A AJUDA de SÃO JORGE ao PADRE – conto de tonicato miranda

O homem se acercou da cabine, meio tímido, se ajoelhou, arrumou o paletó e disse:

__ Padre, eu pequei.

Dentro da gaiola de madeira de mogno escuro trabalhado, o padre afirmou:

__ Certo.

__ Qual certo o quê, está tudo errado! – exclamou o homem, irritado.

__ Calma, homem!

__ O senhor me pede calma porque não sabe o que fiz.

__ É isto mesmo, estou aqui para saber o que o senhor fez e lhe absolver deste crime dos diabos.

__ E agora esta, quem disse que eu cometi um crime. E que conversa é esta de chamar o nome do proscrito?

__ Desculpe-me, esta é apenas uma forma de expressão, meu senhor.

__ … e eu não sou senhor coisa nenhuma, Senhor é Deus, e o padre deve saber muito bem isto.

__ É claro, meu filho, Deus é o Senhor de todos nós.

__ É isto mesmo, Deus e somente ele pode aliviar minha dor, me conceder o perdão.

__ Deixa comigo, meu filho. Eu vou…

__ Pera lá, não sou seu filho, nem lhe dei esta intimidade, padre.

__ Meu filho é outra forma de expressão.

__ Está certo. Vamos começar tudo novamente.

__ Está bem, estou ouvindo, siga adiante…

__ Como é? Então o senhor sabe?

__ Sabe o quê? E olha que quem está agora me chamando de senhor é o amigo.

__ Amigo?? Estou perguntando porque o padre pediu para seguir adiante e quem segue adiante é camioneiro, exatamente o que eu sou. Então como o padre sabia?

__ Eu não sabia de nada, siga adiante é outra forma de expressão. Vamos lá, confesse logo seu pecado, homem. – adiantou o padre já um tanto irritado
__ Padre eu pequei porque atropelei um homem e não prestei socorro. Com a velocidade que vinha e naquela curva da estrada, nem vi direito.

__ Isto é grave, meu filho. Mas ele morreu?

__ Não sei dizer. Uns amigos que encontrei depois num posto de gasolina, uns 50 km adiante, me disseram que sim. O mais estranho é que dizem que o homem morreu com o braço estendido fazendo aquele gesto de recolhimento de dois dedos e o dedo central esticado.

__ Vou pedir para você rezar dez padres nossos e cinco atos de contrição. E mais: terá de acender umas doze velas a Nossa Senhora dos Desvalidos para que possa purificar a sua alma, meu filho.

__ Mas padre, já estou ficando irritado, e quando acontece isto, não respondo por mim. Os padres nossos e as velas estou de acordo, mas os atos de contr…

__ Esta bom, meu filho, não precisa ficar irritado. Eu retiro os atos de contrição. Se quiser rezo os padres nossos por você. Espere, deixe que lhe diga, vou interceder por você junto a São Jorge – que é o senhor dos motoristas. Vá em paz, meu filho, acenda as velas.    – E o padre pensou com seus botões “Meu São Jorge, você que tem capa e lança, galopa ligeiro sobre um cavalo branco, proteja-me deste dragão. Prometo rezar cem Ave Marias até o entardecer”.

 – esta coisa que o senhor disse aí. Não sei fazer isto não. Pede outra coisa ou então entro dentro dessa cabine e nós vamos dar um jeito no pagamento do pecado. Não agüento mais esta culpa estourando igual a foguetório dentro do meu peito.

__ Vá com Deus, meu filho. – E o padre acrescentou ao seu pedido para São Jorge “Proteja-me dos camioneiros mal humorados”. Lembre-se que todo dia tenho de atravessar esta estrada que passa aqui na frente da paróquia para ir lá para o convento. Saudações aos outros santos de sua predileção. Até qualquer necessidade!

__ Está certo assim, seu padre. Até logo, Obrigado.

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