Arquivos Diários: 11 fevereiro, 2008

O AUTISTA e DESTINO – dois contos de raymundo rolim

O autista

Chamavam-no o Louquinho da Rua. Outros juravam que era assim desde pequeno. E havia também quem afirmasse que o mesmo ficou daquele jeito por desconhecer o paradeiro da mulher de seus amores que simplesmente desaninhou-se num dia de tempestade entre raios e trovões. O certo é que o pobre homem escapava ao largo da imaginação e da percepção da gente do lugar. Ninguém nunca o ouvira pronunciar palavra. Sempre cabisbaixo, aparência desleixada, um chapéu posto de qualquer jeito sobre a cabeça grande. Saía pela manhã e só retornava quando o dia vinha transpondo a linha do horizonte. Muitos creditavam ao Louquinho a façanha de fazer sumir o sol – tamanha à fidelidade do tempo decorrido em que ele aparecia quando a bola vermelha de fogo se jogava por detrás dos montes e dos olhos de todos dali -. Uma vez, a estrela do dia, alongou-se um pouco mais em seu curso, (Josué 10:12). * Saíram às ruas. Em vão esperariam que lá, no topo da colina, o autor de único e assombroso feito se apresentasse, ele o Louquinho da Rua, o grande prestidigitador burgo. E não se deitava nunca o luzeiro-mór pras bandas de sua caverna incandescente. Dúvidas e indagações sem palavras se chocavam no ar. Entreolhavam-se atônitos. Os que mexiam nervosamente os dedos não eram os mesmos que se sentavam no fio da calçada e colocavam as mãos sobre a cabeça. Houve ainda quem, naquelas horas, armado de um terço, começasse a mexer os lábios numa prece ininteligível a homens e deuses. Um místico ajoelhou-se e elevando os olhos aos céus interiores, abriu os braços ao conceber no vórtice do tempo, as muralhas de Jericó tombarem em ruínas, enquanto o Louquinho da Rua, na pele do bravo guerreiro, instigava ainda mais os seus homens para que não ficasse pedra sobre pedra; nem ovelhas, nem cabras, mulheres, idosos ou crianças. E sob a égide da fumaça infausta, ouvia-se o rigor da canção das espadas nas carnes tenras e frágeis. Por fim, cada qual com uma história insólita, ruminativa, a coçar-lhes internamente os crânios, retornou à sua casa. O sol adormecia lentamente junto ao vilarejo.         

 citação: Josué 10:12 – Biblia  

              

  

Destino

 Ademais o tempo andava frio, chuvarento, às avessas.     Poucos se arriscavam a enfrentar-lhe os punhos – principalmente à noite – quanto mais visitar o casarão que ficava do outro lado da cidade e que era alvo de muitas e veladas especulações por quem lhe conhecia as histórias     Dizia-se de tudo       De sua varanda adornada com filetes de ouro e que ficava de frente para um bosque que se movia dependendo da lua    E também sobre o choro intermitente e lastimoso de uma moça que vez por outra aparecia – cabelos ao vento – de perfil. Dela conta-se que até hoje murmura o nome daquele que lhe foi tão caro e que alegrara os seus poucos dias de juventude, mas que desapareceu assim como havia chegado     Os vizinhos benziam-se quando passavam em frente sem arriscar ao menos a olhadela disfarçada – de viés – para que cultivassem grato e bom sono E corria ainda uma outra história acerca de um cocheiro e sua carruagem mágica cuja antiga rota passava defronte ao casarão todas as noites e que para evitar desconfortos maiores incitava com gritos os pobres animais que vinham de longe arfando e os obrigava ao galope até que num vôo desapareciam entre multidões de nuvens (não sem antes ele, o cocheiro, virar o rosto para o lado oposto ao da varanda) quando então puxava sobre si a sua capa e com ela ocultava urgentemente a cabeça.Mesmo assim ele foi     Armou-se de coragem o forasteiro e foi sabedor dessas e doutras tantas, apeou-se.  Amarrou a montaria na cerca coberta pela hera espessa cujo peso forçava os ferros retorcidos e enferrujados.   Impressionava aquele lugar infinitamente cru e desolado Entrou pé ante pé por um caminho estreito por onde grassava um caramanchão secular cujas pontas da ramagem se estendiam e se esparramavam para todos os lados e aos jorros para baixo Empurrou o portão que rangeu doído ao toque da mão destra e firme  Levantou a cabeça e olhou por entre as frestas dos galhos     Afastou algumas folhas da frente do rosto A lua cheia brilhou por um instante no fundo daqueles olhos que incandesceram suaves     Avançou alguns passos…     Ouviu ao longe tonitruante galope de muitas parelhas que calcinavam o chão em que pisavam  Os sons vinham de todos os lugares e de lugar algum  Respirou fundo…     A mão pousada sobre o arbusto experimentara um leve estremecimento   O coração pulsou-lhe forte acelerando a circulação Chegavam-lhe rumores cada vez mais próximos como o estalar de um chicote     Seu cavalo relinchou empinado sobre as patas traseiras Balançou a crina enquanto na varanda inclinada apareceu a silhueta de uma moça – cabelos ao vento – que soluçava baixinho e murmurava um nome familiar algo parecido ao seu próprio nome     Um frio traspassou-lhe dos pés à cabeça e os seus pelos se crisparam.Entre sussurros e lamentos a moça virou-se lentamente e ele o forasteiro a viu de frente     O ruído das patas dos cavalos parecia vir agora de dentro da sua cabeça     Retrocedeu trêmulo Silencioso e reverente o cocheiro curvou-se     Apanhou o corpo abandonado e acomodou-o no interior da carruagem     A moça da varanda desceu então as escadas que oscilaram leve ao quase inexistente peso Um vento gélido e intempestivo irrompeu súbito e rodopiou em volta e sobre os cabelos dela que auxiliada obsequiosa e gentilmente pelo condutor da carruagem adentrou e tomou assento e entre as mãos num gesto de profunda adoração a cabeça do forasteiro Sorveu delicadamente com a pontinha da língua cada gotícula de suor que emergia daquelas têmporas afogueadas e úmidas     Aspirou profunda e ternamente aquele cheiro que tão bem conhecia enquanto carruagem e passageiros elevavam-se do solo disparando entre nuvens eletricamente carregadas e significativamente baixasNo outro dia antes de aparecer o sol achou-se um cavalo que jazia atado junto à cerca com olhos abertos e fixos no profundo vazio Punhados de capim ainda viçosos e frescos pendiam no viés da boca inerte e fria. 

HIS MASTER’S VOICE! – e nóis? – por frederico fullgraf

Crônica da televisão arcaica  

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Lembra-se de Nipper? Se eu lhe mostrar a fotografia, você dará um suspiro, virá à tona metade de sua vida, ele alegrou multidões. Nossa fábula começa em 1888, ano em que o alemão Emil Berliner sacudiu o mundo enfadado de saraus, com a invenção do gramofone e do famoso vinil. Foi a apoteose. E com luminosa intuição, Johnson, seu sócio, compraria ao pintor Francis Barraud os direitos de reprodução do quadro intitulado His Master´s Voice – voz e golpe de mestre. O logotipo converteu-se na mais célebre marca da historia fonográfica: o enfeitiçado cão Nipper, de Barraud, orelhas perguntantes, olhos nervosos, faro rastejante, buscando o dono da voz no gargalo da engenhoca à sua frente – e nada! Foi mundialmente identificado como “o cachorrinho da RCA”, símbolo de alta fidelidade, uma gracinha! Ironicamente, este é um entrecho de inominável – cachorrada, não, patifaria bípede! – pois, como todos os fiéis, de tanto ouvirem a voz do dono, os Nippers confundem-se com o dono da voz.  E logo descobriram que gramofone também dava poder: a imagem de Nipper como alegoria da comunicação de mão única, com tinturas autoritárias.  Pioneira na tecnologia, a Alemanha do pós-guerra de 1918 instituía também o primeiro sistema de radiodifusão pública. E cobria-se de louvores a democrática República de Weimar. Democrática, mas instável. É quando um intelectual inquieto começa a perceber ruídos na linha – o Nipper aprisionado pelo “discurso único”. E, prevendo o pior, escreve: Na minha opinião, o sr. deveria tentar fazer do rádio uma coisa verdadeiramente democrática (…) Se isso lhe parece utópico, peço-lhe refletir sobre o motivo por que considera  isso uma utopia (…). A provocação era de Bertolt Brecht, dirigida a um superintendente virtual, em sua memorável Teoria do Rádio. Publicada em 1928, é de tal acaçapante atualidade, que – mudança de cenário – cai como uma luva, sobre a arrastada crise das rádios e TVs ditas “públicas”, da qual a Paraná Educativa é exemplo tumultuado. Síntese da teoria de Brecht é de que “todo receptor é também seu próprio transmissor” – vindicação democrática perigosa nos recônditos do poder, onde campeia a alma penada do espírito autoritário. E já advertia Hannah Arendt, com a sensibilidade que lhe era própria: “O que a esfera pública considera impróprio, pode ter um encanto tão extraordinário e contagiante, cabendo que o adote todo um povo, sem perder por tal motivo seu caráter essencialmente privado” (A Condição Humana, 1981).  E o ano novo na capital das poucas, vexadas araucárias, surpreendeu-nos com vomição sem fim das nuvens, prenhes de efeito-estufa, e um barraco. Que refúgio da trovoada não era, antes foi própria morada do demo, forja de raios e palavrório faiscante: após enxovalhar, anos afora, através da Paraná Educativa, canal concessionário da União, um sem número de desafetos e servidores do próprio Estado, o governador do Estado sofreu embargo e advertência de um juiz federal: está proibido de usar os canais de rádio e TV para a veiculação de vitupérios, a TV obrigada a veicular mensagem de desagravo ao Judiciário desrespeitado, e, sob pena de salgadas multas em progressão geométrica, proíbe-se ao notificado usar a emissora para promoção pessoal.  Na réplica, o governador lançou campanha contra a “volta da censura prévia”. Fazendo leitura dramática de receita de ovos fritos, teceu doidivanas associações com a longa noite das ditaduras militares, a vigência da doutrina de segurança nacional, as prisões, a tortura, a destruição, enfim, do Estado Democrático de Direito. Mas não teve adesões de peso: assustado, seu próprio partido abotoou-se feito esfinge. Cessar-fogo imposto, não se esclareceu o mais importante: a função social, a missão genuína, outorgada às emissoras ditas “públicas”. E eis a má notícia: a Paraná Educativa não é pública, ela é estatal.  Algumas conclusões são inevitáveis. A crise da Paraná-Educativa reverbera a diversidade e as disparidades do estatuto jurídico das rádios e tvs educativas do país: confundidas como entidades de Direito Público, são majoritariamente canais estatais. “Canais” ou instrumentos? A ambigüidade encontra amparo na própria lei. Embora o artigo 37 do parágrafo 1o. da Constituição Federal estipule que a publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deva ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, e seja enfático ao estabelecer que da propaganda de governo “… não [podem] constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”, os abusos são praticados com a certeza da impunidade. Abusos como os do alarife e ex-governador Paulo Maluf, ao apropriar-se, nos anos 90, da TV Cultura de S.Paulo para fins espúrios, abriram a crise naquela emissora, blindada, desde então, com um Conselho, no qual o Estado tem voto, mas não é hegemônico – eis aí, indicadores para a reforma do Estatuto da Paraná Educativa: a criação ou reativação de sua fundação, seu controle por um Conselho Consultivo misto (forças representativas da sociedade civil, com assento para o governo estadual) e eleição democrática de seu superintendente. Ato contínuo, debate público sobre o formato da programação, que deverá privilegiar sua função social e seu perfil pluralista, valorizando criadores culturais de notório saber do Paraná, hoje marginalizados. E formas mistas, públicas-privadas, de financiamento. Mais ao fundo, a crise não deixa de espelhar a República imatura e vilipendiada: Brasil afora as TVs Educativas são cabides de emprego e o regime presidencialista-clientelista tem pendores para perigosos desvios autoritários. Não por acaso o Ministro Gilberto Gil opôs-se ao projeto da TV Brasil com pronunciamento de rara lucidez: “Estatal, não, precisamos de uma TV Pública!”. Fruto de insistentes pressões da opinião pública, a emissora vai ao ar, regida por um conselho e a promessa de não ecoar apenas o ponto de vista do governo federal – o que justifica a pergunta: e no Paraná? A notícia de Brasília não chegou ao Brasil profundo. As “educativas” são ventríloquas: estréiam com o dono da voz, repercutem o discurso único e terminam como a voz do dono – eis o “efeito Nipper”. Sociedade do espetáculo e latifúndio eletrônico detêm a hegemonia da comunicação eletrônica no Brasil. A primeira é reverberada 24-horas-on-line pela medusa de emissoras privadas, comerciais e idiotizantes, que reduzem informação e cultura à “mercadoria” e o ouvinte-telespectador a otário “consumidor”.  A segunda é o trem da alegria das concessões: FHC autorizou 239 rádios FM e 118 TVs educativas em oito anos; em apenas três anos e meio de seu primeiro mandato, o Governo Lula aprovou 110 emissoras educativas, sendo 29 televisões e 81 rádios. “Levando em conta somente as concessões a políticos, significa que ao menos uma em cada três rádios foi parar, direta ou indiretamente, nas mãos deles”( Elvira Lobato, Folha de S. Paulo, 18/06/06). O que fazer? Dotar o Brasil de rádios e TVs alternativas à repulsiva Babel eletrônica, significa avançar na modernidade. Quem vai fazê-lo? Parece razoável que a sociedade civil organizada deva tomar a iniciativa e o Estado limitar-se a estimular e monitorar o processo. De forma generosa: ele está a serviço e não “no lugar” do cidadão. Como fazer? Remédios há: desobediência civil, plebiscitos (e, se não lhe ofende, Calac, alter-ego que Julio Cortázar me empresta como auxiliar de arbitragem, recomenda ligeiro lustro na linguagem: – Francês moderno, Excelência!: agora diz-se l´État sommes nous!, que l´État c´est moi  é coisa feia, fora de moda…). Por último, a distorção de uma Paraná Educativa sem projeto e sem audiência. Sua crise evidencia a incompreensão dos direitos adquiridos do ouvinte / telespectador. Levantamento encomendado ao Ibope pela TVE (RJ) em 2003, já apontava instrutivo comportamento de audiência: 49% dos telespectadores das chamadas classes A e B, haviam sintonizado programas da TVE “em algum momento”, respectivamente 34% da classe C (média-baixa a baixa) e 16% das classes D e E. Traduzindo: quanto mais a pirâmide social se amplia na base, menos o povo se liga em TV pública; mas se ligaria mais, se aquela contemplasse suas necessidades culturais.  Qual é então, seu público cativo? Hoje, dez por cento dos habitantes da região metropolitana de Curitiba, isto é, 250 mil ouvintes -espectadores são “órfãos” de pai e mãe, se preferirem: de rádio e televisão de boa qualidade. É um público que se vincula às manifestações da produção cultural e artística, seja como criador, intermediário (patrocinador, mecenas) e ouvinte-espectador. Além do cabo, é nas TVs “públicas” que busca suas referências de conteúdo, estética, comportamento e política; atitudes que dizem da construção de sua identidade cultural. Ironicamente, ao tentar diferenciar-se do atoleiro da sociedade do espetáculo, este público pró-ativo sofre o desprezo histórico de sucessivos governos estaduais. Esta é, pois, a extenuante crônica da televisão arcaica – agora se faz imperiosa a televisão inevitável. Depois da “era Lerner” era de se esperar um governo sintonizado não apenas em sua própria freqüência, perspicaz e com coragem de escrever a história do país, como agente democratizador da TV Pública. Invertendo o sentido do eixo. Transformando o Paraná de importador, em pólo de produção e exportação cultural – eis a excruciante dívida cultural e social do Governo Requião. Entende-se que depois da receita de ovos fritos, o resto é silêncio, como diria Hamlet… Contudo, Calac acha que nem tudo está perdido: – cá entre nós, Excelência, que tal botar a viola e o gramofone no saco, e convidar o homem para um debate sobre a Teoria do Rádio na escolinha? Como lembrou o próprio, se isso lhe parece utópico, não se avexe, conte pra gente. Se não convidar, estimamos que a utopia ganhe as ruas, aquela baita faixa, assinada Bertolt Brecht – com o perdão pela expressão chula, Excelência, mas: já imaginou a cagada?  

SHOW “30 ANOS SEM LÁPIS” no guairinha – é hoje

 Apresentação é uma homenagem aos trinta anos de falecimento do cantor paranaenselapis-foto.jpg

O show “30 anos sem Lápis”, é um tributo do Centro Cultural Teatro Guaíra a Palminor Rodrigues Ferreira, conhecido como Lápis, compositor, instrumentista e cantor paranaense, que este mês completa 30 anos de falecimento.A apresentação será segunda (11), no Guairinha, às 20h, com ingressos a R$ 10,00.Participam do espetáculo os artistas: Jazomar Rocha, no violão, cavaquinho e voz, Rubem Rolim para cantar “Estranha saudade”, música de sua extensa parceira com Lápis, Galdino Junior, Marlus Coelho, Priscila Rocha, Eliane Bastos e Antonio Eugênio Ferraz (o “Pelicano”) para interpretarem as canções de Lápis e parceiros como Paulo Vítola, José Carlos Miceli e Kaká Buono. Os músicos Rubens Holzmann (violão/guitarra), Nelson Damiani (faluta/saxofones), Jeff Sabbag (piano), Jonas Cella (contrabaixo), João Charmak (bateria), Luciana Sicupira (surdo) e Fernando Loko (pandeiro/percussão), resgatam os arranjos escritos por Rubens Holzmann e Jazomar Rocha.

Durante o show será apresentada uma seleção com os melhores sambas do Lápis e seus parceiros: “Paticumbá” de Lápis e Nicolatte, “Silêncio”, “Samba de ap” e “Leva essa saudade”, de Lápis e Jorge Segundo, “Nada” de Lápis, Rubem Rolim e Bráulio Prado e “Vestido branco”, de Lápis.

O comunicador Sérgio Silva anunciará, durante o show, as músicas, intérpretes e as projeções com depoimentos e fotografias desenvolvidas por Nilson Muller Filho.

fonte: bem paraná.

POÉTICA – poema de manuel bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

ENLEIO eio eio poema de marilda confortin

  
 
Quando abro a pasta de emails
E vejo que o disco está cheio
Deleto tudo, jogo pra escanteio
Se o assunto é trabalho, gazeio
Só tuas mensagens, eu leio
 
Quando pegas a falar em seios
Me frustro – sei que são alheios
Mas para fantasiar, me bobeio
Finjo que são meus,  gateio
Entro no clima e proseio
 
Quando me vens com floreios
Disfarçando fins com os meios
Fico indecisa, confusa, titubeio
Não sei se encaro ou volteio
Se acelero, ou piso no freio
 
Mas se falas galanteios
Aí o negócio fica feio
Perco o prumo, desnorteio
Entro  no páreo, sapateio
Pulo na arena e toreio
 
Abro arquivos,  te releio
Links, jornais, tudo folheio
Procuro pistas, escaramuceio
Folha por folha te manuseio
Até nas entrelinhas, rastreio
 
Daí, me dou conta do enleio
Dois doidos movidos a charleio
As palavras, chumbo do tiroteio
A poesia, alvo desse torneio
E feliz me entrego ao devaneio.
 

IAHVEAH poema de sergio bitencourt

EU SOU,              

o protagonista do filme,             

o coadjuvante,             

o roteirista e o diretor,             

o contra-regra,              

a regra,             

o cenário e o expectador,             

a cadeira do cinema e a máquina do filme,             

a paisagem,             

a árvore,             

o átomo, o proton, o eletron, o anti-proton,              

o fumante e o não fumante,              

a sub-partícula e sua energia nuclear,             

a bomba e sua explosão.             

o sol,             

os planetas e suas gerações,              

as galáxias e suas constelações,             

o big e o bang e antes de qualquer big-bang,              

EU SOU A VIDA,                       

                                     “et nunc et semper“,                          EU SOU. 

FÚRIA (2)

se existe uma coisa que me faria terminar um caso seria se minha garota me pegasse com outra mulher.

eu não poderia tolerar isso.

steve martin.