A VISITADORA por frederico fullgraf

Hoje ela não veio. Distraí-me com tanta coisa durante o dia, mas à noite senti sua falta. Não, não é em A. que estou pensando, dela não sinto falta. Libertei-me de seus frívolos arroubos de falsa transparência, suas conspirações e fingimentos. Deve pensar que a forma mais insidiosa de vingança seja meu silêncio, que a oclusão do amor é viver a mortal indiferença do outro. Mal sabe ela, que os que abrem mão do lar, são melhores adivinhos dos pensamentos alheios; os de Deus inclusive. Mas onde andará a outra? Vagará ainda pelas ruas nestas horas tardias? Seu desaparecimento me humilha: e se estiver dividindo sua intimidade com outra pessoa? Na verdade preocupa-me seu bem-estar: poderia ter sido atropelada, ferida – e se estiver morta? Estou aflito: não há como procurá-la, não sei o seu nome, que deriva de sua compleição e hábitos. Vou esperá-la.
 
Convivemos por várias semanas e apesar de seus modos discretos, só infra-minimamente perceptíveis, sinto máxima ausência. Introduziu-se sem aviso, mas com delicadeza: de repente estava. Não que fosse invasora. Ao contrário, alegrou-me muito sua presença. Inopinadamente, graciosamente, brindou-me sua companhia, neste quarto onde não se falava, a não ser em pensamento. Obsessiva no início, corria desnorteada de um lado para outro, em aparente busca de um tesouro escondido em local esquecido. Depois foi se aquietando.
 
Quase nos tornamos íntimos, afirmação algo leviana, reconheço, ligeira projeção do meu afeto: era eu quem a saudava, com ela conversava enquanto passava um café. Egoísta, não prestei atenção aos seus sinais, comprazi-me em falar, confortado pela companhia. E então aconteceu aquele terrível acidente, por minha culpa. Permito-me reproduzi-lo, com a perspectiva dela: de repente perdeu o chão, tenebroso marulho de placas tectônicas. Aflita, agarrou-se à ponta de uma rocha esférica e esbranquiçada, já transbordada por gigantescas ondas e espuma peçonhenta. Sentiu o fim dos tempos, manipulado por garras hiperbólicas, que baixavam dos altos. Só então a descobri, suspensa entre a vida e a morte; a seus pés, o buraco negro aguardando sua queda e a deglutição pelas entranhas da cidade. Aliviado, consegui salvá-la. Toquei-a com suavidade e ela desempenou-se com aquela cerimônia da mulher que oferece a face, para atrasar o primeiro beijo na boca; mas sem pavor nem histeria, amuando-se em outro canto. 
 
Comoveu-me seu respeito por minha solitude, à qual talvez estivesse associando a sua própria, dando, finalmente, algum sentido àquela genuína oferta do coração, soletrada para apenas duas (sabendo que ela jamais seria a terceira destas) mulheres em minha vida: sinta-se em casa, quero aconchegar a tua solidão. Senti genuína compaixão por ela.
 
Não que este lugar fosse um ermo ou o desterro. Digamos que seja um intermúndio orbital, cuja flamância lembraria aqueles excessos de luz no céu do limiar dos tempos, embotando-lhe a vista frágil. Evitou a imensa tela rutilante, aberta sobre infinito livro de areia, com incontáveis palavras e línguas dessemelhantes, agrupadas em milhões de páginas, número sem fim de manuscritos salvos em arquivos virtuais. Aleatório, mas íntimo terminal da babélica biblioteca borgeana, que lhe devolveu a insignificância de sua minúscula estatura. Contudo, imenso jardim suspenso entre o passado e o espanto, seus ancestrais já se deslocavam em missões exploratórias de suas raízes, troncos e folhas. Mas não têm percepção do tempo, nem consciência da História – simplesmente são. Poupada, ela ignora meu horror à metáfora do Angelus Novus de Benjamin: História como amontoado de ruínas; corpo enterrado vivo, sedimentado em camadas de esquecimento; Vida como tempo esvaído, irrecuperável. Relógios derretidos de Dali.
 
Tempo. Surpreendo-me contando os dias de sua ausência. Abobado, converso comigo mesmo. Suportar a solidão é preparar-se para a partilha da intimidade (como é verdade também, que a solidão soe ser mais intensa em companhia de certos outros: o compassivo egóico, oculta, seqüestra, foge da angústia alheia).
 
Às vezes sou Winfried Georg Sebald, que caminha pelo litoral do sudeste inglês, numa pausada meditação sobre fenômenos tão dissímiles como Rembrandt; o acima e o abaixo das guerras aéreas, tempestade de fogo em Hiroshima, Dresden; o ciclo de vida dos arenques; a devastação das grandes florestas do mundo; a imaginação paranóica dos cartógrafos renascentistas e seu umbral sirênico: peixes-elefante, peixes-coelho, polvos-giganta engolfando galeras nos Mares do Sul. Infâmia na Amazônia profunda: é JC Aranã quem pratica o holocausto de Putumayo, mas é Sir Roger Casement, o investigador, que morre na forca em Londres. No entanto,  a melancolia é a prima criativa da depressão e com as matérias-primas do luto histórico WG Sebald escreve a literatura da compaixão. Não concluiu suas andaduras: no verão de 2001 tem um mal-estar ao volante, o carro choca-se frontalmente com um caminhão – o mundo chora a partida prematura do mais forte candidato ao Nobel. Invejo-lhe as caminhadas, nas quais trocaria Norfolk e Suffolk pelo Namib e o deserto patagônico em Sarmiento, mas tenho que aligeirar este peso, esta enorme responsabilidade.
 
E feita salva-vidas da minha borrasca, eis que ela reaparece, dissimulando a reaproximação. Quantas avenidas terá percorrido, evitando elefânticos pisantes, escapando da teia de quasímodos aracnídeos, do bico voraz de monstros alados, galgando muros, escalando paredes, não escolhendo outro, senão a mim? Agora detém-se, alonga as patinhas traseiras, como fosse sinal de saudação e retro-agradecimento por sua própria salvatagem naquela tormenta: distraído, quase a mandei para o ralo com a sujeira dos pratos – o tsunami na pia. Caminhando e despencando entre as letras, baixa e perscruta o porão alfa-numérico do teclado, brincando de esconder, bisbilhotando a combinação das minhas palavras, impedindo-me a escritura, sob pena de esmagá-la sob um p de pressão ou um q, (que) para sua carnadura grácil é mais que um quilograma; é t de tonelada.
 
Sopro nos espaços do alfabeto, e nada! Acendo um cigarro. Com artifício, abro o arquivo das revelações, tentando adivinhar sua genealogia: há as açucareiras, as caçadoras, as doceiras. Divertem-me as astecas, as cabeçudas e mineiras (quando criança esmagava com o pé as odiadas cortadeiras e proletárias carrega-deiras!). Sentem-se irresistíveis a argentina, a cuiabana e a paraguaya … Já a formiga fatal é a saca-saia! A formiga-correição, a guaju-guaju, a morupeteca e a taioca são as guerreiras. O piolho-de-onça é sarna que não para de coçar e a feiticeira e a cigana são alvissareiras. E, tentando imaginar o som da chiadeira, ei-la, triunfante – Margarida, minha formiga visitadeira – emergindo no canto superior esquerdo do teclado, debaixo da letra q – não fosse piegas, e eu diria que é de querença. Importa que me devolveu a leveza.
 

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