PARA SABEREM QUE FALEI DAS FLORES por jb vidal

03h15min e uma coceira irrestível me acordou. estava localizada entre a coluna e a omoplata, localização difícil para um braço curto como o meu. alcancei-a com uma régua que estava na mesinha de cabeceira. alívio. nada melhor do que acabar com a coceira no momento em que ela está no auge. voltar a dormir. 03h40min ainda aguardava o retorno do sono quando me veio a idéia – salve as flores – o quê? o pensamento indagou, reposta do pensamento – salve as flores -; mente vazia ferramenta para o capeta, pensei. tentei novamente dormir, agora, fechando os olhos. –salve as flores – uhm? –salve as flores – salve as flores – salve as flores -!!!
irritadíssimo, levantei e fui ao banheiro, não havia nada a fazer ali; abri as portas que existem na cozinha, geladeira, armários enfim todas. nada. não queria nada. – salve as flores – salve as flores – a idéia martelava impiedosamente o cérebro em detrimento do tão esperado sono. arrastei-me pela área de circulação do apartamento como se carregasse uma tonelada nos ombros. cheguei na biblioteca e aboletei-me na cadeira da escrivaninha. e veio, veio como rajada de ciclone, devastadora, ocupando todos os espaços do combalido cérebro:

“ …maravilhosas, indescritivelmente divinas, ornamentos dos olimpos, cheias de energias que te transmitem descanso, paz interior, beleza no feio, calma na dor, lágrima na alegria, fragrâncias no lodo…assim são as flores! elas existem para isso e muito mais, para acolher nosso olhar ainda que cheio de ódios e amarguras, tristezas e frustrações e nos devolvem  todo o seu encanto de cores, formatos e brilhos que se fixam nas retinas como imagens  apacentadoras de nossa alma inquieta e sofrida. ah soubessem os homens a força tranquilizadora que elas dedicam a quem sabe observa-las, admira-las, senti-las…

ah se soubessem! curativos da alma é o que são.

companheiras de caminhada, solidárias aos penosos, alegria dos infantes, brincadeira dos namorados, símbolo dos amantes, carregam em si a nossa esperança que desconhecemos.

divinas.

vieram das estrelas para enfeitar nossa rude vida. para sorrirem de nosso orgulho e vaidades, e, ao nosso olhar, devolverem certeza de passos mais firmes e decididos.

ah estas flores, as flores do meu planeta, quantas transformações ao longo dos milênios para permanecerem ao nosso lado, ao alcance do nosso olhar, gerando imagens que nos levam para mais próximos do ser”. 

mas não ! isto não é verdade. isto é fantasia de poetas inúteis! 

que fez o homem? arrancou-as das florestas, dos matagais, dos caminhos que percorriam e as  aprisionaram em fazendas de cultivo, produção em série, com código de barras, fora do seu habitat natural  perderam o brilho, o perfume. quanto sofrimento para elas!

e para quê?

para vendê-las em mercados fedorentos, lojas de acrílico a milhares de idiotas que “faça o buquê mais lindo possível” porque ele vai terminar de matá-las num vazo de cristal na sala da residência de uma mulher que dentro em pouco as colocará no lixo!

flores para minha amada! nem sequer pensou em admirá-las antes do corte fatal da tesoura.

então… o amor leva à morte a beleza das flores? que triste constatação. 

mais, você as vê agonizando nos salões de festas, todos se divertem com os arranjos florais ao som das valsas e não percebem o sofrimento de quem lhes oferece beleza mesmo nos últimos momentos de vida.

muito triste seus destinos traçados pelo homem civilizado.

mais, não satisfeitos em  extingui-las nas festas, mandam mata-las para enfeitar, por poucas horas o túmulo de ente sepulto, querem demonstrar sua admiração pelo cadáver com os cadáveres florais.

oferecem a morte para a morte. incrível. 

recolho-me tomado de grande tristeza pela sina destruidora do homem.

a barbárie é agora.

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