RECEITA PARA SE MANTER COMUNISTA APÓS OS 30 por otávio machado de albuquerque

Parabéns camarada, mais um aniversário. Você está preocupado porque em alguns anos atingirá a marca de 30 anos, aquela marca que lhe contaram que ao atingi-la você não será mais comunista. Como continuar comunista depois dos 30? Quer saber? Leia as instruções abaixo com cuidado porque senão o seu irmão mais novo deixará de confiar em você. Afinal, não confie em ninguém com mais de 30. Não confie em ninguém com 32 dentes.

A primeira regra para se manter comunista após os 30 é: nunca diga que é comunista. A segunda regra para se manter comunista após os 30 é: NUNCA diga que é comunista.

Isto significa que você deve adotar um pseudônimo para dizer que você não é comunista. Você dará a desculpa que a sua identidade secreta foi criada para você se defender do patrão, quando na verdade neste “novo eu” você poderá externar todo o Partidão que existe dentro de você sem ser ridicularizado. Se alguém questionar a duvidosa coerência do uso de pseudônimo você vai lembrar que Stendhal, Lênin, Pablo Neruda e George Orwell usavam pseudônimos. Afinal, para você e seus seguidores você é um deles.

A terceira regra para se manter comunista após os 30 é se afastar do mundo produtivo. Monte sua própria banda antiamericana ou, melhor ainda, torne-se um professor universitário. Assim você poderá viver confortavelmente à custa de seus fãs ou do governo. Você terá um refúgio contra o capital para escrever maciçamente contra ele sem ser importunado.

Você poderá escrever e falar qualquer asneira que defenda o comunismo. Que a URSS foi libertária e, mesmo que seja contraditório, você dirá que o comunismo nunca existiu e que Stálin é o grande culpado. Defenderá Cuba, mas dirá que o comunismo nunca existiu. Defenderá que a URSS não foi um império, mas negará a existência do comunismo. Meu jovem, na vida você faz escolhas. Seja coerente ou seja comunista.

Apoio é importante. Se você tiver uma banda, logo terá um fã-clube. Se você se tornar um professor universitário logo terá vários “voluntários” trabalhando de graça para você. Eles divulgarão os seus livros, seus artigos sem que você precise pagar nada por isso. Sempre terá uma pessoa carente que vai acreditar nos seus discursos contra o sistema. Ora, quer algo mais sedutor do que isso? Dizer a um jovem que quer mudar o mundo que existe uma saída? Lembre-se. Ingênuos não faltam nesse planeta.

Reescreva a história. Diga que o comunismo é a força do povo e não a forca do povo. Diga que o comunismo não matou ninguém. Diga que não é um sistema que poucos ganham muito e muitos não ganham nada, além de chibatadas nas costas e férias forçadas na Sibéria.

Para ser defensor do comunismo é necessário exaltar o crime. Assassinos em massa são líderes e assassinos comuns são vítimas do sistema capitalista opressor. Culpe o capitalismo por tudo. Culpe a polícia sempre. Nunca os bandidos. Exalte o comunismo sempre. Mas lembre-se, ele nunca existiu de verdade. Não esqueça de mencionar que os direitos humanos são para todos, mas esqueça dos policiais, sim. Você vai ensinar que os policiais são os novos capitães do mato e em todo camburão tem um pouco de navio negreiro. Os seus seguidores acreditarão que você é mesmo contra o sistema. Se alguém invadir a sua casa ligue para a polícia, mas não diga a eles que você os critica e nem diga aos seus amigos o que aconteceu. Afinal quem precisa de polícia, não é verdade? Mas, cuidado. Defender o crime e difamar pessoas nem sempre dá certo.

Escreva muitos livros. Sobre tudo. Escreva muitos artigos. Sobre tudo, mas culpe sempre a burguesia e os Estados Unidos. Sempre culpe os EUA por todos os males do mundo. Faça textos antiimperialistas, mas negue a todo tempo que a URSS foi imperialista. Você pode fazer isso, claro. Se ficar muito claro que a URSS é imperialista, diga que o verdadeiro comunismo nunca existiu. Culpe então o Stálin e diga que um dia o Messias chegará para libertar o povo das amarras da tirania. Deixe a entender que o Messias pode ser você. Se tudo isso não colar, bote a culpa nas elites deste país.

Use a incoerência. Sempre. Defenda ditaduras em nome da liberdade. Defenda o patriotismo, mas use o brasão da URSS. Diga que você defende os negros, mas em todos os seus registros classifique-se com Caucasiano (Branco), apesar de ser mestiço. Defenda as mulheres em público, mas seja machista no privado. Defenda o uso do idioma português correto, mas ignore os analfabetos que chegam ao poder. Acuse a burguesia de todos os males. Importante: você não é burguês. Minta. Diga que você acessa a Internet de uma Lan House e não de casa, afinal você é um defensor dos pobres. Não pega bem que saibam que você tem carro, tv a cabo, máquina digital, microondas, celular com câmera e internet com banda larga em casa. Denomine-se “outsider” (em inglês mesmo) e mantenha um perfil cheio de preferências e fotos no Orkut. Passe a todos que você é cult e inteligente. Procure comunidades de pensadores e movimentos sociais. Não basta ser comunista, tem que ser cult.

As pessoas deixam de ser comunistas após os 30 anos porque entram em contato com a realidade. Amadurecem e percebem o grande erro que é regulamentar a vida das pessoas de cima para baixo. Só afastado do mundo da fantasia da vida acadêmica e artística você começa a entender que a melhor saída para corrigir as injustiças é mudar as pessoas, não os sistemas. Só os artistas, comunistas e os que vivem das tetas do governo podem encher os pulmões e dizer: “Eu sou burguês, mas eu sou artista. Estou do lado do povo…”

Entendeu? O importante não é só enganar os outros, mas enganar a si próprio. Desta forma você ultrapassará a barreira dos 30 e continuará a ser comunista.

Siga estes passos e com certeza você vai ganhar muito dinheiro. Lembre-se, Cristo atingiu seu ápice aos 33 anos. Portanto, nunca deixe de ser a vítima, mas muito cuidado para não ser desmascarado um dia!

Uma resposta

  1. First of all, I would like to point out that i really like your sarcastic writing style. But i disagree in the substantive meaning.

    “O importante não é só enganar os outros, mas enganar a si próprio”

    That`s right. OK. After some easy-hand criticism to the so-called communism, Why don`t you try to make a self-critical-analysis? I mean, why don`t you try to go beyond your own stereotypes? Like the one that communist are just some bourgeois who paint canvas and in their free time read Lenin and Gramsci. Thanks of they have no need to work, they can analyse the “reality” and achieve some conclusions about what`s going on out there. Almost all the left-hand writers have been writing in prison, as Gramsci, where they could spent some time writing.

    It`s very easy to say:

    “As pessoas deixam de ser comunistas após os 30 anos porque entram em contato com a realidade”.

    If you think that the ontology of the human being is a conservative one, OK, is your own choice. That`s a very philosophical debate that is closely intertwined with epistemological views (man are intrinsically “good”, and society make them go in the wrong way, or, man is “bad” and society make them go in the correct way). I completely disagree. I don`t think that human beings are intrinsically egoist. For example, most of the International brigades from the Spanish Civil War were workers really concerned about the “reality” of their time who

    “…procedían de muy diferentes estratos sociales, desde intelectuales a trabajadores manuales, pasando por militares. Muchos sindicalistas, mineros de Centroeuropa, estibadores y cargadores de los principales puertos europeos, miembros del ejército ex-combatientes de la Primera Guerra mundial, médicos, afroamericanos y orientales naturales de suburbios neoyorkinos, también estadounidenses eran un numeroso grupo de universitarios, británicos procendentes de las zonas de concentración industrial, algunos escritores, artistas, políticos y muchos militares de la Europa del Este. Como vemos, la procedencia tanto geográfica como social y profesional era de una heterogeneidad impresionante. El importante número de intelectuales, médicos, artistas y científicos que integraban las BI, ha hecho que en muchas ocasiones se les haya definido como “la unidad militar más intelectual de la historia”. Hay que añadir en este apartado que hubo varios escritores como Ernest Hemingway y George Orwell, que aunque sí participaron en la guerra y escribieron algunas obras que se han hecho muy populares (Por quién doblan las campanas u Homenaje a Cataluña) no se encuadraron dentro de las Brigadas Internacionales.”

    http://es.wikipedia.org/wiki/Brigadas_Internacionales#Creaci.C3.B3n

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