Arquivos Diários: 20 dezembro, 2007

CENA de SEXO conto de luis felipe leprevost

“nada mais limpo que teus pés na chuva”
(Augusto Silva)

Atinha-se à cabeça, depois à base, meus pentelhos, engolia-me, a boca mais aberta, movimentos lentos… masturbação oral… látex não, não conhecíamos camisinha… ela bate uma siririca, eu olho… ela lambe meus mamilos… calmo ziguezague de línguas… ela é uma cientista da minha anatomia… começa a me cortar, aos poucos… volta para o saco… lambidela no cu… fujo… ela não é uma dominatrix… eu não sou um cara com uniforme de bombeiro… opto por carinho e cuidado… como nomear aquilo…? posição ginecológica…? as pernas em ângulo de quase 180 graus… pornô, mas com amor… não são exatamente besteirinhas o que falo nos ouvidos dela… opto em ser atencioso… nem ela me parece adepta do sadomasoquismo… não tinha roupa de enfermeira nos cabides… não havia escolhido sexy-langeries… não vestia espartilhos… sabia me segurar pelo cabelo, a parte de trás de minha cabeça enquanto eu a chupava… sabia prender com seus dez dedos o redor do meu punho, melhor que algemas sua pressão… sabia agarrar os pêlos do meu peito e quase arrancá-los feito rasgasse uma camiseta… ela sabe ir por minhas artérias… alcançar meu sistema nervoso… me hipnotizar… ir me sarrando… permitindo-me provar canapés de sua polpa… o que chamo xana… chamo xota… chama… chamo enxame… chamo Sheila… ela me beija sobre a cueca… tiro a cueca… chupa as bolas… tenta aproximação anal… fujo… ela monta em mim… rebola, não feito puta, senão uma  bailarina… depois, sim, é puta e não deixa de bailar, nem seu carinho diminui… nem são posições de kamasutra aquelas, são uma técnica de desde sempre, e muito nossa… nenhuma semelhança com frango assado… que idiota sussurraria tesuda no ouvido de sua garota sem resultar no enrubescimento do próprio pau…? esperma… é o meu esperma… são as carnes pudendas dela… lavou, tá novo… mas não nos lavávamos, prosseguíamos, às vezes sem tirar o pau de dentro… era esperma lavando esperma… camadas de gosma seca debaixo de gosma nova… e o odor… chame fetiche quem queira… duvido, mas talvez Sheila guardasse vibradores na gaveta do banheiro… não fui conferir, não me interessam aquelas coisas com formato de pepino, avestruz, capitão gancho… ela me cavalgando interessa, minhas pernas fadigadas… panturrilhas suadas… a nuca querendo se esticar e lá no alto, pescoço de girava feroz, alcançar a jugular de Sheila… sugar sua pureza e doença de ser mulher… o colchão me engolia… eu sou o causador de uma voracidade traiçoeira… estamos nos metendo pelo corpo um do outro, sozinhos mas não separados… sozinhos feito aleijões um do outro… sem Sheila estou inteiro mas aleijado de Sheila, uma parte de mim, uma perna, talvez mais do que isso, não existisse… um lado meu, moral, metafísico, interior, fundo, houvesse removido Sheila em mim, por ela e à revelia dela… e o grelo está ali em minha frente… a mulher ao redor de uma buceta… o grelo um bichinho sem escrúpulos… qualquer movimento e é imprescindível que criemos garras… a matéria do que Sheila é feita treme, quase uma inconsciência sísmica… agora manobra sobre mim, 69, estou embaixo, calcanhar de um no lóbulo da orelha do outro… saco, virilhas, o cu de Sheila, ela vai no meu, não tenho aonde fugir… somos bife sobre a chapa borbulhante, as fibras endurecem, células se contorcem, mangue branco, as pálpebras querem virar do avesso e levantar vôo para dentro de um céu que é o interior do globo ocular… acreditamos ser pássaros libertos, morcegos frutíferos… há lugares em que só chegamos apostando na incerteza… abismos podem ter rede de proteção ou não…essa a primeira trepada… Sheila não era capaz de conter seus gemidos… o busto se empinava como que por conta própria, em alavanca, a lombar em ângulo convexo… a minha boca, os meus dentes… a língua dela, saliva dela… nossas línguas duas lesmas dando nó… dedos, palmas das mãos… as barrigas, umbigos… o ventre de Sheila, os pentelhos sem depilação… calado, concentrado me dedico à foda, a função de fazê-la gozar… deslizo nela, ela às vezes diz mais, às vezes pede sim… os seios, bicos rosáceos, ora marrons… um par de tetas não é o melhor amigo das melodias, só se você for capaz de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, não que eu não seja, eu sou, mas éramos um tácito acordo entre silêncios… silêncios que se traíssem em sussurros, dengos, pedidos, ordens, súplicas… meu pua bombava, teu pau Sheila sussurrava… a segunda trepada da noite da noite da primeira trepada, lentamente… de novo o que fazíamos era amorzinho gostoso… um exercício de maratonistas que não pretendessem cruzar a linha de chegada… punheta… chupeta… sem que haja precipitação, e Sheila era um precipício… chegar ao fundo sem me espatifar lá dentro… meus pentelhos nos pentelhos dela… estou duro, ela encharcada… somos gosma e cheiros fortes… penetrar uma mulher é recuar até o lugar no tempo em que o tempo esqueceu de si… recuar aonde nos alcança o susto, o baque que nos pegasse desprevenidos… sempre o despreparo, surpresa e júbilo mais maldição, catarse e dor… continue é a palavra pendurada nos lábios de Sheila… não, não é uma palavra, é uma ordem… encaixe e simultaneidade… a mais reveladora das intimidades é-nos a menos familiar… as polaridades mais incomuns entre os dois provocam as mais esquisitas identificações… estamos conectados igual a fios que ligássemos nas tomadas as máquinas… grudados feito cão e cadela na sarjeta… e temos harmonia… ela abraça minha perna, a que pensei ter-me amputado… aperta as unhas roídas em meus ombros, alguém que acabasse de ser salva… ela age, é assim que me executa… lógica não há… quando muito a tudo a lógica esfacela… manchas nos lençóis, os lençóis não nos interessam… e a lógica é um acontecimento com o qual não nos preocupamos… somos da raça das feras… dominamos o ofício de sermos animais… é um trabalho, ambos nos dedicamos… baixo os lábios feito fossem insetos suicidas abandonando-se no suco de pólen entre coxas… é a terceira trepada da noite… Sheila de algum modo se infiltra por baixo da minha pele… subcutânea bóia na maré convulsa de meu sangue… faz-me cócegas à epiderme… e pau, pau e buceta, gozamos e não tiro de dentro… estou agasalhado por seus sons guturais de fêmea ferida… o fundo de Sheila é agradável e convincente feito uma prece… ela perde o controle da respiração, na falta de ar se perdem seus xingamentos… ela treme, evapora em meu hálito, depois é osso, também nossas cartilagens dobram… mordidas, nós nos latimos, rimos, mastigamos, não somos vampiros, ou vampiros tenham dentes afiados no corpo todo… meus joelhos têm dentes, o abdômen dela abre a mandíbula e destroça minhas orelhas… nacos de gemidos, farelos não de lábios que sangram, porém os glóbulos do sufoco… agora é outra noite… preliminares, os movimentos dos corpos se abandonam à humildade de ser migalhas desde o princípio… isso, migalhas de paixão, restos, isso, restos de sopa de saliva… não se pertencem quanto a se pertencem… é mais… estão sem controle e ainda não enlouqueceram, porém se afinaram com insanos e insones… debruçaram-se fora da cama, joelhos ralados, de quatro, pêndulos flamejantes… Sheila levanta o quadril à procura de minha fuça… a palma da minha língua, os dedos dos meus lábios… e é a boca de Sheila maior do que Sheila inteira é a boca de Sheila… engole nós dois juntos, escorrego no tobogã da garganta, a goela, muita porra, ela lambe… sobe por meu umbigo, barriga, peito, pescoço, queixo, boca, de novo as bocas… é um beijo de quem sabe amar também de olhos abertos… de tanto nos olharmos fizemos uma transfusão de olhos, Sheila me vê com os meus, eu tenho os olhos de Sheila e não sei se suporto o vislumbre de tanta dor em suas paisagens… a agonia dos recantos depredados de Sheila… fingimos, nem sei se é incesto… queremos o mesmo sangue em nosso sistema venal… enganamos tão bem até chegarmos à essência de uma verdade, e então somos fragilizados por ela, penalizados… o prêmio esconde algo de demoníaco… recantos, o que são subterrâneos… Sheila é o diabo que me carregue… devo ser algum cristo em suas chagas… o meu é um coração de búfalo… a ciranda dos quadris de Sheila giram rápido demais, e pude me acostumar com ânsias de vômito… sei que meus beijos funcionam às vezes feito moedores e gritos… ela é minha garota, e está de bruços… suas costas parecem uma aziaga fenda cicatrizando…

OLHO e a GRANDE NOITE ESTELAR poema de jairo pereira

saltos cegos do gênio no desconhecido
destreza de mágico os toques com as mãos
na argila da beira desse rio erigi transmundos
vias artérias labirintos de espelhos no vivido
criar e ser criado o meu vão ofício
linhas de pensar o impensado como flor-matriz
prodestras as guias acidentais no investido
tresandos crispagens espocos de fogos de artifício
fogos focos de luz concêntrica o olho mira
a grande noite estelar no dia
o olho a arma nuclear do fito atira
setas nos corpos dos astros de ditos
ou na flor-matriz ideológica recém-nascida
:vertente plúrima dos contraditos:

EMBRIAGAI-VOS! poema de charles beaudelaire

É necessário estar sempre bêbado.

Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.

Mas – de quê ? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:

– É a hora da embriaguez ! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embragai-vos sem cessar !

De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

 

o poeta.