Arquivos Diários: 5 janeiro, 2008

FELIZ dies solis invicti natalis ou simplesmente: FELIZ NATAL por marilda confortin

Jesus Cristo não tinha certidão de nascimento. Por isso, na idade média, um monge chamado Dionysius Exiguus, que nasceu na Cítia Menor (região da atual Romênia ou Bulgária) foi encarregado pelo Papa João I, de fazer pesquisas históricas e propor um calendário que unificasse os vários sistemas de contagem cronológicas existentes na época e marcar o início da era cristã.Baseado nos precários registros históricos, nos seus conhecimentos matemáticos e astronômicos e, aproveitando uma festa pagã muito bonita que homenageava o dies solis invicti natalis, isto é, o solstício de inverno, ou momento em que o sol se dirige para o norte para retornar a sua posição mais elevada, o monge fixou o dia 25 de dezembro do ano 1, como a data provável do nascimento de Jesus. É claro que essa data foi contestada pelos astrônomos que afirmavam que os três reis magos foram conduzidos até a manjedoura pelo cometa Halley cujas aparições já eram conhecidas bem antes de Cristo e não aconteceram em dezembro. Os historiadores diziam que o recenseamento ordenado pelo imperador César Augusto e pelo qual o casal José e Maria se locomoveram até Belém não aconteceu no inverno e que o ano da matança de criancinhas ordenada por Herodes também não batia com o calendário criado pelo monge. Mas criar um calendário, não era e não é uma tarefa fácil. Até o papa Gregório III admitiu haver um erro na contagem dos dias no calendário Juliano e promoveu uma reforma em 1582, criando o calendário gregoriano que foi então adotado pela maioria dos países católicos. Enfim, se Ele nasceu ou não nesse dia, já não importa. O Natal é atualmente a maior festa dos cristãos e do comércio mundial.Sobre a vida de Jesus até os 30 anos, também não se sabe muito. A começar pelo nascimento. Falaram mal da mãe dele quando apareceu grávida. Quem seria o pai? O Espírito Santo? O Arcanjo Gabriel? O carpinteiro José? Sabe Deus… sempre falam mal das mães solteiras. Os mais de 60 evangelhos apócrifos (relatos não reconhecidos pelo Vaticano), contam algumas peraltices Dele na infância, mas se tivermos coragem de perguntar para nossos vizinhos, professores e parentes, como éramos quando crianças, também colocaremos sob suspeita algumas histórias, não é? Um fato comum narrado na Bíblia e nos evangelhos apócrifos, é a famosa passagem da fuga do menino Jesus aos 12 anos em Jerusalém. Dizem que só foi encontrado alguns dias depois, discutindo teologia com um grupo de sábios e questionando os doutores da lei. Quem foram seus professores? Onde será que ele adquiriu todo aquele conhecimento? Numa escola pública ou seus pais tinham dinheiro para pagar mestres particulares? Será que ele levou umas palmadas por ter fugido ou se perdido dos pais? Profissionalmente, sua história também é cheia de altos e baixos. Nunca teve salário fixo nem carteira de trabalho assinada. Fez estágio na carpintaria do pai, aprendeu a arte do pastoreio, da pescaria e como guardião de um templo sagrado expulsou a chicotadas um bando de mercenários que faziam negócios ilícitos. Conhecedor da medicina, fez muitas curas e até ressuscitou algumas pessoas. Zangou-se com uma árvore preguiçosa que não lhe deu frutos e inventou o figo seco. Multiplicou pão e vinho e distribuiu pra galera. Fez vários sermões filosóficos, e questionou o regime político da época. Era exigente na escolha dos seus discípulos. Sua melhor amiga e confidente, foi Maria de Madgala, mais conhecida como Maria Madalena. Era uma mulher independente, culta e corajosa, que por não aceitar a tutela de nenhuma figura masculina da época, foi difamada e acusada de prostituta, mas os decifradores de códigos do século da Vinte, concluíram que ela foi a mais importante discípula de Jesus e que disputou a liderança dos grupos cristãos com São Pedro. O machismo era evidente naquela época. Dentre todos que o seguiram durante os anos de vida pública, ele nomeou somente 12, a quem chamou de apóstolos e concedeu poderes espirituais. Todos eram barbudos, cabeludos e se tratavam por irmão ( Eaí mano, tudo belê?)Não se conformou com a morte de seu amigo Lázaro e tratou de ressuscitá-lo.(se você pudesse, não ressuscitaria aqueles entes queridos que partiram?). Gostava de comer bem: Carneiro assado, peixe e um bom vinho (e quem não gosta?)Foi acusado por questionar os impostos, traído por um amigo, julgado e condenado injustamente. Engraçado, muitos dos meus amigos, têm histórias bem parecidas com a Dele… E eu também não sei a data de nascimento dos meus amigos. Não escrevi mensagem, não estive presente quando precisaram, não comprei presentes e nem fiz festa nos seus aniversários.  Péra aí… mas Jesus era diferente!Você também é uma pessoa ímpar.  Mas Ele era um santo, pregava o amor, a paz, a justiça, igualdade… E você não prega essas virtudes? – Mas Ele era um mestre! E você não é um mestre naquilo que faz? – Mas Ele foi julgado e condenado injustamente!E você nunca foi injustiçado?– Mas Ele foi crucificado! Vai me dizer que nunca te pegaram pra Cristo?– Mas Ele era filho de Deus!E você não é? Olha, com todo o respeito que Jesus merece, eu vou comemorar o Natal como se fosse o aniversário de todas as pessoas que amo, inclusive o Dele. Porque assim como Jesus, as pessoas que amo são justas, honestas e fazem muito bem à humanidade. Merecem meu respeito, meus parabéns e uma grande festa de aniversário, mesmo que eu não saiba o dia certo do seu nascimento.

AMOR TARDIO conto léo meimes

Vários e vários dias se passaram desde que aquele homem se apaixonara pela última vez e não menos forte do que as outras paixões foi esta que agora o aprisionava. Entrou em situação tal que todas as tardes, ao horário que sabia que sua amada terminava seus afazeres, ele se sentava na praça onde ela passava. Via aquelas inúmeras crianças que neste horário saiam do colégio, observava os bares com pessoas ao fim do expediente, dava pipocas às pombas e comprava doces em banquinhas, só para ter uma desculpa para aquele horário estar lá. Tinha um lugar de preferência, um banco bem em frente ao local onde ela aparecia. Ficava ali ansioso, roendo unhas e se mordendo de ciúmes dos colegas e amigos de sua perdição. Quando ela saía do grande prédio, ele muitas vezes levantava ansioso e fitava aquela face alegre e sempre sorridente. Ela tinha pernas e braços roliços, pele lisinha, um corpo magnífico, e era exuberante em seus gestos e movimentos. Cabelos enormes que desciam pelas costas até encontrarem as curvas do traseiro. Tinha uma pasta, que normalmente era carregada por um de seus amigos, ou colegas. Sua presença sufocava de tal maneira este homem que ele queria gritar e bradar algo em sua cólera de amor. Isso ele não fazia. Passava às vezes a manhã e a tarde pensando em coisas, assuntos e formas de conhecer sua amada. No sonho todas essas tentativas pareciam lógicas e cabíveis, mas na hora ela o deixava totalmente inerte.

Incrivelmente ele tinha a certeza de que ela sabia que era especial. Suas formas de andar, conversar, rir e de tocar as pessoas, insinuavam que ela tinha a absoluta certeza do que causava aos homens. Os homens em seu apetite voraz pelo sofrimento e pelos seus desejos mais púberes, deixam se levar por estas provocações. Seus amigos estavam completamente absortos em uma emanação de vida e desejo vindos daquela criatura que aparentava ser tão delicada. Essa luz, esse brilho talvez nem todos os homens consigam perceber de imediato, pelo menos não os que nunca tenham tido um contato primeiro, uma iniciação. Porém é difícil que tal pessoa exista. Nós crescemos, vivemos na presença destas incríveis figuras, tentadoras, delicadas e absolutamente lindas. Mas já vos digo, como este homem poderia confirmar, não são todas que assim nos levam à perdição. Digamos que numa sala com quarenta apenas uma, ou nenhuma, consegue tal proeza. As que conseguem o fazem por um motivo: sabem. Elas sabem, como já foi dito, que têm este poder, e o usam. Fazem de tudo para que sua presença seja a mais tentadora possível. Por isso que nós vemos agora ali nosso herói, agonizando em desespero, por não conseguir uma palavra, um gesto vindo de tal criatura que fosse destinado a ele.

Perdeu as contas de quantas coisas já havia feito para chegar a ela. Havia comprado pipocas no pipoqueiro que ficava imediatamente à frente de onde ela saía e o máximo que conseguiu foi vê-la e quase tocá-la. Conseguiu sentir o cheiro dos cabelos, da pele. Ele, apesar de todo o desespero por aquele amor, sabia que era quase impossível tal relação, afinal ele mesmo já tinha uma esposa e até filhos. O que acontece é que seu amor não era nutrido de possibilidades e sim de um fluido mágico que continha todas as emanações que vinham de sua amada e que penetrava em seu corpo toda vez que a via, fazendo seu estômago gelar, e sua mente desvairar em loucuras lógicas para o amor. Estava viciado em tal sensação. A simples visão da pele branca, do sorriso grande e do movimento dos cabelos lisos já lhe era o suficiente.

Para seu desespero, um dia estando ali em seu destino diário, tentou se aproximar mais uma vez da multidão que saía daquele prédio junto com ela, comprou uma pipoca, como desculpa e acabou encontrando um amigo de passagem. Em conversas se esqueceu do que estava planejando e entrou cada vez mais nos assuntos debatidos. Mas em um relance de descuido, sua musa passou e ele com um olhar de lado, conseguiu ver que ela não só o tinha fitado como havia encostado os ombros em suas costas, o fazendo arrepiar. Petrificou. Perdeu o rumo da conversa e seu amigo até pensou que ele estava passando mal. No outro dia entusiasmado com um simples olhar recebido sentou-se no banco que ficava imediatamente à esquerda de onde ela saia, e com um pacote de pipocas começou a alimentar os pombos. Foi jogando o alimento aos pássaros e não percebeu quando em sua volta havia já uma imensa revoada. No que as crianças saíram do colégio a confusão foi tal que muitos pisaram e sem querer chutaram os pássaros. Eis que em meio aquela situação surge sua perdição, repreendendo um menino que estava tentando chutar os pombos. O homem a fitou como ela fizera no dia anterior, e já não sentiu tanto frio no estômago. Ela em retribuição ao olhar, comentou “você é que dá comida a esses pombos? Eu sempre vejo o senhor com sacos de pipocas”. Sua voz foi tal que o homem entrou em transe, seu mundo só pertencia a ela e ela era agora seu mundo. Com um gesto instintivo ele ofereceu a ela um saquinho de pipoca, sem dizer nada. Ficou ali parado esperando uma resposta, que veio quando ela ao seu lado sentou e pegou-o de sua mão. “Qual seu nome?” foi a primeira pergunta que lhe veio em mente. “Maria”, respondeu a delicada criatura. “Você parece ser muito nova, Maria, meu nome é César e não precisa me chamar de senhor” disse nosso herói.

 “Sim, tenho quinze anos”, respondeu Maria…

OBREIRO poema de joão batista do lago

Desorientado!
Sim, desorientado saíra de casa…
Casebre.
No caminho do trabalho ia mastigando sua febre de 40º,
ruminando desespero do filho sem leite,
da mulher recém parida,
que ficara na casa – casebre! –
já quase sem vida.
E ele, obreiro de muitas obras,
de tantas e quantas obras,
não tinha obra nenhuma para doar à família.
Toda obra que construíra fora para pagar o salário miserável que consumia no dia-a-dia da sua miserável vida.
Ruminava e ruminava.
Ruminava inconsciente a caminho do matadouro
onde entregaria sua mente a preço vil,
sua força de trabalho restaria na produção covil.
No dia seguinte tudo se repetia.
Ainda assim esperançava um dia
ser dono da mais valia que lhe roubava o pão nosso de cada dia.
E pensava:
“Antes de morrer hei de ver meu filho banhar-se de leite,
minha mulher entre sedas, pedras preciosas e ouro…
Hei de ver! Hei de vencer!”
Passava o tempo e todo dia a mesma coisa se repetia:
refém da mais valia, mas esperançava sempre – um dia! –,
o velho trabalhador, ter a alegria de ser livre,
de não ser apenas um sofredor; ser dono da sua força de trabalho,
não ser apenas o curinga do baralho ou apenas peça descartável do mercado.
Hoje, velho e maltrapilho… (maltratado!), arrasta-se entre ladrilhos de esperanças, contudo espera que sua criança – ainda sem leite! – não perca a esperança de um dia ser dono da sua laborança,
que seja refratário ao vil capital do consumo,
que seja libertário e que não se deixe pregar à cruz,
para de lá, como eu, apenas dizer:
“consummatum est!”

MÃOS no FUNDO poema de darlan cunha

           
Abranda em teu ser o cansaço
de não saberes de onde partiu tanta noção
de beleza, acalma em ti
o medo de que venhas tudo perder, desce comigo
esta rampa rumo ao Espanto, vamos
que o sol dura apenas um dia, descansa, e retorna
para perguntar aos nossos ombros
o que fizeram em sua ausência.

Vamos, desçamos a rampa, subamos
o que houver para subir.

POEMA de namibiano ferreira/ angola

namibiano-ferreira-foto-angola02_161.jpg

A ngoma tem a pele negra
boi, vaca ou pacassa
troando a noite antiga da tradição
às mãos negras do tocador.
Eu queria ser ngoma, kissange, dicanza…
vibrar como ngoma velha de pele negra
e como os outros, num grito universal,
proclamar aos mistérios da selva, da savana
e do mundo inteiro e imundo
a impossível renúncia que aflora à alma
como albufeira imensa do Cuanza distante. Eu queria ser ngoma, kissange, dicanza…
na Rota do Sul perdida e por achar
nas ondas da calema
e na maré louca para voltar.
Ba-tam-tam-tam; ba-tam-tam-tam
ritmo de ngomas
ngomas do mato
angolana saudade dos batuques do Sul
desse meu Sul: rota antiga imortal
vibrando-vibrando na alma ngoma
despida de sal.

Aiuê! minhas ngomas do sul da saudade.Ba-tam-tam-tam; ba-tam-tam-tam

Ngomas – instrumento de percusao, tambor.Pacassa – genero de boi selvagem.

Kissange e dicanza – instrumentos musicais angolanos.