AMOR TARDIO conto léo meimes

Vários e vários dias se passaram desde que aquele homem se apaixonara pela última vez e não menos forte do que as outras paixões foi esta que agora o aprisionava. Entrou em situação tal que todas as tardes, ao horário que sabia que sua amada terminava seus afazeres, ele se sentava na praça onde ela passava. Via aquelas inúmeras crianças que neste horário saiam do colégio, observava os bares com pessoas ao fim do expediente, dava pipocas às pombas e comprava doces em banquinhas, só para ter uma desculpa para aquele horário estar lá. Tinha um lugar de preferência, um banco bem em frente ao local onde ela aparecia. Ficava ali ansioso, roendo unhas e se mordendo de ciúmes dos colegas e amigos de sua perdição. Quando ela saía do grande prédio, ele muitas vezes levantava ansioso e fitava aquela face alegre e sempre sorridente. Ela tinha pernas e braços roliços, pele lisinha, um corpo magnífico, e era exuberante em seus gestos e movimentos. Cabelos enormes que desciam pelas costas até encontrarem as curvas do traseiro. Tinha uma pasta, que normalmente era carregada por um de seus amigos, ou colegas. Sua presença sufocava de tal maneira este homem que ele queria gritar e bradar algo em sua cólera de amor. Isso ele não fazia. Passava às vezes a manhã e a tarde pensando em coisas, assuntos e formas de conhecer sua amada. No sonho todas essas tentativas pareciam lógicas e cabíveis, mas na hora ela o deixava totalmente inerte.

Incrivelmente ele tinha a certeza de que ela sabia que era especial. Suas formas de andar, conversar, rir e de tocar as pessoas, insinuavam que ela tinha a absoluta certeza do que causava aos homens. Os homens em seu apetite voraz pelo sofrimento e pelos seus desejos mais púberes, deixam se levar por estas provocações. Seus amigos estavam completamente absortos em uma emanação de vida e desejo vindos daquela criatura que aparentava ser tão delicada. Essa luz, esse brilho talvez nem todos os homens consigam perceber de imediato, pelo menos não os que nunca tenham tido um contato primeiro, uma iniciação. Porém é difícil que tal pessoa exista. Nós crescemos, vivemos na presença destas incríveis figuras, tentadoras, delicadas e absolutamente lindas. Mas já vos digo, como este homem poderia confirmar, não são todas que assim nos levam à perdição. Digamos que numa sala com quarenta apenas uma, ou nenhuma, consegue tal proeza. As que conseguem o fazem por um motivo: sabem. Elas sabem, como já foi dito, que têm este poder, e o usam. Fazem de tudo para que sua presença seja a mais tentadora possível. Por isso que nós vemos agora ali nosso herói, agonizando em desespero, por não conseguir uma palavra, um gesto vindo de tal criatura que fosse destinado a ele.

Perdeu as contas de quantas coisas já havia feito para chegar a ela. Havia comprado pipocas no pipoqueiro que ficava imediatamente à frente de onde ela saía e o máximo que conseguiu foi vê-la e quase tocá-la. Conseguiu sentir o cheiro dos cabelos, da pele. Ele, apesar de todo o desespero por aquele amor, sabia que era quase impossível tal relação, afinal ele mesmo já tinha uma esposa e até filhos. O que acontece é que seu amor não era nutrido de possibilidades e sim de um fluido mágico que continha todas as emanações que vinham de sua amada e que penetrava em seu corpo toda vez que a via, fazendo seu estômago gelar, e sua mente desvairar em loucuras lógicas para o amor. Estava viciado em tal sensação. A simples visão da pele branca, do sorriso grande e do movimento dos cabelos lisos já lhe era o suficiente.

Para seu desespero, um dia estando ali em seu destino diário, tentou se aproximar mais uma vez da multidão que saía daquele prédio junto com ela, comprou uma pipoca, como desculpa e acabou encontrando um amigo de passagem. Em conversas se esqueceu do que estava planejando e entrou cada vez mais nos assuntos debatidos. Mas em um relance de descuido, sua musa passou e ele com um olhar de lado, conseguiu ver que ela não só o tinha fitado como havia encostado os ombros em suas costas, o fazendo arrepiar. Petrificou. Perdeu o rumo da conversa e seu amigo até pensou que ele estava passando mal. No outro dia entusiasmado com um simples olhar recebido sentou-se no banco que ficava imediatamente à esquerda de onde ela saia, e com um pacote de pipocas começou a alimentar os pombos. Foi jogando o alimento aos pássaros e não percebeu quando em sua volta havia já uma imensa revoada. No que as crianças saíram do colégio a confusão foi tal que muitos pisaram e sem querer chutaram os pássaros. Eis que em meio aquela situação surge sua perdição, repreendendo um menino que estava tentando chutar os pombos. O homem a fitou como ela fizera no dia anterior, e já não sentiu tanto frio no estômago. Ela em retribuição ao olhar, comentou “você é que dá comida a esses pombos? Eu sempre vejo o senhor com sacos de pipocas”. Sua voz foi tal que o homem entrou em transe, seu mundo só pertencia a ela e ela era agora seu mundo. Com um gesto instintivo ele ofereceu a ela um saquinho de pipoca, sem dizer nada. Ficou ali parado esperando uma resposta, que veio quando ela ao seu lado sentou e pegou-o de sua mão. “Qual seu nome?” foi a primeira pergunta que lhe veio em mente. “Maria”, respondeu a delicada criatura. “Você parece ser muito nova, Maria, meu nome é César e não precisa me chamar de senhor” disse nosso herói.

 “Sim, tenho quinze anos”, respondeu Maria…

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