate então) no congresso dos Estados Unidos. Os congressistas que nem sabiam que a tal marijuana era o mesmo e inofensivo cânhamo, votaram pela proibição dessa nova e verde ameaça.

Desta forma, a planta que durante milênios vinha acompanhando a humanidade, como remédio, como fibra têxtil, como alimento, como elemento recreativo e inócuo foi transformada em poucas semanas no assassino das juventudes, na maior de ameaça de todos os tempos… E todos os integrantes das forças de repressão ao álcool mantiveram seus empregos e o Estado manteve a sua ferramenta de controle social, que serviria para atropelar as liberdades individuais e, em muitos casos, os direitos humanos.

A partir de então, milhares de pessoas têm sido condenadas pelo crime de fumar um baseado, atitude considerada um “delito sem vitima”, já que o consumo de Cannabis não significa risco para o usuário nem para o entorno.

Pessoas de bem e traficantes eram então presos, indistintamente, por este “crime”. Esta situação gerou em alguns paises, como Holanda ou Espanha, uma militância de cidadãos que se empenharam junto aos poderes públicos, para encontrar uma normativa própria que acabasse com o ônus dessa guerra contra a maconha.

Com exceção dos mencionados paises, no resto do planeta a situação ainda é muito ambígua, já que o narcotráfico acaba fazendo um poderoso lobby contra a descriminalização e sempre há políticos dispostos a serem corrompidos.

Segundo as estatísticas, há no mundo entre 400 e 600 milhões de consumidores de maconha. Uma grande parte deles não acredita nas expectativas de descriminalização e, cansados de lidar com o narcotráfico e suas implicâncias, partem para uma das mais interessantes formas de desobediência civil: o autocultivo “indoor”.

O comércio de materiais para desenvolver esta atividade, muitas vezes através da web, cresce vertiginosamente.  No mesmo ritmo, os foros virtuais com troca de informações, os concursos com premiações, os cursos e seminários sobre esta curiosa forma de jardinagem, são hoje uma realidade em todos os paises proibicionistas.

Moral da historia: os tempos mudaram. Hoje a cidadania não aceita ser manipulada nem receber informação tingida de preconceitos. Não há mais possibilidade de cercear informação, nem de evitar que ela seja disponibilizada. Há cada vez menos espaço para os demônios.

2 Respostas

  1. Minha filha de 4 anos estava sendo exposta ao Daime sem meu consetimento e conhecimento.
    Hoje estou vivendo um drama familiar e gostaria de sua ipinião.
    O grupo é ligado ao tal “Padrinho Alfredo” citado em seu livro, e temo muito por minha filha e o que puderam estar fazendo com ela.

    Por favor entre em contato pelo email.

  2. Há bem pouco tempo, tive a grata surpresa de ter em minhas mãos o seu relato em épocas passadas, sobre a infeliz e inusitada experiência no Daime.
    Faço então, parafraseando você, sobre o fardamento e as imposições sociais, mascarando condutas…Onde reside o preconceito, reside a insegurança.
    Viva a liberdade seja ela qual for. A sua LEI é o que você faz,e o que você faz se torna LEI para quem te ama
    Alicia. Sou Mãe feito você.
    Entre em contato comigo por favor.
    Seu Livro me ajudou.
    Obrigada.
    Considerações Universais!

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