O AUTISTA e DESTINO – dois contos de raymundo rolim

O autista

Chamavam-no o Louquinho da Rua. Outros juravam que era assim desde pequeno. E havia também quem afirmasse que o mesmo ficou daquele jeito por desconhecer o paradeiro da mulher de seus amores que simplesmente desaninhou-se num dia de tempestade entre raios e trovões. O certo é que o pobre homem escapava ao largo da imaginação e da percepção da gente do lugar. Ninguém nunca o ouvira pronunciar palavra. Sempre cabisbaixo, aparência desleixada, um chapéu posto de qualquer jeito sobre a cabeça grande. Saía pela manhã e só retornava quando o dia vinha transpondo a linha do horizonte. Muitos creditavam ao Louquinho a façanha de fazer sumir o sol – tamanha à fidelidade do tempo decorrido em que ele aparecia quando a bola vermelha de fogo se jogava por detrás dos montes e dos olhos de todos dali -. Uma vez, a estrela do dia, alongou-se um pouco mais em seu curso, (Josué 10:12). * Saíram às ruas. Em vão esperariam que lá, no topo da colina, o autor de único e assombroso feito se apresentasse, ele o Louquinho da Rua, o grande prestidigitador burgo. E não se deitava nunca o luzeiro-mór pras bandas de sua caverna incandescente. Dúvidas e indagações sem palavras se chocavam no ar. Entreolhavam-se atônitos. Os que mexiam nervosamente os dedos não eram os mesmos que se sentavam no fio da calçada e colocavam as mãos sobre a cabeça. Houve ainda quem, naquelas horas, armado de um terço, começasse a mexer os lábios numa prece ininteligível a homens e deuses. Um místico ajoelhou-se e elevando os olhos aos céus interiores, abriu os braços ao conceber no vórtice do tempo, as muralhas de Jericó tombarem em ruínas, enquanto o Louquinho da Rua, na pele do bravo guerreiro, instigava ainda mais os seus homens para que não ficasse pedra sobre pedra; nem ovelhas, nem cabras, mulheres, idosos ou crianças. E sob a égide da fumaça infausta, ouvia-se o rigor da canção das espadas nas carnes tenras e frágeis. Por fim, cada qual com uma história insólita, ruminativa, a coçar-lhes internamente os crânios, retornou à sua casa. O sol adormecia lentamente junto ao vilarejo.         

 citação: Josué 10:12 – Biblia  

              

  

Destino

 Ademais o tempo andava frio, chuvarento, às avessas.     Poucos se arriscavam a enfrentar-lhe os punhos – principalmente à noite – quanto mais visitar o casarão que ficava do outro lado da cidade e que era alvo de muitas e veladas especulações por quem lhe conhecia as histórias     Dizia-se de tudo       De sua varanda adornada com filetes de ouro e que ficava de frente para um bosque que se movia dependendo da lua    E também sobre o choro intermitente e lastimoso de uma moça que vez por outra aparecia – cabelos ao vento – de perfil. Dela conta-se que até hoje murmura o nome daquele que lhe foi tão caro e que alegrara os seus poucos dias de juventude, mas que desapareceu assim como havia chegado     Os vizinhos benziam-se quando passavam em frente sem arriscar ao menos a olhadela disfarçada – de viés – para que cultivassem grato e bom sono E corria ainda uma outra história acerca de um cocheiro e sua carruagem mágica cuja antiga rota passava defronte ao casarão todas as noites e que para evitar desconfortos maiores incitava com gritos os pobres animais que vinham de longe arfando e os obrigava ao galope até que num vôo desapareciam entre multidões de nuvens (não sem antes ele, o cocheiro, virar o rosto para o lado oposto ao da varanda) quando então puxava sobre si a sua capa e com ela ocultava urgentemente a cabeça.Mesmo assim ele foi     Armou-se de coragem o forasteiro e foi sabedor dessas e doutras tantas, apeou-se.  Amarrou a montaria na cerca coberta pela hera espessa cujo peso forçava os ferros retorcidos e enferrujados.   Impressionava aquele lugar infinitamente cru e desolado Entrou pé ante pé por um caminho estreito por onde grassava um caramanchão secular cujas pontas da ramagem se estendiam e se esparramavam para todos os lados e aos jorros para baixo Empurrou o portão que rangeu doído ao toque da mão destra e firme  Levantou a cabeça e olhou por entre as frestas dos galhos     Afastou algumas folhas da frente do rosto A lua cheia brilhou por um instante no fundo daqueles olhos que incandesceram suaves     Avançou alguns passos…     Ouviu ao longe tonitruante galope de muitas parelhas que calcinavam o chão em que pisavam  Os sons vinham de todos os lugares e de lugar algum  Respirou fundo…     A mão pousada sobre o arbusto experimentara um leve estremecimento   O coração pulsou-lhe forte acelerando a circulação Chegavam-lhe rumores cada vez mais próximos como o estalar de um chicote     Seu cavalo relinchou empinado sobre as patas traseiras Balançou a crina enquanto na varanda inclinada apareceu a silhueta de uma moça – cabelos ao vento – que soluçava baixinho e murmurava um nome familiar algo parecido ao seu próprio nome     Um frio traspassou-lhe dos pés à cabeça e os seus pelos se crisparam.Entre sussurros e lamentos a moça virou-se lentamente e ele o forasteiro a viu de frente     O ruído das patas dos cavalos parecia vir agora de dentro da sua cabeça     Retrocedeu trêmulo Silencioso e reverente o cocheiro curvou-se     Apanhou o corpo abandonado e acomodou-o no interior da carruagem     A moça da varanda desceu então as escadas que oscilaram leve ao quase inexistente peso Um vento gélido e intempestivo irrompeu súbito e rodopiou em volta e sobre os cabelos dela que auxiliada obsequiosa e gentilmente pelo condutor da carruagem adentrou e tomou assento e entre as mãos num gesto de profunda adoração a cabeça do forasteiro Sorveu delicadamente com a pontinha da língua cada gotícula de suor que emergia daquelas têmporas afogueadas e úmidas     Aspirou profunda e ternamente aquele cheiro que tão bem conhecia enquanto carruagem e passageiros elevavam-se do solo disparando entre nuvens eletricamente carregadas e significativamente baixasNo outro dia antes de aparecer o sol achou-se um cavalo que jazia atado junto à cerca com olhos abertos e fixos no profundo vazio Punhados de capim ainda viçosos e frescos pendiam no viés da boca inerte e fria. 

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