Arquivos Diários: 19 fevereiro, 2008

BANDIDA por helena sut.

Bandida. Aproveitaria o carnaval para experimentar a nova máscara. Não tinha a pretensão de alcançar a fama de facínora, mas tão pouco desejava ser reconhecida como uma reles salteadora ou bandoleira de beira de estrada… Aspirava ser temida e assim maquiavelicamente amada. Também não desejava perder seu caráter ou incorporar os maus sentimentos, pretendia apenas esquecê-los nas noites pagãs e minimizá-los depois de desbotados os últimos confetes.
Depois de uma profunda imersão em suas próprias vivências e ilusões, resgatou antigas juras e promessas jamais realizadas e relembrou a simulação de alguns olhares e a malícia pendurada no canto dos lábios… Com o auxílio do Código Penal, encontrou o dispositivo que enquadrava suas alegorias: artigo 171. Estelionato emocional. Uma transgressão imputada às vítimas condenadas ao cárcere de algumas lembranças. Fantasia sem purpurinas, delito sem grandes penas, vítimas reclusas em seus segredos e desatenções, abandono de todos os pecados, uma ação sem vestígios…
Culpa? Difícil traçar o perfil ou justificar a psicopatologia da foliã que apenas estava cansada de ser boazinha (ainda mais quando o sentido da palavra está impregnado de diminutivo e literalidade) e desejava repaginar a sua vida com novos impulsos. Talvez os psicanalistas definam tais estímulos como perversões, mas ela não tinha consciência da corrupção dos seus princípios, pensava ter adquirido apenas o controle sobre os fins.
Plena de ardis e artifícios, gozou as noites carnavalescas como nunca. Libertou-se do pudor característico dos iniciantes e fez as declarações mais obscenas. Ludibriou, induziu a erro, escondeu, iludiu, brincou com verbos quase desonrosos, mas não poderia imaginar que seria traída pela lascívia de algumas expressões. Deixou que o conhecido brilho nos olhos denunciasse sua frágil identidade. Brincou de mulher-fatal, maculando sua fantasia, e se perdeu em fatalidades.
Despertou, buscando as conhecidas purpurinas, com a ressaca das cinzas da quarta-feira. Bandida só a vida. Passou o dia ao lado do telefone aguardando um contato que não ocorreu. A máscara caiu. Arrependimento e o castigo. Percebeu-se vítima da própria conduta enquanto lamentava sua reincidência nas armadilhas do coração. Encontrou as suas culpas e se condenou a reclusão das esperas.
Entre inquietações e justificativas, personagem de uma tragédia ordinária, adormeceu com a certeza de que no próximo carnaval não seria tão ousada e se fantasiaria de colombina.

OSCAR NIEMEYER está entre os MAIORES do MUNDO pela editoria.

A Synectics conferiu a Niemeyer o 9º lugar em seu ranking dos 100 maiores gênios da atualidade.

Oscar Niemeyer Soares Filho, carioca, nascido em 1907, formou-se em 1934 pela Escola  Nacional de Belas-Artes. Foi discípulo de Lúcio Costa. Fez parte do grupo internacional que engendrou e projetou o antigo Ministério da Educação e Saúde (situado na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro), atual Palácio da Cultura.
Substitui o seu antigo mestre em 1939, quando elaborou o Pavilhão Brasileiro da Feira Internacional de Nova York, afirmando a arquitetura moderna no exterior. Com a experiência de fora, introduziu no país algumas das mais avançadas técnicas arquitetônicas de então.
Vários são os seus projetos notáveis: o Conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte (1942-1943); o Instituto Tecnológico da Aeronáutica , em São José dos Campos (SP,1947); Edifício das Nações Unidas (1947); o Conjunto do Ibirapuera, em São Paulo (capital, 1951-1952); o Museu de Arte Moderna de Caracas (Venezuela, 1955); reconstrução do Quarteirão Hansa (Berlim, 1955) etc. Suas realizações estendem-se,ainda, por países, como: Itália, Israel, Argélia, Portugal, França, Rússia e Gana.
No entanto, o ápice de suas obras consiste na série de construções oficiais que realizou em Brasília, onde participou como arquiteto-chefe. Lá projetou, dentre outros: o Palácio da Alvorada, dos Despachos, o Teatro Municipal etc.
Niemeyer, durante a sua longa existência, vem estabelecendo novos critérios de utilização do espaço e inovando no uso de materiais. Agora, aos cem anos de idade, recebe o prêmio conferido pela Synectics de nona personalidade genial, ainda, viva. Surpreende com uma boa declaração existencialista a respeito: “O que eu posso fazer? Eu me sinto como outro ser humano qualquer, que trabalha, vive e que vai embora daqui a pouco”. 

Fonte: Jornal de Londrina.

UM TANGO MELODRAMÁTICO conto de luis felipe leprevost.

A bordo do último ônibus da Viação Cometa cheguei em Fé altas horas da noite. Ela, Consuela, estava atrás de uma cortina que a escondia mas (de tão fina) a mostrava mais do que ocultasse, formas que lembravam flores na ventania. Ao lado, um cachorro desajeitado com cara de jegue trombando nos móveis da grande sala e cozinha, que são um ambiente só dividido em dois ambientes. Havia também três médicos, jantavam e riam. Conversavam, estranhamente, sobre literatura, operavam inconseqüentes cirurgias em Camões e Homero. No entanto, tudo o que conseguiram ao final da noite foi silêncio, macio e inconveniente, como devem ser as utopias que se prezem, aliás. A pensão toda estava iluminada por velas, que pareciam pingar sutis em nossos olhos marejados de neblina e chá preparado pela mãos feiticeiras de Consuela. No outro dia, após reforçado café matutino eu, Jassei Brenneli, saí passear por regiões afastadas do Vilarejo, em busca da casa ideal. Vou pela periferia que resiste, região metropolitana. Gosto e contemplo estes lugares de antes de existir a metrópole. Quero morar ali, o saudosismo angustiado de não me ter havido casas de madeira, samambaias na varanda e hortênsias as cercando. Há um bosque desvairado. Há uma estradinha amarela que leva às vacas distraídas pastando lá na idade da pedra, ruminando paciência. Os patinhos tristes no escuro da lagoa. A planta é viva. E para sombra lilás de galhos e nuvens uma gralha retorna ao noturno do verão carregando uma sacola que vaza estrelas. É o Vilarejo de Fé, onde Arietta Spalmam ficou internada. Meu tio-avô, Breno Brenneli, jamais colocou os pés nessas terras. Acusaram-me de ser semente da discórdia quando disse que viria passar o feriado de sete de setembro aqui. Na verdade queria conhecer Ondestou blues, mas meus pais me proibiram de me hospedar na velha cidadezinha, com o argumento de que só marginais transitam por lá. Acabei ficando em Fé mesmo, na pensão de Consuela, região central. Em Fé conheci Boca Grande e Larissa, só o que fazem é se beijar o tempo todo, parece que desejam um engolir o outro. Huck é o cão, fica solto, circula livremente por entre as dependências. Sempre que Huck está por perto provoca certa tensão, pois o temo mais que aos dragões que dizem haver batendo asas lá no bosque. Penso que a qualquer momento Huck abrirá suas asas, mostrará a língua para nós e alçará portão afora gargalhando chamas enquanto Consuela tira os pratos da mesa de jantar. Curioso este Vilarejo, mais curiosa ainda a pensão. Agora mesmo uma lagartixa, não com X, mas com CH, segundo Larissa, espreguiça-se recém acordada de um sono sem relógios e defende os tijolos da parede de ataques aéreos dos mosquitos que, não obstante, parecem ter sido treinados para fazer-nos coçar. Então, sentindo nó por nó meu sangue se desmanchando comecei escrever algumas impressões na toalha que reveste a mesa escalpelada sobre a qual fazemos as refeições. É uma série de poemas sobre Ondestou blues, a região está tomada por lupanares, comércios ilícitos e tudo o mais, o pessoal de Vilarejo de Fé não sabe mais que resoluções tomar, tentam evitar que o trânsito de pessoas vindas de Ondestou para Fé seja regulado no acesso às barcas, mas a verdade é que o pessoal cruza o rio Narciso durante a madrugada com barquinhos particulares. Além do mais, muitos moradores honestos de Fé trabalham em Ondestou. Em suma, uma confusão danada. Não sei, tão pouco pergunto, o que pensa disso minha anfitriã Consuela, no entanto quase ensurdeço de medo quando esta besta denominada Huck resolve me interpelar com seu próprio focinho e presas à mostra. Ele quer meu sanduíche de carne seca, diz um dos médicos adoradores de Camões. Então pego o sanduba com a mão e de algum modo detenho poder sobre Huck, e chego a acreditar que saberia adestrá-lo à minha maneira, caso optasse em fazê-lo. Deixo pra lá, embora houvesse reparado que nem os nativos Larissa e Boca Grande, e mesmo Consuela, ficaram constrangidos por presenciarem esta minha perversão incontida. Em resumo, estava sendo aquele um frutífero feriado. É claro que era impossível não achar graça quando um novo hospede chegava e em sua direção Huck lançava seus guturais latidos. A graça, no entanto, está não nos latidos, porém no fato de que o homem, um coxo, apoiou-se sobre uma perna só e mirou a bengala na direção de Huck, e assim pudemos reparar que aquilo não era uma bengala e sim uma espingarda de duplo cano. Huck, para minha surpresa, calou-se imediatamente, abanou o rapo e fugiu para o jardim. Na manhã seguinte eu iria embora, por esse motivo o chá preparado após o jantar era de especial teor, disse-me Consuela. Após a segunda xícara eu não escutava mais nada da antiga conversa dos médicos sobre Homero e Camões, as velas em segundos começaram a ser decapitadas pela lâmina de um vento escuríssimo. Lembro-me apenas vislumbrar um tanto ao longe Consuela e Huck de mãos dadas cantando um tango melodramático, e mais nada. 

TRANSPOSIÇÃO e as ÁGUAS DO NORDESTE por manoel bonfim ribeiro.

 ENGENHARIA É, AS VEZES, A ARTE DE NÃO CONSTRUIR.

                                                                                           arthur wellinton.

Antonio Conselheiro, o taumaturgo dos sertões nordestinos, que se notabilizou na região de Canudos, estado do Bahia, desenvolveu o seu messianismo profetizando acontecimentos para o povo paupérrimo do vale do Vaza Barris. No final do século XIX, em Outubro de 1897,a 4º Expedição do Exercito Brasileiro  dizimou o ultimo reduto do fanático cearense, numa luta sem precedentes, que custou a vida de 5 mil homens. Este messiânico profetizava, por onde passava, que “o sertão vai virar mar”.  .
O Projeto da Transposição de águas do rio São Francisco prioridade do Governo, traz a imagem de um banho de água no Semi-Árido, mitigando a sede de 12 milhões de nordestinos sequiosos.  Pretende-se matar a sede de uma população, levando uma pouca d’agua  para a região setentrional do Nordeste.
A maior baía do litoral brasileiro é a Bahía de Todos os Santos . A segunda maior é a Baia da Guanabara que é, por sua vez, a terceira maior do Mundo em volume de água.  Esta Baía tem  uma área  de  413 Km² e recebe a contribuição de 55 rios  O seu volume de água  é  de 2,4  bilhões de metros cúbicos.
 Comparemos, agora, com a fantástica rede de açudagem do Semi-Árido .
O Nordeste, mais precisamente o  Semi-Árido brasileiro, é a região mais açudada do Planeta. Mais que a Índia, mais que o Egito, mais que os E.U.A. Os nossos açudes são os melhores do Mundo, melhores projetos, melhores construções. Os engenheiros do DNOCS-,Departamento Nacional de Obras contra as Secas- foram e são os melhores barrageiros do Globo, só comparados aos grandes hidrólogos do Egito. Açude do DNOCS não se arromba.
O século XX, foi o século da açudagem no Semi-Árido. Assim como tivemos a Civilização do Ouro, a Civilização do Algodão da qual nos fala Câmara Cascudo, a Civilização do Couro, comentada e analisada  por Capistrano de Abreu, tivemos, também  a Civilização do Açude, por todo um  período de 100 anos. Quando da grande seca de 1877/80, o Semi-Árido quase não possuía açudes, uma meia dúzia, nem poços tubulares, nem estradas, o veículo não existia, só o telégrafo em pouquíssimas comunidades. Os retirantes, famélicos, perambulavam pelos caminhos, sem destino. Nesta seca foram ceifadas 500.000 vidas, o gado foi dizimado. Calamidade total. O Governo Imperial se comoveu e o Conde d’Eu criou uma Comissão Científica para fazer estudos topográficos, geológicos, hidro-geológicos, meteorológicos, fitogeográficos,  faunísticos, bem como, estudos  das bacias hidrográficas dessa grande região semi-árida. Logo após, em 1886, o Governo autorizou o inicio do grande açude do Cedro, em Quixadá, Ceará, rio Sitiá, afluente do Banabuíu, do Sistema Jaguaribe , que só foi concluído no ano de 1906, já no Governo Republicano. Cem anos de construído, este açude , armazenando 126.000.000 de m³, continua prestando seus serviços relevantes a milhares de nordestinos.
 Foi o passo inicial para o programa de construção da grande rede de açudes espalhados pelo Semi-Árido. Foi um trabalho hercúleo do Governo e da sociedade nordestina, chegando ao final do século XX com a construção, de cerca, de 70.000 açudes, públicos, particulares e de  cooperação. Mais de 10% são açudes plurianuais, construídos para suportar as grandes travessias estivais, projetados, alguns, com geração de energia hidrelétrica e  muitos outros com projetos de irrigação. São açudes que não secam, apesar da fortíssima e drástica evaporação processada pela radiação solar nesta região, próxima ao equador. Perdem até 60% do seu volume, mas renovam nos anos seguintes, total ou parcialmente. Assoreamentos existem nos açudes diminuindo a sua  capacidade volumétrica, como existem, também, no talvegue do rio São Francisco e em todos os açudes e rios do Mundo. É questão de conservação, e manutenção. O maior açude dos EEUU, o Elephant Bute, capacidade de 3 bilhões de metros cúbicos, está quase totalmente assoreado. O açude Vale do Inferno, na Espanha, está entulhado. O Gokak, em Bombaim, Índia, a mesma coisa.
As regiões áridas do mundo se caracterizam por sua baixa  pluviosidade. No caso do Semi-Árido esta pluviosidade  é de 600 mm/ano. Quando as precipitações ocorrem abaixo desta média, instala-se uma seca.  A cada século temos, em média, 1/3 de anos  secos, 30 anos.  Os açudes plurianuais foram construídos tendo em vista esta série histórica das grandes secas.
Hoje, existe um gigantesco cubo de água armazenado no Semi-Árido, capaz de resistir às estiagens mais severas da região, desafiando as leis fatais da natureza. É a vitória do homem sobre o meio.
Dos grandes lagos construídos pelo homem, com a avançada engenharia hidráulica nacional, temos exemplos dignificantes como na bacia do rio São Francisco, a barragem de Três Marias, acumulando um volume de 21 bilhões de m³ de água , representando 8,7 vezes o volume da Baia da Guanabara. O Lago Sobradinho, também no Vale, o maior do mundo em superfície, detendo um volume de água de 35 bilhões, representa 14,6  vezes  a  Baia da Guanabara.
 Agora vejamos o Semi-Árido brasileiro, sem as águas do São Francisco: O açude ORÓS, no vale do Jaguaribe, Ceará, construído, em 1960, inaugurado pelo Presidente J.K, reserva no seu bojo, 2,5 bilhões de m³ (2,5 Km³ ) de água, igual  ao volume da Baia da Guanabara, aliás, um pouco maior. O Açude ARMANDO RIBEIRO GONÇALVES, construído no Rio G. do Norte, inaugurado pelo Presidente Figueiredo em 1983, reserva na sua bacia hidráulica o volume de 2,4 bilhões de m³ (2,4 Km³) de água, igual ao volume da Guanabara. O BANABUÍU e o ARARAS, ambos no Ceará, juntos somam 2,7 bilhões (2,7 Km³), volume superior à Guanabara. O CASTANHÃO, no vale do Jaguaribe, CE, concluído no ano de 2003, inaugurado pelo Presidente Lula, é um açude oceânico, maior do mundo, construído pela mão do homem, orgulho da engenharia hidráulica nacional. Reserva na sua concha hidráulica, 6,7 bilhões de m³ (6,7 Km³), 2,8  vezes, quase 3 vezes, o volume da baia da Guanabara. Os 8 grandes açudes dos 3  estados (Ceará, Rio G. do Norte  e Paraíba), que irão receber 2,1 bilhões de m³  das águas aduzidas do rio São Francisco, já  possuem um volume de 12,6 bilhões( 12,6 Km³ ), equivalente a 5,3 vezes  o volume da Guanabara. O total da água acumulada nos 3 estados, representa 72% de todo o estoque do Semi-Árido, 26,7 bilhões ( 26,7 Km³ ) , equivalente a 11 vezes a Baia da Guanabara.
Totalizando, as águas de todos os açudes do Semi-Árido  somam 37 bilhões de m³ ( 37 Km³ ) superior a 15   vezes a  Baía da Guanabara. O SERTÃO JÁ VIROU MAR. Cumpriu-se a  profecia do Conselheiro.
Diante desta gigantesca riqueza de águas acumuladas, estocadas nos seus 70.000 reservatórios, a solução para o problema hídrico do Nordeste é somente distribuição e tão somente distribuição através um robusto e potente sistema de adutoras. A infra- estrutura hídrica já está pronta. Só falta a gestão.
Assistimos protestos, reivindicações e greves de movimentos organizados como o  dos Sem Terra (MST), dos Sem Teto, dos Sem Salários, dos camponeses sem crédito para o amanho da terra, dos índios vindos dos confins do País, das Associações e Federações deste nosso Brasil, só não assistimos protestos dos Sem Água, logo a água que é vital na sua essencialidade. É curioso que o nordestino pobre e sequioso não grite por água.
Conclamamos os engenheiros do Brasil, arquitetos, agrônomos, meteorologistas, os demais profissionais das ciências exatas. Conclamamos os clubes de engenharia; os  Conselhos Regionais de Engenharia (CREAs), conclamamos  o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura, e Agronomia (CONFEA), órgão máximo da engenharia nacional, a exigir do Governo da Republica, participação e acompanhamento nas análises técnicas e econômicas  deste  Projeto de Transposição O Semi-Árido não suporta mais projetos de  resultados duvidosos, muito menos  de um projeto,  hidrologicamente,  errado.