EXÍLIO por frederico fullgraf

Uma crônica de Ano Novo
A onze mil quilômetros de distância e apesar da curvatura dos meridianos, Berlim acha-me em minha ocultação, acelera os batimentos, lateja nas têmporas,  aguilhoa o peito. De saudade do Ano Novo, se não branco, com muito frio de rachar os lábios – para os não viageiros, os sedentários geográficos, uma labiríntica, impenetrável sensação de plenitude, que a espuma leitosa do chope de beira de calçada, nesta insípida província subtropical, não conseguirá compensar; acentuar, sim, a sensação de perda irreparável. Caminho por Curitiba neste interstício dos anos e não encontro o sublime; apenas o silêncio do desterro, a paz do simulacro.

O grande andarilho berlinense e também filósofo, Walter Benjamin, compôs sua prima Obra das Passagens durante caminhadas por Paris, recuperando na cultura dos arcos de ferro das gares e na pintura panorâmica, a literatura da modernidade e o dandy Baudelaire. Flanar … E eu, o que faço: embarco na jardineira para turistas e deixo-me perscrutar pelo olho cego de Oscar Niemeyer, ou jogo-me da ponte da Ópera de Arame, matando comigo uma dúzia das nobres carpas japonesas, enfartadas de susto? Sei que, se bater à porta de seu mal-assombrado solar da Ubaldino, o Vampiro me acolherá, comovido, e, exultante, blasfemará sobre os ícones de um alcaide mentiroso e a carranca de um … adelantado raivoso: ”essa tua cidade não é a minha // bicho daqui não sou // no exílio sim órfão paraguaio da guerra do Chaco”… Choraremos um no ombro do outro, mas a angústia será inconsolável…

Estou mortificado de saudades: do meu amigo Mário José, de seus pantagruélicos jantares, regados com os melhores vinhos do Douro; do João, também português e fujão da tropa em Angola, que comandava uma taberna sob os arcos de um viaduto do trem; das incendiárias discussões ideológicas; das ingênuas utopias; dos pequenos crimes aduaneiros (comprar a vodca Wyborowa, com gramínea de búfalo, em Berlim Oriental, para burlar a receita federal do Ocidente e retornar, triunfante, a Berlim West); das transgressões do corpo no lago Wannsee (nadar na suave noite de verão e ser flagrado, nu em pêlo, pelos holofotes da guarda de fronteira, na margem “comunista” do lago); da porta da casa de Hans Magnus Enzensberger abrindo-se e na sala um Gabriel García Márquez bailando, borracho, ao som de I can´t get no satisfaction… (tivesse-o filmado naquela noite e financiaria meu  réveillon em … Cartagena de las Índias, embalado pelo som de uma habanera!)

É comparação covarde, mas que se dane!: sinto enorme falta de oito livrarias por quadra, galerias também, da pizza “Katástrophe” do tresloucado iraniano (mussarela, ovos, calabresa, pepperoni, e – arggh! – re-po-lho ro-xo!!), do Café Kranzler chique-cafona (onde as dondocas serviam torta de maçã com chantilly na boquinha de poodles e pinschers), do sorvete de creme com figo fresco e calda de pimenta verde (receita grega – do Jardim Perfumado?), das mulheres mais bonitas do continente; excluídas as sempre pálidas feministas da livraria Lilith, da qual fui expulso apenas (digo: exatamente)  por ser homem. Mas até dessas mal-amadas tenho saudades! Do cobrador da Linha 19, latindo com sotaque grosseiro, da velhinha do metrô, reclamando do vento encanado (apesar de todas as janelas fechadas), da caixeira da padaria, desejando mentiroso “bom-dia!”, da catinga do taxista que não tomava banho há uma semana: desses  não levo saudade nenhuma.

Sinto-me apoquentado, flagelado, com saudade da Vida, de um fado dilacerante ou uma syrtáki chamejante, de um grito contra a pasmaceira ou um beijo no asfalto, de uma pedra no ar, da bicuda restolhada de um vidro estilhaçado – enganoso delírio geográfico: a vitrine do shopping não é a fachada do America House, nem a choldra indolente e consumista será alguma manifestação contra o efeito-estufa…

Exílio: um amigo, poeta, confessou-me certa vez que, apesar de nascido aqui, sentia-se o próprio pai desembarcando no cais do porto; mas com um pé enroscado no escaler. É o efeito-caranguejo. Benjamin morreu no exílio: se não se suicidou nos Pirineus, seu assassinato foi perfeito. E eu tenho medo de morrer em Curitiba, de morte imbecil, destituída de aura e heroísmo: no Bar Stuart, por exemplo, entediado com o discurso do último leninista de plantão, alternando com mais um plano de romance ou filme mirabolante de outro curitibano aparvalhado, ou atropelado sob a ponte preta da João Negrão (temível Oráculo de N.S. da Luz dos Pinhais,  já em 1994 o Vampiro esbraveja:”capital mundial dos assassinos ao volante // santuário do predador de duas rodas sobre o passeio // na cola do pedestre em extinção”). De todas, porém, abotoar-me frente a frente com um macaco-prego melancólico, em pleno Passeio Público, é o espectro de causa mortis mais desgraçado que me assalta. Preciso sobreviver até o Ano Novo e aliviado me lembro que ainda me resta a lembrança! Contudo, minha falta de sorte não poderia ser mais esdrúxula. Sinto saudades de uma cidade que não existe mais: o muro caiu, o cenário ruiu, meu poema sobre o casario atrás dos chorões à margem do Spree, sumiu; durante a volta para o cemitério dos elefantes – não se escreve a mesma estória duas vezes. E enquanto este ano nefando não se despede, sinto-me deslizar para o nada; aquele poço entre o casco do navio e a parede do cais (fantasiar-me de branco, jogar uma rosa, fazer um pedido a Iemanjá… Em Praia de Leste? Capaz!.

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