Arquivos Diários: 19 dezembro, 2007

SE É QUE TENHO COMPETÊNCIA por walmor marcellino

Todavia, existe uma guerra político-ideológica adversa que se desvela na tradição do consentimento; pela persuasão no ensino conformista, pelos acompanhamentos “politicamente corretos” e pela interesseira simplificação sociológica. Sob essa névoa, as pessoas escolhem o que parece conveniente e a intelectualidade se põe a serviço, secundando “olhaís” e vendendo criatividades.
Como já foi toga arrogar-se vanguarda social — moral, política e estética — passou para a moda ser à “parte”; até nalguma parceria tecnocientífica, como “acompanhante” político ou como “isento observador sem favor nem causa”.
Assim a comunicação social especialmente e até a ensaística — da qual se esperam senão epistemes pelo menos atitude e disposição ético-políticas — têm assumido a parcialidade estentórea do “seu” ponto de vista “democrático” como respeitável e justificável decisão existencial. Ad valorem.
Em nome da positividade capitalista, escriba a soldo, pena a prêmio, caráter em leilão no requisitório de mercado vai de Assis Chateuabriand a Júlio Mesquita, de Carlos Lacerda a Paulo Francis, de Vitor Civita a Francis The Beautifull, da TV-Globo à RCTV, de Arnaldo Jabur a Diogo Mainardi et alii.
Reconheça-se que esse clube de serviço não demanda salvaguardas, porém tenta justificar-se cotejando-se à indigência apologética “de esquerda” e ao fideísmo “socialista” desnorteado. Mas à sabujice ou ao “compromisso” não se deve objetar, senão escusar.
Quanto a mim, tenho a humildade de que de que minha arte e seu engenho não há que esperar demais: algum arrazoado sistêmico ou fundamentada contradita científica ou filosófica; mas acredito que a práxis é ou deve ser a política, sua ética e o compromisso, que podem construir justiça como primeira virtude das instituições sociais. E, se ela não se dá por interesse ou privilégio, resulta do direito à vida, à sobrevivência dignificante e à retribuição social aos frutos do trabalho. Ademais, o capitalismo não nasceu ético, não cresceu ético nem ora se deteriora ético, pois nasceu do confisco da propriedade social e na produção da alienação humana.
À falta de convencimento epistemológico (a perspectiva histórico-social voltou a ser predominantemente essa, a não ser que o positivismo instrumental nos exija uma ciência empírica como ponto circular de partida), não devo me engalanar com propedêuticas artificiosas. No terreno comum da práxis espero aprender com sabedoria ou saber no aprendizado o que são nossos valores nesta produção constitutiva da condição humana. Assim, posso continuar esse discurso, nesse diapasão, sem ofender manoplas, artelhos ou pentelhos de alguém?
Sem a “má-fé” de contrafazer as postulações políticas de pessoas como Adorno, Habermas, Foucault, Deleuze e outros notáveis críticos dos sistemas sociais e do pensamento, porém, ao invés, seguindo-lhes as pegadas, socorro-me da vontade de ação na resolução das pendências sociais (estariam “extintas” as lutas de classe na sociedade contemporânea e seu espólio se encontraria em translação cultural a acompanhar os meandros das ciências naturais… do que resultaria… nossa perplexidade para obter respostas na prática política, social, econômica e científica? — nessa ordem de prioridades). E, à guisa de esclarecimento, devo confessar que a centralidade de Marx ainda hoje, pari passu o crescimento, a decadência e a agonia nuclear do capitalismo, me parece Prometeu ante a Esfinge, profligando, desmitificando-a sem que esta reconheça a verdade da sua decadência e continue a lhe recusar passagem.
Daí que o renascimento dos estudos sobre Marx e da crítica marxista aos doutrinarismos socialistas teoricistas e dogmáticos (até “ortodoxos” mas sem a dinâmica ortodoxia teórico-prática de que o pensamento de Karl Marx e as reflexões prático-teóricas de Lênin constituem o cerne) estariam a nos re-dizer que as expectativas sociais de uma solução política para as crises econômico-sociais acabam gerando a filosofia social de sua superação (ou, ao reverso dialético, a conservação “a-histórica” de que Hegel nos falava). E, esperamos, também a sua prática. Não minha nem de grupelhos, tribos ou hordas, mas de uma inteligência social.
Qualquer tempo é tempo de combate; e se as classes sociais implodiram sob certa “contemporaneidade” ou “pós-modernidade”, sua divisão e multiplicação continua sendo “o social” resultante da base produtiva e das relações sociais. Sua tensão dinâmica teria passado do estado sólido (em que “tudo que é sólido desmancha no ar”) para o estado gasoso, que é “ainda” força da matéria em expansão. E suas tensões ora ampliadas ora dissimuladas ou esmaecidas não infirmam que as contradições sociais vão ocupando os “vazios” (enquanto parecem dissolver-se) modificando o meio. Na atração e espera da corrente ou torrente condutora.
E como a violência social é sudação da sociedade oprimida, podemos até mesmo contemporizar, sem extinguir-lhe os antagonismos. Entretanto, ou proclamar “a certeza do futuro” ou bater pratos e fazer uma “marche aux flambeaux”.

PEQUENAS CONSTATAÇÕES por josé zokner (juca)


Constatação I
E como diz o meu grande amigo Wilson Caron, atleticano de quatro costados: “O cara jogou tão mal, é tão ruim que perdia a bola pra ele mesmo”. Não sei se foi alguma alusão aos times do meu Paraná e o do meu Corinthians. Coitados!

Constatação II

Não se deve confundir cizânia, que o dicionário Houaiss define como “falta de harmonia; desavença, rixa, discórdia” com zizânia, que o mesmo dicionário define como “coisa ruim, de má qualidade”, muito embora quando se recebe um trabalho e/ou produto com a característica de zizânia o fato pode provocar uma cizânia que pode levar litigantes até conseqüências extremadas. A recíproca é verdadeira. Só não é se entrar fatores corretivos, a turma do deixa disso e outros aspectos assaz pacificadores.

Constatação III

E não se pode confundir indiciado com indicado, muito embora tenha muito indiciado que foi indicado por algum dedo-duro, ou não, de haver, ou não, cometido algum deslize. A recíproca é verdadeira. Basta ver o que a mídia divulga todos os dias e a toda hora o que vem acontecendo em nosso país com relação à corrupção.

Constatação IV

O septuagenário, evidentemente ex-sexagenário, ex-qüinquagenário, etc. elucubra, sobre a possibilidade em conseguir arrumar um emprego de provador de vinho ou cerveja. De vinho, durante o inverno e de cerveja durante o verão. São várias as razões para tal: 1º Unir o útil ao agradável ou desagradável. Afinal, o vinho ou a cerveja podem vir a ser de má qualidade; 2º Outro emprego nessa faixa de idade não é fácil; 3º O septuagenário tem conhecimento, por experiência própria, no assunto. Acumulado estóica e sacrificadamente ao longo de todos esses anos. Ou como diriam os entendidos que gostam de usar expressões sofisticadas dos nossos irmãos do norte, principalmente em economia, tem know-how.

Constatação V

Sugestão aos nossos filólogos: Blablasil = O eterno blablablá dos políticos do nosso país.

Constatação VI

E como dizia o obcecado cada vez que adentrava, evidentemente acompanhado, na suíte de um motel e, evidentemente também, pago pela gata, querendo mostrar erudição na língua de Shakespeare: “Home ‘suíte’ home”.

Constatação VII

(Quadrinha com sujeito indeterminado).Preparou com preceito um chimarrãoQuando sorveu a bomba entupiuTeve que chupar com tanta disposiçãoQue até a dentadura engoliu.

Constatação VIII

(Quadrinha catártica).Desci a ladeira na banguelaO carro pegou velocidadePisei no freio com vontadeA sogra voou pela janela.

Constatação IX

(Quadrinha sem adjetivo).Tomou uma biritaE passou a desmesurar.Achou-se um cosmopolita,Até o porre passar.

Constatação X

Achou risível O que é terrível.Também puderaO rastaqüeraDo deputadoTeve um aumento,Uma bonificação,Um incrementoDo seu “ordenado”,No tal do mensalão.E mesmo sendo omissoNo comparecimentoDe muita sessão,Tudo ficou por isso.

Constatação XI

Em certos países não se deve usar expressões como “ela tem um coração de ouro” ou “ele é um estudante c. de ferro”, ou, ainda, “eles têm cabelos de prata”, pois poderiam causar transtornos às pessoas referidas que poderiam vir a ser assaltadas…

Constatação XII

Favoravelmente, a opinião de rico repercute; a de pobre é chute.

FREI LUÍS PRECISA VIVER! por césar benjamin*

Procuro um livro na estante de casa. Na folha de rosto, a dedicatória: “Para o César, que também caminha nas mesmas margens do mesmo rio. Gentio do Ouro, outubro de 2001.” De dentro do livro cai um cartão que já estava esquecido: “César, grato por sua inesperada suavidade, por sua lúcida e firme presença. Grato por você existir. Te abraço. Adriano.”  Não consigo conter a emoção.
Entre de 1992 e 1993, durante um ano, Adriano e mais três pessoas realizaram uma caminhada de 2.700 quilômetros, das nascentes à foz do rio São Francisco. O livro que ganhei de presente quando os visitei no sertão – Da foz à nascente, o recado do rio, de Nancy Mangabeira Unger – narra poeticamente a empreitada desse grupo de heróis, cujas vidas se confundem com a luta pela vida do rio e das populações sertanejas que dele dependem.
O líder dos peregrinos era um frei franciscano, o mais franciscano de todos franciscanos que conheci, Luís Cappio. Não lembro em que localidade o encontrei – acho que foi em Pintada –, mas nunca o esqueci. É um homem raro. Vive visceralmente o cristianismo, a sua missão. Hoje, é bispo da Diocese da Barra. Continuou o mesmo simples peregrino, um irmão da humanidade, um pobre vivendo entre os pobres. Está em greve de fome há mais de vinte dias e pode morrer. Adriano continua ao seu lado.
Aboletado em Brasília, o presidente Lula acusa frei Luís e seus companheiros, contrários à transposição das águas do rio São Francisco, de não se importarem com a sede dos nordestinos. Para quem conhece os dois personagens, é patético. Um abismo moral os separa. Desse abismo nascem as suas diferentes propostas.
O Semi-Árido brasileiro é imenso: 912 mil km2. É populoso: 22 milhões de pessoas no meio rural. É o mais chuvoso do planeta: 750 mm/ano, em média, o que corresponde a 760 bilhões de metros cúbicos de chuvas por ano. Não é verdade, pois, que falte água ali. A natureza a fornece, mas ela é desperdiçada: as águas evaporam rapidamente, sob o Sol forte, ou vão logo embora, escorrendo ligeiras sobre o solo cristalino impermeável.
Há décadas o Estado investe em obras grandes e caras, que concentram água e, com ela, concentram poder. O presidente Lula quer fazer mais do mesmo. No mundo das promessas e do espetáculo, onde vive, a transposição matará a sede do sertanejo. No mundo real, apenas 4% da água transposta serão destinados ao consumo humano, em uma área equivalente a 6% da região semi-árida. “É a última grande obra da indústria da seca e a primeira grande obra do hidronegócio. Uma falsa solução para um falso problema”, diz Roberto Malvezzi, da Comissão Pastoral da Terra.
Graças a gente como Cappio, Adriano e Malvezzi, o Semi-Árido nordestino experimenta uma lenta revolução cultural. Centenas de organizações sociais, apoiadas pela Igreja Católica e por outras igrejas, adotaram o conceito de convivência com a natureza e desenvolveram in loco cerca de quarenta técnicas inteligentes, baratas e eficientes para armazenar a água da chuva. Ela é suficiente – corresponde a quase 800 vezes o volume d’água da transposição –, mas cai concentrada em um curto período do ano.
Eles lutam por duas metas principais: “um milhão de cisternas” e “uma terra e duas águas”. Combinados, os dois projetos visam a proporcionar a cada família do Semi-Árido uma área de terra suficiente para viver com dignidade, uma fonte permanente de água para abastecimento humano e uma segunda fonte para a produção agropecuária, conforme a vocação de cada microrregião.  As experiências já realizadas deram resultados magníficos.
Para oferecer isso à população sertaneja, é preciso realizar a reforma agrária e construir uma malha de aproximadamente 6,6 milhões de pequenas obras: duas cisternas no pé das casas, para consumo humano, uma usual e outra de segurança; mais 2,2 milhões de recipientes para reter água de uso agropecuário. No conjunto, é uma obra gigantesca, mas desconcentrada. A captação de água realizada assim, no pé da casa e na roça, já é também a distribuição dessa mesma água, o que desmonta uma das bases mais importantes do poder das oligarquias locais. Armazenada em locais fechados, ela não evapora. Impulsionado por milhares de pessoas, este poderia ser um projeto mobilizador das energias da sociedade, emancipador das populações sertanejas, se tivesse um apoio decidido do governo federal.
A proposta tem respaldo técnico da Agência Nacional de Águas (ANA), que realizou um minucioso diagnóstico hídrico de 1.356 municípios nordestinos, um brilhante trabalho. O foco é a região semi-árida, mas o diagnóstico inclui grandes centros urbanos, como Salvador, Recife e Fortaleza, abrangendo um universo de 44 milhões de pessoas. As obras propostas pela ANA, as igrejas e as entidades da sociedade civil resolvem a questão da segurança hídrica das populações. Estão orçadas em R$ 3,6 bilhões, a metade do custo inicial da transposição do São Francisco.
Isso não interessa ao agronegócio, um devorador de grandes volumes de água em monoculturas irrigadas, produtoras de frutas para exportação e de cana para fabricar etanol. É para ele e para alguns grupos industriais – grandes financiadores de campanhas eleitorais – que a transposição se destina, pois esses precisam de água concentrada. Ao sertanejo, cada vez mais, restará a opção de migrar ou se tornar bóia-fria.
Para deter a marcha da insensatez, frei Luís entrega a vida, o único bem que possui. Não lhe restou outra opção, pois o governo se esquivou do debate que prometeu. Preferiu apostar na política do fato consumado. Agora, a farsa só poderá prosseguir sobre o cadáver do bispo. O presidente Lula deixou claro que considera essa alternativa aceitável. Porém, antes desse desenlace terrível, o presidente deve meditar sobre as palavras de Paulo Maldos, do Conselho Indigenista Missionário, seu tradicional aliado: “Ao redor do gesto radical do bispo está se formando uma corrente de solidariedade, de apoios, de alianças, de identificação ética, política, social, ideológica, cujos contornos são facilmente identificáveis: trata-se dos movimentos sociais, políticos, pelos direitos humanos, pastorais sociais, personalidades da Igreja Católica, da política, da cultura, que, desde os anos 80, constituíram Lula como liderança de massa em nosso país. (…) Se dom Cappio vier a falecer, será o final dessa história. Não será dom Cappio apenas que morrerá. Morrerá a referência política de Lula e do Partido dos Trabalhadores na história dos movimentos sociais do Brasil. (…) A história da liderança popular de Lula será a história de um fracasso. A morte física de dom Cappio sinalizará a morte política de Lula.”
Suplico que o presidente abra o diálogo com rapidez, por generosidade ou por cálculo: frei Luís precisa viver.

*publicado a pedido de frederico füllgraf, e, pela urgência, o editor antecipou o post.