Arquivos Diários: 2 janeiro, 2008

AS AMANTES e o COMPADRE conto de jb vidal

          a segunda dose de uísque, é sempre melhor que a primeira e as outras.   
          eu estava nela. absorto.
          tamborilava com dois dedos a borda do copo suado, olhando as pequenas quedas das pedras de gelo que lentamente derretiam. sentia-me àquilo.
                  
          “olá!? posso sentar-me com você?” levantei os olhos com preguiça “é que o restaurante está cheio e pensei que…” eu estava de saco cheio, cansado, irritado por que  tinha que definir uma situação e definir é sempre uma merda.   “como queira” “atrapalho? está aguardando alguém?” “ porque as pessoas são assim? você mal chegou e já quer saber da minha vida, porra!” “desculpe, não tive a intenção de…” “e assim também! quando percebem que erraram, recuam, se arrastando em cima de uma falsa humildade! é repugnante!”
                  
          era uma sexta-feira e a semana havia sido a pior de todas. tudo errado.
          o clima paulista, cinzento, depressivo, morno e gosmento. 
                  
          eu estava disposto a deixar S. Paulo, depois de dois anos de trabalho naquele inferno e sem ter um espaço exclusivo.
          ora me hospedava no apartamento do Lidio, amigo e compadre, ora nos das amantes.
          com elas, já sabia, seriam dois, três meses e viriam as reclamações e cobranças “você chega muito tarde!” “ nos finais de semana eu não existo!”  “onde vais?” “ me acorda de madrugada, bêbado, pra foder!” enchia o saco.

          voltava para o apartamento do compadre.
                   
          na manhã daquela sexta-feira, andei em círculos pelo centro da cidade, buscando uma saída. ainda procurava quando entrei no Filé do Morais, na São João, para tomar alguma coisa; coisa? coisa nada, uísque.
                   
           assim estava, quando chegou aquela  sem-mesa.
         
         
                  “puta que o pariu você é intratável! está de mal com o mundo é?…pouco me importa! vou almoçar e ir embora! você que vá para o inferno com esse mau humor!  nem te conheço!”
                    
                  o gelo derretia e eu junto.
                    
                  olhei de soslaio, notei que não era feia. é um bom começo.
                  mas minha libido estava à zero.
                     
                  “escute aqui sua charope duma figa! você entrou, pediu para sentar, eu permiti. o que tinhas que fazer? hein? hein? heeeeeein? não sabes? eu respondo, tinhas que almoçar e dar o fora, porra! não tinhas que perguntar nada, não tinhas que querer saber de nada, porra! se atrapalhasse ou estivesse esperando alguém não permitiria, entendeu? entendeeeeeeeu? merda!” porque gesticulava muito, bati com a mão no copo de uísque que voou para o chão, espatifando-se.
                  como sempre, todos aqueles olhares escandalizados, censores, como se nenhum daqueles filhos da puta tivessem quebrado um copo alguma vez. 
                  “hipócritas! a humanidade apodrece diariamente e eu sem forças vou de arrasto”.
                     
                  ela pegou a bolsa e levantou. os olhos choravam.  
                  levantei, e antes que se afastasse da mesa, tomei-a pelo braço e disse gritando “não pense que você vai chegar aqui como um vendaval, arrasar com tudo e ir embora, não! vai sentar aí e vamos resolver toda essa merda!”
                 
                   sentou-se aos soluços.
                     
                  eu sou uma bosta. não posso ver mulher chorar.

                  “garçom! dois filés antes do ponto e muito agrião”.

                  fodemos o resto da tarde no apartamento dela. “não vá meu amor!”
                  não fui. por três meses.

FÚRIA

sobre o comunismo

uma teórica vitória do comunismo em ambito mundial não alteraria em nada a minha vida.
aristóteles onassis

PAPAI NOEL: Barba caída, vira-latas e um saco vazio – por fabrício alves

Neste sujo e pobre país de terceiro mundo, o Papai-Noel, mais do que um “bom-velhinho” símbolo do capitalismo, é, para a maior parte da população, símbolo do nada, símbolo de dias em que uma pequena parte de nossa sociedade desigual se diverte, juntamente com suas crianças, enquanto a maior parte apenas tenta sobreviver e o que é pior, diante de presentes e felicidades intangíveis que inundam os meios de comunicação cada vez mais acessíveis.

O papai-noel moderno e suas representações agravam ainda mais o sentimento de pobreza, miséria, solidão e tristeza, numa época em que se ressalta justamente o inverso disso, a alegria, a abundância, enfim, o espírito natalino que hipnotiza as pessoas de uma maneira que nem George Orwell imaginaria na época em que escreveu sua obra “1984”.

Papai-noel é um grande-irmão sazonal, que ataca nos meses de dezembro, num período de comemorações cristãs, onde os presentes dados representam a alegria do nascimento de Jesus Cristo, que se vivesse neste admirável mundo novo ao qual fazemos parte, seria mais um dos excluídos e que ganharia no máximo algumas balinhas do “bom-velhinho”.

Ele não entra nas favelas, pelo menos não a versão clássica, que distribui videogames, DVDs, carrinhos de controle remoto e bonecas que andam, falam e se vestem muito melhor que as crianças que recebem o bom-velhinho pobre, terceiro mundano, versão básica, de barba caída, as renas transformadas em vira-latas moribundos e um saco vazio, cheio de presentes imagináveis. Este sim, que é o verdadeiro espírito natalino da nossa sociedade.

O Natal moderno representa um sonho, um mundo irreal criado para divertir as pessoas, pelo menos aquelas pessoas a quem se interessa divertir, aquelas que possuem o poder de decisão e compra, aquelas cujas mentes influenciam outras a manterem o sistema como está, que incentivam a aceitação da irrealidade e ainda colocam isso como algo positivo e correto. Não se contesta aqui a união e a felicidade, mas sim, a união e a felicidade comprada, cega e ignorante, que agrada poucos e fere milhões.

E como no fim, torturados ou não, todos se entregam e se submetem ao grande-irmão, papai-noel vence mais uma e ataca com força total, aliado da mídia e de todos os veículos de comunicação possíveis e imagináveis, nos induz a gastar dinheiro com presentes que agradam a parcela “cega porém feliz” da população, mantendo vivo todo o esquema de exclusão social e marginalização da maioria, mantendo tudo como está, até que chegue o outro ano, e depois outro, renascendo das trevas e renovando eternamente o ciclo.

EXÍLIO por frederico fullgraf

Uma crônica de Ano Novo
A onze mil quilômetros de distância e apesar da curvatura dos meridianos, Berlim acha-me em minha ocultação, acelera os batimentos, lateja nas têmporas,  aguilhoa o peito. De saudade do Ano Novo, se não branco, com muito frio de rachar os lábios – para os não viageiros, os sedentários geográficos, uma labiríntica, impenetrável sensação de plenitude, que a espuma leitosa do chope de beira de calçada, nesta insípida província subtropical, não conseguirá compensar; acentuar, sim, a sensação de perda irreparável. Caminho por Curitiba neste interstício dos anos e não encontro o sublime; apenas o silêncio do desterro, a paz do simulacro.

O grande andarilho berlinense e também filósofo, Walter Benjamin, compôs sua prima Obra das Passagens durante caminhadas por Paris, recuperando na cultura dos arcos de ferro das gares e na pintura panorâmica, a literatura da modernidade e o dandy Baudelaire. Flanar … E eu, o que faço: embarco na jardineira para turistas e deixo-me perscrutar pelo olho cego de Oscar Niemeyer, ou jogo-me da ponte da Ópera de Arame, matando comigo uma dúzia das nobres carpas japonesas, enfartadas de susto? Sei que, se bater à porta de seu mal-assombrado solar da Ubaldino, o Vampiro me acolherá, comovido, e, exultante, blasfemará sobre os ícones de um alcaide mentiroso e a carranca de um … adelantado raivoso: ”essa tua cidade não é a minha // bicho daqui não sou // no exílio sim órfão paraguaio da guerra do Chaco”… Choraremos um no ombro do outro, mas a angústia será inconsolável…

Estou mortificado de saudades: do meu amigo Mário José, de seus pantagruélicos jantares, regados com os melhores vinhos do Douro; do João, também português e fujão da tropa em Angola, que comandava uma taberna sob os arcos de um viaduto do trem; das incendiárias discussões ideológicas; das ingênuas utopias; dos pequenos crimes aduaneiros (comprar a vodca Wyborowa, com gramínea de búfalo, em Berlim Oriental, para burlar a receita federal do Ocidente e retornar, triunfante, a Berlim West); das transgressões do corpo no lago Wannsee (nadar na suave noite de verão e ser flagrado, nu em pêlo, pelos holofotes da guarda de fronteira, na margem “comunista” do lago); da porta da casa de Hans Magnus Enzensberger abrindo-se e na sala um Gabriel García Márquez bailando, borracho, ao som de I can´t get no satisfaction… (tivesse-o filmado naquela noite e financiaria meu  réveillon em … Cartagena de las Índias, embalado pelo som de uma habanera!)

É comparação covarde, mas que se dane!: sinto enorme falta de oito livrarias por quadra, galerias também, da pizza “Katástrophe” do tresloucado iraniano (mussarela, ovos, calabresa, pepperoni, e – arggh! – re-po-lho ro-xo!!), do Café Kranzler chique-cafona (onde as dondocas serviam torta de maçã com chantilly na boquinha de poodles e pinschers), do sorvete de creme com figo fresco e calda de pimenta verde (receita grega – do Jardim Perfumado?), das mulheres mais bonitas do continente; excluídas as sempre pálidas feministas da livraria Lilith, da qual fui expulso apenas (digo: exatamente)  por ser homem. Mas até dessas mal-amadas tenho saudades! Do cobrador da Linha 19, latindo com sotaque grosseiro, da velhinha do metrô, reclamando do vento encanado (apesar de todas as janelas fechadas), da caixeira da padaria, desejando mentiroso “bom-dia!”, da catinga do taxista que não tomava banho há uma semana: desses  não levo saudade nenhuma.

Sinto-me apoquentado, flagelado, com saudade da Vida, de um fado dilacerante ou uma syrtáki chamejante, de um grito contra a pasmaceira ou um beijo no asfalto, de uma pedra no ar, da bicuda restolhada de um vidro estilhaçado – enganoso delírio geográfico: a vitrine do shopping não é a fachada do America House, nem a choldra indolente e consumista será alguma manifestação contra o efeito-estufa…

Exílio: um amigo, poeta, confessou-me certa vez que, apesar de nascido aqui, sentia-se o próprio pai desembarcando no cais do porto; mas com um pé enroscado no escaler. É o efeito-caranguejo. Benjamin morreu no exílio: se não se suicidou nos Pirineus, seu assassinato foi perfeito. E eu tenho medo de morrer em Curitiba, de morte imbecil, destituída de aura e heroísmo: no Bar Stuart, por exemplo, entediado com o discurso do último leninista de plantão, alternando com mais um plano de romance ou filme mirabolante de outro curitibano aparvalhado, ou atropelado sob a ponte preta da João Negrão (temível Oráculo de N.S. da Luz dos Pinhais,  já em 1994 o Vampiro esbraveja:”capital mundial dos assassinos ao volante // santuário do predador de duas rodas sobre o passeio // na cola do pedestre em extinção”). De todas, porém, abotoar-me frente a frente com um macaco-prego melancólico, em pleno Passeio Público, é o espectro de causa mortis mais desgraçado que me assalta. Preciso sobreviver até o Ano Novo e aliviado me lembro que ainda me resta a lembrança! Contudo, minha falta de sorte não poderia ser mais esdrúxula. Sinto saudades de uma cidade que não existe mais: o muro caiu, o cenário ruiu, meu poema sobre o casario atrás dos chorões à margem do Spree, sumiu; durante a volta para o cemitério dos elefantes – não se escreve a mesma estória duas vezes. E enquanto este ano nefando não se despede, sinto-me deslizar para o nada; aquele poço entre o casco do navio e a parede do cais (fantasiar-me de branco, jogar uma rosa, fazer um pedido a Iemanjá… Em Praia de Leste? Capaz!.

E AQUI ESTOU CANTANDO poema de cecilia meirelles

   

Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

Sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

Não sinto gozo nem tormento,

Atravesso noites e dias

No vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

Se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.