Arquivos Diários: 18 fevereiro, 2008

CAMALEOA CURITIBANA prosa poética de marilda confortin


 
Eu uso óculos escuros e ela de grau. Faz ponto nos degraus da Rua da Cidadania. Quem a vê, pensa que ela fica vendo navio.
– Não vendo navio, não moça. Só relógio, calculadora, brinquedo, creme de mão e rayto de sol direto del  Paraguai pra praça Rui Barbosa
– O águia de Haia…
– Quem?
– O Rui, ora.
– O Hara?
– Não. O Barbosa.
– É ruim… Só conheço um Rui, fiscal da Urbs, um surd  filho da…
– Kama sutra?
– Não vendo livro, não. Ninguém compra. Mas tenho camisinha maide in taiuan e bolinha tailandesa. Uma beleza. Vendo de dúzia. Faço por oito real.
 – Quero não. E cigarro, tem?
–  Só fri.
– Eu também sofri.
– É loca. Qué uiski. Legítimo. Bem novinho. Truxe domingo. Num trago coisa veia. 
– Sacoleira…
– Sacolera, não! Cameloa! Das boa. Dá licença?!
– Desculpe.
– Vai comprá ou ficá me enrolando outra veiz?
– Vou andando, obrigada.
– Eita conversa fiada que nunca dá em nada.
– Prá mim dá poesia.
– Virgi Maria. Mais uma doida na cidade, né muié?
– É…. Até.
– Inté.

VELÓRIO poema de joão batista do lago

No meio da sala velo minh’alma
Que me olha com dentes escancarados
Abrigada nos quatro cantos do mundo
Donde sorri das minhas dores
E qual punhal que sangra ventos
Rasga o meu profundo nada
Donde as vísceras jorram todo escarro
Da hóstia nunca sagrada do homem puro
“És nada!” – grita a alma pois então morta –
Nasceste do miserável sagrado sem Deus.
Como há-de me querer velar como eterno
Se tens apenas teu féretro como única posse?”
E lá do meio da sala onde velo minh’alma
Nada posso fazer para alcançá-la…
E ela se esgarça zombeteira em cada gargalhada
Enquanto eu no meio da sala tramo matá-la
E assim me dano feito cão vagabundo
Que nem mesmo a lepra de Lázaro tem para a lamber
Já que sou única testemunha deste infeliz velório
Da minh’alma que se me sorrir à-toa
 
[…]
 
No meio da sala velo minh’alma que aos poucos se afasta…
E de mim voa.

HAI CAI (diversos) de leonardo meimes

O Desejo

O sol nas pernas, luz,
Entrega ao doce desejo
O nu amado em flor… tu

O Marido

Na cama a espera vã,
Olhos de desejo gritam
Dores de cabeça

Os Olhos Azuis

O azul de seus olhos.
Antídoto para a triste
Escuridão dos meus

O Pico

O pico. O furor
Inesperado que abate.
Corpo em retirada

O Filho

O sorriso tenro
É mascara de um só sonho
Aurora em explosão

O Amor Tardio

Um amor tardio é
A rosa que floresce no
Fim da primavera

Os olhos Azuis (2)

Seus olhos azuis de
Tristeza ou de beleza?
Só sei que são assim…

O Trabalho

O suor escorre na
Face, queimando pecados.
O terço dos pobres

O Ensaio

Veloz o roçar da
Foice a tocar o arroz, ensaio
Do dia em que morrerei

QUEIMAR poema de jorge barbosa filho

  

não me toque

estou encantado.

morri ontem

entrei pra eternidade

com todo o futuro

enterrado.

 

o fio de mel

em minha língua

de arame farpado

secando as roupas

das brevidades

no horizonte.

 

não, não me ame

onde finda o olhar

cruel dos amaciantes.

apenas me chame

pra deitar ao sol

de tua boca infame.

 

que horas são?

preciso encontrar

um tempo

enquanto é tempo

antes do agora

em combustão.