Arquivos Mensais: fevereiro \29\UTC 2008

PROCESSO poema de jb vidal (1970)

chuva de sal
num mar de ausências

lágrimas de areia
ondas de dor
suando emoções

tempestade insurreta

o sol
cravado no mar

liberdade!

AS SOBRAS NZOJI poema de namibiano ferreira/angola

As sobras Nzoji – sonhos
que hei-de beber
e Oximalanka – a Hiena –
ainda não devorou…
São águas frescas de cacimba
que guardo no moringue
terracota velho
adormecido.
É com Nzoji – sonhos
(frescura de moringue)
que hei-de desejar
Ombela – a chuva bela –
e construir o kimbo novo;
semear massangos
de folhas verdes;
fazer meus sambos
de muito gado;
alembar minhas mukayas,
riso futuro
de meu kimbo.

Nzoji – sonho
Cacimba – poço
Moringue – vasilha de cerâmica para guardar água
Kimbo – aldeia
Massango – variedade cereal (sorgo?)
Sambos – locais onde se guarda o gado, curral
Alembar – de alembamento, dote de casamento que o noivo paga ao pai da noiva.
Mukayas – mulheres

NO BAR do BIGODE, BH por darlan cunha/mg

Somos, os homens, um somatório de imaginações espúrias, simplistas, repetidas à exaustão, quando se trata de mulheres (sim, no plural). Para nós, toda mulher está disponível, dá, dão o consentido e, com algum esforço, o inconsentido. Os homens ocos e seus tocos de vela. Palavreiros de todas as horas, hordas de palhaços, macaqueantes figuras perdidas entre o eco da finitudede e os fios de alguma tara que, certamente, os levará de cara ao barranco da solidão (Põe álcool nisso, masturbação ! Recicla esta água, choro das madrugadas ! Escorre para lá o teu negrume, insônia !)
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Ainda ontem, após muitos anos, encontrei um conhecido – um tolo –, com dois casamentos fracassados às costas. Desses que, quando se sentam num boteco (sempre em cadeiras no passeio), não sossegam, enquanto não se entopem de graçolas e ecoam gestos acerca disso e daquilo que fizeram com uma e com outra, e também o que fariam com a vizinha que acaba de passar dirigindo, ou seja, são daqueles que “falam mais do que puta na chuva, de madrugada”.
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No bar se pode encontrar retificações e ratificações variadas, e logo me lembrei que o povo chinês está comemorando o ano novo – ano do rato (shu), ano 4706 -, o qual lhes sugere abundância. No bar, gatos e ratos abundam. Ovíparos, ovívoros, onívoros se locupletam. Por isso mesmo fiz esta analogia entre a abundância e a escassez de miolos em tipos assim: sempre tensos atrás do que nunca conseguirão: a intimidade (psique ou discernimento) de uma mulher.
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Compare: aoristo e oaristo.
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Sim, os homens ocos, cobrindo de camas os prados. Jardim, cinzas.

VIVA o REI! ora o rei

D. LUIZ DE ORLEANS E BRAGANÇAa-casa-imperial-do-brasil-dluiz-tumbnail225x225.jpg
Atual Chefe da Casa Imperial do Brasil, é primogênito e herdeiro dinástico do falecido Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança (1909-1981), admirável figura de brasileiro, chefe de família exemplar e artista de conhecido talento; é neto de Dom Luiz de Orleans e Bragança; bisneto da Princesa Isabel, a Redentora, e trineto do Imperador Dom Pedro II.

texto e foto do site da casa imperial do Brasil.

INCRÍVEL, o cérebro – pela editoria

De aorcdo com uma peqsiusa   de uma

uinrvesriddae ignlsea,   não ipomtra em qaul

odrem as   Lteras de uma plravaa etãso,   a

úncia csioa iprotmatne é que  a piremria e

útmlia Lteras etejasm  no lgaur crteo. O rseto

pdoe ser  uma bçguana ttaol, que vcoê anida

pdoe ler sem pobrlmea. 

  Itso é poqrue nós não lmeos   cdaa Ltera

isladoa, mas a plravaa   cmoo um tdoo.  

 Sohw de bloa.

ao-cerebro-cerebro.jpg 
Fixe seus olhos no texto abaixo e deixe que a sua  mente leia corretamente o que está escrito.


 35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 M05TR4R COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R CO1545 1MPR3551ON4ANT35! R3P4R3 N155O! NO COM3ÇO 35T4V4 M310 COMPL1C4DO, M45 N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3, S3M PR3C1S4R P3N54R MU1TO, C3RTO? POD3 F1C4R B3M ORGULHO5O D155O! SU4 C4P4C1D4D3 M3R3C3! P4R4BÉN5!  

meux amiguinhux tão disaprendenu a ixcrever – por jaciara carneiro

Em termos de boa escrita no nosso idioma, não sou “sequer digna de desatar as sandálias” de um Luis Fernando Verissimo, e, portanto, não tenho autoridade para criticar a redação de ninguém.

Entretanto, em “zapeadas” por blogs de diversos portais hospedeiros (Weblogger, Blogger, Zip.Net, entre outros), tenho ficado abismada com os maus tratos sofridos pela Língua Portuguesa. Os carrascos cibernéticos do nosso idioma são em sua maioria “blogueiros” computador-meninoestudantes-usando-computadores-escola-computador-laboratorio-73013870.jpgem idade escolar (muitos deles, prestes a prestar vestibular) ou já cursando uma faculdade.

É fato que a rapidez e o poder de síntese exigidos pela comunicação on line fazem com que, aos poucos, vamos “desaprendendo” a escrever as palavras por extenso. Eu mesma cometo esse cacoete, principalmente ao me comunicar através de programas de mensagens instantâneas. Não raro, me pego usando atalhos tais como: vc, ñ, enqto, msg ou finde. Também é fato que a Internet faz com que o galicismo finque cada vez mais estacas no coração do “Português Brasileiro” (a própria palavra blog é o exemplo mais atual disso).

Porém, ver a garotada postar em seus blogs aberrações como ti adolu, quelidu e meux amiguinhux, é preocupante. Como será que esse pessoal vai encarar processos de seleção a emprego que requerem provas de redação? E os professores que corrigem as redações dos vestibulares? É certo que sempre tiveram muito trabalho, mas, atualmente, este deve estar sendo redobrado, dada a ampla difusão, entre os jovens internautas, do “escrevo-como-falo”.

Penso que, para ajudar a combater esse problema, deveria ser realizado um esforço de “educação de base”: nas escolas em que os alunos tenham poder aquisitivo para manter blogs, poderia ser feito um concurso para aquele escrito com menos erros de Português. Não seria nem questão de verificar se o aluno blogueiro sabe escrever de forma articulada: apenas seria avaliada a capacidade de ele “postar” respeitando regras mínimas de ortografia e concordância.

Já nas escolas em que os estudantes tenham poucas oportunidades de acesso à Internet – geralmente fornecidas dentro da própria instituição de ensino -, tal concurso poderia contemplar o fanzine (outro galicismo aqui!) ou o mural / cartaz com menos erros de escrita.

Enfim, acredito que medidas simples e de baixo custo podem incentivar a garotada internauta a se interessar pelo uso correto da nossa língua. No entanto, é evidente que, para que tais ações sejam levadas a termo, são fundamentais a boa vontade e o envolvimento de pais e professores – e, logicamente, um razoável conhecimento das regras do nosso idioma por parte destes, coisa que já não é lá muito corriqueira entre os adultos de hoje.

A ESTRANHA e LABORATÓRIO contos de raymundo rolim

A estranha

Era uma espécie de sabor chocolate e baunilha o beijo quente que aquela moça deixava na boca dos moços a quem beijava e os perpetuavam escravos dos seus lábios e desejos. Sem dúvida que algo  extraordinariamente raro acontecia. Nunca mais os rapazes beijados por ela tornavam a ser os mesmos. Alguns desapareciam sem jamais mandar notícias. Outros, com olhos de quem viam anjos, perdiam-se de suas conformidades em meio a palavras desconexas e deixavam-se passear intransponíveis num bom e desconhecido mundo. Depois de muitos anos, falou-se de um deles que reapareceu, com a mesma razão e idade de quando havia partido e sobre uma moça das redondezas que beijada por ele, passou a dizer amiúde, palavras ininteligíveis e que balbuciava a sós e já exalava agradável aroma de chocolate e baunilha através dos poros.

Laboratório

Algumas gotas de chuva caíram pesadas de inexistentes nuvens. Ao tocarem o solo, fizeram brotar uma espécie de erva que a todo botânico enviou-se alguns exemplares. Nenhum compêndio científico forneceu indícios de similaridade. Com toda a certeza aquela espécie ainda desconhecida não pertencia ao planeta! Foram inúmeras as tentativas de reproduzi-la com muita tecnologia de primeiríssima geração e investigação avançada nos domínios da micro e macro matéria. Mas a criatura de inusitada estrutura não se deu a conhecer. Um dia em sua sala, um cientista deparou-se com singular forma de vida que lembrava planta trepadeira, e que se agarrava às paredes com minúsculas e tenras artérias violeta que cresciam rápidas, céleres, em sua direção. Até o dia de hoje, num laboratório lacrado e declarado inexistente numa instituição de ensino e pesquisas, o vigia da noite teima em dizer que por vezes ouve gargalhadas por lá e que morre de medo nas suas rondas e que evita e bate na madeira quando passa por perto e que se agarra ao crucifixo e que perdeu a conta de quantas Ave Marias e outros tantos Padre-Nossos chamou no rosário e que passa de costas e tal. E que jamais enquanto viver tornará lá os seus olhos que tomados ultimamente de cor e brilho intensos, assemelham-se a inidentificáveis formas e tons vegetais arroxeadinhos.

POEMA de otília martel/portugal

A ti me dou, em forma de palavras
Para que nos teus sentires, despertes os meus
E nessa paixão que nos enlaça
Um poema satisfazemos.

Um poema…
 
 
O dia morre… e, a terra, escurecendo
diz ao céu que vele o nosso dormir,
e nossos olhos docemente, adormecem a sorrir…

As estrelas começam a luzir
com a luz hesitante e mal segura
que pronuncia a noite que há-de vir…

É a voz do silêncio a murmurar
em palavras de sonho à natureza
as vozes dos anjos a balbuciar

E tudo dorme, tudo sonha docemente
Numa tranquilidade indefinida
a alma, o corpo, sonha… calmamente

Vem muito longe a luz da madrugada,
e as estrelas, como visões deslumbrantes
são pontos distantes na noite sossegada…

 
É noite… nada vibra…nada fala…
Tudo mergulha num sonho vago e mudo…
E a solidão desprende-se de tudo
Qual bálsamo subtil que a noite exala…

Silêncio…estou sózinha…eu me desnudo
Manifestando a dor, sem disfarçá-la…
E por adormecê-la e suavizá-la,
A noite envolve a terra, qual veludo!

Eu não quero quebrar esta magia!
Silêncio…a noite morre…é quase dia…
E eu, não sei quem sou, nem onde vou.

Nada murmura…nada…tudo dorme…
A noite é para mim deserto enorme,
Aonde meu destino me atirou!

DA AVÓ conto de nelson padrella

Emília, minha avó catalã, casou aos 14 anos de idade, mas eu não a conheci nessa época. Fui conhecê-la já muito idosa e tenho dela apenas duas lembranças vívidas.
Na primeira, ela está sentada numa cadeira, na sala, e minha mãe olhava ferozmente para ela. Então a avó pronunciava uma palavra que soava como carrer e recebia um bofetão no rosto, desferido por minha mãe. Em seguida, a mãe dizia a palavra rua várias vezes. Até que desistia e, num gesto dramático, deixava a sala. Vó Emília mantinha-se imperturbável, o rosto ardente. Dali a pouco, teimosamente, repetiaa palavra que soava como carrer. Em outro aposento, minha mãe, desesperada, esmurrava um móvel, soluçando: é rua, rua, rua.
Eu tinha para mim que a avó procurava ensinar-me as palavras que conhecia, passar-me os ensinamentos da longínqua Catalunha, e isso incomodava minha mãe, que insistia que o filho devia conhecer apenas o idioma do país onde estávamos.
A outra imagem que tenho da avó é ela no leito de morte, uma tarde quente de janeiro ou fevereiro. Ela não queria morrer antes que meu pai chegasse da fábrica, tarde da noite. Queria se despedir do Arthur. Eu me vejo sendo retirado do quarto da velha.

Há uma outra imagem amarrada à minha infância. A avó já tinha sido levada e meu pai mostrava à minha mãe o papel deixado pela finada, onde estava escrita uma única palavra: Ferrer. Era a mensagem que, naquele último suspiro, tentou inutilmente passar para nós. Meu pai fez gravar em seu túmulo, após o nome Llorenzo, também o Ferrer, pelo qual Emília tanto lutara ao final da vida.

CHAMAÇÃO de CHUVAS poema de marilda confortin

Acorde a ansiedade da carne mal passada
Doure a aura que te reveste em flamas
Afrouxe a corda que te segura atada
Aporte em meu peito, nave em chamas

Atice a fome com teu cheiro fêmeo
Chame meu nome sobre teu leito aceso
Acate-me frágil sob tuas asas tênues
Ataque de surpresa meu corpo indefeso.

Afague esse fogo que me loura pelos
Contorne a borda, minha orla adorne
Mostre-me atalhos, solte meus cabelos
E depois me chova de saliva morna.

Então se porte como incasta santa
Que acode pronta, enquanto cede a fenda
Que prende o riso enquanto come a fome
E mostra aonde os meus rios acendem

Demore-se amando-me como quem perde hora
More-me inteiro como quem decora a casa
E lembre-me de querer-te novamente, aurora
quando mais tarde, ardente, acordares brasa.

(poema feito para o personagem Dionísio, da peça de teatro Portas Entreabertas)
 

MULHERES TRAÍDAS por joanna andrade / miami.usa

Como se traição fosse somente o homem sair com outra(s) apenas.
Quando a mentira , a falsa ideologia, a palavra que não é cumprida, as calúnias contadas aos amigos, a falta de tolerância, a falta de valoração se passam por verdades?????
Apesar de tudo ainda há amor?
Quantas vezes ha de se dar a face do rosto para bater?
Quantas vezes as portas serão batidas e trincarão os corações?
Quantas vezes as chaves serão trocadas por falta de confiança?
Até quando os homens poderão errar mais com a desculpa de que sair com outra mulher é a pior coisa que poderia acontecer?
Quantas outras coisas erradas pelas costas são feitas todos os dias?
A falha de caráter está na educação social emocional de seu povo.
A musica não pode parar, a vida há de continuar nessa baladinha de sexo drogas e rock and roll?
Não quero ser cúmplice dessa idiotice alheia a mim.
As mulheres e os homens precisam quebrar esses padrões impostos pela sociedade, caso contrario viverão sofrendo os revezes de uma sub cultura dominadora a procura de poder.
O verdadeiro amor por nós mesmos está cada vez mais difícil de ser encontrado, vem sendo confundido com esses instintos de defesa animalescos como mostram os fatos diários.
O amor próprio só faz bem e impede que façamos ao outro o que não gostaríamos que fizessem a nós. Se conseguirmos pensar assim, muita coisa insalubre deixará de acontecer.
Por amor próprio não se mata, não se destrói, ama-se cada vez mais a vida dentro e fora de nós.

Ama o próximo como a si mesmo.

( As vezes brinco que crime passional faz bem ao ego, contratar um advogado ou um psicólogo não teria o mesmo efeito.)

EXPRESSO, ANTES do MEIO poema de alexandre frança

tomo o meio-dia

como um café preto expresso,

para que ele escorra quente

entre as minhas vontades,

para que ele permaneça

durante o tempo

da circulação

apressada

da tarde.

um café preto,

como um trago com o diabo

ao meio-dia:

forte e suave

doce ou amargo.

um café preto

é que faz o meu dia.

Irish Coffees, Choconhaques,

nada faz tanto

a felicidade do estriquinado.

tanto faz puro ou com leite,

só tome cuidado:

um puro batizado

faz o dia de Deus

um pouco mais

diabólico.

EDGAR WALLACE, furioso.

o que é um intelectual? apenas um homem que descobriu alguma coisa mais interessante do que mulheres.

GLOBOCOLONIZAÇÃO por bárbara lia

Quando o tema é globalização, Frei Betto simplifica e coloca o adendo nítido do que vivemos nestes novos tempos – Globocolonização. Esta realidade é tão implícita que não dá mais para desvincular globalização de colonização, o que não acontece apenas pela via econômica, ela se processa de forma mental, através de uma postura pré-estabelecida, made in Usa. Isto lembra um poema de Fausto Wolff:
 
DOCE LAR
 
Nos anos quarenta
Quando as mocinhas
Queriam se chamar Mary
E os rapazes Joe,
Como os americanos
Escondiam bem
Os planos horríveis
Que tinham
Para os anos noventa. (1)
 
Antes era o velho oeste, belos índios sendo assassinados, diante do delírio da garotada no cinema, fiz parte destas cenas e me perdôo. Perdôo a inocência dos meus oitos anos, da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais. (2) Hoje as crianças não sabem declamar Casimiro de Abreu e sua aurora é uma jornada nas estrelas, seu astro é um super-man que salva o planeta inteiro, menos os três estrangeiros (vilões) com nítidas fisionomias árabes, ou um Rei Leão que tem como rival um Leão cruel com feições do deserto. Pílulas da mentira plantadas no dia-a-dia. Muitos morrem sem saber que não existem bandidos ou mocinhos, apenas uma Humanidade que deveria encontrar um caminho e dividir a Terra, suas fontes, mares e desertos.  Nas Leis e nas Cartas Magnas dos Países, poeticamente se propala a igualdade. Basta lançar um olhar sobre os acontecimentos para ter certeza que as Leis existem apenas na grafia, não no dia a dia. A exploração do mais fraco é gritante.
 
Os grandes laboratórios farmacêuticos utilizam africanos em seus experimentos, como se eles fossem ratos de laboratório. As grandes plantações com sementes geneticamente modificadas vicejam na pobre África, e em outros países, mais notadamente na África com a desculpa de exterminar a fome e a pobreza, breve um continente exterminado, pela AIDS, a fome, a alienação. As grandes corporações, como Nike implantam fábricas em países subdesenvolvidos, utilizando e escravizando a mão-de-obra, e uma centena de outras manobras legais, mas, totalmente desumanas, imorais, e prejudiciais ao equilíbrio global. Totalmente na contramão de todos os Grandes Sonhos dos Grandes Homens, que parecem a cada dia, mais extintos – tantos os sonhos, quantos os homens.
A colonização enraizada, aquela que citei – a mental – que se fixa em eternidade nos costumes e desejos e sonhos de consumo.
 
Não surgem pacificadores – como Gandhi – um líder que consiga alterar a rota da Humanidade. Ninguém tem força ou voz para fazer retroceder o caos, re-estabelecer os acordos, aqueles que floriram ao final da Segunda Guerra. Que não veríamos mais campos de concentração. E eles existem e somados a eles um número imenso de refugiados pelo mundo inteiro, sem lar, sem pátria.
 
Em uma palestra, Adolfo Pérez Esquivel – Prêmio Nobel da Paz – contou sobre sua ida a Bagdad, e de que foi chamado a uma outra cidade do Iraque. E ele foi ver com seus olhos o apocalipse. Um galpão e muitas famílias abrigadas, e enquanto as mães saíram para lavar a roupa e buscar uma forma de abastecer os filhos um míssil americano atingiu o abrigo e seiscentos meninos e meninas iraquianas foram mortas. Não me recordo de uma notícia sobre seiscentas crianças iraquianas mortas, não se propala como a morte de um único soldado americano.
 
Em março deste ano me vesti de verde e fiz a cobertura do evento da ONU sobre biodiversidade que aconteceu em Curitiba. No coração do evento pude perceber como se definem os rumos da História do Mundo, os caminhos. Quem barra interesses mundiais, humanitários e primordiais. Os não signatários do Protocolo de Cartagena fazendo o seu lobby, que resultou em adiar por mais seis anos acordos que ajudariam a amenizar a rota da degradação, mesmo sabendo, após um relatório que a ONU encomendou a 1.300 cientistas do mundo inteiro, que se não determos a agressão ao Meio Ambiente, o Planeta Terra entrará em colapso dentro de trinta anos. Isto focando apenas a questão do Meio Ambiente, e deve ser assim, em cada setor em escala mundial, um retrocesso à evolução do homem como Ser, como o Centro, única forma de evitar o dano, a deterioração de uma raça inteira.
 
Como membro voluntário da Anistia Internacional, em alguns dias se materializa em minhas mãos aquela pequena vela branca, símbolo da Anistia, cercada de arames farpados ferindo as mãos em teclas eriçadas, nesta tarefa de tentativa de ajudar os que lutam pelos Direitos Humanos. Única que posso realizar por ser tão pobre quanto os pobres do mundo. Enviar e-mails mundo afora em nome de todos que estão presos por lutarem ainda. Tomada por certo desencanto, passeando pelos escombros do mundo, que a mídia não mostra. Ouvindo os resistentes que são tão poucos, os lúcidos que são calados pelo poder, os guerreiros do arco-íris e os médicos sem fronteiras, lavando as chagas do Universo com sua alma de água eterna. Apenas ali, nos pequenos focos de resistência se pode conhecer e se desencantar e ao mesmo tempo queimar as últimas esperanças neste rastro dos iluminados acreditando que um dia a dominação vai dar espaço à Humanidade repartida.
 
Quantos caminhos um homem deve andar até que seja aceito como homem? (3)  A globalização é uma forma de colonização, mais que econômica, ela é mental, o mundo todo é cúmplice deste momento negro da Humanidade, considerando que nenhuma voz se levanta e que todos apenas dizem seu sim.  Vamos dormir depois de uma coca-cola gelada e um enlatado americano. Os selvagens são na verdade os únicos verdadeiramente livres. Os povos da Floresta, guardiões da respiração da Terra, da água de suas veias, de toda a sua grandeza infinita. Eles se reúnem em Fóruns Indígenas de resistência à globalização econômica, vivem em comunhão com a Natureza, e são os nossos anjos neste paraíso perdido.  Enquanto os civilizados, à sombra da águia estranha se contentam em salvar a sua pele. Até amanhã, até amanhã, antes que o Sul seja sugado inteiro pelo Norte: petróleo, água, rios e florestas, e nós ocos como as crianças da Etiópia, de olhar vazado espiando o fim. Se diluindo diante da colonização mais cruel.
 
A conscientização política e até mesmo os Direitos Humanos não chega até a grande maioria da população carente, destes países subdesenvolvidos.
 
Sem acesso aos conhecimentos básicos, tendo dentro de si apenas aquela centelha de grandeza que todo ser humano tem. Poucos conseguem romper esta corrente, e trilhar uma vida que lhe permita analisar, discutir, questionar. Esta falta de conhecimento da realidade circundante, esta alienação promovida via massificação que distribui as pílulas do consumismo, via rádio, televisão, cinema. Este pensamento em bloco, de uma humanidade que vive em bloco, comunidades, cada dia mais centrados em temporalidades, sem olhar como os Grandes Homens, do alto, feito mesmo um Deus, todos os caminhos intrincados, daquilo que Borges uma vez confidenciou a sua amada Estela Canto – que ele acreditava que um homem é a Humanidade Inteira. E a globalização cortou o Planeta Terra ao meio, enquanto Deus dormia, e alguém está sugando até o fim a parte sul desta laranja, seu sangue, seu néctar imprescindível.
 
Ontem li uma frase de Mia Couto, e fiquei com esta impressão de que Deus cochilou um tempo e permitiu que a globalização se instalasse, em forma de colonização mesmo. Fiquei meditando a frase do Escritor “A terra é a página onde Deus lê” (4). Ou, talvez Deus esteja interessado em um pequeno filme de horror, ou quem sabe ele altere tudo, e se arrependa de ter colocado dentro da centelha da alma humana o livre arbítrio, quando acreditou que viveríamos ansiosamente em busca do Éden Perdido.
 
Vemos os interesses econômicos serem colocados acima de tudo. Vemos que a colonização se faz necessária para que alguns países detentores deste poderio consigam atingir seus objetivos. Sem um organismo de repressão que tenha força suficiente para barrar, nem mesmo a ONU, que nasceu dos escombros da Segunda Guerra Mundial, quando surgiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ouvi uma palestra de Saramago e ele dizia que se os países obedecessem ao primeiro artigo da Declaração não haveria guerras. Mas, a ONU ignora a imparcialidade.
 
A Onu adotou como símbolo uma projeção azimutal centrada no pólo norte. Um ideal de neutralidade sem colocar nenhum país no centro, apenas o pólo norte onde só existe gelo. No entanto, o pêndulo na hora das decisões oscila e não detém a ofensiva contra os Direitos Humanos, e permite que o forte explore o fraco, invada seus territórios, aniquile tudo enquanto não cessar a fome da negra águia e seus adeptos, presos em suas penas metálicas e frias, seguindo o indiferente e cinza olhar cifrado da águia estranha.
 

*
 
1. Do livro – O pacto de Wolffenbüttel e a recriação do homem. Fausto Wolff (2.001, Bertrand Brasil)
2. Verso do poema – Meus oito anos – Casimiro de Abreu.
3. Verso de Bob Dylan  da canção –  Blowin’ in the wind –
4. Do livro – O outro pé da sereia – Mia Couto (Companhia das Letras)
 

ESPIRITISMO e CARTESIANISMO por ademário silva

A relação cartesiana com o Espiritismo é  fundamental na compreensão da lógica Kardequiana, que nos ensina que para compreendermos o que se estuda, ou seja, o objeto de pesquisa há que se partir do simples para o composto. Para conhecermos a árvore há que se conhecer a semente que é sua célula primária.
Assim como o próprio Kardec demonstra no estudo da Doutrina Espírita é preciso antes conhecer a causa para compreender os seus efeitos.
Nesse sentido podemos cogitar que o espírito é a causa da realidade que conhecemos, assim como o Universo em sua plenitude e infinitude é o efeito das emanações do Pensamento Divino. E daí com certeza derivam todos os outros fenômenos conhecidos por nós e aqueles também que se nos escapam ao entendimento ainda. 
Sabemos hoje que tudo é energia, que a própria matéria é energia condensada ou solidificada, surgida da mesma fonte que a energia do elemento espiritual. Isso nos leva também a entender que os subprodutos do fluido universal são os efeitos que podemos compreender.
E que tudo nessa infinitude e eternidade têm como útero causal a Suprema Inteligência do Universo que é Deus.
Os subprodutos que conhecemos, na ordem das descobertas ou revelações (aqui no sentido mediúnico codificante) são o corpo e o perispírito. Aliás, Moisés também vislumbrou contundentemente isso ao narrar em sua Gênese: “… que o espírito do Senhor estava em meio aos caos e ainda mais: … que Deus disse para separar os elementos por suas importâncias, utilidades e funcionalidades e disse mais: “Faça-se a luz e esta não se fez de rogada, instantaneamente obedeceu. Esse caos na verdade era a ignorância sobre ciências e matemáticas, químicas e biologias que mais tarde tirariam as cortinas de sobre o espelho, ou a luz debaixo do alqueire. Kardec nos mostra em todos os seus efeitos em a Gênese que: “… em torno de um foco inteligente se junta o fluido universal”, dando origem ao perispírito e que esse elemento sutil em suas características fisio-eletro magnéticas é pertinente a cada planeta, surgindo assim aos nossos olhos às leis de afinidade e atração compulsória ou amorável. Permitindo ao espírito uma relação íntima com a matéria.
Partindo do Velho Testamento para frente, caminhamos simplesmente do simples para o composto. Em o Novo Testamento Jesus o Cristo dá mostras outras desses fenômenos, nos incitando a compreender o quanto mais cedo, qual status espiritual a ser alcançado, quando prodigalizou ao povo suas curas e fenômenos, hoje perfeitamente explicável pela ciência espírita.
Pela força de sua mente reposicionou as moléculas da água e com seu magnetismo espiritual deu-lhe a cor e o sabor do vinho. Aqui o magnetismo aplicado pela força da vontade. E atentemos para o fato de que Jesus utiliza a água em sua simplicidade química.
Quando mergulhamos no leito da reencarnação e se nos escondemos por assim dizer nas cortinas da matéria e, pela própria natureza alcançamos a infância, pais e mestres se nos apresentam os fonemas básicos do idioma pátrio, às vezes de tão difícil assimilação, eles que serão na verdade nossos primeiros passos e degraus que nos levam a ciência e a literatura, pequenas investidas para uma aquisição maior.
Jesus ao selecionar os discípulos na verdade escolhe as sementes da boa nova, antevendo a propagação do Cristianismo nascente, por que seus ensinos germinavam dentro da consciência daqueles pescadores. Ele o Mestre afirma ainda uma vez sua humildade quando enfatiza em suas preleções: “Ninguém vai ao Pai senão por Mim.”
Um outro fenômeno que se me emociona ao racionar sobre sua causa e efeito é que os espíritos amigos e benfazejos cultivam com respeito e humildade o ensinamento do Mestre ao fluidificarem a água nas casa espíritas. Introduzindo na intimidade da mesma, também por redisposição molecular da água, o fluido magnético eivado de propriedades medicinais laboradas no seio das naturezas físicas e espiritual, que interagiram na essência do perispírito.

1.ª) Só admitir como verdadeiro o que parece evidente, evitar a precipitação assim como a prevenção;
A intuição é o conceito, fácil e distinto, de um espírito puro e atento, de que nenhuma dúvida poderá pesar sobre o que nós compreendemos.

1 – PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS: descubro em mim próprio, ser finito, a idéia do infinito. Ora, como não posso ser autor dessa idéia, é necessário que o autor seja Deus e que, portanto, ele exista. Daí surge o famoso cogito ergo sum, ou seja, “penso, logo existo”.

3 – UNIÃO DA ALMA E DO CORPO: prova que a alma é distinta do corpo. Para Descartes, a alma existe e isso deveria ser o suficiente. (Jerphagnon, 1982)

1 – PROVA DA EXISTENCIA DE DEUS: os Espíritos informam a Allan Kardec que Deus é inteligência suprema causa primária de todas as coisas. Para o Espiritismo, não há efeito sem causa. Tudo enquadra-se na lei natural. Ao “Penso, logo existo” de Descartes, J. H. Pires escreve “sinto Deus em mim, logo existo”. Quer dizer, Deus não é percebido pelo pensamento, mas pelo sentimento.

3 – UNIÃO DA ALMA E DO CORPO: partindo-se de que alma e corpo são distintos Allan Kardec, com o auxílio dos Espíritos, informa-nos que o perispírito – matéria quintessenciada – é o elemento de ligação entre a alma e o corpo físico.
Assim a espiral Cartesiana manifesta enquanto base do pensamento filosófico os acordes da sintonia cultural de ordem transcendental codificado por Denizard Rivail. E aí quando enxergamos o pensamento filosófico no método cartesiano é mesmo como se estivéssemos revendo a própria filosofia espírita em sua base de concepção, vazada numa literatura mais rebuscada e meio ao largo dos ecos mediúnicos banhados na luminosidade dos Espíritos Superiores.
A cultura semeada no mundo ao tempo de nossas necessidades e na medida de capacidades compatíveis para o aprendizado e assimilação, nos permite entrever nos postulados da Doutrina Espírita que o método de ação instrutiva parte dos Espíritos Superiores, mas, precisa de canais isentos das vaidades humanas para veicular a vontade do Mestre Jesus. Assim encontramos em Kardec o pedagogo por excelência a orientação de que a mediunidade é a liga insofismável nos campos da inspiração e da intuição que se nos patenteia que a Misericórdia do Altíssimo não nos abandona, mas que busca e infiltra nos canais disponíveis a luz que a nossa capacidade de compreensão permite-nos captar. Se por um lado, por mais que busquem outras palavras, os grandes pensadores não conseguem fugir a grandes distâncias do ensino universal dos Espíritos Superiores, ou seja, à vontade de Deus ninguém escapa, por outro lado, por serem respeitados pela elite pensante, estes pensadores propagam o Espiritismo apenas por outras palavras.
A Plêiade de espíritos de Scol, chamados por Jesus para a codificação de tão profunda quanto abrangente Doutrina fincada numa trilogia transcendental entende que ela não podia mesmo ser escrita de um só fôlego, de uma mente só e muito menos ter sido desenvolvida de afogadilho.
E para que alcançasse tão vertiginosa importância, tudo foi exaustivamente selecionado, experimentado e inclusive o método, que ganha importância incomensurável a ponto de mais tarde, pela própria universalidade do ensino superior dos espíritos, das suas raízes culturais, influenciar a filosofia, o pensamento Humano, que até nem se apercebe disso nesse método utilizado a força de um veículo disseminador. Desse modo podemos compreender porque em o Livro dos Espíritos Kardec analisa e avalia aos vários sistemas e suas fragilidades do pensamentos do homem terreno. Porque em sua sábia intuição antevia os resultados dos embates.
Do mesmo modo que Jean Jacques Rousseau e Henri Pestallozi ditam-lhe as veias da pedagogia, René Descartes geometriza a base do pensamento filosófico e Hippolyte Léon Denizard Rivail transcendentaliza-lhe o método sob as doces e exigentes influências dos Espíritos Superiores.  O pensador terreno, ao longo do tempo assistiu ao bloqueio de suas rotas de fugas, que eram Av. Preconceituosa esquina com a Pré-concepção que desembocava na Praça das Vaidades em Desvarios. E hoje, quando percebemos a similaridade do método Cartesiano com o Espiritismo podemos concluir que: quanto mais o pensamento da criatura humana evoluir, mais ele se aproximará do pensamento universal, tão bem traduzido por Kardec na codificação da Doutrina Espírita. Daí a insistência do mestre para estarmos atentos a uma fé raciocinada.

FELIZ ANO NOVO em GAUCHÊS pela editoria

Que o próximo ano seja… bueno como namoro no começo. Que o sucesso… caia bem como gaucho-casal.jpgchuva em roça de milho. Que não seja… como tosa de porco: muito grito e pouca lã. Que tu fiques… contente como cusco de cozinheira. Que não fiques… contrariado como gato a cabresto. Que nestas férias tu… durmas atirado que nem lagarto. Que tu não fiques… judiado como filhote de passarinho em mão de piá.Não fiques… apressado que nem cavalo de carteiro. Que tu não fiques no próximo ano… mais assustado que véia em canoa. Que tua herança seja… mais comprida que esperança de pobre. Que tu passes a virada de ano… mais enfeitado que burro de cigano em festa. Que tu passes a virada de ano… mais faceiro que gordo de camiseta. Que tu não… sofras como joelho de freira na Semana Santa. Que tu não fiques… solito como galinha em gaiola de engorde. Que tu aprendas a… virar-te mais que minhoca na cinza. E fiques… vivo como cavalo de contrabandista. Que o próximo ano seja… mais gostoso que beijo de prima.

MARQUES de SADE e SEU PENSAR – pela editoria.

A ideia de Deus é, confesso, o único erro que não posso perdoar ao homem.

Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes.

Tudo é bom quando é excessivo.

A primeira lei que a natureza me impõe é gozar à custa seja de quem for.

Só me dirijo às pessoas capazes de me entender, e essas poderão ler-me sem perigo.

Quando o ateísmo quiser mártires, que o diga, o meu sangue está pronto.

A tolerância é a virtude do fraco.

Antes ser um homem da sociedade, sou-o da natureza.

Todo o universo poderia ser conduzido por uma única lei, se essa lei fosse boa.

As paixões humanas não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus fins.

É sem qualquer terror que eu vejo a desunião das moléculas da minha existência.

Nunca devemos admitir como causa daquilo que não compreendemos algo que ainda entendemos menos.

Quem sabe se não teremos de ultrapassar muito a natureza para perceber o que ela nos quer dizer?

Quando defendemos os nossos amigos, justificamos a nossa amizade.

Em vão procuramos a verdadeira felicidade fora de nós, se não possuímos a sua fonte dentro de nós.

O FOLGADO conto de guilherme cantídio/rn

Tonho era o tipo do cara folgado. Preguiçoso, inimigo de cadernos e livros, estava já na casa dos vinte e poucos anos e ainda não tinha terminado o curso ginasial. Morava com uma irmã, mais velha, casada há pouco mais de um ano, a quem convencera a morar na mesma casa com o casal, em um dos quartos da casa. O cunhado, chamado Valdir, educadíssimo e totalmente apaixonado, concordou de pronto e logo se afeiçoou a Tonho.           

          Em seu quarto havia uma cama de solteiro, mas Tonho preferia ficar a maior parte do tempo na rede estrategicamente armada de frente para uma TV de quatorze polegadas, daquelas que tinham uma tecla para cada canal disponível que ele trocava com a ajuda de um cabo de vassoura, que fazia as vezes de controle remoto.
         
          Mas Tonho já estava achando chata a vidinha que levava porque pensava – “Preciso achar uma moça rica prá casar, já que não tenho saco prá estudar nem dar duro na vida”. O problema é que até prá investir em um relacionamento sério era exigir demais do ânimo do pobre coitado. Um namorinho aqui, um amassinho ali, mais outro programinha ali, tudo bem; mas o diabo era o compromisso, a obrigação.
        
          Assim transcorria a vida de Tonho: Um verdadeiro marasmo. Se alguma coisa de novo acontecesse, certamente não seria por iniciativa dele. Teria que ser algo fortuito, de fora prá dentro de sua vida.

          – Maninha, um copo d´água, vai…

          – Oi, cunhado, tem uma pipoquinha aí?
  
   Tonho já não tinha nenhum resquício de cerimônia. O cunhado, que a essas alturas já estava enchendo o saco com aquela situação, mas ainda submisso à mulher, foi até o quarto de Tonho prá lhe avisar que estavam indo fazer a feira. Encontrou-o no quarto, só de cuecas.

          – Ah! tá, cunhado. Diz prá maninha que eu só gosto de banana da casca verde.

          Valdir saiu do quarto e, pela primeira vez, indignado, bateu a porta atrás de si. Escutou algo despencar da porta e voltou prá ver. Era uma tabuleta de madeira onde estava escrito: “HEI DE VENCER”

O disse-que-disse da TV GLOBO por gilson caroni filho

O ano de 2008 ainda não conta dois meses e já vemos o aparato informativo redobrar seus esforços para intensficar uma ofensiva que tem dois alvos claros: a sua própria credibilidade e o governo Lula.

A imprensa brasileira, tal como o diabo, pode ser melhor apreciada nos detalhes. Em pequenas trucagens, direcionamento de coberturas e editorialização de textos que não disfarçam seus propósitos, a marcha batida continua. O ano de 2008 ainda não conta dois meses e já vemos o aparato informativo redobrar seus esforços para intensificar uma ofensiva que tem dois alvos claros: a sua própria credibilidade e o governo Lula. Se há paradoxo, ele é secundário para uma mídia opera na lógica dos fins que justificam os meios.

A cobertura dada pela TV Globo ao depoimento do publicitário Marcos Valério, acusado de ser o principal operador daquilo que a imprensa chama de “o esquema do mensalão”, merece um breve registro sobre o tipo de jornalismo praticado pela emissora da família Marinho.Estamos diante de um noticiário que, objetivando reforçar axiomas, abre espaço para temas repisados, subtraindo qualquer coisa que contrarie a coerência interna das premissas construídas para “explicar” crises políticas recentes. É o reforço necessário para reiterar o dogma da “infalibilidade global”.

Trata-se de um jogo de espelho que, confundindo o leitor/telespectador, busca colonizar o seu imaginário através de representações simplificadoras. É o que chamamos de persuasão pelo reducionismo. Um procedimento que tem marcado a prática narrativa do campo informativo de tal forma que, aos profissionais mais jovens, já afeitos à ideologia do jornalismo de mercado, soa com “operação técnica” admissível.

Em seu clássico Ideologia e técnica da notícia, Nilson Lage chama a atenção para dois aspectos constitutivos básicos que não devem ser esquecidos quando se busca uma definição correta da produção noticiosa: a) “uma organização relativamente estável, ou componente lógico”; e, b) “elementos escolhidos, segundo critérios de valor essencialmente cambiáveis, que se organizam na notícia – o componente ideológico”.

O telejornalismo global ilustra bem como se dá a seleção de elementos e como eles conformam proposições seqüenciadas pelos interesses políticos do veículo. Mostra, com clareza cristalina, a que estão sujeitos os que já foram condenados pelo tribunal midiático, sem qualquer direito a apelação em colunas ou editoriais.

Interrogado pela Justiça Federal, em Belo Horizonte, Marcos Valério disse, como registra a Folha de S.Paulo (2/2), que “que nunca conversou sobre empréstimos com o ex-presidente do PT, José Genoíno, nem tratou do tema com Dirceu, cuja trajetória política disse respeitar e admirar”. Não está em questão a credibilidade ou não do depoente, mas o objeto do fato noticiado.

Preferindo omitir esse trecho do depoimento, o Jornal Nacional de sexta-feira (1/2), informa que “segundo Marcos Valério, o ex-secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, disse a ele que o ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, sabia dos empréstimos ao PT”. Mas, tal como destaca o ex-ministro em seu blog, a edição se esqueceu de um dado crucial: Sílvio Pereira nega que tenha dito qualquer coisa.

O “disse-que-disse” e a supressão de algo favorável a um desafeto político não constam das boas regras de cobertura jornalística. Corroboram mais ainda a tese que aponta para a crescente partidarização da imprensa, com destaque para a emissora hegemônica e monopolista.

É sempre bom destacar que o contexto da notícia se dá em lugar, espaço e tempo definidos. Relatos que prescindem de exigência de demonstração têm sentido no campo religioso. Quando se trata de jornalismo, é procedimento ideológico tosco. E de eficácia duvidosa. Temos um longo ano pela frente. A militância das redações não precisa de manuais.

 Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa. 

PATIFES ILUSTRES X 22 MILHÕES por walmor marcelino

O fato e o fiat? Um programa de obras que opôs o governo à nação. A nação de todos os nacionais (exceto a elite política e as oligarquias brasileiras) representados por moradores do semi-árido nordestino (912 mil km2) e abrangendo (não albergando) 22 milhões de pessoas apoiadas em estudos científicos e técnicos, mais competentes e aptos (entre eles da Agência Nacional de Águas) do que Lula-Gedel, do que os “notáveis” da base aliada e do PT de Berzoini-Tatto e do que cada ente aplastronado do Supremo Tribunal Federal.Então, como um patife ilustre se instrui sobre assunto de tal natureza? Com a Agência Nacional de Águas (ANA), cientistas e técnicos independentes e lideranças sociais que não recebem do propinoduto? Ou com projeto econômico de governo e sócios, contra a sociedade nacional?

Quem indica, quem decide? Mais do que a credibilidade IBOPE de Luiz Inácio da Silva, do Lula nordestino ou do Lulu estadista, o capitalismo “social” desse novo gerente de marketing do sistema econopolítico propende os aristocratas deste país a creditar-lhe a bipolaridade da administração cabocla globalizada, de superávits primários e déficits secundários. Assim, Luiz Inácio sugere, induz, alicia a aristocracia judiciária àquilo que a plutocracia já convocara: equilibrar os poderes da República com o fazimento de coisas que não só dêem os lucros excedentes como civilizem essa bastarderia nacional.A feitoria: Para reajustar salários, vencimentos e estipêndios equalizando os poderes; para “aperfeiçoar” a Constituição Federal quando os negócios e os contratos discrepem do texto dessa “Cartilha nacional do cidadão”; para lapidar a convivência entre os produtores de bens e serviços e a turba famélica de modo a garantir os negócios; enfim, para sobrestar proteção e salvaguardas contra o poder e o arbítrio, lá está El Supremo, vulgarmente chamado Supremo Tribunal Federal ou, para os íntimos, o STF majestático.

Poderosos aristocratas e inclementes senhores, reunidos no Aerópago, determinaram o destino de 22 milhões de moradores do semi-árido nordestino, para satisfazer 2 mil/20 mil empresários/beneficiários da apropriação do regime de águas do Rio São Francisco. Tudo no conúbio do sestroso burguês Luiz Inácio Lula da Silva e seu capitalismo “social” (enquanto Brás é tesoureiro… ou nem o cavaleiro conduz a besta) associado ao latifúndio (ansioso de ser “mais” produtivo), sob os gedéis e bedéis especuladores das finanças e da política; e com a insigne adesão de todos os patifes ilustres.

Homem judicante com residência (modesta) de escassos 450 m2, com água potável, esgoto ejetável, luz esfuziante, aportes e lazeres (em águas termais), decidiu que ignotos viventes de inóspitos ingressarão nesse capitalismo pela pocilga do quintal, guiados por Lula, em “plantations” agronegociantes, que de sáfaras caatingas farão belas canaãs.

VOZES da MORTE poema de augusto dos anjos

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!

Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte, inda teremos filhos

BILHETE poema de mário quintana

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

NINGUÉM VENHA me DAR VIDA poema de cecília meireles

Ninguém venha me dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferido,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser,
e não quero me encontrar,
que estou dentro de um navio,
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.
Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.
Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis quem não me quis

MANOEL de ANDRADE lança seu livro CANTARES em CAMBORIÚ por garcia de garcia.

 

Depois do surpreendente sucesso de lançamento de seu livro   em Curitiba, Manoel de Andrade  relança agora “Cantares” em Santa Catarina, sua terra natal. A obra, fruto da sua maturidade poética, foi publicada pela Editora Escrituras, de São Paulo e tem sido comentada em vários  jornais do pais e em muitos blogs locais. A sessão de autómanoel-de-andrade-foto-dele-img_7355.jpggrafos, na noite de 7 de março, será o primeiro lançamento literário de poesia na Livraria Catarinense, recém inaugurada  no Balneário Camboriu Shopping.

Chamado de poeta maior pelo jornalista Aroldo Mura e elogiado pelo crítico Wilson Martins pela sua “grande poesia”, Manoel de Andrade fugiu do Brasil em março de 69, quando era procurado pela Ditadura pela panfletagem de seus poemas políticos. Deixava o país justamente numa época em que sua poesia começava a ser conhecida no Paraná e no Brasil, sobretudo pelo fato de ter seus versos publicados pela Revista Civilização Brasileira, em cujas páginas somente pontificava a elite da intelectualidade brasileira e internacional.

Peregrinou durante muitos anos pela América Latina escrevendo e declamando seus poemas  bem como debatendo a importância do engajamento político da arte e da literatura. Sua poesia revolucionária estreou em janeiro de 70 nas edições panfletárias mimeografadas pelos estudantes peruanos de Cuzco e Arequipa. Em setembro daquele ano, no Teatro da Universidade Maior de San Andrés, em La Paz, seu primeiro livro “Poemas para la libertad” é lançado com prefácio do escritor Jorge Suarez e discurso de apresentação do poeta Pedro Shimose, duas das maiores expressões da  literatura  boliviana.

Pela força declamatória da sua ideologia poética foi “convidado” a sair da Bolívia em fins de 69, depois de participar do Congresso Internacional de Poetas em Cochabamba.

Posteriormente foi preso e expulso do Peru e da Colômbia, sempre pelo caráter destemido de seus versos, marcados pela denúncia política  e social do seu testemunho itinerante e, sobretudo, pela  sua visibilidade pública e participante como intelectual de esquerda.   Jamais se intimidou diante de um roteiro continental marcado por perseguições, torturas e prisões, numa América controlada pela “inteligência” das ditaduras militares.

Persistiu sempre em sua saga viandante de jogral  por todos os países  da América, dando palestras, promovendo debates e oferecendo recitais nas maiores universidades do continente e nos seus mais variados recintos de cultura política e popular. Deixa, com seu livro, “Canção de amor a la América y otros poemas”,  publicado em Manágua, um rastro desafiador em plena ditadura de Somoza, e em fevereiro de 1971, a convite de revolucionários nicaraguenses exilados no México, declama seus versos  nas Comemorações do 37º  Aniversário de Morte de César Augusto Sandino”, em Tampico.

Ainda em fevereiro daquele ano, o brasileiro Francisco Julião, fundador das Ligas Camponesas em Pernambuco e exilado no México, faz a apresentação da sua poesia, no Instituto Mexicano-Cubano, abrindo seus recitais na Cidade do México. À convite de organizações políticas de esquerda mexicanas, parte em seguida para a Califórnia para levar aos Chicanos  — minoria norte americana de origem mexicana que, na época, como os negros, lutavam  por direitos políticos e civis —   a notícia dos movimentos de liberação nacional que, desde os Tupamaros, no Uruguai, até as montanhas de Guerrero, no México, incendiavam a América com seus sonhos de justiça e liberdade. Seus versos foram publicados em revistas, jornais, panfletos e cartazes e muitos deles ilustrados por grandes pintores do continente. Atuou como jornalista, defendendo, na década de 70, em grandes reportagens,  a vergonhosa situação dos Chicanos no sudoeste do Estados Unidos e denunciando o colonialismo português na África.

Depois de uma trajetória poética incansável e intensamente vivida, volta ao Brasil em 72 e por razões de segurança passa a viver no anonimato social e literário. Localizado, em Curitiba, pelos agentes do DOPS, transfere sua OAB para Santa Catarina, mas por estas e outras razões  acaba não exercendo sua profissão de advogado. Com o tempo, a árdua luta profissional pela sobrevivência, bem como o exercício da liberdade sempre ameaçado pelo condicionamento político daqueles anos que precederam a abertura democrática, lhe foram impondo, involuntária  e naturalmente, o afastamento da vivência literária nos atos e nos fatos. Outras inquietudes de ordem intelectual ocupam suas leituras e reflexões, levando-o gradativamente ao esquecimento quase completo da sua condição de poeta e mesmo daqueles anos de peregrinação nos quais, com a poesia, cumprira uma das mais belas missões da alma humana: aquela que nos impõe a realização de um ideal. Pela química do seu lirismo político expressava a plena identificação com um sonho grandioso configurado um processo revolucionário que, a partir da Revolução Cubana, em 1959, passou a recrutar ideologicamente a América Latina inteira. Neste sentido seus “Poemas para la libertad” são a mais legítima expressão desse sonho incorruptível e inegociável, porque nasceram em pleno parto continental de um tempo semeado de esperanças, e porque cumpriram sua missão despojados de qualquer interesse pessoal, direitos autorais e veleidades literárias e, sobretudo, por serem o fruto de sua legítima indignação por tudo o que, naqueles anos, estava acontecendo no Mundo, na América Latina e no Brasil.

Seu primeiro livro, “Poemas para la libertad”,  com três edições  em espanhol e ainda inédito em português, consta de vários catálogos da literatura política latinoamericana, na Internet. Por outro lado as marcas indeléveis da sua poesia revolucionária, escritas há 30 anos, estão vivas e espalhadas pelo continente. No ano 2000 a Epsilon Editores, do México, publicou a importante coletânea Poesia Latino americana – Antologia Bilíngüe” em espanhol e inglês, numa primorosa edição cuja capa e interiores é ilustrada com fragmentos da obra “La destrucción del viejo orden”  do grande pintor mexicano José Clemente Orozco.  Suas páginas são compartilhadas pela poesia de 36 celebrados poetas hispano-americanos, entre eles uruguaio Mario Benedetti e a poetisa equatoriana Sara Vanégas Coveña e por apenas um brasileiro, o poeta catarinense Manoel de Andrade.

A seguir publicamos seu poema “Memória”  um lírico e comovente grito de saudade do Brasil, escrito em agosto de 70 no Equador. Numa época em que lá, a imagem da pátria lhe chegava “como uma mãe em lágrimas”. Chegava “pelos gemidos e os estertores da bravura…e pelos sonhos que a morte silencia”. Chegava “pelo  inquietante dossiê dos tempos e por uma sombra imensa aquartelada sobre o povo.”

 

  MEMÓRIA

De onde venho e por quem sou
desterrado da face do meu povo
desterrado dos amores e do meu sangue…
pelo meu coração de êxodo e batalhas
e pelo nostálgico lirismo da poesia,
eu te saúdo, pátria minha.

Por onde venho e rumo ao norte
sobre o dorso iluminado da América
por minha fé
pelo mágico idioma da utopia
e pelas páginas clandestinas do meu canto, 
pátria minha… eu te saúdo.

Avançando entre o mar e a cordilheira
estrangeiro, bardo e peregrino
semeando a flor do bom combate
aprisionado
silenciado no meu canto
banido pelas tiranias do altiplano
e hoje… enfim…
recebido pelas mãos da liberdade…
passageiro da brisa e do encanto…
hoje, pátria…
é para ti meu canto aberto e solidário.
 
Com  a alma povoada de caminhos
partilhando  meus punhos e meus sonhos
e respirando o ar dessas trincheiras…
daqui,
onde não me alcançam as mãos que te torturam
repartido  entre a dor e a esperança
e pela estrofe combativa dos meus versos,
levanto  minha voz por teu martírio.

Hoje eu  canto com a memória dos caídos,
escrevendo teu nome  ensangüentado
e do meu refúgio latino e americano
e pelo tempo que te dure esta noite
e este silêncio,
há de ouvir-se o testemunho implacável dos meus versos.

Hoje escrevo sobre a água
e sobre o vento
mas um dia há de voltar meu desterrado canto.
Hei de voltar um dia
levando nos lábios uma canção de trigo
há de voltar minha alma de cigarra
e o marinheiro antigo.

Ó pátria minha…
hoje  te sigo pelos mares mais longínquos
pelos  portos  onde  tua bandeira chega navegando
e pela notícia de uma ação política,
e o impasse de um seqüestro,
sinto no peito que  tua ferida está aberta. 

Eu nunca quis cantar-te assim,
com amargura…
mas hoje me lembro de ti, do teu regaço …
e a tua imagem me chega como uma mãe em lágrimas.
Chega pelos gemidos e os estertores da bravura…
por esses sonhos que a morte silencia.
Chega pelo inquietante dossiê dos tempos
e por essa sombra imensa aquartelada sobre o povo.
E aqui, onde a Terra em duas latitudes se reparte,
pelo que sei e o que não sei,
em dois pedaços…
meu coração aqui também se parte.

Hoje eu canto pelo amanhecer luminoso que te espera
e te deixo em verso essa memória…
hoje escrevo a palavra: companheiros…
para que não se extinga a fé nesse combate.

Quito, agosto de 1970

RICO tem AMIGOS; pobre, comparsas (Rumorejando) por josé zokner

Constatação I (De um diálogo assaz frustrante, decepcionante).

-“Você é um lírio,
Querida.

Um colírio,

Que me faz ir ao delírio,

E não é um falar gírio”.

-“E você é um tolo.

Meu desconsolo.

Suma-se!

Se não vai dar rolo!

Aí, você entra no rebolo”.

Constatação II

O João Cruz, pai de poucos filhos e muitos netos, conhecido por Vô Cruz, era um sujeito muito pão-duro. Comparado com ele, o pai Grandet, personagem de Balzac, seria considerado um perdulário. Toda vez que a família e/ou algum estranho ou parente que porventura estivessem fazendo alguma refeição na casa de João Cruz, constatava que ele ia logo tapando algum vidro ou lata para que as pessoas não se servissem, segundo ele, demais. Daí, nasceu, na família e fora dela, o verbo, um eufemismo, de “vocruzar”, dado por um dos netos, não significando vou cruzar, mas fechar, cerrar, tapar, atarraxar que se espalhou por todos os que com ele conviveram. Coitado! Coitados!

Constatação III

Rico tem amigos; pobre, comparsas.

Constatação IV (Entreouvido numa manada, quando a mãe elefante tava educando o filhinho de só 300 quilos, via duplo pseudo-haicai)

Quem zomba

Da pomba

Cresce a tromba;

Quem mente pra alguém

Cresce também.

Ouviu bem?

 

Constatação V (De uma dúvida crucial).

Será que o sujeito que vende um rim tem que pagar imposto de renda sobre o valor auferido? Quem souber a resposta, por favor, cartas à redação. Obrigado

Constatação VI (De uma dúvida crucial).

Será que algum dia não vai haver mais escândalos estourando com pessoas pertencentes aos três poderes da nossa República? Quem souber a resposta, por favor, cartas à redação. Obrigado.

Constatação VII

Quando ela passou do limite,

Derivada de uma paixonite

E passou a uma perseguição

Nada infinitesimal

Fiz um cálculo integral

A fim de resolver tal equação,

Por geometria analítica,

Ou por geometria

Descritiva estável,

Como na estabilidade da construção,

De como me livrar

Da sua sucessiva aproximação

E concluí, determinante,

Com certo ar glacial,

Que seria mais viável,

Que a melhor política,

Seria desfrutar

Da topografia

Do seu corpo escultural.

Constatação VIII

O meu time, o Paraná, tem algo em comum com o Real Madrid da Espanha. Ambos não foram bem quando o técnico Wanderley Luxemburgo treinou essas duas grandes e, indiscutivelmente, notáveis equipes…

Constatação IX (Passível de mal-entendido).

Deu na mídia: “Obama encosta em Hillary após vitória em Maine”.

Constatação X

Também deu na mídia: “Acordo abranda CPI sobre uso de cartão corporativo. Governo consegue incluir gestão FHC e aceita CPI mista; PSDB já não fala em investigar gastos de Lula e Marisa”. Com relação a essa notícia, vale a máxima do jornalista Tutty Vasques: “CPI mista é que nem pizza: meia Lula, meia FHC”.

Constatação XI

Por que será que o ex-deputado Roberto Jeferson, ao denunciar o esquema do mensalão e que deitou falação contra a cúpula do PT, em depoimento recente à Justiça e nos anteriores, aceitou deles os quatro milhões que recebeu? E que será que ele fez com os quatro milhões? Quem souber a resposta, por favor, cartas à redação. Obrigado.

Constatação XII

O presidente Bush, segundo a mídia, disse que “não é tortura ‘afogamento’ utilizado em prisão”. Quanto à pimenta nos olhos dos outros ser refresco ou não, parece que nada foi dito pela maior autoridade da maior Potência do Planeta… 

o autor escreve no jornal o estado do paraná aos domingos.

CURITIBA perde HENRIQUE MOROZOWICZ por nájia furlan

Nájia Furlan [24/02/2008]

Arquivo
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O pianista e compositor
era conhecido internacionalmente.

Por último, tristeza pela perda. Porém, antes disso, reencontro, surpresa, inspiração e satisfação. É o que se ressalta. Esta semana, Curitiba perdeu, aos 73 anos, o pianista e compositor Henrique Morozowicz. Pouco antes de partir, em novembro, Henrique de Curitiba, como é conhecido internacionalmente, fez Constatação fatal. Como ele mesmo a apresentou: uma música de canto. Esta, inspirada nos versos do colaborador José Zokner, publicados em agosto, na coluna Rumorejando, em O Estado. É o próprio autor da ópera que assim a explica.A música foi produzida em setembro. Na introdução, os detalhes da produção: “imediatamente recortei e guardei aqueles versos para usá-los numa obra vocal, pois eles me soaram como uma letra feita de encomenda para uma ária de ópera buffa. Representaram muito bem o humor especial de Zokner, autor que tive a satisfação de reencontrar”.Como lembra Zokner, lisonjeado com a lembrança, Henrique era seu contemporâneo (a partir de 1948) no Colégio Estadual do Paraná. “Não tínhamos contato, mas eu lembro, da adolescência, aquele rapaz magrinho e alto que tocava piano”, conta. O colunista ainda completa que, de longe, acompanhou as notícias sobre o sucesso do compositor assim como do irmão, flautista, Norton Morozowicz, com quem Henrique, muitas vezes fez duo. Ele ainda conta que depois de muito tempo, em setembro do último ano, recebeu do músico um e-mail. Na mensagem, Henrique contava do tempo que passou fora de Curitiba e da cirurgia no joelho. E ainda revelava o que para Zokner e para o jornal foi uma satisfação: “nunca deixei de ser seu leitor, pois volta e meia eu recebia O Estado do Paraná. Sempre admirei sua veia de humor que é especial”. Foi quando contou a Zokner da sua nova produção, talvez a última. “Nesta semana da pátria, escrevi a peça para barítono (ou baixo) e piano, como uma espécie de ária independente para cantar em recital”, traz a mensagem enviada a Zokner. A partitura foi apresentada ao autor da letra em novembro. Porém, como Henrique havia adiantado, “não sei quando poderemos ouvi-la, pois não há -que eu saiba – um cantor apropriado em Curitiba. Tem que ser uma voz lírica com uma personalidade vocal apropriada para o humor”. Zokner conta que, tempo depois, em um novo e-mail, Henrique contou-lhe que havia encontrado tal pessoa para cantar a peça. Como Henrique Morozowicz orientou, na mensagem a Zokner, “esta é a terceira peça que faço com letras de autores de Curitiba. A primeira foi 6 Poemas de Helena Kolody (1999), a segunda Poema Claro do João Manuel Simões (2002) – cantadas no Festival de Londrina – e agora a sua. Nos últimos anos, tenho me dedicado a obras vocais, de canto e de coral”.

Henrique

De família de tradição artística, Morozowicz começou a estudar piano com a mãe, mas logo passou a ser orientado por Renée D. Frank, pianista da França, radicada em Curitiba, onde lecionava na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap). Ele foi para São Paulo, em 1954, onde estudou na Escola Livre de Música, com H.J. Koellreute e Henry Jolles. Durante a formação, o pianista ainda aperfeiçoou-se com Margherita Trombini Kazuro, na Escola Superior de Música de Varsóvia, em 1960. Nessa época ele participou do IV concurso Internacional Frederico Chopin. O compositor voltou a Curitiba em 1965, onde foi professor na Embap e da Universidade Federal do Paraná.


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jornal o estado do paraná

MISTÉRIO: POTY LAZZAROTTO desenha para a capa do livro CARPE DIEM já editado!

    PAINEL EM AZULEJOS DO MESTRE POTY NO LARGO DA ORDEM EM CURITIBA

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EM ALGUM LUGAR DO PASSADO:

 

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o artista visual, já falecido, poty lazzarotto fez um desenho (acima), adequadíssimo diga-se, para a capa da coletânea de poesias CARPE DIEM lançado em 1990, é a data impressa, entretanto, o ano que se vê junto a assinatura do artista é de 91 (1991). é no mínimo curioso. esta capa foi escaneada de uma cópia xerox fornecida pelo poeta e pesquisador edu hoffmann. com quem estará o original dessa raridade? o grande poty teria desenhado a capa para um livro que já havia sido editado? quem quiser esclarecer o site está a disposição.

 

ESTA AQUI É A CAPA DO LIVRO IMPRESSO em 1990 de JAIR MENDES (TERESA CRISTINA MONTECELLI?):

 

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ESTA TURMA AQUI EM BAIXO PARTICIPOU DA COLETÂNEA:

 

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da esq. para a dir. o artista visual jackson ribeiro (de óculos), o fotógrafo haraton maravalhas (fazendo sinal com a mão), a jornalista adélia lopes, o poeta gerson maciel (de boné), o poeta reinoldo atem (de cavanhaque), o artista visual jair mendes, a poeta nadiege almeida, a poeta bia de luna, o poeta edu hoffmann, o produtor do livro luis carlos cabanas, o poeta sergio bitencourt (época do habeas coppus), a poeta magali miranda (atrás do sergio), o poeta marcos terra, a poeta desirê da costa (atrás do marcos) e a poeta marise manoel.

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o poeta e então proprietário do “habeas coppus bar” sérgio bitencourt, que participou como um dos incentivadores da obra e como poeta, esclarece, depois de ver o post, que a capa editada é do artista visual jair mendes. o site publicou como de teresa cristina montecelli porque é como consta na página interna do livro. acrescenta que nunca viu esta capa desenhada por poty.

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há comentários interessantes neste post.

 

EXILADOS poema de jb vidal

para a poeta BIA de LUNA in memorian. 

entre as frestas da folha em branco
os olhos dos sentimentos
viajaram com os raios
até este jardim de lágrimas coloridas

não fossem as frestas
seria o branco tisnado
da folha sobre a mesa
encerrando um só momento de dor
e solidão

eis que escapastes, em silêncio,
como bem sabias,
e nos  deixastes prisioneiros
de palavras e figuras
prosas e versos
que jamais serão escritos

FUGA PICTÓRICA poema de tonicato miranda

  

um piano pulsa teclas soltas e belas

peixes no aquário nadam e param, nadam e param

seguindo os arroubos de Rachmaninov

meus olhos voam além da sacada e varam

todos telhados da cidade, até o fim desta estrofe

 

Curitiba acorda e se põe preguiçosa

sob este lençol de bruma, no céu cinzento

dentro da sala, sobre o móvel, dentro da música

o passado retorna de forma gradual e lento

na voz do oboé, há uma sonoridade lúbrica

 

segue o piano rendilhando sua rapsódia

preso está Rachmaninov na eternidade

seus floreios tocam-me e são passos nos mattos

andando-me dentro do peito, por sobre a cidade

tristeza seguindo-me desde meus primeiros sapatos

 

um último acorde rompe-me da lucidez

as plantas nos vasos observam-me com seus olhos verdes

diferente da moça ao piano, no quadro da contracapa

sentada, de costas, toca Rachmaninov, Paganini ou Verdi

tecendo em mim com os dedos toda uma cidade e seu mapa

PROJEÇÃO poema de sergio bitencourt

“O Amor na projeção dele
 E vindo da sinceridade,
 Faz da trajetória,
 A Sensibilidade.
 
“A deixar a oratória,
 Sem argumento,
 Como o coração,
 A flor da pele.
 
 Pois chega de bobagens,
 Assim são essas viagens.
 
 Ele no fim nos olha,
 Do jeito da folha
 Na brisa do momento.
 
 De resto,
 Somos todos sem voz,
 Achando que somos nós.” 

PAPEL do JORNALISMO CULTURAL por marcelo de castro.

As páginas de cultura dos jornais, de circulação local, regional ou nacional, trazem na grande maioria das vezes, matérias, reportagens ou artigos voltados para uma cultura que segrega parcela da população. Ora, se um faminto não tem acesso à comida, quiçá ao teatro, ao cinema, aos grandes eventos! Se não tem acesso ao “bê-a-bá”, quiçá às obras euclidianas, machadianas ou quaisquer outras obras de grande vulto!
 
Cultura para nós, chamados “letrados”, pode ser tudo isso citado acima. E, nos deliciamos com tais objetos. Porém, cultura também é saber “juntar as letrinhas”. Soletrar. Contar até dez. Pintar com giz-de-cera.
 
Porque os jornais não separam um pequeno espaço, na seção de cultura, para tentar estimular essa cultura primária? Essa resposta é fácil: pobre não compra jornal. O espaço do jornal é caro. Ou qualquer outra desculpa que atinja o vil metal. Pobre não compra jornal, mas o abastado compra. E, estimulando esse abastado a fazer algo pela cultura primária, pode surtir algum efeito, mesmo que pequeno. Onde está o caráter social do jornalismo? Ficou nos primórdios? O espaço é caro? Não precisa abdicar. Conquiste parceiros nessa idéia! As empresas têm seus projetos sociais e o espaço do jornal pode ser aproveitado por elas. Até incentivo fiscal existe para facilitar essa troca.
 
O que não é admissível é a desfaçatez, o mascaramento, o apartheid cultural que é promovido pelos impressos diários, semanais ou mensais.
 
Os espaços destinados à cultura tornaram-se uma grande agenda, onde até se paga para que matérias sejam publicadas. A revisão desse papel do jornalismo cultural deveria ocorrer de imediato, para que os meios de comunicação possam ajudar tirar o atraso que se encontra a educação brasileira.
 
 

BANDIDA por helena sut.

Bandida. Aproveitaria o carnaval para experimentar a nova máscara. Não tinha a pretensão de alcançar a fama de facínora, mas tão pouco desejava ser reconhecida como uma reles salteadora ou bandoleira de beira de estrada… Aspirava ser temida e assim maquiavelicamente amada. Também não desejava perder seu caráter ou incorporar os maus sentimentos, pretendia apenas esquecê-los nas noites pagãs e minimizá-los depois de desbotados os últimos confetes.
Depois de uma profunda imersão em suas próprias vivências e ilusões, resgatou antigas juras e promessas jamais realizadas e relembrou a simulação de alguns olhares e a malícia pendurada no canto dos lábios… Com o auxílio do Código Penal, encontrou o dispositivo que enquadrava suas alegorias: artigo 171. Estelionato emocional. Uma transgressão imputada às vítimas condenadas ao cárcere de algumas lembranças. Fantasia sem purpurinas, delito sem grandes penas, vítimas reclusas em seus segredos e desatenções, abandono de todos os pecados, uma ação sem vestígios…
Culpa? Difícil traçar o perfil ou justificar a psicopatologia da foliã que apenas estava cansada de ser boazinha (ainda mais quando o sentido da palavra está impregnado de diminutivo e literalidade) e desejava repaginar a sua vida com novos impulsos. Talvez os psicanalistas definam tais estímulos como perversões, mas ela não tinha consciência da corrupção dos seus princípios, pensava ter adquirido apenas o controle sobre os fins.
Plena de ardis e artifícios, gozou as noites carnavalescas como nunca. Libertou-se do pudor característico dos iniciantes e fez as declarações mais obscenas. Ludibriou, induziu a erro, escondeu, iludiu, brincou com verbos quase desonrosos, mas não poderia imaginar que seria traída pela lascívia de algumas expressões. Deixou que o conhecido brilho nos olhos denunciasse sua frágil identidade. Brincou de mulher-fatal, maculando sua fantasia, e se perdeu em fatalidades.
Despertou, buscando as conhecidas purpurinas, com a ressaca das cinzas da quarta-feira. Bandida só a vida. Passou o dia ao lado do telefone aguardando um contato que não ocorreu. A máscara caiu. Arrependimento e o castigo. Percebeu-se vítima da própria conduta enquanto lamentava sua reincidência nas armadilhas do coração. Encontrou as suas culpas e se condenou a reclusão das esperas.
Entre inquietações e justificativas, personagem de uma tragédia ordinária, adormeceu com a certeza de que no próximo carnaval não seria tão ousada e se fantasiaria de colombina.

OSCAR NIEMEYER está entre os MAIORES do MUNDO pela editoria.

A Synectics conferiu a Niemeyer o 9º lugar em seu ranking dos 100 maiores gênios da atualidade.

Oscar Niemeyer Soares Filho, carioca, nascido em 1907, formou-se em 1934 pela Escola  Nacional de Belas-Artes. Foi discípulo de Lúcio Costa. Fez parte do grupo internacional que engendrou e projetou o antigo Ministério da Educação e Saúde (situado na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro), atual Palácio da Cultura.
Substitui o seu antigo mestre em 1939, quando elaborou o Pavilhão Brasileiro da Feira Internacional de Nova York, afirmando a arquitetura moderna no exterior. Com a experiência de fora, introduziu no país algumas das mais avançadas técnicas arquitetônicas de então.
Vários são os seus projetos notáveis: o Conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte (1942-1943); o Instituto Tecnológico da Aeronáutica , em São José dos Campos (SP,1947); Edifício das Nações Unidas (1947); o Conjunto do Ibirapuera, em São Paulo (capital, 1951-1952); o Museu de Arte Moderna de Caracas (Venezuela, 1955); reconstrução do Quarteirão Hansa (Berlim, 1955) etc. Suas realizações estendem-se,ainda, por países, como: Itália, Israel, Argélia, Portugal, França, Rússia e Gana.
No entanto, o ápice de suas obras consiste na série de construções oficiais que realizou em Brasília, onde participou como arquiteto-chefe. Lá projetou, dentre outros: o Palácio da Alvorada, dos Despachos, o Teatro Municipal etc.
Niemeyer, durante a sua longa existência, vem estabelecendo novos critérios de utilização do espaço e inovando no uso de materiais. Agora, aos cem anos de idade, recebe o prêmio conferido pela Synectics de nona personalidade genial, ainda, viva. Surpreende com uma boa declaração existencialista a respeito: “O que eu posso fazer? Eu me sinto como outro ser humano qualquer, que trabalha, vive e que vai embora daqui a pouco”. 

Fonte: Jornal de Londrina.

UM TANGO MELODRAMÁTICO conto de luis felipe leprevost.

A bordo do último ônibus da Viação Cometa cheguei em Fé altas horas da noite. Ela, Consuela, estava atrás de uma cortina que a escondia mas (de tão fina) a mostrava mais do que ocultasse, formas que lembravam flores na ventania. Ao lado, um cachorro desajeitado com cara de jegue trombando nos móveis da grande sala e cozinha, que são um ambiente só dividido em dois ambientes. Havia também três médicos, jantavam e riam. Conversavam, estranhamente, sobre literatura, operavam inconseqüentes cirurgias em Camões e Homero. No entanto, tudo o que conseguiram ao final da noite foi silêncio, macio e inconveniente, como devem ser as utopias que se prezem, aliás. A pensão toda estava iluminada por velas, que pareciam pingar sutis em nossos olhos marejados de neblina e chá preparado pela mãos feiticeiras de Consuela. No outro dia, após reforçado café matutino eu, Jassei Brenneli, saí passear por regiões afastadas do Vilarejo, em busca da casa ideal. Vou pela periferia que resiste, região metropolitana. Gosto e contemplo estes lugares de antes de existir a metrópole. Quero morar ali, o saudosismo angustiado de não me ter havido casas de madeira, samambaias na varanda e hortênsias as cercando. Há um bosque desvairado. Há uma estradinha amarela que leva às vacas distraídas pastando lá na idade da pedra, ruminando paciência. Os patinhos tristes no escuro da lagoa. A planta é viva. E para sombra lilás de galhos e nuvens uma gralha retorna ao noturno do verão carregando uma sacola que vaza estrelas. É o Vilarejo de Fé, onde Arietta Spalmam ficou internada. Meu tio-avô, Breno Brenneli, jamais colocou os pés nessas terras. Acusaram-me de ser semente da discórdia quando disse que viria passar o feriado de sete de setembro aqui. Na verdade queria conhecer Ondestou blues, mas meus pais me proibiram de me hospedar na velha cidadezinha, com o argumento de que só marginais transitam por lá. Acabei ficando em Fé mesmo, na pensão de Consuela, região central. Em Fé conheci Boca Grande e Larissa, só o que fazem é se beijar o tempo todo, parece que desejam um engolir o outro. Huck é o cão, fica solto, circula livremente por entre as dependências. Sempre que Huck está por perto provoca certa tensão, pois o temo mais que aos dragões que dizem haver batendo asas lá no bosque. Penso que a qualquer momento Huck abrirá suas asas, mostrará a língua para nós e alçará portão afora gargalhando chamas enquanto Consuela tira os pratos da mesa de jantar. Curioso este Vilarejo, mais curiosa ainda a pensão. Agora mesmo uma lagartixa, não com X, mas com CH, segundo Larissa, espreguiça-se recém acordada de um sono sem relógios e defende os tijolos da parede de ataques aéreos dos mosquitos que, não obstante, parecem ter sido treinados para fazer-nos coçar. Então, sentindo nó por nó meu sangue se desmanchando comecei escrever algumas impressões na toalha que reveste a mesa escalpelada sobre a qual fazemos as refeições. É uma série de poemas sobre Ondestou blues, a região está tomada por lupanares, comércios ilícitos e tudo o mais, o pessoal de Vilarejo de Fé não sabe mais que resoluções tomar, tentam evitar que o trânsito de pessoas vindas de Ondestou para Fé seja regulado no acesso às barcas, mas a verdade é que o pessoal cruza o rio Narciso durante a madrugada com barquinhos particulares. Além do mais, muitos moradores honestos de Fé trabalham em Ondestou. Em suma, uma confusão danada. Não sei, tão pouco pergunto, o que pensa disso minha anfitriã Consuela, no entanto quase ensurdeço de medo quando esta besta denominada Huck resolve me interpelar com seu próprio focinho e presas à mostra. Ele quer meu sanduíche de carne seca, diz um dos médicos adoradores de Camões. Então pego o sanduba com a mão e de algum modo detenho poder sobre Huck, e chego a acreditar que saberia adestrá-lo à minha maneira, caso optasse em fazê-lo. Deixo pra lá, embora houvesse reparado que nem os nativos Larissa e Boca Grande, e mesmo Consuela, ficaram constrangidos por presenciarem esta minha perversão incontida. Em resumo, estava sendo aquele um frutífero feriado. É claro que era impossível não achar graça quando um novo hospede chegava e em sua direção Huck lançava seus guturais latidos. A graça, no entanto, está não nos latidos, porém no fato de que o homem, um coxo, apoiou-se sobre uma perna só e mirou a bengala na direção de Huck, e assim pudemos reparar que aquilo não era uma bengala e sim uma espingarda de duplo cano. Huck, para minha surpresa, calou-se imediatamente, abanou o rapo e fugiu para o jardim. Na manhã seguinte eu iria embora, por esse motivo o chá preparado após o jantar era de especial teor, disse-me Consuela. Após a segunda xícara eu não escutava mais nada da antiga conversa dos médicos sobre Homero e Camões, as velas em segundos começaram a ser decapitadas pela lâmina de um vento escuríssimo. Lembro-me apenas vislumbrar um tanto ao longe Consuela e Huck de mãos dadas cantando um tango melodramático, e mais nada. 

TRANSPOSIÇÃO e as ÁGUAS DO NORDESTE por manoel bonfim ribeiro.

 ENGENHARIA É, AS VEZES, A ARTE DE NÃO CONSTRUIR.

                                                                                           arthur wellinton.

Antonio Conselheiro, o taumaturgo dos sertões nordestinos, que se notabilizou na região de Canudos, estado do Bahia, desenvolveu o seu messianismo profetizando acontecimentos para o povo paupérrimo do vale do Vaza Barris. No final do século XIX, em Outubro de 1897,a 4º Expedição do Exercito Brasileiro  dizimou o ultimo reduto do fanático cearense, numa luta sem precedentes, que custou a vida de 5 mil homens. Este messiânico profetizava, por onde passava, que “o sertão vai virar mar”.  .
O Projeto da Transposição de águas do rio São Francisco prioridade do Governo, traz a imagem de um banho de água no Semi-Árido, mitigando a sede de 12 milhões de nordestinos sequiosos.  Pretende-se matar a sede de uma população, levando uma pouca d’agua  para a região setentrional do Nordeste.
A maior baía do litoral brasileiro é a Bahía de Todos os Santos . A segunda maior é a Baia da Guanabara que é, por sua vez, a terceira maior do Mundo em volume de água.  Esta Baía tem  uma área  de  413 Km² e recebe a contribuição de 55 rios  O seu volume de água  é  de 2,4  bilhões de metros cúbicos.
 Comparemos, agora, com a fantástica rede de açudagem do Semi-Árido .
O Nordeste, mais precisamente o  Semi-Árido brasileiro, é a região mais açudada do Planeta. Mais que a Índia, mais que o Egito, mais que os E.U.A. Os nossos açudes são os melhores do Mundo, melhores projetos, melhores construções. Os engenheiros do DNOCS-,Departamento Nacional de Obras contra as Secas- foram e são os melhores barrageiros do Globo, só comparados aos grandes hidrólogos do Egito. Açude do DNOCS não se arromba.
O século XX, foi o século da açudagem no Semi-Árido. Assim como tivemos a Civilização do Ouro, a Civilização do Algodão da qual nos fala Câmara Cascudo, a Civilização do Couro, comentada e analisada  por Capistrano de Abreu, tivemos, também  a Civilização do Açude, por todo um  período de 100 anos. Quando da grande seca de 1877/80, o Semi-Árido quase não possuía açudes, uma meia dúzia, nem poços tubulares, nem estradas, o veículo não existia, só o telégrafo em pouquíssimas comunidades. Os retirantes, famélicos, perambulavam pelos caminhos, sem destino. Nesta seca foram ceifadas 500.000 vidas, o gado foi dizimado. Calamidade total. O Governo Imperial se comoveu e o Conde d’Eu criou uma Comissão Científica para fazer estudos topográficos, geológicos, hidro-geológicos, meteorológicos, fitogeográficos,  faunísticos, bem como, estudos  das bacias hidrográficas dessa grande região semi-árida. Logo após, em 1886, o Governo autorizou o inicio do grande açude do Cedro, em Quixadá, Ceará, rio Sitiá, afluente do Banabuíu, do Sistema Jaguaribe , que só foi concluído no ano de 1906, já no Governo Republicano. Cem anos de construído, este açude , armazenando 126.000.000 de m³, continua prestando seus serviços relevantes a milhares de nordestinos.
 Foi o passo inicial para o programa de construção da grande rede de açudes espalhados pelo Semi-Árido. Foi um trabalho hercúleo do Governo e da sociedade nordestina, chegando ao final do século XX com a construção, de cerca, de 70.000 açudes, públicos, particulares e de  cooperação. Mais de 10% são açudes plurianuais, construídos para suportar as grandes travessias estivais, projetados, alguns, com geração de energia hidrelétrica e  muitos outros com projetos de irrigação. São açudes que não secam, apesar da fortíssima e drástica evaporação processada pela radiação solar nesta região, próxima ao equador. Perdem até 60% do seu volume, mas renovam nos anos seguintes, total ou parcialmente. Assoreamentos existem nos açudes diminuindo a sua  capacidade volumétrica, como existem, também, no talvegue do rio São Francisco e em todos os açudes e rios do Mundo. É questão de conservação, e manutenção. O maior açude dos EEUU, o Elephant Bute, capacidade de 3 bilhões de metros cúbicos, está quase totalmente assoreado. O açude Vale do Inferno, na Espanha, está entulhado. O Gokak, em Bombaim, Índia, a mesma coisa.
As regiões áridas do mundo se caracterizam por sua baixa  pluviosidade. No caso do Semi-Árido esta pluviosidade  é de 600 mm/ano. Quando as precipitações ocorrem abaixo desta média, instala-se uma seca.  A cada século temos, em média, 1/3 de anos  secos, 30 anos.  Os açudes plurianuais foram construídos tendo em vista esta série histórica das grandes secas.
Hoje, existe um gigantesco cubo de água armazenado no Semi-Árido, capaz de resistir às estiagens mais severas da região, desafiando as leis fatais da natureza. É a vitória do homem sobre o meio.
Dos grandes lagos construídos pelo homem, com a avançada engenharia hidráulica nacional, temos exemplos dignificantes como na bacia do rio São Francisco, a barragem de Três Marias, acumulando um volume de 21 bilhões de m³ de água , representando 8,7 vezes o volume da Baia da Guanabara. O Lago Sobradinho, também no Vale, o maior do mundo em superfície, detendo um volume de água de 35 bilhões, representa 14,6  vezes  a  Baia da Guanabara.
 Agora vejamos o Semi-Árido brasileiro, sem as águas do São Francisco: O açude ORÓS, no vale do Jaguaribe, Ceará, construído, em 1960, inaugurado pelo Presidente J.K, reserva no seu bojo, 2,5 bilhões de m³ (2,5 Km³ ) de água, igual  ao volume da Baia da Guanabara, aliás, um pouco maior. O Açude ARMANDO RIBEIRO GONÇALVES, construído no Rio G. do Norte, inaugurado pelo Presidente Figueiredo em 1983, reserva na sua bacia hidráulica o volume de 2,4 bilhões de m³ (2,4 Km³) de água, igual ao volume da Guanabara. O BANABUÍU e o ARARAS, ambos no Ceará, juntos somam 2,7 bilhões (2,7 Km³), volume superior à Guanabara. O CASTANHÃO, no vale do Jaguaribe, CE, concluído no ano de 2003, inaugurado pelo Presidente Lula, é um açude oceânico, maior do mundo, construído pela mão do homem, orgulho da engenharia hidráulica nacional. Reserva na sua concha hidráulica, 6,7 bilhões de m³ (6,7 Km³), 2,8  vezes, quase 3 vezes, o volume da baia da Guanabara. Os 8 grandes açudes dos 3  estados (Ceará, Rio G. do Norte  e Paraíba), que irão receber 2,1 bilhões de m³  das águas aduzidas do rio São Francisco, já  possuem um volume de 12,6 bilhões( 12,6 Km³ ), equivalente a 5,3 vezes  o volume da Guanabara. O total da água acumulada nos 3 estados, representa 72% de todo o estoque do Semi-Árido, 26,7 bilhões ( 26,7 Km³ ) , equivalente a 11 vezes a Baia da Guanabara.
Totalizando, as águas de todos os açudes do Semi-Árido  somam 37 bilhões de m³ ( 37 Km³ ) superior a 15   vezes a  Baía da Guanabara. O SERTÃO JÁ VIROU MAR. Cumpriu-se a  profecia do Conselheiro.
Diante desta gigantesca riqueza de águas acumuladas, estocadas nos seus 70.000 reservatórios, a solução para o problema hídrico do Nordeste é somente distribuição e tão somente distribuição através um robusto e potente sistema de adutoras. A infra- estrutura hídrica já está pronta. Só falta a gestão.
Assistimos protestos, reivindicações e greves de movimentos organizados como o  dos Sem Terra (MST), dos Sem Teto, dos Sem Salários, dos camponeses sem crédito para o amanho da terra, dos índios vindos dos confins do País, das Associações e Federações deste nosso Brasil, só não assistimos protestos dos Sem Água, logo a água que é vital na sua essencialidade. É curioso que o nordestino pobre e sequioso não grite por água.
Conclamamos os engenheiros do Brasil, arquitetos, agrônomos, meteorologistas, os demais profissionais das ciências exatas. Conclamamos os clubes de engenharia; os  Conselhos Regionais de Engenharia (CREAs), conclamamos  o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura, e Agronomia (CONFEA), órgão máximo da engenharia nacional, a exigir do Governo da Republica, participação e acompanhamento nas análises técnicas e econômicas  deste  Projeto de Transposição O Semi-Árido não suporta mais projetos de  resultados duvidosos, muito menos  de um projeto,  hidrologicamente,  errado.

CAMALEOA CURITIBANA prosa poética de marilda confortin


 
Eu uso óculos escuros e ela de grau. Faz ponto nos degraus da Rua da Cidadania. Quem a vê, pensa que ela fica vendo navio.
– Não vendo navio, não moça. Só relógio, calculadora, brinquedo, creme de mão e rayto de sol direto del  Paraguai pra praça Rui Barbosa
– O águia de Haia…
– Quem?
– O Rui, ora.
– O Hara?
– Não. O Barbosa.
– É ruim… Só conheço um Rui, fiscal da Urbs, um surd  filho da…
– Kama sutra?
– Não vendo livro, não. Ninguém compra. Mas tenho camisinha maide in taiuan e bolinha tailandesa. Uma beleza. Vendo de dúzia. Faço por oito real.
 – Quero não. E cigarro, tem?
–  Só fri.
– Eu também sofri.
– É loca. Qué uiski. Legítimo. Bem novinho. Truxe domingo. Num trago coisa veia. 
– Sacoleira…
– Sacolera, não! Cameloa! Das boa. Dá licença?!
– Desculpe.
– Vai comprá ou ficá me enrolando outra veiz?
– Vou andando, obrigada.
– Eita conversa fiada que nunca dá em nada.
– Prá mim dá poesia.
– Virgi Maria. Mais uma doida na cidade, né muié?
– É…. Até.
– Inté.

VELÓRIO poema de joão batista do lago

No meio da sala velo minh’alma
Que me olha com dentes escancarados
Abrigada nos quatro cantos do mundo
Donde sorri das minhas dores
E qual punhal que sangra ventos
Rasga o meu profundo nada
Donde as vísceras jorram todo escarro
Da hóstia nunca sagrada do homem puro
“És nada!” – grita a alma pois então morta –
Nasceste do miserável sagrado sem Deus.
Como há-de me querer velar como eterno
Se tens apenas teu féretro como única posse?”
E lá do meio da sala onde velo minh’alma
Nada posso fazer para alcançá-la…
E ela se esgarça zombeteira em cada gargalhada
Enquanto eu no meio da sala tramo matá-la
E assim me dano feito cão vagabundo
Que nem mesmo a lepra de Lázaro tem para a lamber
Já que sou única testemunha deste infeliz velório
Da minh’alma que se me sorrir à-toa
 
[…]
 
No meio da sala velo minh’alma que aos poucos se afasta…
E de mim voa.

HAI CAI (diversos) de leonardo meimes

O Desejo

O sol nas pernas, luz,
Entrega ao doce desejo
O nu amado em flor… tu

O Marido

Na cama a espera vã,
Olhos de desejo gritam
Dores de cabeça

Os Olhos Azuis

O azul de seus olhos.
Antídoto para a triste
Escuridão dos meus

O Pico

O pico. O furor
Inesperado que abate.
Corpo em retirada

O Filho

O sorriso tenro
É mascara de um só sonho
Aurora em explosão

O Amor Tardio

Um amor tardio é
A rosa que floresce no
Fim da primavera

Os olhos Azuis (2)

Seus olhos azuis de
Tristeza ou de beleza?
Só sei que são assim…

O Trabalho

O suor escorre na
Face, queimando pecados.
O terço dos pobres

O Ensaio

Veloz o roçar da
Foice a tocar o arroz, ensaio
Do dia em que morrerei

QUEIMAR poema de jorge barbosa filho

  

não me toque

estou encantado.

morri ontem

entrei pra eternidade

com todo o futuro

enterrado.

 

o fio de mel

em minha língua

de arame farpado

secando as roupas

das brevidades

no horizonte.

 

não, não me ame

onde finda o olhar

cruel dos amaciantes.

apenas me chame

pra deitar ao sol

de tua boca infame.

 

que horas são?

preciso encontrar

um tempo

enquanto é tempo

antes do agora

em combustão.

   

 

A VISITADORA por frederico fullgraf

Hoje ela não veio. Distraí-me com tanta coisa durante o dia, mas à noite senti sua falta. Não, não é em A. que estou pensando, dela não sinto falta. Libertei-me de seus frívolos arroubos de falsa transparência, suas conspirações e fingimentos. Deve pensar que a forma mais insidiosa de vingança seja meu silêncio, que a oclusão do amor é viver a mortal indiferença do outro. Mal sabe ela, que os que abrem mão do lar, são melhores adivinhos dos pensamentos alheios; os de Deus inclusive. Mas onde andará a outra? Vagará ainda pelas ruas nestas horas tardias? Seu desaparecimento me humilha: e se estiver dividindo sua intimidade com outra pessoa? Na verdade preocupa-me seu bem-estar: poderia ter sido atropelada, ferida – e se estiver morta? Estou aflito: não há como procurá-la, não sei o seu nome, que deriva de sua compleição e hábitos. Vou esperá-la.
 
Convivemos por várias semanas e apesar de seus modos discretos, só infra-minimamente perceptíveis, sinto máxima ausência. Introduziu-se sem aviso, mas com delicadeza: de repente estava. Não que fosse invasora. Ao contrário, alegrou-me muito sua presença. Inopinadamente, graciosamente, brindou-me sua companhia, neste quarto onde não se falava, a não ser em pensamento. Obsessiva no início, corria desnorteada de um lado para outro, em aparente busca de um tesouro escondido em local esquecido. Depois foi se aquietando.
 
Quase nos tornamos íntimos, afirmação algo leviana, reconheço, ligeira projeção do meu afeto: era eu quem a saudava, com ela conversava enquanto passava um café. Egoísta, não prestei atenção aos seus sinais, comprazi-me em falar, confortado pela companhia. E então aconteceu aquele terrível acidente, por minha culpa. Permito-me reproduzi-lo, com a perspectiva dela: de repente perdeu o chão, tenebroso marulho de placas tectônicas. Aflita, agarrou-se à ponta de uma rocha esférica e esbranquiçada, já transbordada por gigantescas ondas e espuma peçonhenta. Sentiu o fim dos tempos, manipulado por garras hiperbólicas, que baixavam dos altos. Só então a descobri, suspensa entre a vida e a morte; a seus pés, o buraco negro aguardando sua queda e a deglutição pelas entranhas da cidade. Aliviado, consegui salvá-la. Toquei-a com suavidade e ela desempenou-se com aquela cerimônia da mulher que oferece a face, para atrasar o primeiro beijo na boca; mas sem pavor nem histeria, amuando-se em outro canto. 
 
Comoveu-me seu respeito por minha solitude, à qual talvez estivesse associando a sua própria, dando, finalmente, algum sentido àquela genuína oferta do coração, soletrada para apenas duas (sabendo que ela jamais seria a terceira destas) mulheres em minha vida: sinta-se em casa, quero aconchegar a tua solidão. Senti genuína compaixão por ela.
 
Não que este lugar fosse um ermo ou o desterro. Digamos que seja um intermúndio orbital, cuja flamância lembraria aqueles excessos de luz no céu do limiar dos tempos, embotando-lhe a vista frágil. Evitou a imensa tela rutilante, aberta sobre infinito livro de areia, com incontáveis palavras e línguas dessemelhantes, agrupadas em milhões de páginas, número sem fim de manuscritos salvos em arquivos virtuais. Aleatório, mas íntimo terminal da babélica biblioteca borgeana, que lhe devolveu a insignificância de sua minúscula estatura. Contudo, imenso jardim suspenso entre o passado e o espanto, seus ancestrais já se deslocavam em missões exploratórias de suas raízes, troncos e folhas. Mas não têm percepção do tempo, nem consciência da História – simplesmente são. Poupada, ela ignora meu horror à metáfora do Angelus Novus de Benjamin: História como amontoado de ruínas; corpo enterrado vivo, sedimentado em camadas de esquecimento; Vida como tempo esvaído, irrecuperável. Relógios derretidos de Dali.
 
Tempo. Surpreendo-me contando os dias de sua ausência. Abobado, converso comigo mesmo. Suportar a solidão é preparar-se para a partilha da intimidade (como é verdade também, que a solidão soe ser mais intensa em companhia de certos outros: o compassivo egóico, oculta, seqüestra, foge da angústia alheia).
 
Às vezes sou Winfried Georg Sebald, que caminha pelo litoral do sudeste inglês, numa pausada meditação sobre fenômenos tão dissímiles como Rembrandt; o acima e o abaixo das guerras aéreas, tempestade de fogo em Hiroshima, Dresden; o ciclo de vida dos arenques; a devastação das grandes florestas do mundo; a imaginação paranóica dos cartógrafos renascentistas e seu umbral sirênico: peixes-elefante, peixes-coelho, polvos-giganta engolfando galeras nos Mares do Sul. Infâmia na Amazônia profunda: é JC Aranã quem pratica o holocausto de Putumayo, mas é Sir Roger Casement, o investigador, que morre na forca em Londres. No entanto,  a melancolia é a prima criativa da depressão e com as matérias-primas do luto histórico WG Sebald escreve a literatura da compaixão. Não concluiu suas andaduras: no verão de 2001 tem um mal-estar ao volante, o carro choca-se frontalmente com um caminhão – o mundo chora a partida prematura do mais forte candidato ao Nobel. Invejo-lhe as caminhadas, nas quais trocaria Norfolk e Suffolk pelo Namib e o deserto patagônico em Sarmiento, mas tenho que aligeirar este peso, esta enorme responsabilidade.
 
E feita salva-vidas da minha borrasca, eis que ela reaparece, dissimulando a reaproximação. Quantas avenidas terá percorrido, evitando elefânticos pisantes, escapando da teia de quasímodos aracnídeos, do bico voraz de monstros alados, galgando muros, escalando paredes, não escolhendo outro, senão a mim? Agora detém-se, alonga as patinhas traseiras, como fosse sinal de saudação e retro-agradecimento por sua própria salvatagem naquela tormenta: distraído, quase a mandei para o ralo com a sujeira dos pratos – o tsunami na pia. Caminhando e despencando entre as letras, baixa e perscruta o porão alfa-numérico do teclado, brincando de esconder, bisbilhotando a combinação das minhas palavras, impedindo-me a escritura, sob pena de esmagá-la sob um p de pressão ou um q, (que) para sua carnadura grácil é mais que um quilograma; é t de tonelada.
 
Sopro nos espaços do alfabeto, e nada! Acendo um cigarro. Com artifício, abro o arquivo das revelações, tentando adivinhar sua genealogia: há as açucareiras, as caçadoras, as doceiras. Divertem-me as astecas, as cabeçudas e mineiras (quando criança esmagava com o pé as odiadas cortadeiras e proletárias carrega-deiras!). Sentem-se irresistíveis a argentina, a cuiabana e a paraguaya … Já a formiga fatal é a saca-saia! A formiga-correição, a guaju-guaju, a morupeteca e a taioca são as guerreiras. O piolho-de-onça é sarna que não para de coçar e a feiticeira e a cigana são alvissareiras. E, tentando imaginar o som da chiadeira, ei-la, triunfante – Margarida, minha formiga visitadeira – emergindo no canto superior esquerdo do teclado, debaixo da letra q – não fosse piegas, e eu diria que é de querença. Importa que me devolveu a leveza.
 

DESISTEM DE SEXO POR UMA TV DE PLASMA (Rumorejando) por josé zokner

   

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.


Constatação I
Quando o obcecado leu na mídia que a passista da São Clemente, Viviane Castro, de 25 anos, perdeu o tapa-sexo de 3,5 centímetros, o que foi, mais tarde, desmentido por ela, colado com super bonder, o que fez a escola perder meio ponto, ficou indignado e disse: “Deveria, isso sim, pelo evento involuntário e tão auspicioso, ganhar 5 pontos. Assim, a São Clemente permaneceria no desfile das Escolas Especiais e não teria caído. Injustiça!”  

Constatação II (Colaboração do Amigo Renato Emilio Coimbra). Deu na mídia: “Lei sancionada em Cascavel no Paraná obriga o emplacamento de carroças, carteiras de habilitação para carroceiros, placas tatuadas a fogo nos cavalos (e também nos burros…) e uso de fraldas, com o objetivo de manter a cidade mais limpa”.
Os deputados deveriam seguir o exemplo e criar lei semelhante para que os envolvidos em todos os escândalos no Brasil e os que votaram pelas suas absolvições também usassem fraldas, pois assim teríamos um país mais limpo.
Constatação III

Rico cumpre com o seu dever; pobre, vive no seproc a dever.

Constatação IV (Quadrinha repreensiva, dedicada a todos que são sempre do contra, que sempre estão querendo, de alguma forma, aparecer).
 

Quando no carnaval antigo,
Cantou-se “Mamãe eu quero”,
Eu tive um chato dum amigo
Que a cantava em ritmo de bolero.

Constatação V

Ela fez um estardalhaço
Chamou-o de palhaço
E mais um calhamaço
De impublicáveis palavrões.
Aí, ele, cansado de confrontações,
Depois de contar seus tostões,
Resolveu se mandar
Pra nunca mais voltar
E debaixo da ponte foi morar
Onde instalou seu novo lar
Com geladeira, rádio, televisão
Cobertor elétrico, violão,
Liquidificador, batedeira, acordeão
Porém não havia tomada
Pra toda essa bagulhada
Que lhe pareceu não valer nada.
Mas mesmo assim
Ele comemorou esse fim
Porque ali perto havia um botequim
Que era pra ele o mais importante
Bem mais aconchegante
De ter ela como sua amante.
Ficou um ex-apaixonado,
Um ex-bem morado.
Coitado!

Constatação VI
 

Deu na mídia: “Quase metade dos homens britânicos desistiria do sexo por seis meses em troca de uma TV de plasma de 50 polegadas”. Vai gostar de TV de plasma assim no, na… Deixa pra lá. Afinal, gosto não se discute, segundo os entendidos em mídia eletrônica…

Constatação VII (Quadrinha para ser recitada por quem quiser e para quem quiser ouvir).
 

Tomei um mate amargo
Com espinheira santa
Para espantar o letargo
E controlar a jamanta*.
* Fica a critério do leitor a qual tipo de jamanta ele pretende se referir, pois conforme o dicionário Houaiss, se uma “carreta”, ou “pessoa de volume avantajado”.

Constatação VIII (Um pingo de reminiscência).
 

Quando a Rádio do Colégio Estadual do Paraná, por iniciativa do saudoso Aluízio Finzetto, pai do nosso grande Amigo Newton Finzetto, passou a Rádio Estadual do Paraná, tocava essencialmente música clássica. Seu estúdio ficava na Rua André de Barros. Era comum que as músicas, tocadas somente em discos, ficassem engatadas, repetindo o mesmo trecho até mais de meia-hora, sem que houvesse quem as desengatasse porque o operador/locutor se esfumava, se escafedia. Hoje em dia, a música clássica foi praticamente abolida da programação da emissora. Que será que os atuais titulares da emissora e os daquele tempo tinham e têm contra tal tipo de música? Quem souber, por favor, etc. Obrigado.

o autor publica aos domingos no jornal o estado do paraná.

A IGREJA, O TRÁFICO E A ESCRAVIDÃO por rafael diehl

Proponho-me aqui a tratar da visão da Igreja Católica acerca da escravidão, bem como o papel desta nesse processo. Para isso, introduzirei o texto tratando da questão escravista nos pensamentos que influenciaram a ideologia cristã: a teologia hebraica antiga e a filosofia clássica greco-romana.

  1. A escravidão no pensamento greco-romano e no pensamento hebraico

Para a mentalidade greco-romana, a escravidão era considerada lícita, concedendo ao senhor amplo domínio sobre seus escravos, inclusive o direito de vida e morte sobre os mesmos. Havia duas justificativas principais:

Aristóteles considerava que a escravidão era determinada fisicamente, ou seja, ele cria que alguns seres humanos nasciam com condições físicas propícias ao ofício escravo: com muita força física e pouca inteligência. Para tanto, cria-se que os homens eram desiguais quanto à natureza e aos acidentes.

Já a filosofia estóica pregava uma explicação metafísica: a do Destino. Para eles, alguns indivíduos nasciam destinados à escravidão e não poderiam alterar sua sorte.

Por outro lado, os hebreus consideravam lícito escravizar estrangeiros, mas não outros hebreus. Isso porque os gentios eram considerados acidentalmente, não naturalmente, inferiores ao “povo escolhido” da Revelação Divina.[1] A escravidão de hebreus eram permitidas apenas temporariamente.[2]

  1. A doutrina Cristã sobre a escravidão

A doutrina cristã, de modo geral, era contrária à escravidão e ao comércio de escravos. Já nos primórdios do Cristianismo, São Paulo Apóstolo (séc. I d.C.) ensinava a igualdade de natureza entre os homens, judeus e gentios (não-judeus), visto que a Nova Aliança possuía um caráter universalista. Entretanto, não tendo grande influência na sociedade romana imperial, a Igreja recomendava aos escravos serem obedientes e não se revoltarem contra os seus senhores, mas também admoestava os senhores ao bom trato com seus escravos.

A escravidão, era também vista como uma conseqüência acidental do pecado, tal como expõe Santo Agostinho de Hipona (século IV-Vd.C.) que dizia ser todo homem escravo de seus pecados, e que alguns também eram castigados tornando-se escravos de senhores temporais.[3] Mas também considera que os escravos devem aceitar sua condição como punição pelos seus vícios, bem como serem obedientes e amarem seus senhores para não darem razão aos maus-tratos por eles provocados.[4] Pensa, contudo, que a condição escrava era temporária e chegaria um tempo na qual não seria mais necessário o escravismo.[5]

Durante a Antiguidade Tardia (séculos IV-VII), apesar de ainda existir (inclusive fundamentada no direito da época) no Oriente, o escravismo foi, aos poucos sendo substituído pelo sistema do colonato, que por volta do ano 1000 gerou o feudalismo. No senhorio feudal, alguns camponeses estavam submetidos ao regime de servidão, que difere-se da escravidão propriamente dita, já que o servo medieval recebia um pequeno lote de terra para cultivar e possuía um vínculo semi-voluntário com seu senhor.[6] Possuindo um ligação de dependência com sua terra, o servo não poderia ser vendido separado de sal terra.

Voltemos, pois as medidas da Igreja. Em 873, o papa João VIII em uma carta a um príncipe da Sardenha diz:“Há uma coisa a respeito da qual desejamos admoestar-vos em tom paterno; se não vos emendardes, cometereis grande pecado, e, em vez do lucro que esperais, vereis multiplicadas as vossas desgraças. Com efeito, por instituição dos gregos, muitos homens feitos cativos pelos pagãos são vendidos nas vossas terras e comprados por vossos cidadãos que os mantêm em servidão. Ora consta ser piedoso e santo, como convém a cristãos, que, uma vez comprados, esses escravos sejam postos em liberdade por amor a Cristo, a quem assim proceda, a recompensa será dada não pelos homens, mas pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isto exortamo-vos e com paterno amor vos mandamos que compreis dos pagãos alguns cativos e os deixeis partir para o bem de vossas almas.”[7]

De igual forma, as condenações serão reafirmadas pelo papa Pio II em 1462. Em uma época que o tráfico escravo estava ressurgindo na Europa, principalmente devido às conquistas portuguesas[8], Pio II afirma que o tráfico escravo é magnum scelus, um “grande crime”.[9] Outras censuras ao escravismo e ao tráfico serão reforçadas pelos papas como Urbano VIII (1639) e Bento XIV (1741), sendo que o último prescreveu excomunhão para os senhores que maltratassem seus escravos.[10] Gregório XVI, em 1839 dirá em uma epístola que:“

Admoestamos os fiéis para que se abstenham do desumano tráfico dos negros ou de quaisquer outros homens que sejam.” Também o papa Leão XIII, no século XIX apoiará as tendências abolicionistas no Brasil, que obtiveram êxito com a lei Áurea em 1888.

  1. Igreja e escravidão no Brasil

Para tratar acerca das relações entre a Igreja Católica e o Brasil utilizarei de três fontes principais: A obra Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos (fins do século XVII) do padre jesuíta Jorge Benci, os Sermões do Padre jesuíta Antônio Vieira (século XVII) e As Constituiçoens primeyras do Arcebispado da Bahia (1707).

Importante recordar que a Igreja no Brasil, estava submetida ao padroado e ao beneplácito da Coroa Portuguesa, o que reduzia em parte sua autonomia na região, pois a mesma ficava sujeita ao poder régio lusitano. Não tendo poder suficiente para aplicar as determinações papais que sugeriam o fim do tráfico e da escravidão, limitam-se a exortar os senhores no bom trato aos escravos e estabelecer sanções canônicas contra os abusos.[11]

Nos sermões do Padre Vieira podemos observar a reprovação ao tráfico e à escravidão. No Sermão XIV, por exemplo, reafirma a igualdade natural dentre os homens.[12] No mesmo Sermão diz que os negros não são inferiores, mesmo tendo sito gentios e cativos.[13] Sobre o tráfico escravo considera no Sermão XXVII que:“Nas outras terras, do que aram os homens e do que fiam e tecem mulheres se fazem os comércios: naquela (na África) o que geram os pais e o que criam a seus peitos as mães, é o que se vende e compra. Oh! trato desumano, em que a mercancia são homens! Oh! mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas alheias e os ricos são das próprias” (destaques nossos).[14]

Para Vieira, a escravidão além de ilícita atrai pragas e desastres para o Brasil, conforme conclui no Sermão XVII.[15]

Em fins do século XVII, o padre Jorge Benci escreve a sua Economia Cristã dos Senhores no governo dos escravos, onde procura formular quais os deveres dos senhores para com os servos a partir das palavras do capítulo 33 do Eclesiático: panis, disciplina et opus servo – pão, disciplina e trabalho para o servo. Nesta obra, Benci defende que os senhores devem fornecer aos escravos o sutento material (comida e vestuário) e espiritual (catequese e o não impedimento do usufruto dos Sacramentos); a disciplina (ensinando-os e castigando-os, sem, contudo cometer excessos); o trabalho condizente com as condições e capacidades físicas do escravo. (para que não fiquem ociosos, que segundo o autor seria ocasião para pecados) e o descanso durante as noites, Domingos e dias santos.

Embora lembre que nos primeiros tempos do cristianismo era comum os recém-convertidos alforriarem seus escravos, o autor considerando que tal coisa era difícil de ser conseguida da parte dos senhores de seu tempo insiste no bom tratamento que os senhores devem aos escravos, pois para ele é tirano o senhor que não se compadece dos sofrimentos de seus servos.[16]

Passemos, pois às Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia, de 1707. Estas constituições forma promulgadas pelo Primeiro Sínodo Diocesano do Brasil, em Salvador. Suas determinações estiveram em vigor durante os séculos XVIII e XIX.

Estas Constituições dedicaram vinte e três tópicos à questão dos escravos, sendo que as principais determinações foram: exortar aos senhores no bom trato dos escravos fornecendo-lhes sustento necessário em alimentos e vestuários, bem como o descanso nos Domingos e dias santos. Também regulamentou a catequese ministrada aos escravos, bem como proibiu os batismos forçados.[17] Além disso, o Sínodo defendeu o direito dos escravos ao usufruto do Sacramento do Matrimônio, mesmo contra a vontade dos senhores, conforme permitia o Direito Canônico.[18]Outra determinação foi a obrigação dada ao senhores de concederem aos seus falecidos escravos Missas de corpo-presente e sétimo dia de falecimento, bem como uma sepultura cristã.[19] Como pode-se ver, as determinações deste Sínodo episcopal foram fortemente influenciadas pela obra de Jorge Benci.[20]

Por fim, destaco a ação das Irmandades, Confrarias e Ordens Religiosas no Brasil. Muitas destas além de congregar brancos e negros empenhavam-se na arrecadação de dinheiro para comprar alforrias de alguns escravos. Haviam também confrarias específicas para os negros, não só no brasil, mas também em várias partes da África, como a Venerável Ordem Terceira

[1]Levítico XXV, 44-46.

[2] Êxodo XXI, 2-7.

[3] “Esse nome [o de servo, escravo] mereceu-o, pois, a culpa, não a natureza. […] Tornavam-se servos; palavra derivada de servir. Isso também é merecimento do pecado.” Santo Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus. São Paulo: Vozes , 2001, parte II. p. 406. Para aprofundar esta questão vide A Cidade de Deus, parte II, Livro XIX, capítulos XV e XVI.

[4] “A causa primeira da servidão, é, pois, o pecado, que submete um homem a outro pelo vínculo da posição social. É o efeito do juízo de Deus, que é incapaz de injustiça e sabe impor penas segundo o merecimento dos delinqüentes. O Senhor supremo diz: Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Por isso muitos homens piedosos servem patrões iníquos, mas não livres, porque quem é vencido por outro fica escravo de quem o venceu.” Ibid.p. 406.

[5] “Por isso, o Apóstolo aconselha aos servos que estejam submissos aos respectivos senhores e os sirvam de coração e bom grado. Quer dizer, se os donos não lhes dão liberdade, tornem eles, de certa maneira, livre sua servidão, não servindo com temor falso, mas com amor fiel, até que passe a iniqüidade e se aniquilem o principado e o poder humano e Deus seja tudo em todas as coisas.” Ibid. p. 406.

[6] Utilizo a expressão semi-voluntário devido ao fato de que um camponês vinculava-se voluntariamente a um senhor de terras, mas estes contratos geralmente obrigavam os descendentes do dito camponês a vincularem-se ao senhor em servidão.

[7] Denzinger-Sch’ánmetzer.Enquirídio dos Símbolos e Definições nº 668 citado em: BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares, OSB. O Tráfico Negro no Brasil e a Igreja. Artigo digitalizado, disponível em URL: http://www.presbiteros.com.br/Hist%F3ria%20da%20Igreja/Trafico.htm

Acesso em 09/05/2007, às 24 h e 34 min.

[8] A expansão portuguesa em direção a territórios muçulmanos teve para a Igreja um caráter cruzadístico e foi incentivada e legitimada pelo Papado através das bulas Romanus Pontifex (1455) de Nicolau V e Inter Caetera (1456) de Calixto III. Vide MARTINS, Manuel Gonçalves. O Estado Novo e a Igreja Católica em Portugal (1933-1974). p. 1. Versão digitalizada, disponível em URL: http://www.aps.pt/ivcong-actas/Acta191.PDF

Acesso em 09/05/2007, às 24 h e 46 min.

[9] BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares, OSB. Op. Cit.

[10] Ibid.

[11] “Neste panorama, observamos que, no projeto colonizador e evangelizador, Igreja e Estado Português, andavam juntos, uma vez que estavam interligados pela instituição do Padroado Régio; o Rei era a maior autoridade da Igreja, no território português e em suas colônias, e tinha direitos e deveres religiosos que muitas vezes se confundiam.” CASIMIRO, Ana Palmira Bittencourt Santos. Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia: Educação, Lei, Ordem e Justiça no Brasil Colonial. p.3. Versão digitalizada disponível em URL: http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/artigos_frames/artigo_005.html

Acesso em 13/05/2007, às 21 h e 42 min.

[12] “Saibam os pretos, e não duvidem, que a mesma Mãe de Deus é Mãe sua porque num mesmo Espírito fomos batizados todos nós para sermos um mesmo corpo, ou sejamos judeus ou gentios, ou servos ou livres” (Sermão XIV, em Sermões, vol. IX Ed. das Américas 1958, p. 243). Citado em: BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares, OSB. Op. Cit.

[13] Ibid.

[14] VIEIRA, Antônio, SJ. Sermão XXVII, em Sermões, vol. IX Ed. das Américas 1958, p. 64. Citado em: Ibid.

[15] Ibid.

[16] BENCI, Jorge, SJ. Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos. São Paulo: Editorial Grijalbo, 1977. pp. 223-224.

[17] CASIMIRO, Ana Palmira Bittencourt Santos. Op.Cit. p.6.

[18] Em seu Discurso II § 3, o Padre Jorge Benci demonstra que ao contrário do Direito Imperial Antigo que permitia apenas o casamento para os livres, o Direito Canônico o estendia também aos escravos. Para tanto, vide Ibid. p. 102.

[19] BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares, OSB. Op. Cit.

[20] CASIMIRO, Ana Palmira Bittencourt Santos. Op.Cit. p. 9.

SURUBA E SEXO “CULTURAL” NA CAMA DA TV GLOBO. VEJA AGORA NA PÁGINA “VÍDEOS”

NÃO É MORALISMO, NÃO É INGENUIDADE, NÃO É BABAQUICE, é apenas entendendo que os milhões de crianças brasileiras, e nos países de língua portuguesa, não necessitam de estímulo sexual dessa natureza, sem assistência de um(a) sexologo para lhes orientar. elas, as crianças, irão desenvolver sua sexualidade normalmente, como até então, com a colaboração da familia e da escola. entendemos como uma ofensa à dignidade familiar esse tipo de atitude da TV GLOBO e a permissividade por parte das autoridades do setor. a dignidade que vá as favas pois “os senhores da mídia” estão faturando milhões e milhões com momentos como esse que nada mais é que um ” treinamento” para o ensino do sexo à distância da pior forma possível. um ensaio à prostituição. por favor senhores, respeitem seus filhos, suas filhas, seus netos, suas netas já que não respeitam os nossos e as nossas. já temos prostituição infantil acima dos índices não suportáveis. vejam, amigos leitores, que até os rapazes que aparecem nas cenas sentem-se envergonhados para tocar em um assunto que ainda não está maduro em suas consciências. esta é a cultura que jornais, rádios e outros meios aplaudem diariamente, estimulando o “clic” num canal aberto, cuja concessão é do governo federal, portanto, nossa. o governo, por sua vez diz: NÃO PODEMOS CENSURAR, claro temos eleições este ano.

o vídeo de que trata este texto ficará apenas para que os leitores tomem consciência da gravidade e por alguns dias.

O EDITOR (que não gostaria de editar este post)

COXA de MÃE PROTEGE FILHO – conto de jb vidal

  baseado em fato real e os personagens existem e estão vivos.

o dia não lembro, ou melhor, a noite, mas o vento nordeste soprava forte, aliás, como sempre o faz  naquela época do ano, a época fora agosto de 1996.
                  acompanhava o nordeste uma chuva fina, daquelas que insistem em molhar os ossos. a região que recebia esta visita da natureza, era a Pinheira no município de Palhoça,  Sta. Catarina.
                  desde o início, a noite insistia em anunciar algo mais. tornava-se a cada instante mais encarrancada, ameaçadora, tipo mau-presságio.

                                                                     -.-
                 
                   sol, calor, chuva, frio, noites mal ou nem dormidas, o homem, determinado a chegar àquela casa no alto do morro da Pinheira, balbuciava pequenas palavras com grandes exclamações ao caminhar no acostamento da BR-101; pensava “ que porra! ninguém dá carona para alguém com mochila nas costas! o Cazuza tinha razão, a burguesia fede! filhos da puta!” mas, com o olhar fixo nos pés, como a temer que os perdesse, o homem seguia, e seguiu por uma semana, à pé, caronas de caminhoneiros, poucas, à pé. 
                   avançava. pés inchados, trôpego, o suor arregaçando os poros dava-lhe a sensação de que se desmanchava. o forte cheiro, de trilhões e trilhões de bactérias mortas, apodrecendo nos sovacos, na bunda, no saco, alcançava os pássaros em pleno vôo.
                  “comer! ah! comer! quando verei comida? deus existe? se existe para quê criou esta merda? se não existe, porque tanta gente mentindo que sim? as religiões são  mentiras organizadas? para que fim? ah! poder e dinheiro! Igreja e Estado! que dupla! sempre andaram juntos! objetivos comuns, dinheiro e domínio! esperança é mercadoria com prazo vencido! puta que  pariu! o quê que eu tenho com isso?  preciso é chegar antes que  morra de fome; eh! eh, eh, eh e se eu morresse e encontrasse com deus? ficaria com aquela cara de bunda olhando prá ele? sei lá!… mas, ele me perdoaria, afinal, é o que manda a gente fazer!” pensara, olhando a imensidão da estrada que desaparecia na garganta do horizonte.
                  nos restaurantes e bares encontrados no caminho – nada – quando o viam todos lhe davam as costas, os seguranças, pelo braço, o jogavam de volta à rua, os homens seguravam firmemente seus pertences de mão – chave da BMW, celular – as mulheres apertavam seus filhotes contra suas coxas.
                  que tipo de ameaça inspirava aquele homem com o olhar vencido pelos sofrimentos? vergado por um metro e oitenta de fome e solidão? quê poderia fazer com as chaves da BMW? dar uma voltinha no Batel? e o celular? ligar para quem? ah, sim, para Deus, poderia perguntar se no céu tem biguemeque!? jamais revelariam.
  

                                                                   -.-                  

                  da casa no alto da Pinheira, um outro homem, mais baixo mais forte, olhava o infinito por entre as nuvens que se tornavam ameaçadoras.
                  sempre foi dono de um olhar investigativo, desconfiado, atento.
                  no final daquela tarde balançava-se na rede da varanda. os olhos a buscar algo que não saberia identificar. lançou, por três vezes, o olhar sobre o mar esforçando-se para ouvi-lo além de vê-lo, não conseguiu, virando o rosto para o lado apanhou, de uma só vez, todo o vale, ficou nesta posição até olhar, de chofre, para o interior da casa. os pêlos do corpo levantaram-se.
                  teso, entrou e procurou alguém ou alguma coisa.
                  estava só a mais de um mês, mesmo assim, não poderia estar enganado, a sensação de presença era fortíssima. Fuzico, o cãozinho sem origem, que se autoproclamara guardião da área, passou a rosnar e latir em todas as direções; a respiração tornou-se ofegante, a musculatura contraiu-se e os pés mal tocavam o chão; procurou em todas  dependências, atrás das portas, embaixo da cama, saiu do interior e foi ao socovão –  sempre são surpreendentes – vasculhou tudo, nada.

                  voltou à rede, agora todo molhado pela chuva fina que começara a cair. estremeceu-se “ será de frio ou de medo”? perguntou-se em voz alta; lembrou da garrafa de pinga amarelinha que havia trazido de Morretes  e andou lentamente até a cozinha, notou que não havia mais que um gole. sorveu-o.
                  “ é preciso coragem para enfrentar o medo” gaguejou o pensamento, “ não há ninguém aqui, que merda é esta? o que está acontecendo comigo? será o fato de estar tanto tempo sozinho? não, um mês é muito pouco para alterar os sentidos; vou esquentar a janta e tratar de dormir, quero começar aquele trabalho bem cedinho”
                  foi o que fez, jantou e deu de comer a Fuzico. trancou as portas e janelas com cuidados além do costume. no banheiro, olhou-se no pequeno espelho mas seu rosto não cabia nele, afastou-se um pouco – “ agora sim” –  estava crispado, tenso, pálido, o que fazia a barba aparecer ainda mais. fitou-se por alguns segundos  “o que está havendo? que merda é esta?”com estes pensamentos encaminhou-se para a cama.

                                                                    -.-
                                                                  
                  noite alta. o homem, que saíra de Curitiba, há uma semana, subia o morro da Pinheira.
                  vento, chuva, raios. o corpo em pedaços.
                  a alma a ponto de abandonar aquilo.
                  roupa encharcada, mochila de arrasto, descrente de tudo, faminto, pés sangrando, enlameado, auto-estima perdida não sabe quando, fedendo no limite, prestes a crer em Deus como última saída.
                  buscava, durante os relâmpagos, avistar a casa; em uma fração de segundo, viu-a, uma sensação entre o prazer e a dor, tomou conta do seu frágil corpo ou do que dele restava.
                  a casa, às escuras. “ele está dormindo! ou será que saiu? foda-se, cheguei!” bateu na porta com as mãos, cabeça, joelho, nada! três, quatro, seis vezes, nada.                                                                                                                                                                             decidiu atirar-se contra a porta ao mesmo tempo em que, aos prantos , gritava  “ abre porra! porta! porra! porta! porta!” deixou-se escorregar até o chão.
                                                                      -.-                                                                 
                 

                    mesmo depois de estar deitado, o homem tremia, rolou-se na cama por muito tempo; os sons produzidos pelo vento e a chuva, já não eram aqueles ruídos que induzem ao descanso e ao prazer, naquela noite, eram acordes de marcha-fúnebre. olhos fixos no teto, adormeceu.
                 
                    o mundo parecia desabar, batidas na porta, gritos e batidas.  a insistência fez com que acordasse, ao mesmo tempo em que dava um pulo e se colocava em pé, transpirando aos cântaros indagou-se “ quem será? a voz é conhecida, será aquele cara com quem briguei ontem no Bar do Gaúcho? o que ele quer? o cara é louco, pode querer me matar! mas não foi pra tanto; se o prenúncio da morte é isto é uma merda! porra! reaja cara! és um homem ou um rato? puta que  pariu, sou um bosta mesmo! lembrar-me de ratos numa hora destas!”
                  jamais soube se era suor ou urina o que lhe escorria pelas pernas.
                 
                  respirou fundo, deu um urro, em razão do ar quente que aspirara lhe queimando os pulmões. a asma tem lá suas razões.
                 
                   pensou no pai, na mãe, nos filhos, nas mulheres que amou, nos amigos, arrependeu-se dos vinhos que não tomara, lembrou-se de uma garrafa que deixara pela metade no Bife Sujo – “vou acabar logo com isto!” – avançou decidido em direção à cozinha, abrindo a gaveta de talheres encontrou a melhor arma que havia na casa, um garfo com dois dentes de mexer em frituras. dirigiu-se para a porta. a meio caminho parou, como para montar uma tática de ataque “ ou seria melhor de defesa?” ainda voltou o olhar para Fuzico, que entrincheirado entre o fogão e a geladeira emitia uivos esganiçados.

                    engoliu nada e abriu.
          
                  a chuva fina, do inicio da noite, transformara-se em tempestade, não tinha noção de quanto tempo se passara desde a decisão de dormir. contra a luz dos relâmpagos, agora muitos, viu aquela figura alta, esquelética, assustadora que,  em pé, gritava:

– Kambé filho da puta, abre a porta Kambé!
                                          
                  Cláudio Kambé – que ali estava com o objetivo de recolher-se afim de operar seu ofício de artista plástico, usufruindo da paisagem e tranqüilidade do lugar,  lembrou-se dos filmes de vampiro e dando um salto para trás formou uma cruz com o indicador direito e o garfo sentenciando:
– vade retro Satanás! e soluçando entre lágrimas dizia “vade retro, vade retro, vade…” – baixa esse garfo Kambé que vou entrar! já com um pé dentro. Kambé recuando lentamente com o corpo todo a tremer pergunta:
– Batista é você? não, não é  possível que seja! você deve ter morrido,  isto é a alma penada!
– vai a merda Kambé, deixa eu sentar que estou quase morto, tu não sabes o que passei prá chegar até aqui.
– claro entra, entra, senta aí, não não aí não, senta naquela cadeira de praia você é puro barro, e que fedor! meu Deus! não é possível! isto só acontece comigo! fala Batista! começa a dizer o que veio fazer aqui seu porra! fala! porra! – sentando no sofá
– é o seguinte, meu amigo, mas antes de tudo, tu não tem algum rango por aí? tô mortinho”
– claro! mas vai falando enquanto eu preparo. Cláudio Kambé começa a mexer em pratos e panelas; “a fera já está domada” pensou Batista de Pilar com um leve sorriso no que parecia ser uma boca. 
– então…, é o seguinte, encontrei outro dia com o Rio Apa lá no Bife, ele tratava de um livro com aquele pessoal dele, e falei que estava querendo parar de beber, parar mesmo, mas que em Curitiba eu não conseguiria, tinha que me afastar de lá, sabe como é não é Kambé!? a mesma rotina, não deixa…, aí ele disse que se fosse essa a minha intenção realmente, que eu poderia vir para cá, aí pensei, pensei, e vim, é isso.
– é isso! é isso!? não é? seu demônio dos infernos! e eu? você não sabia que eu estava aqui? trabalhando! que precisava estar só!? concentrar-me, deixar fluir a inspiração, criar!
– justamente! pensei que seria bom para você uma companhia como eu, você pintando   e eu fazendo poesia…vai ser bom!
– vai ser bom porra nenhuma! maldição! rugiu Kambé servindo a comida.
– eu preciso parar de beber mermão, eu tinha que sair de lá, pelo menos por uns tempos.
– e eu que se fôda não é assim?  nisto não pensou! quer curar o teu alcoolismo me atirando na miséria? se eu não faço meus quadros eu não ganho cara! a tua presença só atrapalha! escuta aqui Batista! você descansa e amanhã se manda tá entendido?  estamos conversados!
                   as lágrimas do Batista salgavam mais a gororoba que comia de colher      
cheia, mastigando  com a boca aberta derrubava excessos de comida no colo, ainda encontrou forças para dizer:

– vai ser bom! e tu não vais ficar com a consciência pesada por não permitir que eu me trate.
– seu filho duma puta! quem é você para falar de consciência!? qual é a tua com relação ao meu trabalho? na verdade… não estás nem aí para o que possa acontecer comigo, se vou produzir ou não, o que te interessa é fazer o que queres, como queres, no momento que queres, egoísticamente, os outros, para você, são inimigos, responsáveis pela tua miséria e loucura! eu não tenho nada a ver com isso cara, é problema teu! essa é a tua opção de vida, ou o que de melhor ela te deu! assuma! ou te repense e vá a merda!
    
        fitou durante alguns segundos aquele homem curvado sobre o prato vazio,
pois  não havia mais o que oferecer, sentiu náuseas e foi para o quarto de onde gritou:

– toma banho, durma no sofá e amanhã te manda!” 
                  
  “ quê dia! quê dia! agora estou entendendo, estou entendendo toda aquela      
 aflição do fim da tarde!” os pensamentos em desordem se atropelavam “ filho da puta! consciência! que atrevido! não tenho nada a ver com isso! e o meu trabalho? aquela aflição já era a energia dessa carga pesada chegando! consciência! como se ele tivesse uma!” apagou a luz e adormeceu.
                  
                   porque dormia, não ouviu o ronco das tripas, nem viu um brilho estranho nos olhos daquela figura, em pé, olhando para a cama. ah se tivesse visto!
                  
                                                                    
                  passava  pouco das quatorze horas, quando Claudio Kambé terminou de arrumar suas malas. a chuva parara desde cedo. antes de sair cutucou o braço do Batista duas vezes, que roncava como se fosse uma moto-serra,  e fulminou:
estou indo Batista! espero que te  recuperes bem! abriu a porta e iniciou a penosa decida do morro ensaboado pela chuva forte.          
                  após percorrer algo mais que cinqüenta metros ouviu:

 – Kambé! Kambéééé!

– é lá embaixo, à direita, e o dono é conhecido por Gaúcho!
            um leve sorriso amenizou a descida de Cláudio Kambé.

A AJUDA de SÃO JORGE ao PADRE – conto de tonicato miranda

O homem se acercou da cabine, meio tímido, se ajoelhou, arrumou o paletó e disse:

__ Padre, eu pequei.

Dentro da gaiola de madeira de mogno escuro trabalhado, o padre afirmou:

__ Certo.

__ Qual certo o quê, está tudo errado! – exclamou o homem, irritado.

__ Calma, homem!

__ O senhor me pede calma porque não sabe o que fiz.

__ É isto mesmo, estou aqui para saber o que o senhor fez e lhe absolver deste crime dos diabos.

__ E agora esta, quem disse que eu cometi um crime. E que conversa é esta de chamar o nome do proscrito?

__ Desculpe-me, esta é apenas uma forma de expressão, meu senhor.

__ … e eu não sou senhor coisa nenhuma, Senhor é Deus, e o padre deve saber muito bem isto.

__ É claro, meu filho, Deus é o Senhor de todos nós.

__ É isto mesmo, Deus e somente ele pode aliviar minha dor, me conceder o perdão.

__ Deixa comigo, meu filho. Eu vou…

__ Pera lá, não sou seu filho, nem lhe dei esta intimidade, padre.

__ Meu filho é outra forma de expressão.

__ Está certo. Vamos começar tudo novamente.

__ Está bem, estou ouvindo, siga adiante…

__ Como é? Então o senhor sabe?

__ Sabe o quê? E olha que quem está agora me chamando de senhor é o amigo.

__ Amigo?? Estou perguntando porque o padre pediu para seguir adiante e quem segue adiante é camioneiro, exatamente o que eu sou. Então como o padre sabia?

__ Eu não sabia de nada, siga adiante é outra forma de expressão. Vamos lá, confesse logo seu pecado, homem. – adiantou o padre já um tanto irritado
__ Padre eu pequei porque atropelei um homem e não prestei socorro. Com a velocidade que vinha e naquela curva da estrada, nem vi direito.

__ Isto é grave, meu filho. Mas ele morreu?

__ Não sei dizer. Uns amigos que encontrei depois num posto de gasolina, uns 50 km adiante, me disseram que sim. O mais estranho é que dizem que o homem morreu com o braço estendido fazendo aquele gesto de recolhimento de dois dedos e o dedo central esticado.

__ Vou pedir para você rezar dez padres nossos e cinco atos de contrição. E mais: terá de acender umas doze velas a Nossa Senhora dos Desvalidos para que possa purificar a sua alma, meu filho.

__ Mas padre, já estou ficando irritado, e quando acontece isto, não respondo por mim. Os padres nossos e as velas estou de acordo, mas os atos de contr…

__ Esta bom, meu filho, não precisa ficar irritado. Eu retiro os atos de contrição. Se quiser rezo os padres nossos por você. Espere, deixe que lhe diga, vou interceder por você junto a São Jorge – que é o senhor dos motoristas. Vá em paz, meu filho, acenda as velas.    – E o padre pensou com seus botões “Meu São Jorge, você que tem capa e lança, galopa ligeiro sobre um cavalo branco, proteja-me deste dragão. Prometo rezar cem Ave Marias até o entardecer”.

 – esta coisa que o senhor disse aí. Não sei fazer isto não. Pede outra coisa ou então entro dentro dessa cabine e nós vamos dar um jeito no pagamento do pecado. Não agüento mais esta culpa estourando igual a foguetório dentro do meu peito.

__ Vá com Deus, meu filho. – E o padre acrescentou ao seu pedido para São Jorge “Proteja-me dos camioneiros mal humorados”. Lembre-se que todo dia tenho de atravessar esta estrada que passa aqui na frente da paróquia para ir lá para o convento. Saudações aos outros santos de sua predileção. Até qualquer necessidade!

__ Está certo assim, seu padre. Até logo, Obrigado.

CHAVES PARTIDAS por helena sut

Como uma percepção tardia e inquietante, o pensamento é dominado pela imagem de chaves quebradas. A mão anônima me entrega os pedaços. Com os olhos trêmulos, observo o brilho do metal, dividida entre a perplexidade e a angústia. A lembrança do fragmento do sonho não revela a continuidade, apenas me devolve a chave partida e domina o presente. Restituíram-me as chaves, mas já não encontro os cadeados ou as fechaduras. Sou guardiã de uma ruptura definitiva que não poderá ser descerrada com a lembrança. Sou refém de uma percepção onírica que abre algumas fechaduras na tentativa de se encontrar como o todo.

Perco-me numa primeira interpretação. As chaves partidas poderiam ser o tempo desvirginado, a imortalidade ou a morte; a impossibilidade de dar corda no relógio, a negação ao domínio do tempo. Mas por quê as chaves retornam como reflexões recortadas, como uma interrupção metafórica para as amarras do esquecimento? Por quê quebrar as peças se não há engrenagens badalando a consciência?

As interrogações acompanham as fluentes aflições. Chaves? A memória é rastreada, alguma chave perdida, alguma chave reencontrada… O tempo percorre o leito em busca das fontes primárias e do destino liberto dos cursos: um território clandestino que fecha a estratégia contra as próprias fraquezas, um horizonte ostensivo que dispersa o olhar com o brilho do fragmentado artefato de metal. Sou a chave partida ou a fechadura que não se encontra? Sou o recorte do sonho ou a narrativa não concluída denunciada num ato falho?

Tantas chaves sem encaixe são entesouradas na gaveta da cabeceira. Troquei alguns segredos ao fechar portas, desisti de destrancar algumas confissões…

Novos questionamentos montam e desmontam realidades como princípios e desfechos poéticos. As chaves de um poema que não escrevi, as chaves de uma leitura que abandonei, as chaves de uma decisão que não assumi, as chaves de um olhar que não retribuí, as chaves partidas que não me deixam esquecer…

Com chaves falsas tento encarcerar o que não domino, guardar a sete chaves os segredos denunciados nos fragmentos e completar as reticências olvidadas com um novo parágrafo a ser reconstruído em novos portais. Talvez amanhã a realidade desperte para ações destrancadas e jogue ao vento a vida sem obstáculos.

O VERDADEIRO PROBLEMA de HILLARY com MARTIN LUTHER KING por barbara ehrenreich.

Os direitos civis dos negros não foram conquistados por homens (ou mulheres) trancados em escritórios. Foram ganhos por um movimento de massas de milhões de pessoas que marcharam, ficaram sentadas, suportaram prisão, tiros e surras pelo direito ao voto e a transitar livremente.

Barbara Ehrenreich*

No começo pensei que era outra trapaça branca com a cultura negra e a criatividade: os Rolling Stones apropriando-se do Bo Diddley beat, Bo Derek praticando esporte com o cabelo cheio de trancinhas e agora Hillary, dando crédito a Lyndon Baines Johnson para votar a lei de direitos de 1965. Se essa honra já foi concedida a um branco, LBJ era uma curiosa opção desde que passou toda a convenção democrata de 1964 manobrando para evitar que o Partido Democrata pela Liberdade do Mississippi conseguisse ocupar sequer uma cadeira dos dixiecrats. Segundo os critérios de Clinton, em 1972 deveríamos ter confiado em que Richard Nixon ia legalizar o aborto.

Mas o comentário de Clinton sobre LBJ revela algo ainda mais preocupante do que a surdez racial: uma teoria da mudança social que é tão elitista como incorreta. Os direitos civis dos negros não foram conquistados por homens (ou mulheres) trancados em escritórios. Foram ganhos por um movimento de massas de milhões de pessoas que marcharam, ficaram sentadas, suportaram prisão, tiros e surras pelo direito ao voto e a transitar livremente. Alguns eram estudantes e pastores, muitos eram agricultores pobres e trabalhadores urbanos. Ninguém tentou ainda fazer uma lista com seus nomes. Também é problemático, evidentemente, que se reduza o movimento pelos direitos civis a dois nomes: Martin Luther King Jr. e Rosa Parks. O que aconteceu com Fannie Lou Hammer, que chefiou a delegação do Partido Democrata pela Liberdade do Mississippi na convenção de 1964? E com Ella Baker, Fred Hampton, Stokely Carmichael e centenas de outros líderes?

A teoria da história das grandes personalidades pode simplificar a escrita de livros didáticos, mas não lança luz sobre como a mudança realmente ocorre. Os direitos das mulheres, por exemplo, não foram obtidos por Betty Friedan e Gloria Steinem enquanto elas tomavam chá. Tal como Steinem seria a primeira em reconhecer, o movimento feminista dos anos setenta fincou suas raízes em volta de mesas de cozinha e de cafés, impulsionado por centenas de milhares de mulheres anônimas e fartas de serem chamadas de meu bem no trabalho e de serem excluídas dos trabalhos “de homens”. As estrelas da mídia, como Friedan e Steinem fizeram um brilhante trabalho de proselitismo, mas precisaram de um exército de heroínas anônimas para encenar os protestos, organizar conferências, repartir pasquins e difundir a mensagem para a vizinhança e os colegas de trabalho.

Mudança, este ano, é um grito de guerra democrata, mas se eles não sabem como ocorre a mudança, não estão preparados para promovê-la por si mesmos. Um caso ilustrativo é o plano de “reforma sanitária” de Clinton, de 1993. Ela não fez nenhuma viagem pelo país para ouvir o que as pessoas tinham a dizer a esse respeito, nem teve reuniões televisionadas apresentando comoventes testemunhos locais. Em vez disso, juntou durante meses uma tropa de especialistas e palacianos em reuniões a portas fechadas, algumas rodeadas de tanto segredo que até os próprios participantes foram proibidos de usarem lápis ou caneta. Segundo David Corn, de The Nation, quando Clinton foi informada de que 70% dos americanos pesquisados eram favoráveis a um sistema de pagamento individual, respondeu com sarcasmo: “agora me diga alguma coisa interessante”.

Poderia ter feito as coisas de maneira diferente, de um modo que não deixasse os 47 milhões de americanos sem cobertura sanitária que existem atualmente. Poderia ter começado percebendo que não ocorrerá nenhuma mudança real sem a mobilização das pessoas comuns que querem a mudança. Em vez de seqüestrar a si mesma com economistas e consultores de negócios, poderia ter se reunido com organizações de enfermagem, grupos de médicos, sindicatos de trabalhadores sanitários e advogados de pacientes. E, depois, poderia ter ido até a população e dizer: estou trabalhando por uma mudança séria na forma de fazer as coisas e será necessário vencer duras resistências, ou seja que vou precisar de todas as formas possíveis de apoio.

Mas ela fez do seu jeito e acabou com um plano de 1300 páginas do qual, de um lado e de outro, ninguém gosta e que ninguém sequer compreende, o que demonstra que a mudança histórica não é feita pela garota mais elegante, mesmo que ela divida a cama com o presidente. Da mesma maneira, ignorou o movimento contra a guerra desta década e perdeu, com isso, um incalculável número de votantes democratas, feministas incluídas.

Eu gostaria de pensar que Obama, com sua experiência na organização da sua comunidade e com sua insistência em estimular as pessoas, entende tudo isto um pouco melhor. Mas, seja qual for o presidente eleito este ano, não haverá nenhuma mudança real de cunho progressista sem um movimento social de massas para trazê-la, seja pedindo contas ao presidente ou à presidenta, seja impondo a ele, ou ela, uma verdadeira prova de fogo. E um movimento social não começa na cúpula. Começa exatamente agora, com vocês.
_________________________

*Barbara Ehrenreich é uma jornalista norte-americana de grande reputação como pesquisadora das classes sociais nos EUA. Esta atividade de pesquisa tem ocupado toda sua vida desde que se infiltrou, usando um disfarce de si mesma, na classe operária que recebe salários de miséria, em seu já clássico Nickel and Dimed [Por quatro centavos], um relatório exaustivo das enormes dificuldades pelas que passam muitos norte-americanos que precisam trabalhar duramente para sair adiante.

Depois, anos mais tarde, repetiu essa operação colocando o foco na classe média, mas desta vez, para sua surpresa, não acabou trabalhando de incógnito entre trabalhadores, senão que, basicamente, teve que tratar com desempregados mergulhados no desespero de terem sido expulsos do mundo empresarial. O resultado desta recente incursão é outro livro, mais recente, Bait and Switch. The (Futile) Pursuit of the American Dream. [Gato por lebre. A (fútil) busca do sonho americano]. Atualmente dedica muito tempo a viajar por todo o país com o propósito de contar suas experiências para diversos públicos que compartilham suas mesmas vivências. Escreve freqüentemente em seu blog e está muito envolvida em montar uma nova organização dedicada a articular os desempregados de classe média.

Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

carta maior.

PALHAÇO RA-FACISTA por walmor marcellino

Eu não deveria ocupar o meu e o tempo de vocês com tais assuntos, porém o destino nos cobra ágios, deságios e espantos: Dia 28 último, noite avançada, o palhaço trivial Arnaldo Jabur foi convocado a expender suas considerações filosófico-políticas sobre sociedade, política, cultura e o mundo, a moralidade e seus costumes, o bem e o mal; pois essa é a tarefa prioritária numa “imprensa livre e democrática”  e isso lhe é perfeitamente ajustado. A gente não deveria estranhar essas esdrúxulas coisas, mas existem fatalidades…
E ele então, que vive se excedendo como a Shell, atirou mais última: não disse que os árabes e jabures seriam uma sub-raça comparada com a anglo-saxônica, nem mesmo se referiu dessa vez aos negros, esquimós e curdos, ao modo depreciativo; deixou até asiáticos, chicanos, latinos e brasileiros de lado e… tcham, tcham!… apostrofou os índios bolivianos.
Sabemos que Arnaldo Jabur, Diogo Mainardi et al. são aberrações de circo e ganham notoriedade para sardonizar não ao Sarcosy, que é patife novo no cenário decadente da França, nem ao Uribe, que é um bandoleiro autorizado a traficar com os Estados Unidos em cima. Esses como alguns outros rapazes da imprensa notória têm sido induzidos agentes da civilização ocidental cristã, introduzidos no noticiário das cotações da Bolsa de Nova York, Frankfurt, Londres e Tel-Aviv, o que é uma nobérrima missão ultra-secreta. Porém, sendo trêfegos palafreneiros, bandeirolas ao alto e matracas à frente, das idéias “politicamente confiáveis”, essa escória intelectual a soldo se excede como a Exxon e a Shell.
Não é que o patife do Jabur disse altissonante que os “cholos” (como eles são apontados desprezivelmente pela “aristocracia altiplana” até agora dominante), isto é, os índios bolivianos jamais poderão se igualar a feitos e obras da “sociedade superior boliviana”, ou agir e pensar produtivamente como “seres humanos normais” (brancos, ricos e fâmulos cosmopolitas, quis dizer). Sei que diante de tal acinte racista, os “cholos” bolivianos, o Evo Morales nem os nossos indígenas ou todos nós não vamos invocar a Lei Afonso Arinos contra o pilantra da Rede Globo. Todo mundo anda ocupado com a subsistência honesta.
Pode ser inusitada, mas a expressão ra-fascista é tão só uma síncope de racista e fascista, como deveríamos indexar e condensar esses conceitos chulos (não cholos)… Pois o dia 28 foi uma dessas fatalidades dificilmente explicáveis ao bom-senso, quando eu vi e ouvi à noite mais um aberrante jornalismo da TV-Globo. Imperdoável!

O CÁLICE SAGRADO e a LINHAGEM SAGRADA – de lázaro curvelo chaves.

Ao final do século XIX a pequena cidade de Rennes-le-Château, no sul da França, recebeu um novo pároco, Bérenger Saunière. Dando início a obras de reforma na nave da igreja precisou escavar mais fundo e encosanto-graal.jpgntrou alguma coisa que o projetou internacionalmente dando-lhe incríveis poderes sobre seus pares e superiores da época, além de lhe granjear espantosa fortuna. Desenvolveu um sistema de crenças peculiar e foi tratado com calmo desdém pelo Vaticano. Já em seu leito de morte pediu um sacerdote. Após a confissão o padre chamado estava aos prantos, não lhe concedeu absolvição e deixou a batina pouco tempo depois.

Tudo isto é história. Fato concreto. A partir daí, Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln fazem profunda, bem documentada e demorada investigação buscando pistas ao que não ficou formalmente registrado nos anais da história: o que teria o pároco encontrado? Um tesouro? Pergaminhos? De que natureza? Como aquela descoberta lhe granjeou tamanha fortuna?

Quando em busca de respostas, frequentemente nos deparamos com questões ainda maiores e mais profundas. Foi o que ocorreu com os pesquisadores ingleses.

Os cátaros
No século XIII desenvolveu-se no sul da França um cristianismo diferente. Acreditava que Jesus de Nazaré tinha uma natureza primordialmente humana e a interpretação das Escrituras era feita de maneira independente do Vaticano que, intolerante, ordenou o massacre dos desobedientes. A história dos Cátaros, riquíssima e bem tratada no livro, leva-nos quase a ver pessoas desenvolvendo uma estrutura societária diferente e, por isso, pagam com a vida. O papa ordenou que se passasse a todos os hereges a fio de espada. “Como discernir os católicos fiéis dos hereges?” – ao que o papa teria respondido: “matem a todos. Deus reconhecerá os dele!” Foi o maior genocídio bem documentado da história da Europa. Os Templários tinham simpatias com as crenças dos Cátaros e, mesmo por isso, não participaram do massacre.

Mas… Como essa fé se desenvolveu naquela região? Baigent, Leigh e Lincoln discorrem sobre a tradição ligada à vinda de Maria Madalena e muitos dos primeiros cristãos àquela região, cheia de Igrejas e esculturas a Santa Maria Madalena num período em que, para se contrapor a uma tendência a equipará-la a Maria, mãe de Jesus, o Vaticano difundiu a extravagante idéia segundo a qual Madalena teria sido uma prostituta. Nada exista nas Escrituras a corroborar esta versão que, contudo, ganhou o imaginário popular.

Com quem mais veio Madalena ao sul da França? Que documentos ou que idéias portava consigo? Há inúmeros vestígios – todos criteriosamente arrolados nesta Obra – e uma rivalidade entre o cristianismo paulino e aquele desenvolvido pelo núcleo de que Madalena fazia parte e que, quase com toda a certeza, estava na raiz dos primeiros lustros da fé cristã. A consideração da mulher, não apenas como “vaso sagrado”, mas como indivíduo humano com os mesmos direitos que os de sexo masculino, suprema ofensa para o machismo que imperou na tradição do Vaticano. Se entre os cátaros as mulheres podiam ser sacerdotes e debatiam as Escrituras em igualdade com os homens, para o Vaticano isto era supremo escândalo.

Mas… Como compreender a devoção dos Templários a Maria Madalena e a São João? Por que se recusaram ou, de qualquer forma, encontraram meios de não participar do infame massacre de cristãos no sul da França no genocídio que entra para a história como Cruzada Albigense? Para isto foi necessário visitar a história dos Templários e, nela, os pesquisadores encontraram referências a uma Ordem que precederia os Templários e teria mesmo sido uma com a Ordem do Templo até o corte do olmo.

O Priorado de Sião
Como rastrear uma Organização Secreta milenar que, sobretudo, luta por manter-se secreta? De novo, há inúmeros vestígios e, mesmo relutando em aceitar esta teoria os Autores precisaram arrolá-la e registrá-la pelo menos até que surja uma explicação mais convincente aos fatos descobertos.

A obra dos britânicos é uma investigação pioneira que Dan Brown utilizou em seu romance “O Código Da Vinci”, escrevendo de maneira mais fascinante, mas sem o compromisso investigativo de Baigent e companheiros.

Fato é que, partindo de premissas diferentes e abordando aspectos distintos, um número cada vez maior de Autores concorda em alguns pontos:
•  Os Templários fizeram escavações nas ruínas do Templo de Salomão e encontraram pergaminhos preciosos;
•  Nove cavaleiros iniciais estiveram por nove anos na Terra Santa dedicados mais à escavação do que propriamente à proteção de peregrinos;
•  A Ordem foi organizada em teoria antes de existir na prática;

POEMA (I) de joanna andrade

Sobre vivo o voo com ventos fortes
Os olhos cheios de lagrimas salgadas
Flutuam tapetes coloridos em busca de Alladin
Cegos por alguns instantes
Corre o risco de ser roubada a vida bem embaixo do nariz
Sobe e desce súbito abre alas
Fecho éclair de creme branco com açúcar de confeiteiro
Num sonho recheado de prazeres
Querubins bisbilhotam com olhares curiosos e cabelos despenteados
A ilusão que transcende a tristeza
O quadro azul de Zephyr
A chuva de anis salpicando as violetas
As bicicletas coloridas rodando
Os homens o arco-íris e o pote de ouro
Sobre vivo o vôo com ventos fortes
Os olhos embaçados e a mente perdida
A verdade não vem para todos com a mesma intensidade da mentira
Asas imaginárias
Planos não atingidos
Sobre vivo o vôo com ventos fortes
Os olhos cansados e a chave de luz desligada
Sem Noel

Click

MOÇAS das DOCAS poema de noémia de souza/moçambique


Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço.
Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,
viemos do outro lado da cidade
com nossos olhos espantados,
nossas almas trançadas,
nossos corpos submissos e escancarados.  

De mãos ávidas e vazias,
de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,
de corações amarrados de repulsa,
descemos atraídas pelas luzes da cidade,
acenando convites aliciantes
como sinais luminosos na noite.

Viemos …

Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,
do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,
do doer espáduas todo o dia vergadas
sobre sedas que outras exibirão,
dos vestidos desbotados de chita,
da certeza terrível do dia de amanhã
retrato fiel do que passou,
sem uma pincelada verde forte
falando de esperança.

LUA NOVA poema de jorge barbosa filho

eu não queria ir embora,
embora te esperasse aqui,
fora de mim e de tudo em volta.

esse em volta traz em si
um silêncio mundo afora,
afora a ânsia da demora.

a demora de certa forma,
forma um fino canto
que encanta quem namora:
essa loucura era uma roda

que roda a te chamar a toda hora
e que por ora, no entanto
não preciso mais agora,
agora que já fui embora.

AS SOMBRAS PRÓFUGAS poema de walmor marcellino

As sombras prófugas
Vou só até a esquina,

comprar longos fósforos,

meu aquecedor não aquece

sem fósforos acesos.

Compro pão d’água,

não posso viver a pão e água.

A dignidade me compraz no modo

eternidade sem fim.

Porém posso perturbar-me

se me vou comovido;

posso masturbar-me

nessa dolência

de alguma vontade absurda.

Poderia revoltar-me, mas

não posso bastar

a mim mesmo. Alter eco ma non troppo.

É preciso ajustar esta imagem num canal aberto

tão dissimulada quanto conveniente,

sobremaneira pormenores.

Minha independência é um rasgo

neste céu fundo infinito.

O AUTISTA e DESTINO – dois contos de raymundo rolim

O autista

Chamavam-no o Louquinho da Rua. Outros juravam que era assim desde pequeno. E havia também quem afirmasse que o mesmo ficou daquele jeito por desconhecer o paradeiro da mulher de seus amores que simplesmente desaninhou-se num dia de tempestade entre raios e trovões. O certo é que o pobre homem escapava ao largo da imaginação e da percepção da gente do lugar. Ninguém nunca o ouvira pronunciar palavra. Sempre cabisbaixo, aparência desleixada, um chapéu posto de qualquer jeito sobre a cabeça grande. Saía pela manhã e só retornava quando o dia vinha transpondo a linha do horizonte. Muitos creditavam ao Louquinho a façanha de fazer sumir o sol – tamanha à fidelidade do tempo decorrido em que ele aparecia quando a bola vermelha de fogo se jogava por detrás dos montes e dos olhos de todos dali -. Uma vez, a estrela do dia, alongou-se um pouco mais em seu curso, (Josué 10:12). * Saíram às ruas. Em vão esperariam que lá, no topo da colina, o autor de único e assombroso feito se apresentasse, ele o Louquinho da Rua, o grande prestidigitador burgo. E não se deitava nunca o luzeiro-mór pras bandas de sua caverna incandescente. Dúvidas e indagações sem palavras se chocavam no ar. Entreolhavam-se atônitos. Os que mexiam nervosamente os dedos não eram os mesmos que se sentavam no fio da calçada e colocavam as mãos sobre a cabeça. Houve ainda quem, naquelas horas, armado de um terço, começasse a mexer os lábios numa prece ininteligível a homens e deuses. Um místico ajoelhou-se e elevando os olhos aos céus interiores, abriu os braços ao conceber no vórtice do tempo, as muralhas de Jericó tombarem em ruínas, enquanto o Louquinho da Rua, na pele do bravo guerreiro, instigava ainda mais os seus homens para que não ficasse pedra sobre pedra; nem ovelhas, nem cabras, mulheres, idosos ou crianças. E sob a égide da fumaça infausta, ouvia-se o rigor da canção das espadas nas carnes tenras e frágeis. Por fim, cada qual com uma história insólita, ruminativa, a coçar-lhes internamente os crânios, retornou à sua casa. O sol adormecia lentamente junto ao vilarejo.         

 citação: Josué 10:12 – Biblia  

              

  

Destino

 Ademais o tempo andava frio, chuvarento, às avessas.     Poucos se arriscavam a enfrentar-lhe os punhos – principalmente à noite – quanto mais visitar o casarão que ficava do outro lado da cidade e que era alvo de muitas e veladas especulações por quem lhe conhecia as histórias     Dizia-se de tudo       De sua varanda adornada com filetes de ouro e que ficava de frente para um bosque que se movia dependendo da lua    E também sobre o choro intermitente e lastimoso de uma moça que vez por outra aparecia – cabelos ao vento – de perfil. Dela conta-se que até hoje murmura o nome daquele que lhe foi tão caro e que alegrara os seus poucos dias de juventude, mas que desapareceu assim como havia chegado     Os vizinhos benziam-se quando passavam em frente sem arriscar ao menos a olhadela disfarçada – de viés – para que cultivassem grato e bom sono E corria ainda uma outra história acerca de um cocheiro e sua carruagem mágica cuja antiga rota passava defronte ao casarão todas as noites e que para evitar desconfortos maiores incitava com gritos os pobres animais que vinham de longe arfando e os obrigava ao galope até que num vôo desapareciam entre multidões de nuvens (não sem antes ele, o cocheiro, virar o rosto para o lado oposto ao da varanda) quando então puxava sobre si a sua capa e com ela ocultava urgentemente a cabeça.Mesmo assim ele foi     Armou-se de coragem o forasteiro e foi sabedor dessas e doutras tantas, apeou-se.  Amarrou a montaria na cerca coberta pela hera espessa cujo peso forçava os ferros retorcidos e enferrujados.   Impressionava aquele lugar infinitamente cru e desolado Entrou pé ante pé por um caminho estreito por onde grassava um caramanchão secular cujas pontas da ramagem se estendiam e se esparramavam para todos os lados e aos jorros para baixo Empurrou o portão que rangeu doído ao toque da mão destra e firme  Levantou a cabeça e olhou por entre as frestas dos galhos     Afastou algumas folhas da frente do rosto A lua cheia brilhou por um instante no fundo daqueles olhos que incandesceram suaves     Avançou alguns passos…     Ouviu ao longe tonitruante galope de muitas parelhas que calcinavam o chão em que pisavam  Os sons vinham de todos os lugares e de lugar algum  Respirou fundo…     A mão pousada sobre o arbusto experimentara um leve estremecimento   O coração pulsou-lhe forte acelerando a circulação Chegavam-lhe rumores cada vez mais próximos como o estalar de um chicote     Seu cavalo relinchou empinado sobre as patas traseiras Balançou a crina enquanto na varanda inclinada apareceu a silhueta de uma moça – cabelos ao vento – que soluçava baixinho e murmurava um nome familiar algo parecido ao seu próprio nome     Um frio traspassou-lhe dos pés à cabeça e os seus pelos se crisparam.Entre sussurros e lamentos a moça virou-se lentamente e ele o forasteiro a viu de frente     O ruído das patas dos cavalos parecia vir agora de dentro da sua cabeça     Retrocedeu trêmulo Silencioso e reverente o cocheiro curvou-se     Apanhou o corpo abandonado e acomodou-o no interior da carruagem     A moça da varanda desceu então as escadas que oscilaram leve ao quase inexistente peso Um vento gélido e intempestivo irrompeu súbito e rodopiou em volta e sobre os cabelos dela que auxiliada obsequiosa e gentilmente pelo condutor da carruagem adentrou e tomou assento e entre as mãos num gesto de profunda adoração a cabeça do forasteiro Sorveu delicadamente com a pontinha da língua cada gotícula de suor que emergia daquelas têmporas afogueadas e úmidas     Aspirou profunda e ternamente aquele cheiro que tão bem conhecia enquanto carruagem e passageiros elevavam-se do solo disparando entre nuvens eletricamente carregadas e significativamente baixasNo outro dia antes de aparecer o sol achou-se um cavalo que jazia atado junto à cerca com olhos abertos e fixos no profundo vazio Punhados de capim ainda viçosos e frescos pendiam no viés da boca inerte e fria. 

HIS MASTER’S VOICE! – e nóis? – por frederico fullgraf

Crônica da televisão arcaica  

nipper-rca-foto.jpg
Lembra-se de Nipper? Se eu lhe mostrar a fotografia, você dará um suspiro, virá à tona metade de sua vida, ele alegrou multidões. Nossa fábula começa em 1888, ano em que o alemão Emil Berliner sacudiu o mundo enfadado de saraus, com a invenção do gramofone e do famoso vinil. Foi a apoteose. E com luminosa intuição, Johnson, seu sócio, compraria ao pintor Francis Barraud os direitos de reprodução do quadro intitulado His Master´s Voice – voz e golpe de mestre. O logotipo converteu-se na mais célebre marca da historia fonográfica: o enfeitiçado cão Nipper, de Barraud, orelhas perguntantes, olhos nervosos, faro rastejante, buscando o dono da voz no gargalo da engenhoca à sua frente – e nada! Foi mundialmente identificado como “o cachorrinho da RCA”, símbolo de alta fidelidade, uma gracinha! Ironicamente, este é um entrecho de inominável – cachorrada, não, patifaria bípede! – pois, como todos os fiéis, de tanto ouvirem a voz do dono, os Nippers confundem-se com o dono da voz.  E logo descobriram que gramofone também dava poder: a imagem de Nipper como alegoria da comunicação de mão única, com tinturas autoritárias.  Pioneira na tecnologia, a Alemanha do pós-guerra de 1918 instituía também o primeiro sistema de radiodifusão pública. E cobria-se de louvores a democrática República de Weimar. Democrática, mas instável. É quando um intelectual inquieto começa a perceber ruídos na linha – o Nipper aprisionado pelo “discurso único”. E, prevendo o pior, escreve: Na minha opinião, o sr. deveria tentar fazer do rádio uma coisa verdadeiramente democrática (…) Se isso lhe parece utópico, peço-lhe refletir sobre o motivo por que considera  isso uma utopia (…). A provocação era de Bertolt Brecht, dirigida a um superintendente virtual, em sua memorável Teoria do Rádio. Publicada em 1928, é de tal acaçapante atualidade, que – mudança de cenário – cai como uma luva, sobre a arrastada crise das rádios e TVs ditas “públicas”, da qual a Paraná Educativa é exemplo tumultuado. Síntese da teoria de Brecht é de que “todo receptor é também seu próprio transmissor” – vindicação democrática perigosa nos recônditos do poder, onde campeia a alma penada do espírito autoritário. E já advertia Hannah Arendt, com a sensibilidade que lhe era própria: “O que a esfera pública considera impróprio, pode ter um encanto tão extraordinário e contagiante, cabendo que o adote todo um povo, sem perder por tal motivo seu caráter essencialmente privado” (A Condição Humana, 1981).  E o ano novo na capital das poucas, vexadas araucárias, surpreendeu-nos com vomição sem fim das nuvens, prenhes de efeito-estufa, e um barraco. Que refúgio da trovoada não era, antes foi própria morada do demo, forja de raios e palavrório faiscante: após enxovalhar, anos afora, através da Paraná Educativa, canal concessionário da União, um sem número de desafetos e servidores do próprio Estado, o governador do Estado sofreu embargo e advertência de um juiz federal: está proibido de usar os canais de rádio e TV para a veiculação de vitupérios, a TV obrigada a veicular mensagem de desagravo ao Judiciário desrespeitado, e, sob pena de salgadas multas em progressão geométrica, proíbe-se ao notificado usar a emissora para promoção pessoal.  Na réplica, o governador lançou campanha contra a “volta da censura prévia”. Fazendo leitura dramática de receita de ovos fritos, teceu doidivanas associações com a longa noite das ditaduras militares, a vigência da doutrina de segurança nacional, as prisões, a tortura, a destruição, enfim, do Estado Democrático de Direito. Mas não teve adesões de peso: assustado, seu próprio partido abotoou-se feito esfinge. Cessar-fogo imposto, não se esclareceu o mais importante: a função social, a missão genuína, outorgada às emissoras ditas “públicas”. E eis a má notícia: a Paraná Educativa não é pública, ela é estatal.  Algumas conclusões são inevitáveis. A crise da Paraná-Educativa reverbera a diversidade e as disparidades do estatuto jurídico das rádios e tvs educativas do país: confundidas como entidades de Direito Público, são majoritariamente canais estatais. “Canais” ou instrumentos? A ambigüidade encontra amparo na própria lei. Embora o artigo 37 do parágrafo 1o. da Constituição Federal estipule que a publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deva ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, e seja enfático ao estabelecer que da propaganda de governo “… não [podem] constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”, os abusos são praticados com a certeza da impunidade. Abusos como os do alarife e ex-governador Paulo Maluf, ao apropriar-se, nos anos 90, da TV Cultura de S.Paulo para fins espúrios, abriram a crise naquela emissora, blindada, desde então, com um Conselho, no qual o Estado tem voto, mas não é hegemônico – eis aí, indicadores para a reforma do Estatuto da Paraná Educativa: a criação ou reativação de sua fundação, seu controle por um Conselho Consultivo misto (forças representativas da sociedade civil, com assento para o governo estadual) e eleição democrática de seu superintendente. Ato contínuo, debate público sobre o formato da programação, que deverá privilegiar sua função social e seu perfil pluralista, valorizando criadores culturais de notório saber do Paraná, hoje marginalizados. E formas mistas, públicas-privadas, de financiamento. Mais ao fundo, a crise não deixa de espelhar a República imatura e vilipendiada: Brasil afora as TVs Educativas são cabides de emprego e o regime presidencialista-clientelista tem pendores para perigosos desvios autoritários. Não por acaso o Ministro Gilberto Gil opôs-se ao projeto da TV Brasil com pronunciamento de rara lucidez: “Estatal, não, precisamos de uma TV Pública!”. Fruto de insistentes pressões da opinião pública, a emissora vai ao ar, regida por um conselho e a promessa de não ecoar apenas o ponto de vista do governo federal – o que justifica a pergunta: e no Paraná? A notícia de Brasília não chegou ao Brasil profundo. As “educativas” são ventríloquas: estréiam com o dono da voz, repercutem o discurso único e terminam como a voz do dono – eis o “efeito Nipper”. Sociedade do espetáculo e latifúndio eletrônico detêm a hegemonia da comunicação eletrônica no Brasil. A primeira é reverberada 24-horas-on-line pela medusa de emissoras privadas, comerciais e idiotizantes, que reduzem informação e cultura à “mercadoria” e o ouvinte-telespectador a otário “consumidor”.  A segunda é o trem da alegria das concessões: FHC autorizou 239 rádios FM e 118 TVs educativas em oito anos; em apenas três anos e meio de seu primeiro mandato, o Governo Lula aprovou 110 emissoras educativas, sendo 29 televisões e 81 rádios. “Levando em conta somente as concessões a políticos, significa que ao menos uma em cada três rádios foi parar, direta ou indiretamente, nas mãos deles”( Elvira Lobato, Folha de S. Paulo, 18/06/06). O que fazer? Dotar o Brasil de rádios e TVs alternativas à repulsiva Babel eletrônica, significa avançar na modernidade. Quem vai fazê-lo? Parece razoável que a sociedade civil organizada deva tomar a iniciativa e o Estado limitar-se a estimular e monitorar o processo. De forma generosa: ele está a serviço e não “no lugar” do cidadão. Como fazer? Remédios há: desobediência civil, plebiscitos (e, se não lhe ofende, Calac, alter-ego que Julio Cortázar me empresta como auxiliar de arbitragem, recomenda ligeiro lustro na linguagem: – Francês moderno, Excelência!: agora diz-se l´État sommes nous!, que l´État c´est moi  é coisa feia, fora de moda…). Por último, a distorção de uma Paraná Educativa sem projeto e sem audiência. Sua crise evidencia a incompreensão dos direitos adquiridos do ouvinte / telespectador. Levantamento encomendado ao Ibope pela TVE (RJ) em 2003, já apontava instrutivo comportamento de audiência: 49% dos telespectadores das chamadas classes A e B, haviam sintonizado programas da TVE “em algum momento”, respectivamente 34% da classe C (média-baixa a baixa) e 16% das classes D e E. Traduzindo: quanto mais a pirâmide social se amplia na base, menos o povo se liga em TV pública; mas se ligaria mais, se aquela contemplasse suas necessidades culturais.  Qual é então, seu público cativo? Hoje, dez por cento dos habitantes da região metropolitana de Curitiba, isto é, 250 mil ouvintes -espectadores são “órfãos” de pai e mãe, se preferirem: de rádio e televisão de boa qualidade. É um público que se vincula às manifestações da produção cultural e artística, seja como criador, intermediário (patrocinador, mecenas) e ouvinte-espectador. Além do cabo, é nas TVs “públicas” que busca suas referências de conteúdo, estética, comportamento e política; atitudes que dizem da construção de sua identidade cultural. Ironicamente, ao tentar diferenciar-se do atoleiro da sociedade do espetáculo, este público pró-ativo sofre o desprezo histórico de sucessivos governos estaduais. Esta é, pois, a extenuante crônica da televisão arcaica – agora se faz imperiosa a televisão inevitável. Depois da “era Lerner” era de se esperar um governo sintonizado não apenas em sua própria freqüência, perspicaz e com coragem de escrever a história do país, como agente democratizador da TV Pública. Invertendo o sentido do eixo. Transformando o Paraná de importador, em pólo de produção e exportação cultural – eis a excruciante dívida cultural e social do Governo Requião. Entende-se que depois da receita de ovos fritos, o resto é silêncio, como diria Hamlet… Contudo, Calac acha que nem tudo está perdido: – cá entre nós, Excelência, que tal botar a viola e o gramofone no saco, e convidar o homem para um debate sobre a Teoria do Rádio na escolinha? Como lembrou o próprio, se isso lhe parece utópico, não se avexe, conte pra gente. Se não convidar, estimamos que a utopia ganhe as ruas, aquela baita faixa, assinada Bertolt Brecht – com o perdão pela expressão chula, Excelência, mas: já imaginou a cagada?  

SHOW “30 ANOS SEM LÁPIS” no guairinha – é hoje

 Apresentação é uma homenagem aos trinta anos de falecimento do cantor paranaenselapis-foto.jpg

O show “30 anos sem Lápis”, é um tributo do Centro Cultural Teatro Guaíra a Palminor Rodrigues Ferreira, conhecido como Lápis, compositor, instrumentista e cantor paranaense, que este mês completa 30 anos de falecimento.A apresentação será segunda (11), no Guairinha, às 20h, com ingressos a R$ 10,00.Participam do espetáculo os artistas: Jazomar Rocha, no violão, cavaquinho e voz, Rubem Rolim para cantar “Estranha saudade”, música de sua extensa parceira com Lápis, Galdino Junior, Marlus Coelho, Priscila Rocha, Eliane Bastos e Antonio Eugênio Ferraz (o “Pelicano”) para interpretarem as canções de Lápis e parceiros como Paulo Vítola, José Carlos Miceli e Kaká Buono. Os músicos Rubens Holzmann (violão/guitarra), Nelson Damiani (faluta/saxofones), Jeff Sabbag (piano), Jonas Cella (contrabaixo), João Charmak (bateria), Luciana Sicupira (surdo) e Fernando Loko (pandeiro/percussão), resgatam os arranjos escritos por Rubens Holzmann e Jazomar Rocha.

Durante o show será apresentada uma seleção com os melhores sambas do Lápis e seus parceiros: “Paticumbá” de Lápis e Nicolatte, “Silêncio”, “Samba de ap” e “Leva essa saudade”, de Lápis e Jorge Segundo, “Nada” de Lápis, Rubem Rolim e Bráulio Prado e “Vestido branco”, de Lápis.

O comunicador Sérgio Silva anunciará, durante o show, as músicas, intérpretes e as projeções com depoimentos e fotografias desenvolvidas por Nilson Muller Filho.

fonte: bem paraná.

POÉTICA – poema de manuel bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

ENLEIO eio eio poema de marilda confortin

  
 
Quando abro a pasta de emails
E vejo que o disco está cheio
Deleto tudo, jogo pra escanteio
Se o assunto é trabalho, gazeio
Só tuas mensagens, eu leio
 
Quando pegas a falar em seios
Me frustro – sei que são alheios
Mas para fantasiar, me bobeio
Finjo que são meus,  gateio
Entro no clima e proseio
 
Quando me vens com floreios
Disfarçando fins com os meios
Fico indecisa, confusa, titubeio
Não sei se encaro ou volteio
Se acelero, ou piso no freio
 
Mas se falas galanteios
Aí o negócio fica feio
Perco o prumo, desnorteio
Entro  no páreo, sapateio
Pulo na arena e toreio
 
Abro arquivos,  te releio
Links, jornais, tudo folheio
Procuro pistas, escaramuceio
Folha por folha te manuseio
Até nas entrelinhas, rastreio
 
Daí, me dou conta do enleio
Dois doidos movidos a charleio
As palavras, chumbo do tiroteio
A poesia, alvo desse torneio
E feliz me entrego ao devaneio.
 

IAHVEAH poema de sergio bitencourt

EU SOU,              

o protagonista do filme,             

o coadjuvante,             

o roteirista e o diretor,             

o contra-regra,              

a regra,             

o cenário e o expectador,             

a cadeira do cinema e a máquina do filme,             

a paisagem,             

a árvore,             

o átomo, o proton, o eletron, o anti-proton,              

o fumante e o não fumante,              

a sub-partícula e sua energia nuclear,             

a bomba e sua explosão.             

o sol,             

os planetas e suas gerações,              

as galáxias e suas constelações,             

o big e o bang e antes de qualquer big-bang,              

EU SOU A VIDA,                       

                                     “et nunc et semper“,                          EU SOU. 

FÚRIA (2)

se existe uma coisa que me faria terminar um caso seria se minha garota me pegasse com outra mulher.

eu não poderia tolerar isso.

steve martin.

PRIMEIRO, 0 VIBRADOR. (Rumorejando) por josé zokner

[09/02/2008]

Constatação I (Quadrinha para ser recitada em chás beneficentes). Exibindo com triunfo, como um troféu,Às amigas, o mais novo e rico marido

Dizia a ricaça: “Este me caiu do céu:E ele não precisa me amar sendo fingido”.

                                      Constatação II

Deu na mídia no dia 30 de janeiro de 2008: “Jovem é preso com 220 gramas de crack na cueca”. Pelo jeito, o irmão do deputado José Genoino tá fazendo escola…

                                     Constatação III

As fotos da fotógrafa Lina Faria que, em quase sua totalidade, retratam Curitiba (Cruelritiba), ou eventos da cidade, podem ser vistas no blog www.olhodarua55.com Imperdível.                                        Constatação IV

Quando o obcecado leu na mídia que cientistas britânicos criaram espermatozóides a partir de células-tronco da medula óssea feminina, o que pode representar o fim da necessidade do pai na reprodução exclamou indignado: “Primeiro, o vibrador. Agora, para complementar, essa das células-tronco. Cada dia que passa nós, homens, estamos sendo mais descartados”. Socorro!

                                         Constatação V

E como bravateava o obcecado convencido: “Conquistar mulher casada que tem marido violento é o meu esporte radical preferido”.

                             Constatação VI (Quadrinha para ser recitada como alerta às moçoilas desavisadas e respectivos pais).

Tudo não passou dum simulacro:O noivo era um convicto ateuResolveu passar por pio e sacroCasou com a ricaça e se escafedeu.

                                         Constatação VII

Rico é respeitador; pobre, é descumpridor.

                                        Constatação VIII (Quadrinha para ser transcrita nos formulários do imposto de renda).

Por causa do infausto leão,A gente fica assaz ferrado.Tiram-nos até o último tostão.E o governo nem fica atormentado.

                                            Constatação IX

Rico chama a atenção; pobre, apela.

                                       Constatação X Dúvida crucial via pseudo-haicai).

Corporativismo dos deputados

Para não condenar um colega

É para que todos não acabem cassados?

                                     Constatação XI

Não se pode confundir apenas com amenas, até porque, por exemplo, se um pastor que pastoreia ovelhas no campo e ainda toca uma flauta com músicas amenas ele traz certa paz a todos, às ovelhas principalmente, ao ambiente, enfim à fauna e a flora da redondeza; já o pastor, àquele que faz marketing para conquistar as almas dos pobres viventes e que se queixa da pouca arrecadação das contribuições profere frases do seguinte jaez: “A fidelidade dos fiéis deixou de ser fiel. Apenas isso, vocês deram?!!!”

                                                 Constatação XII

Deu na mídia: “Jérôme Kerviel, operador do banco francês Société Générale, acusado de ter causado perdas de US$ 7 bilhões (cerca de R$ 12,3 bilhões) com operações fraudulentas, tornou-se um fenômeno na internet, cultuado em sites e blogs e com admiradores que chegaram a criar uma linha de camisetas em sua homenagem”. Data vênia, como diriam nossos juristas, não é que sejamos favoráveis à fraudes, mas esse cidadão faz por merecer os encômios que está recebendo, por ser um único, enquanto que, em certos países, está disseminado em muitas, mas muitas mesmo, pessoas…

                                                  Constatação XIII

Data vênia, como diriam nossos juristas, mas a ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, provavelmente esqueceu, ou não lembrou, que para combater o preconceito racial, ou de qualquer espécie, a gente não deve ter preconceito de pagar contas com o seu próprio dinheiro. Quando for o caso, é claro…

o escritor josé zokner publica sua coluna no jornal “o estado do paraná” aos domingos.

JAIRO PEREIRA, JOÃO BATISTA DO LAGO, MARILDA CONFORTIN, KIMBERLY e JA COMENTAM EM : “COMA” poema de jb vidal

 

 

 COMENTÁRIO

jairo | IP:         em setembro 17, 2007 às 10:51 pm

Grande poema (COMA) de meu amigo Vidal. Eis o homem na antesala da morte. Matéria e pensar. Conhecimento & experiência. Signos fortes, altamente subjetivos. Indagações q. só um poeta é capaz de lançar no laboratório-vida.

Um poema pra ler reler transler.

jAirO pEreIra

 

 

  

COMENTÁRIO em “COMA –  poema de jb vidal” feito por JA Anonymous | IP:

Ele não é mais o mesmo, desconhece suas pegadas, são tão vazias. Essa tão inusitada leveza em que se encontra faz olhar o mundo como se fosse desconhecido e a ele nunca pertencido. Encontra o oco do corpo enquanto procura as emoções registradas e não as acha e perplexo fica boquiaberto, deixou que tudo assim transcorresse. Em jogo, perdeu a admiração, aquela que fazia seus olhos brilharem noite e dia, agora opacos apercebem-se do escuro. Acabou ficando inerte olhando o pássaro a voar através da vidraça do quarto que o acolhe. Acabou no presente contínuo do verbo e, talvez, nunca mais volte para onde esteve uma vez comigo e outra consigo.
Acabou de acabar com a vida nesse estiro de um suspiro fugaz e acabando com aquele olhar funesto e satisfeito, volta em carne e osso para contar um passado pretérito do perfeito presente.
Não existe mais explicação para esse desatino, a morte do errante se faz necessária, mas há o apego com esse inimigo e a questão se torna contra ele mesmo sobre o que fazer. Morrer sem perceber seria a dádiva vinda dos céus e matar conscientemente seria um ato contingente que requer astúcia, tempo e disposição.
Amar a si próprio até que a morte o separe do corpo venerado exige, de certa forma, a quebra do espelho que o amarra. A procura, constante, da beleza o faz cego, a feiúra passa a ser a concretização de seus erros e de suas falhas inaceitáveis, e o desejo da posse de seu próprio corpo se desfaz. A solidão o ataca de vez, dissimula sua realidade encantadora e o joga longe do espelho, debatendo-se por ver-se corrompida a própria imagem foge com o eco da feiúra, atormentado.
Sem o auto-desejo, sente-se impotente, sem controle, sem poderes de manipulação, sem ninguém, sem direção. Busca o desconhecido como afirmação para lançar sobre ele sua imagem na expectativa de retro alimentar-se devidamente. Alimenta-se, infla-se e volta contra o passado e a favor de um futuro cheio de efemeridades satisfatórias.
O circulo de narciso, a morte e a vida, a paixão pela própria sombra, a cegueira, a surdez, o pouco caso, a insensibilidade benfeitora que tentando destruir o outro quando quem acaba é ele mesmo. Macabra vida essa que não sabe se morre ou se mata.
JA

Set 19, 6:46 PM  

  

  

COMENTÁRIO em “ A INTELECTUAL PELADA conto de jb vidal” feito por joão batista do lago 

João Batista | IP

Belíssima crônica, meu caro JB Vidal. Despregada de artificialismo academicistas que os frescos e obtusos críticos querem – ainda hoje – impingir a uma forma lírico-pessoal – e só pessoal – de escrever. Vá em frente.
Bem sejas.

Set 12, 7:33 PM

  

  

COMENTÁRIO em “MANUTENÇÃO (editoria)” feito por marilda confortin: 

marilda confortin | IP:

Não sei de quem é esse blog, mas está muito legal. Tem uma penca de amigos aí… tem até poema meu.

Mas esse aviso, “EM MANUTENÇÃO”, me remeteu a uma gaiatice que escrevi. Segue aí pro dono do blog rir um pouco:

lógica

Meu computador precisava de manutenção.
Formatei o disco rígido,
instalei a última versão do sistema operacional,
programas novos,
fiz upgrade,
passei anti-vírus,
reconfigurei,
reinicializei.
Parabéns!
A instalação foi um sucesso!
Beleza! Parece que isso funciona.
Eu também preciso de uma manutenção.
Formatei o coração mole,
aceitei viver nesse sistema moderno,
programei rotinas novas,
deletei velhos amores,
fiz plástica,
abandonei os vícios,
tá legal, tudo de novo!
Recomeço!.
Fracasso total!
Não me reconheço!

(Marilda Confortin)

Parabéns pelo conteúdo do blog, seja lá quem for você.

Out 30, 7:58 PM  

 

 

 

 

 

 

 

  

COMENTÁRIO em “A CRIAÇÃO DA XOXOTA poema de mário quintana” feito por KIMBERLY:

kkkkkkkkkkkkkk morri!
Cade a criação do penis? aquela coisa estranha que mais parece algum marisco ou um dedão gigante?

aoieoeiaoeiaoejhoiajeaoioie ;D

Dez 15, 10:57 PM  

 

 

 

  

COMENTÁRIO no poema “ONDE É de jb vidal” feito por JA      

JA

 

O corpo, a mente, a alma liberta.
O corpo, a mente, o inerte.
A mente, embriagada.
O corpo abandonado
Onde se encontra o corpo e a mente nem sempre a alma habita.

Set 27, 4:06 PM

 

TRABALHEMOS MENOS, TRABALHEMOS TODOS por emir sader

Muitas coisas nos diferenciam dos outros animais mas nada é mais marcante do que a nossa capacidade de trabalhar, de transformar o mundo segundo nossa qualificação, nossa energia, nossa imaginação. Ainda assim, para a grande maioria dos homens, o trabalho nada mais é que puro desgaste de suas vidas. Na sociedade capitalista, a produtividade do trabalho aumentou simultaneamente a uma tão forte rotinização, apequenamento e embrutecimento do processo de trabalho que já não há nada que mais nos desagrade do que trabalhar. Preferimos, a grande maioria, fazer o que temos em comum com os outros animais: comer, dormir, descansar, acasalar.Não foi descoberta de Marx e sim de Adam Smith e de David Ricardo que o valor dos produtos não vem da terra, nem dos metais preciosos, nem da tecnologia, mas do trabalho humano. Daí o lugar essencial que ele tem nas nossas sociedades, ou que deveria ter.Nossa capacidade de trabalho, esta potência humana de transformação e emancipação de todos, ficou limitada a ser apenas o nosso meio de ganhar o pão. Capacidade, potência, criação, o trabalho foi transformado pelo capital no seu contrário. Tornou-se instrumento de alienação no sentido clássico da palavra: como ato de entregar ao outro o que é nosso, nosso tempo de vida. De produzir para que outros se apropriem do que produzimos, para que outros decidam o que produzimos, como produzimos, para quem produzimos e a que preço será vendido.

A maioria esmagadora dos brasileiros – e de toda a humanidade – vive do seu trabalho. Vive para trabalhar e trabalha para viver. A esmagadora maioria gasta a vida em atividades que não lhes interessa, às quais se submete porque precisa manter-se viva. Para a maioria, sobreviver tornou-se uma forma de vida: sair de casa cedinho, retornar doze horas depois, após uma jornada esfalfante de um trabalho desinteressante, repetitivo, extenuante, para ter apenas o tempo de se recompor para voltar a repetir, mecanicamente, a mesma jornada no dia seguinte e nos outros dias, pelo resto dos dias da sua vida. E ainda precisa agradecer quando consegue ter e manter um tal trabalho!

Os que vivem esse cotidiano são os que mais precisariam de tempo e de conhecimento para decifrar esse imenso mistério de viver trabalhando loucamente apenas para se manter pobre, enquanto os que não trabalham enriquecem às suas custas. Mas são eles os que menos dispõem de tempo e de conhecimento. O rico não é apenas aquele que desfruta mais e melhores bens materiais, mas é também aquele que dispõe do seu tempo, até para não fazer nada.

As centrais sindicais brasileiras desenvolvem uma campanha pela diminuição da jornada de trabalho. Não pode haver campanha mais justa e humanista. Que os trabalhadores, os que produzem todas as riquezas do Brasil e do mundo, possam trabalhar menos e viver mais, até para que outros possam ter acesso ao trabalho formal e dignamente remunerado. Não se combate o desemprego apenas abrindo novas frentes de trabalho. É indispensável – como faz a proposta de reforma constitucional do governo venezuelano, que diminui a jornada de trabalho de oito para seis horas – diminuir a jornada de trabalho. Diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores possam dispor de um tempo para a família, o lazer, o descanso, a leitura, a luta coletiva. Para que decidam o que querem fazer com ao menos uma parte das suas vidas.

Valorizar o trabalho, valorizar o mundo do trabalho, valorizar os trabalhadores – são os grandes ideais humanistas do nosso século. A desumanização do trabalho é a desumanização do homem, da sua capacidade criativa, imaginativa, humanizadora do mundo. Um mundo à imagem e semelhança dos nossos melhores sonhos só poderá ser construído pelo trabalho livre, desalienado, escolhido pelos homens.

Precisamos caminhar para uma sociedade onde o trabalho seja instrumento de emancipação, onde o conhecimento seja instrumento de desalienação e onde os homens vivam através do trabalho que realizam de forma solidária e cooperativa e não mais para serem explorados, ofendidos, humilhados, oprimidos. 

CELEBRIDADES, política e prostituição. VALE a pena ser PROSTITUTA? – por paola rossi


Nunca na história deste país e da humanidade valeu a pena ser vagabundo, ladrão, incompetente, incapaz e ignorante. Nunca na história deste país e da humanidade valeu a pena ser vagabunda, ladra, incompetente, incapaz e ignorante.
Os canais de notícia nos deixam alarmados. Namoros de ocasião, flagras intencionais, uniões e separações planejadas pelas assessorias de imprensa e marketing pessoal das celebridades.

Antes que me aborreçam é melhor esclarecer que existem três tipos de meretriz. As do porão são aquelas que já não tem mais nada para vender a não ser o próprio corpo. Algumas por opção, outras por falta de opção. As do grupo intermediário são aquelas que sonham em ser celebridades. Algumas conseguem, a maioria é reconhecida como prostituta de luxo, mas prostituta de luxo mesmo são as do nível mais alto. Não são necessariamente mulheres, mas são grandes raposas que estão infiltradas nos grandes escalões do poder e da fama. Estas prostitutas são as grandes causadoras da fome e desigualdade no mundo. As dos dois primeiros níveis são apenas coadjuvantes e choram às escondidas por não encontrar o príncipe encantado. As grandes prostitutas se convencem que fazem um grande bem à humanidade. Tomam comprimidos para dormir não porque as suas consciências não deixam, mas devido ao excesso de obrigações.

As grandes prostitutas tem fama, grana e as justiças como aliadas. Como a corda sempre arrebenta do lado mais fraco é melhor ser esperto quando enfrentá-las. Não estou dizendo para você ser covarde, mas canja de galinha não faz mal a ninguém.

As eleições sempre deixam o gosto que vale a pena ter uma moral torta. Milhões de brasileiros mais uma vez foram iludidos com a promessa de um país melhor nas eleições. Milhões debaterem em bares, escolas, praças para impor o seu candidato favorito. Enquanto nós discutíamos as grandes prostitutas riam da nossa cara.

Os péssimos exemplos dado por partidos e políticos são um exemplo que o Brasil nunca será um país sério. O péssimo nível dos candidatos eleitos mostra que o resultado só irá mudar quando as pessoas puderem pensar. Enquanto um prato de comida ou uma esmola-família for moeda de troca nada irá mudar de fato. O resto é papo furado de extremistas políticos.

Vou ao salão e me oferecem revistas femininas para ler. Aceito. Só futilidades. Algumas coisas interessantes, não vou negar. Fico impressionada com a futilidade das celebridades. De repente estou conversando sobre elas. Tenho sempre o pesadelo de ter virado uma mulherzinha fútil. Madame vendida, uma prostituta do sistema. Sussurro para mim ao virar as páginas: “Olha que vagabunda… Que mulher idiota…” Existem variações, claro “Que Piranha, se deu bem…”.

E é para menos? Fulana namora com Beltrano para divulgar o produto de Sicrano. Deputado de 60 casa com menina de 20 anos. Isto é amor! Nada contra homens mais velhos. Chico Buarque foi considerado o homem mais sexy do Brasil com mais de 60 anos. Chico Buarque é Chico Buarque…

Atletas, esportistas, políticos e celebridades em geral dão o exemplo. No mundo todo vale a pena ser “esperto”. Sua carreira está em decadência desde que o pagodeiro lhe abandonou? Não se desespere. Crie um factóide. Deixe ser surpreendida, mas faça a coisa de modo a aparentar que você não sabia de nada, assim como o nosso digníssimo presidente. Se nada funcionar, vire cantora evangélica.

Já se perguntou onde estaria aquela atriz gringa se não fosse flagrada fazendo sexo e o seu vídeo não fosse espalhado na Internet? Seria conhecida admirada e até estaria lançando produtos com o seu nome? Ninguém irá me convencer do contrário. Estes flagras são estudados em confortáveis salas de reunião das verdadeiras zonas de prostituição.

Gostaria de ser uma mosca para ver as reuniões de marqueteiros para alavancar a carreira de pessoas no ostracismo:

– Você, A, vai namorar com B. Não discutam. Vocês não se toleram, mas querem ficar de fora das revistas? Querem ficar de fora dos jornais populares? Já planejei tudo. Vou chamar um amigo nosso paparazzo que vai estar “coincidentemente” (sujeito engravatado fazendo aspas com as mãos e dando uma risada maligna) em frente ao local que vocês darão um beijo romântico. Vocês entenderam? Será comentado a semana toda e vocês vão voltar à mídia.

– Precisa ser de língua. Diz a menina A com medo de B.

– Não. Mas se fosse daria ainda mais matérias.

– Ok.

Esta é a vida moderna. Não estude, malhe. Não malhe, pense como dar um golpe. Não pense muito, dê o golpe. Assim caminha a produção incansável de mulheres e homens preparados para dar o bote. Tornarem-se famosos, muitas vezes muito mais famosos pelos escândalos e notícias do que pela sua produção artística. A maioria não sabe a última peça ou novela que a “atriz/modelo/prostituta de luxo” X participou. A maioria não sabe uma música sequer do “cantor/modelo/prostituto de luxo” gravou. A maioria sabe quem está saindo com quem. Quem não está mais dormindo com quem. O que A acha da camisinha. A última experiência sexual de Y. Quem vai participar do próximo programa de celebridades. Quem teve uma experiência com ET’s. Quem disse o que não tinha nada para dizer nos programas de auditório ou de pseudo-entrevistadores.

Lemos todos os dias nas revistas de futilidades que vale a pena ser prostituta. Lemos todos os dias nos cadernos de economia que vale a pena ser prostituta. Lemos todos os dias nos cadernos de esporte que vale a pena ser prostituta. Lemos todos os dias nos cadernos de política que vale a pena ser prostituta. Lemos todos os dias em todos os cadernos que vale a pena ser prostituta. Assim caminha a humanidade.

Mesmo assim eu prefiro dizer “Não, obrigada”.

 

ALDOUS HUXLEY pela editoria

Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris… Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração… Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que nunca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta.

COLORIDOS no SUBURBIO CURITIBANO poema de tonicato miranda

Este poema é dedicado ao Gerson Maciel e
à sua paixão pelo Boqueirão, bairro de nascimento e vida.
Parafraseando João Cabral de Mello Neto,
Caso houvesse uma guerra entre o Brasil e o Paraná,
Gerson lutaria pelo Paraná.
Mas se ela fosse entre o Paraná e Curitiba
Gerson lutaria por Curitiba.
E se ela fosse ainda entre Curitiba e o Boqueirão,
Gerson não exitaria, lutaria pelo Boqueirão.

  
Orgulha-te dos meninos do Boqueirão
Te cuida menino, com o banho no Rio Belém
Cuidado com as cavas do Iguaçu, amém
E o expresso é vermelho, é vermelho
  
Lá vem rodando na canaleta, o vermelhãoOrgulha-te dos meninos do Boqueirão
Saboreia as goiabas que trazem pra casa, aos bocados
Roubadas dos terrenos vizinhos e dos descuidados
E a fruta é branca, é branca, é vermelha
Por dentro ela é viva, é vermelhão

Orgulha-te dos piás do Boqueirão
Veja o olhar deles para baixo, nas pernas das meninas
Os olhos saltam mais que palavras, as línguas traquinas
E a íris é verde, é verde, é vermelha
Dentro do olho o tesão é forte, é vermelhão

Orgulha-te dos pássaros do Boqueirão
Fugitivos do bodoque, da atiradeira, do estilingue dos meninos
Fuçando de galho em galho, caça gafanhotos pequeninos
E o inseto é marrom, é marrom, é laranja
O sangue dos iletrados é marrão

Orgulha-te dos cultos e incultos do Boqueirão
Glória a Deus nos lodaçais e nas encostas do Uberaba
Machuca o prego na madeira, constrói o brinquedo, por ele baba
Entrega a cor dele à felicidade, e ela é rosa, é rosada
É vermelho o carrinho de mão, ele é vermelhão

Não te orgulha dos gorgulhos das poças d’água do Boqueirão
A chuva engole as madeiras e os lixos nas valetas
O barquinho de papel vai reto na sarjeta, depois em piruetas
Onde não há meio-fio, calçada, e a rua é preta, ela é preta
No fundo é vermelha, a vergonha é um vermelhão

Mas te orgulha dos meninos do Boqueirão
Eles são como eu, como você, pés no chão e no caminho
Camisa para quê basta um solado forte contra o espinho
E o espinho é amarelo, é pontudo, é cicatriz
E o nosso sangue e o deles é e sempre será um vermelhão.

POEMA (1) de sergio bitencourt

BORBULHAM INDIVIDUALIDADES

NAS LIBERDADES MANIFESTAS

CONSCIENTES,INCONSCIENTES

NUMA DANÇA INTEGRADA

COM O SILÊNCIO EXPRESSIVO

DA CONSCIÊNCIA NÃO MANIFESTADA

POEMA (3) – de carolina correa

Refletindo ás cegas

Conclusões meramente concluídas.

Na palma da mão

Ao excessivo Deus dará,

Seguindo os passos de um ilusionista

Te supro.

Frases viajadas

Os pensamentos é que são reais.

Me consomem

Me inibem

Preguiçosas palavras contidas.

Visto a máscara

Alucinação pura

O físico prensado

A mente solta

Uma conversa á quatro

Me supro.

Nos bastamos.

a autora, 17 anos, faz parte do grupo de novos poetas do site.

BÁRBARA LIA, A POETA, AGORA É PALAVREIRA DA HORA

o site está em festa! a poeta bárbara lia aceitou o convite para ser mais um ÂNCORA da página, ou seja, será uma colaboradora permanente com suas obras. compreendeu o espírito público com que todos os demais palavreiros da hora servem a arte neste espaço. bárbara é, como ela mesma se define, “poeta, escritora, professora (história), mãe e  mulher brasileira” e nós acrescentamos que é poeta de “pegada,” que obedece as regras da sua criação, do lírico ao visceral. além de editar seu blog desde 2005, bárbara lançou  seu livro O SAL DAS ROSAS em 2007, com promessas de outro para breve. foi uma das nossas amigas a prestar homenagens à bia de luna, mesmo sem ter convivido com a poeta desaparecida. os poetas são assim. é autora de uma das frases que mais emocionou o ambiente da homenagem “…um braseiro santo irá brilhar nos corações a quem ela tocou quando soprar o vento da saudade”…o site já editou trabalhos da bárbara há poucos dias mas hoje é dia especial para nós. sintam o balanço:

                                                                           

Lá vai o trem com o menino
     Lá vai a vida a rodar
     Lá vai ciranda e destino
     Cidade e noite a girar
    

Lá vai o trem sem destino
     Pro dia novo encontrar    

(Ferreira Gullar) 

A  VIAGEM 

Pensamos – Viagem!
Ele abre o baú de partituras
e delineia  em minhas costas,
ventre e  coxas, as  partituras:
– sinfonias fados e tangos –
A que mais amei?
– o trem –
de Villa-Lobos.
O trenzinho caipira que corta
minhas ondulações, matas,
declives…
Sente o vento?
O perfume da serra?
Rasca de nuvens vão de carona
nos lábios dele
pelas notas
pelos trilhos

pelos pêlos
pela pele
e tudo termina
em suor do amor evaporado
borra minha virilha
rasura um Lá extraviado
e ele queda dentro
do Sol.
A vida palpita
aquém além da cortina
da cabine perfumada
 

– fim da viagem –

NA BIENAL DE VENEZA “Ngola Bar” de kiluanji kia henda

Kiluanji Kia Henda (1979) nasceu em Luanda, onde vive e trabalha. Viajou pelas várias províncias de Angola e dessas viagens resultou o trabalho “4.ª Dimensão”, no âmbito da I Trienal de Luanda. Colaborou com vários grupos de acção teatral e artística em Luanda e expôs em feiras de arte e museus na Europa (“Art InVisible”, Arco, Madrid, 2006; “Observatory SD”, IVAM, Valência, 2006). Recentemente, o seu trabalho foi selecionado para o projeto de curadoria “Check List Luanda Pop”, do Pavilhão Africano da 52.ª Bienal de Veneza (2007), a par de nomes consagrados da arte contemporânea como Ghada Amer, Miquel Barcelò, Jean Michel Basquiat, Marlène Dumas, Viteix, etc. Sob o título de ‘Ngola Bar’, a exposição que Kia Henda traz ao FMM apresenta trabalhos recentes que partem do local – a paisagem urbana e a natureza angolanas – para a esfera global: a produção de sentidos universais, a evocação da mobilidade sobre a paisagem, a cultura contemporânea das imagens.

enviado por antonio perseu. angola.

O ALAMBIQUE conto de léo meimes

Como se do chão viessem ondas que o desequilibrassem a cada toque, o Alambique tentava fazer seu caminho pelo beco. Suas pernas trançavam inúmeros tropeços, enquanto sentia o pequeno peso da carga nas costas o puxando para trás e em seguida o empurrando para frente. Assim ia ele, carregando apenas um saco preto, com cobertor, jornais para colocar no corpo enquanto dorme e uma garrafa de pinga. Com seu andar de camaleão, chegou à frente de um bar, tentou parar de brusco quando encontrou uma poça de água e acabou caindo de lado no chão, por sorte em cima do grande saco preto. Ali, deitado como quem está sofrendo de algum ataque, sentiu os pingos da chuva voltarem a cair em seu rosto. Demorou a se levantar e quando conseguiu dirigiu-se para o bar, precisamente para o canto esquerdo, onde se colocou a baixo da mesa em que os músicos tocavam imprecisamente algum samba.
O bar era local de juventude, podia se dizer que os mais velhos eram os que cantavam e tocavam, com a ajuda de duas moças mais novas. Nas mesas ali fora, o povo começou a adentrar devido à chuva fazendo o minúsculo local ficar cheio em segundos. O Alambique estava ali, mesmo que ninguém o considerasse. Olhava para os rostos jovens, que impregnados de saúde desviavam de seu olhar, evitavam, fingiam que ali não havia ninguém. Porém é fato e qualquer um que pudesse estar lá na hora comigo veria que aquele homem sentado no chão, em cima de trapos e vestido com trapos existia. A música não parou nenhum segundo, meninas desenvolveram uma dança atraente, rapazes olhavam descrentes, Alambique só procurava um olhar recíproco… Um garçom jovem como todos os outros, passou e deixou sobre uma mesa uma garrafa de cerveja. A espuma adentrou fundo nos desejos do Alambique. O homem barbudo e despenteado fez no movimento lesmático dos bêbados um sinal com os dedos apontando para cima e riu, imaginando platéia que acompanhasse seu trunfo, em seguida retirou da grande bagagem sua garrafa transparente e plástica de pinga. Mostrou, ofereceu e até gracejou uma cheirada no gargalo à sua platéia antes de beber o gole alcoólico com gosto. Ficou por momentos curtindo a música, ouvindo a melodia, o som não era em nada bom, os músicos com instrumentos desafinados, pandeiros fora do ritmo, mulheres cantando fora do tempo, porém era ópera para os ouvidos do Alambique. Parou a música e Alambique gritou “Madalena, Madalena”, um dos músicos ouve e atende o pedido, “Você é meu bem querer!” e assim continuaram. Alambique entra em um frenesi, dançando somente com os braços, batendo palmas, repetindo o refrão incessantemente, ali mesmo sentado. Mesmo quando já era outra música que tocava ele continuava a insistir “Madalena, Madalena!” Uma moça diz com ar reprovador para o Alambique “Não é mais Madalena homem, presta atenção!”. Ele em um crescente de euforia, talvez por ter sido visto, notado e ouvido, se levanta com dificuldade joga os braços para o alto e, como se pedisse que alguma Madalena se jogasse em seu colo, grita a pulmões de pneumonia “Madalena, Madalena!” O garçom do bar finalmente o vê ali, se dirige a Alambique e pede para que este se retire. Um rapaz que estava próximo diz ao garçom que deixe de ser implicante, pois o homem estava ali à tanto tempo e não estava atrapalhando ninguém. “Se deixar um entrar, daqui a pouco só tem fulero nesse bar”, diz o garçom já apontando a rua para Alambique. O barbudo olha para os lados e senta-se, fingindo não ver o homem que tentava colocá-lo para fora do lugar, pensa: “So fulero que nem todo mundo aqui”. O dono do bar em seguida aparece e o manda pegar as coisas e sair rapidamente. Com a ajuda do rapaz que o defendeu Alambique levanta, pega as coisas, arranca das mãos do garçom sua garrafa de pinga, a qual lhe fora tomada, e sai porta a fora.
Lá já não chove mais e como não podem o mandar embora da rua, fica parado em frente ao bar olhando e cantando seu verso preferido. Nas costas ainda está o saco com seus pertences. Próximo a ele uma mesa com vários jovens, incluindo o que o havia ajudado. Alambique se aproxima e tenta puxar assunto “Bom o samba?” e é respondido com um simples “Sai fora, se toca, já encheu o saco já”. É o que ele faz, vira de costas e começa de novo o seu navegar inconstante pelo beco, com tropeços e sustos. Não anda nem meia quadra e algo o surpreende. Formas lindas eram feitas no ar por malabaristas que jogavam claves, bolas, outros se equilibravam em monociclos enquanto faziam truques com bolas de toque. Alambique se apaixona pelos movimentos, pelas claves que saiam das mãos de um para a do outro sem cessar. Deixa-se cair de novo em cima do grande saco, desta vez não é a chuva que o agracia e sim a visão única de estar exatamente a baixo dos malabaristas. O circo, nunca por ele visitado, o rodeava agora e em seu sonho Alambique se imaginava um equilibrista, andando pelos paralelepípedos da cidade, contornando as esquinas esguias dos becos, passeando pelas marquises e pulando sobre toldos como se tudo isso realmente estivesse acontecendo. Naquele lugar mesmo Alambique dormiu.
No outro dia já havia passado da hora do almoço e ele como criança mimada dormia e não obedecia aos passos apresados dos gentios que tentavam o acordar. Um colega seu de rua, bebedeira e tudo mais, passa e se atreve a chamá-lo. “Alambique, Alambique, acorda que se tá no meio do beco, daqui apouco chamam a pulicia pra ti enxota daqui. Anda homem, que parece até que gosta de dormi no chão frio!” A voz de seu colega adentrou os sonhos de Alambique e o trouxe a realidade, acordou então. Desfez-se das remelas, arrumou o cabelo e enfim levantou.
— Rico, se num sabe tudo que me aconteceu onti rapais! Se eu ti conta, se acredita?
— Ave, que que foi?
— Eu onti, fui pro samba, dancei com a mulherada bonita, cantei junto cos cantor, puxei “Madalena”, bebi cerveja geladinha e sabe o que me aconteceu ainda?
— Que que foi?
— Dei sorte e peguei um circo de passage, até na corda bamba eu andei! To tão cansado, que merecia mais uma hora de sono, sabia?

CHEGOU O VERÃO por luis fernando veríssimo

Verão também é sinônimo de pouca roupa e muito chifre, pouca cintura e
muita gordura, pouco trabalho e muita micose.Verão é picolé de Kisuco no palito reciclado, é milho cozido na água da
torneira, é coco verde aberto pra comer a gosminha branca.
Verão é prisão de ventre de uma semana e pé inchado que não entra no tênis.
Mas o principal ponto do verão é…. a praia!
Ah, como é bela a praia.

Os cachorros fazem cocô e as crianças pegam pra fazer coleção.
Os casais jogam frescobol e acertam a bolinha na cabeça das véias.
Os jovens de jet ski atropelam os surfistas, que por sua vez, miram a
prancha pra abrir a cabeça dos banhistas.

O melhor programa pra quem vai à praia é chegar bem cedo, antes do
sorveteiro, quando o sol ainda está fraco e as famílias estão chegando.
Muito bonito ver aquelas pessoas carregando vinte cadeiras, três
geladeiras de isopor, cinco guarda-sóis, raquete, frango, farofa,
toalha, bola, balde, chapéu e prancha, acreditando que estão de férias.

Em menos de cinqüenta minutos, todos já estão instalados, besuntados e
prontos pra enterrar a avó na areia.

E as crianças? Ah, que gracinhas!
Os bebês chorando de desidratação, as crianças pequenas se socando por
uma conchinha do mar, os adolescentes ouvindo walkman enquanto dormem.

As mulheres também têm muita diversão na praia, como buscar o filho
afogado e caminhar vinte quilômetros pra encontrar o outro pé do
chinelo.

Já os homens ficam com as tarefas mais chatas, como perfurar o poço pra
fincar o cabo do guarda-sol.
É mais fácil achar petróleo do que conseguir fazer o guarda-sol ficar em pé.

Mas tudo isso não conta, diante da alegria, da felicidade, da maravilha
que é entrar no mar!
Aquela água tão cristalina, que dá pra ver os cardumes de latinha de cerveja
no fundo.
Aquela sensação de boiar na salmoura como um pepino em conserva.

Depois de um belo banho de mar, com o rego cheio de sal e a periquita
cheia de areia, vem aquela vontade de fritar na chapa.
A gente abre a esteira velha, com o cheiro de velório de bode, bota o
chapéu, os óculos escuros e puxa um ronco bacaninha.

Isso é paz, isso é amor, isso é o absurdo do calor!!!!!
Mas, claro, tudo tem seu lado bom.
E à noite o sol vai embora.
Todo mundo volta pra casa tostado e vermelho como mortadela, toma banho
e deixa o sabonete cheio de areia pro próximo.
O Shampoo acaba e a gente acaba lavando a cabeça com qualquer coisa,
desde creme de barbear até desinfetante de privada.
As toalhas, com aquele cheirinho de mofo que só a casa da praia oferece.
Aí, uma bela macarronada pra entupir o bucho e uma dormidinha na rede
pra adquirir um bom torcicolo e ralar as costas queimadas.

O dia termina com uma boa rodada de tranca e uma briga em família.
Todo mundo vai dormir bêbado e emburrado, babando na fronha e torcendo,pra
que na manhã seguinte, faça aquele sol e todo mundo possa se encontrar no
mesmo inferno tropical…
Qualquer semelhança com a vida real, é uma mera coincidência.

enviado por  graça maria meneghetti.

OLHA A CACHAÇA, AÍ GENTE! por edu hoffmann

AbrideiraCada país têm sua bebida popular. Em Cuba é o rum, nos esteites é o uísque, na Rússia é a vodka,

na Itália, tuto buona gente, adoram a graspa, no México bebem teqüila, e aí vai…
No Brasil, claro, é a cachaça!“Cachaça é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de trinta e oito a quarenta e oito por cento em volume, a vinte graus Celsius, obtida pela destilação do mosto fermentado de cana-de-açúcar com características sensoriais peculiares, podendo ser adicionada de açúcares até seis gramas por litro, expresso em sacarose”.
Foi assim, que, em outubro de 2003, por meio do Decreto 4.851, o governo brasileiro oficializou a cachaça como produto tipicamente brasileiro.

Luis da Câmara Cascudo, em Prelúdio da Cachaça; etnografia, história e sociologia da aguardente no Brasil, informa:
A aguardente da terra, elaborada no Brasil, podia atender ao apetite dos fregueses humildes, escravos, mestiços, trabalhadores de eito a jornal, todo um povo de reduzida pecúnia. O Tráfico da escravaria impôs a valorização incessante da aguardente na terra, a futura cachaça, era indispensável para a compra do negro africano e, ao lado do tabaco em rolo, uma verdadeira moeda em circulação.

A cachaça a Deus do céu
tem o poder de empatar
porque se Deus dá juízo
cachaça pode tirar

mulato não larga a faca
nem branco a “sabedoria”
cabra não deixa a cachaça
nem negro a feitiçaria

(poesia anônima popular)

A nossa querida cachaça já foi tratada como bebida de segunda categoria, hoje, no entanto, ela já atingiu o status de boa bebida, graças ao trabalho, principalmente dos mineiros.
Lá em Minas Gerais, formaram cooperativas, com um controle rígido quanto à qualidade da nossa boa cachacinha. Por conta disso, em qualquer bar e restaurante do Brasil, encontramos uma “mineirinha” de primeira, motivo do aumento das exportações das branquinhas e amarelinhas.

Sabia que no Brasil já têm até cachacier? Pois é. Cachacier é variação da palavra francesa sommelier, que designa o expert em vinhos. O nosso especialista chama-se Carlos Gonzáles, dono da Cacharia Pompéia, em São Paulo. Entre as dicas do Carlos, está a escolha do copo: “não muito alto com gargalo mais estreito e bojudo” – para sentir o aroma e apreciar a coloração.

Cana -caiana
A cana-caiana é a única saccharum officinarum a denominar aguardente, ingressando na rica sinonímia da cachaça. Batizou um livro de poemas de Ascenso Ferreira (“Cana-caiana”, Recife,1939) onde reaparece um ditirambo popular:
Suco de cana-caiana
Passado no alambique,
Pode sê qui prejudique
Mas bebo toda sumana

Existem muitas estórias, brincadeiras e folclores envolvendo a cachaça. Consegui uma que vinha impressa na etiqueta da Caninha Brumado Velho:

Fui a Minhas gerais e tomei uma cachaça da boa,
mas tão boa, que resolvi levar dez garrafas pra casa.
Mas dona patroa me obrigou a jogar tudo fora.
Peguei a 1ª garrafa, bebi um copo e joguei o resto na pia.
Peguei a 2ª garrafa, bebi outro copo e joguei o resto na pia.
Peguei a 3ª garrafa, bebi o resto e joguei o copo na pia.
Peguei a 4ª garrafa, bebi na pia e joguei o resto no copo.
Peguei o 5º copo, joguei a rolha na pia e bebi a garrafa.
Peguei a 6ª pia, bebi a garrafa e joguei o copo no resto.
A 7ª garrafa, eu peguei no resto e bebi a pia.
Peguei o copo, bebi no resto e joguei a pia na 8ª.
Joguei a 9ª pia no copo, peguei a garrafa e bebi o resto.
O 10º copo, eu peguei a garrafa no resto e me joguei na pia.
-Não me lembro o que fiz com a patroa

Saideira

Musicalmente, foram feitas trocentas músicas, com letras falando da cachaça e respectivos bebuns. Apontarei três, que considero ótimas:Camisa listrada, de Assis Valente

Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí
Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati
Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão
E sorria quando o povo dizia: sossega leão, sossega leão…

Cachaça Não é Água Não,de Mirabeau Pinheiro, L de Castro e H Lobato

Se você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vêm do alambique
E água vêm do ribeirão

Pode me faltar tudo na vida
arroz, feijão e pão
Pode me faltar manteiga,
E tudo mais não faz falta não

Pode me faltar amor
Disto até acho graça
Só não quero que me falte
A danada da cachaça

Moda da Pinga, de Ochelsis Laureano e Raul Torres

C’oa marvada pinga é que eu me atrapaio
Eu entro na venda e já dô meu taio
Pego no copo e dali não saio
Ali mesmo eu bebo, ali mesmo eu caio
Só pra carregá é que eu dô trabaio, oi lá !

Venho da cidade, já venho cantando
Trago um garrafão que venho chupando
Venho pros caminho, venho trupicando
Chifrando os barranco, venho cambeteando
E no lugar que eu caio, já fico roncando, oi lá !

O marido me disse, ele me falô
Largue de bebê, peço pro favor
Prosa de homem nunca dei valor
bebo com o sor quente pra esfriar o calô
E bebo de noite pra fazê suadô, oi lá !

Cada vez que eu caio, caio diferente
Me arco pra trás e caio pra frente
Caio devagar, caio de repente
Vou de currupio, vou deretamente
Mas sendo de pinga eu caio contente, oi lá !

Pego o garrafão e já balanceio
Que é pra mor de ver se tá mesmo cheio
Num bebo de vez porque acho feio
No primeiro gorpe chego inté no meio
No segundo trago é que eu desvazeio, oi lá !

Eu bebo da pinga porque gosto dela
Eu bebo da branca, bebo da amarela
Bebo no copo, bebo na tigela
Bebo temperado com cravo e canela
Seja quarqué tempo vai pinga na goela, oi lá !

Eu fui numa festa no rio Tietê
Eu lá fui chegando no amanhecê
Já me dera, pinga pra mim bebê
Já me deram pinga pra mim bebê, tava sem fervê

Eu bebi demais e fiquei mamada
Eu caí no chão e fiquei deitada
Aí eu fui pra casa de braço dado
Ai de braço dado com dois sordado
Ai, muito obrigado !

CARNAVAL? E O NOSSO? env. por loureane castro.

carro alegórico com eusébio, no corso de Loule.

 Quando se fala de Carnaval, os brasileiros acham-se donos da ciência. Pensam que só no Brasil é que há Carnaval? Nanay. Não se esqueçam do Carnaval veneziano…
Espanha também tem tradições próprias e muito antigas. Se, por um lado, temos o mediático Carnaval de Tenerife (mais do mesmo, na linha do Carnaval madeirense, como se pode ver em http://www.carnavaltenerife.es/), o norte da Espanha tem tradições que se assemelham muito às do interior/norte de Portugal e que remontam aos jograis e às sátiras sociais em tom jocoso e por trás de um careto ou de uma máscara.
A sul, mantêm-se as sátiras, mas juntam-se às chirigotas, em agrupamentos de gente que se une para satirizar a actualidade ao ritmo de pasodoble, tanguillo e outros da tradição musical andaluza. Há um concurso central, que é o de Cádiz, mas todas as terras têm o seu concurso local para os melhores chirigoteros. O site oficial é http://www.carnavaldecadiz.com/. O concurso pode também ser visto em directo na tv (ou numa selecção em diferido) no site do CanalSur: http://www.radiotelevisionandalucia.es/
Nós, os saloios dos ibéricos, também temos tradições para tudo. E, sinceramente, eu cá dispenso as mulatas despidas e as escolas de samba e vou-me ficar por ver o concurso de chirigotas em directo na terça-feira. É uma pena que não se incentivem os Entrudos lusitanos assim e que se deixem cair em desuso tradições seculares para adoptar referências culturais que, entre o Halloween dos EUA e o sambódromo do Brasil, não são nossas.
Eles têm o rei Momo, nós temos a Queima e o Enterro do Judas.
E qualquer provinciano ibérico como eu, que oscilo entre o jamón Pata Negra e as tripas à moda do Porto, sabe do que falo.
loureane afirma, em seu email, que retirou, de uma página, na internet, sem assinatura, e que achou interessante. como estamos no carnaval, e o servidor está cheio de confetes e serpentinas, publicamos. se o autor do texto se apresentar, com provas, citaremo-lo. ops! confete no olho.

POEMA de bia de luna

A borboleta branca

É a letra que falta

  

  

na palavra que não sai

CHIAR(O)SCURO poema de bárbara lia

Hora suspensa. Horizonte de sangue.
Despediu-se o sol, não brilha a lua.
Barcas estremecem em marés de fogo.
Sinos dobram a Ave-Maria.
O Bem chora a evaporação do dia.
Lágrimas de anjos pela humanidade crua.
Encontro e fuga de almas no ocaso,
Bebendo o sangue solar – poção
De luz para os dias de aço.
Crepúsculo incendiado.
Átimo de esperança: Um Serafim alado,
Flauta de estrelas flana acima de algas e corais.
Toca a música divina estremecendo cristais.
(Jazz, blues, salsa cubana, sinfonia?)
Som azul unindo sangue celeste e marinho.
Serafim, flauta e sol
Evaporam em silêncio de prece.
A branda noite abraça o arrebol.
O eco da flauta aos puros adormece

ARRANCADO DE MIM poema de paulo matos

Arrancado de mim
Como flor que fosse arrancada
Por uma criança ao passar
E antes que a flor percebesse
Já tivesse sido despetalada
Pela criança que soprava
Suas pétalas ao vento
Para acompanhar-lhes o vôo
No encanto mágico de voar
Como essa flor sem pétalas
Estou despido de mim
Perdido ao lembrar como era
E não saber como sou
Sinto medo
Há silencio em mim
Como se não ter respostas
Fosse a resposta
E tudo se tranqüilizasse
Como um mar em súbita calmaria
E o medo fosse embora
E outro medo então
Se apossasse de mim
O medo de não ter coragem
Para encontrar as respostas
Que provavelmente estão aqui
Dentro de mim