Arquivos Diários: 12 janeiro, 2008

PARA SABEREM QUE FALEI DAS FLORES por jb vidal

03h15min e uma coceira irrestível me acordou. estava localizada entre a coluna e a omoplata, localização difícil para um braço curto como o meu. alcancei-a com uma régua que estava na mesinha de cabeceira. alívio. nada melhor do que acabar com a coceira no momento em que ela está no auge. voltar a dormir. 03h40min ainda aguardava o retorno do sono quando me veio a idéia – salve as flores – o quê? o pensamento indagou, reposta do pensamento – salve as flores -; mente vazia ferramenta para o capeta, pensei. tentei novamente dormir, agora, fechando os olhos. –salve as flores – uhm? –salve as flores – salve as flores – salve as flores -!!!
irritadíssimo, levantei e fui ao banheiro, não havia nada a fazer ali; abri as portas que existem na cozinha, geladeira, armários enfim todas. nada. não queria nada. – salve as flores – salve as flores – a idéia martelava impiedosamente o cérebro em detrimento do tão esperado sono. arrastei-me pela área de circulação do apartamento como se carregasse uma tonelada nos ombros. cheguei na biblioteca e aboletei-me na cadeira da escrivaninha. e veio, veio como rajada de ciclone, devastadora, ocupando todos os espaços do combalido cérebro:

“ …maravilhosas, indescritivelmente divinas, ornamentos dos olimpos, cheias de energias que te transmitem descanso, paz interior, beleza no feio, calma na dor, lágrima na alegria, fragrâncias no lodo…assim são as flores! elas existem para isso e muito mais, para acolher nosso olhar ainda que cheio de ódios e amarguras, tristezas e frustrações e nos devolvem  todo o seu encanto de cores, formatos e brilhos que se fixam nas retinas como imagens  apacentadoras de nossa alma inquieta e sofrida. ah soubessem os homens a força tranquilizadora que elas dedicam a quem sabe observa-las, admira-las, senti-las…

ah se soubessem! curativos da alma é o que são.

companheiras de caminhada, solidárias aos penosos, alegria dos infantes, brincadeira dos namorados, símbolo dos amantes, carregam em si a nossa esperança que desconhecemos.

divinas.

vieram das estrelas para enfeitar nossa rude vida. para sorrirem de nosso orgulho e vaidades, e, ao nosso olhar, devolverem certeza de passos mais firmes e decididos.

ah estas flores, as flores do meu planeta, quantas transformações ao longo dos milênios para permanecerem ao nosso lado, ao alcance do nosso olhar, gerando imagens que nos levam para mais próximos do ser”. 

mas não ! isto não é verdade. isto é fantasia de poetas inúteis! 

que fez o homem? arrancou-as das florestas, dos matagais, dos caminhos que percorriam e as  aprisionaram em fazendas de cultivo, produção em série, com código de barras, fora do seu habitat natural  perderam o brilho, o perfume. quanto sofrimento para elas!

e para quê?

para vendê-las em mercados fedorentos, lojas de acrílico a milhares de idiotas que “faça o buquê mais lindo possível” porque ele vai terminar de matá-las num vazo de cristal na sala da residência de uma mulher que dentro em pouco as colocará no lixo!

flores para minha amada! nem sequer pensou em admirá-las antes do corte fatal da tesoura.

então… o amor leva à morte a beleza das flores? que triste constatação. 

mais, você as vê agonizando nos salões de festas, todos se divertem com os arranjos florais ao som das valsas e não percebem o sofrimento de quem lhes oferece beleza mesmo nos últimos momentos de vida.

muito triste seus destinos traçados pelo homem civilizado.

mais, não satisfeitos em  extingui-las nas festas, mandam mata-las para enfeitar, por poucas horas o túmulo de ente sepulto, querem demonstrar sua admiração pelo cadáver com os cadáveres florais.

oferecem a morte para a morte. incrível. 

recolho-me tomado de grande tristeza pela sina destruidora do homem.

a barbárie é agora.

CARTA À HUMANIDADE QUE VIRÁ por deborah O’lins de barros

Meu nome é Deborah. Embora de família cristã, eu e minhas irmãs (Rachel e Sarah) fomos batizadas com nomes judaicos, por opção de nossos pais. Antes de começar o relato propriamente dito, gostaria de deixar uma colocação às gerações vindouras (outros relatos de meus contemporâneos podem confirmar): viver na época em que vivo é muito chato. A a-prece-esperanca.jpgminha história é a micro-história da minha geração; minhas raízes nasceram, foram arrancadas, replantadas, arrancadas novamente e assim por diante.

Eu realmente espero que alguém leia isso em algum futuro, por que não me deparei, até agora, com nenhuma admoestação das gerações que tanto invejo. Todas as guerras, guerrilhas e conflitos do século XX, foram o estopim para a desestruturação política, social e moral desse novo século XXI. A cada dia eu fico com mais medo de presenciar o “admirável mundo novo”, previsto pelo escritor Aldous Huxley.

Bem, vamos por partes, vou tentar deixar vocês a par das coisas que acontecem nessa era pós-moderna de intolerância. Há uma metáfora que diz que se alguns jornais forem espremidos, escorrerá sangue por eles. Acreditem. Se eu juntar numa folha as centenas de acontecimentos que ocorreram a partir do ano em que nasci, 1983, e apertá-la, uma poça de sangue venoso se formará junto a meus pés. Mesmo assim, tenho orgulho de ter assistido ao vivo (embora pela literalmente globalizada tevê): a queda do Muro de Berlim, quando eu tinha seis anos; e o que me despertou para a política, os atentados de 11 de setembro de 2001, no World Trade Center.

Sabe o que me deixa mais irritada nesses “tempos modernos”? Parece que não aprendemos nada. Não aprendemos nada com os “erros” do passado, não aprendemos nada na escola. E o pior, ou irônico, é que as pessoas que menos sabem, parecem ser as mais felizes, pois não se preocupam. Como afirmou um personagem do filme que marcou a geração, Matrix, “a ignorância é maravilhosa”. Porém, certa vez eu escrevi num caixote, quando me mudei do Rio de Janeiro para Santa Catarina: se a ignorância é uma bênção, eu amo ser desgraçada. E quem opta pela busca do conhecimento se torna um desgraçado mesmo; somos angustiados, poucos, espelhados, impotentes. A grande massa que nos apoiaria numa revolução não pode perder o capítulo inédito da novela.

Não sou de esquerda. Nem de direita. Acho os que se dizem socialistas, piegas, utópicos; os capitalistas burgueses, ridículos; os que se dizem “centro”, hipócritas. Considero-me apenas uma sonhadora. Outra coisa interessante na minha geração é que somos um bando de indecisos. Não somos (mesmo que às vezes proclamemos) 100% nada. Combinamos camisa do Che Guevara com tênis All Star; somos católicos e acreditamos em encarnação; praticamos esportes e nos drogamos regularmente; somos mestiços, bissexuais e musicalmente ecléticos.

A música e arte, bem, em geral estão capengas. Na verdade, qualquer coisa (“coisa” mesmo) que for feita por algum famoso ou descendente (o sucesso não é mais mérito, ele é hereditário) e for bem divulgado, terá um bom retorno. Parece que estamos levando a sério aquela piadinha do Andy Warhol de fazer a “arte do comum”. E o pior, vende que nem água e custa os olhos da cara. Só um exemplo: os cantores mais populares do século XX, Frank Sinatra e Elvis Presley nunca cantaram nada de instrutivo ou interessante.

É isso. Eu, daqui do passado, espero ter cooperado em alguma coisa para o futuro, isso é, se ele houver; se não acabarem com o mundo antes. Espero que vocês, de fora do paradigma da minha geração, aprendam o que eu nunca aprenderei. Quanto a mim, vou continuar imaginando como seria bom se eu tivesse vivido na época, ou melhor, tivesse sido o Álvares de Azevedo, ou o Edgar Allan Poe, ou a George Sand, ou o Oscar Wilde…

MARQUÊS de SADE por editoria

marques-de-sade-011.jpgDonatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade (Paris, 2 de junho de 1740; Saint-Maurice, 2 de dezembro de 1814) foi um aristocrata francês e escritor marcado pela pornografia violenta e pelo desprezo dos valores religiosos e morais. Muitas das suas obras foram escritas enquanto estava em um hospicio, encarcerado por causa de seus escritos e de seu comportamento. De seu nome surge o termo médico sadismo, que define a perversão sexual de ter prazer na dor física ou moral do parceiro ou parceiros. Foi perseguido tanto pela monarquia (Ancien Régime) como pelos revolucionários vitoriosos de 1789 e depois por Napoleão.
Além de escritor e dramaturgo, foi também filósofo de idéias originais, baseadas no materialismo do século das luzes e dos enciclopedistas. Era adepto do ateísmo e obcecado por fazer apologia do crime e afrontas à religião dominante. Em seu romance Os 120 Dias de Sodoma, por exemplo, nobres devassos abusam de crianças raptadas encerrados num castelo de luxo, num clima de crescente violência, com coprofagia, mutilações e assassinatos – verdadeiro mergulho nos infernos, sem nenhuma concessão ao bom-gosto. Esse romance foi produzido durante sua prisão, manuscrito em letras miúdas num rolo feito de papéis colados, e teve sugestões dadas pela mulher do marquês, Renné, que passou parte da vida defendendo o marido nos tribunais e só se separou dele quando o marquês foi libertado da cadeia, num breve intervalo de vida livre pós-Revolução Francesa.

CRONOLOGIA:

1740. Dia 02 de junho, nasce em Paris, Donatien-Alphonse-François de Sade, Marques de Sade. Dos quatro aos 10 anos, primeira infância no “Comtat-Venaissin”.
1750. Colégio “Loius-Le-Grand” e preceptor particular.
1754. Escola de cavalaria leve.
1755. Sub tenete no regimento de infantaria do Rei.
1757. Serve na “guerra dos Sete anos”.
1759. Capitão do regimento de infantaria da Bourgogne.
1763. Desmobilização. Casamento com Renée-Pélagie de Montreuil. Quinze dias de encarceramento na prisaõ de Vincennes, sob acusação de práticas libertinas agravadas por atos de blasfêmea.
1764. Recepção no parlamento da Bourgogne, nas funções de tenente geral das províncias de Bresse, Bugey, Valromey e Gex.
1765/66. Ligações públicas com atrizes e dançarinas.
1767. Morte do Conde de Sade, seu pai. Nascimento de seu primeiro filho.
1768. Processo Rose Keller em Arcueil. Quinze dias de detenção em Saumur e mais sete meses em Pierre-Encise, próximo a Lyon. Festas e bailes em seu castelo de “La Coste”, na região de Provence.
1769. Nascimento de seu segundo filho.
1771. Nascimento de sua filha.
1772. Processo a partir do caso das quatro jovens de Marseille. Condenação à morte à revelia. Fuga para a Itália, acompanhado de sua cunhada(?). Execução simbólica na cidade Aix-en-Provence, no dia 12 de setembro. Preso em Chambéry é transferido para Miolans na Savoie.
1773. Fuga de Miolans. A senhora de Montreuil, sua sogra, obtém ordens do Rei para prendê-lo e seqüestrar seus documentos e escritos. Sem resultados.
1774. Ele se esconde em seu castelo de “La Coste”.
1775. Processo a partir do caso das cinco jovens de Vienne e de Lyon. Nova fuga para a Italia, com estadias no seu castelo de “La Coste”.
1777. Morte da senhora Sade, sua mãe. Detido em Paris, é mantido prisioneiro em Vincennes.
1778. Anulação, na sua presença, do julgamento de Aix-en-Provence. Escapa e é detido em “La Coste” e reencarcerado em Vincennes.
1782. Conclusão do Dialogue entre un prêtre et un moribond.
1784. Transferido para a Bastilha.
1785. Redige a última versão da obra Cent vingt journées de Sodome.
1787. Redação de Contes et d’historiettes.
1788. Redação de Eugénie de Franval e do romance Infortunes de la vertu.
1789. Redige provavelmente a última versão da obra Aline et Valcour. Transferido às pressas para Charenton na noite de 03 para 04 de julho. Tomada da Bastilha e pilhagem de seus pertences e documentos.
1790. É libertado da prisão de Charenton. Estabelece relações com Marie-Constance Quesnet, que não o abandonará até a sua morte.
1791. Publicação (clandestina) de Justine, ou les malheurs de la vertu. Primeiro texto político. Primeira representação de Oxtiern.
1792. É nomeado membro da “section des Piques”. Textos políticos. Representação do Suborneur.
1793. Textos políticos. Nomeado jurado de acusação e em seguida presidente da “section de Piques”. Intensa atividade anti-religiosa. Detido.
1794. É conduzido à prisaõ “Carmes”, “Saint-Lazre” e finalmente à casa de saúde de “picpus”. Condenado à morte é após Thermidor posto em liberdade.
1795. Publicação-clandestina- da La philosophie dans le boudoir, e- oficial- de Aline et Valcour, ou le roman philosophique.
1796. Publicação(clandestina) do romance L’histoire de Juliete.
1799. Remontagem da peça teatral Oxtiern em Versailles onde Sade mora em condições de pobreza. Ele representa o papel de “Fabrice”.
1800. Publicação oficial da peça Oxtiern e dos Crimes de L’amour e publicação clandestina de La Nouvelle Justine.
1801. Detido e conduzido à prisão de Sainte-Pélagie” e posteriormente à “Bicêtre”, sob a acusação de ser o autor do romance L’histoire de Juliette. A edição de L’histoire de Juliette é recolhida.
1803. A família consegue a transferência de Sade para o hospício de Charenton. Lá ele organizará espetáculos.
1807. Redação da obra Journées de Florbelle. Os manuscritos são seqüestrados de seu quarto.
1813. Publicação oficial da obra La Marquise de Ganges.
1814. No dia 02 de dezembro, Sade morre no hospício de Charenton.