Arquivos Diários: 18 janeiro, 2008

RENATO ENVIA FOTO PARA BIA DE LUNA

renato, irmão de BIA de LUNA, enviou esta foto como mais uma homenagem. se dizendo não ser poeta mas amante da fotografia, tenta exprimir desta forma, o sentimento que lhe toma conta. 

 

PARA VOCÊ AMIGO DA BIA DE LUNA o editor

como agradecimento do PALAVRAS, TODAS PALAVRAS às centenas de mensagens, que continuam chegando, de consternação pelo desaparecimento da nossa poeta e amiga BIA DE LUNA, o blog oferece o poema a seguir de VITOR HUGO: 

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

BIA DE LUNA E SEU “CLIVAGENS” POESIA QUE VENCE A MORTE por jairo pereira

…quando Clivagens saiu do forno, fiz (acho que a primeira resenha) sobre o livro. Sempre aceito, uma poética que se faz densa, e quando o poeta é alguém de quem você conhece o existencial (como no caso de Bia) desregrado. “Meus olhos são bordados/Por miçangas vidrilhos paetês/CRISTAIS./Não ouse um mau/Olhado.” A poeta amalgamou todas as emoções do ser que está condenado a ser livre e perde-se na noite da urbe. Amou, sonhou, descreu, litigou, contorceu-se como as linguagens, na forja do poema-vida. A vida não é limpa e cristalina. Por trás do olhar calado, contemplativo do poeta, se represam signos sujos, causticantes. A Bia de Luna, detinha esse represar de águas paradas, thurvas, pontuado por uma ametista ou outra. Nos porões da lira, des-enthusiasmada, a objetalidade, impregnada de Bia, sujeito que se atira de cabeça nos precipícios da des-razão, para haurir poesia da melhor qualidade. “E uma ametista se acrescenta/Incrustada entre meu olhar./Colorido/Calado/Horizontal”. A Bia de Luna, era a imagem (física) de sua própria poesia. Um artesanato de linguagens. Versos curtos, certeiros. Extremamente simbólica, mezzobarroca até na pegada, que servia apenas para dar uma aura sombria ao poema. Do seu perambular pela noite de Curitiba, em lunáticas aparições, a poeta angariou admiradores. Claro que o conteúdo denso de sua poesia, refletiu longe. Personalíssima no dizer, Bia de Luna, nunca relegou sua vida, pra fora do poema. Estava ali, irmanada com a palavra (vida) em toda vida que vivera intensamente. “Vai meu derradeiro sonho/De vida. Basta – agora aos/Ímpios um lugar frio e/Distante, onde tais almas/Algumas por vezes causticantes,/Que nos gelam o sangue tão/Quente e próspero.” Tudo era é causticante em Bia de Luna, os signos, a vida, as amizades, os amores, as urgências que nunca levavam a lugar seguro. Muitos comprimidos, muitas cápsulas e doses de uísque nessas noites frias e pressagiosas de Curitiba. Na noite as mesmas caras, os mesmos conflitos, as mesmas buscas e o assombro da poesia, ente brusco de vida-morte, perpassando as mesas. A poesia-mulher, femilúnica de Bia de Luna rompe qualquer convenção de linguagem e significação. É lânguida, sutil, laminar, como já disse anteriormente no texto crítico que escrevi sobre Clivagens. “Apague essa vela/Que você acendeu/Na minha sala de jantar/Me deixe no escuro/A ver estrelas/Ou um céu cinzento/Espocado de flores roxas”. O signo furioso, o signo-simples-palavra, arremete fazendo a mais bela poesia. Com a poeta, as coisas aconteciam assim, fortes, carregadas de roxos e cáusticos, reflexo de uma vida plena no poético. Certamente, a Bia de Luna deixou poemas, ou livros inéditos, e esses vão uma hora aparecer pra desafio dos críticos. Pelo visto, essa tarefa ficou para os próprios poetas, eis que os críticos de poesia, são espécie em extinção no país. Guardei a chave da porta./Antes, tranquei. Choveu limão/E orquídeas escorriam pelos/Meus seios febris. Lavei as/Mãos com sal./Não sou estátua./Sou sal. Bia de Luna e seu Clivagens, poesia que transcende a vida e a morte, e marca na sua lira eterna o roxo, o cáustico e o urgente.