TRANSPOSIÇÃO e as ÁGUAS DO NORDESTE por manoel bonfim ribeiro.

 ENGENHARIA É, AS VEZES, A ARTE DE NÃO CONSTRUIR.

                                                                                           arthur wellinton.

Antonio Conselheiro, o taumaturgo dos sertões nordestinos, que se notabilizou na região de Canudos, estado do Bahia, desenvolveu o seu messianismo profetizando acontecimentos para o povo paupérrimo do vale do Vaza Barris. No final do século XIX, em Outubro de 1897,a 4º Expedição do Exercito Brasileiro  dizimou o ultimo reduto do fanático cearense, numa luta sem precedentes, que custou a vida de 5 mil homens. Este messiânico profetizava, por onde passava, que “o sertão vai virar mar”.  .
O Projeto da Transposição de águas do rio São Francisco prioridade do Governo, traz a imagem de um banho de água no Semi-Árido, mitigando a sede de 12 milhões de nordestinos sequiosos.  Pretende-se matar a sede de uma população, levando uma pouca d’agua  para a região setentrional do Nordeste.
A maior baía do litoral brasileiro é a Bahía de Todos os Santos . A segunda maior é a Baia da Guanabara que é, por sua vez, a terceira maior do Mundo em volume de água.  Esta Baía tem  uma área  de  413 Km² e recebe a contribuição de 55 rios  O seu volume de água  é  de 2,4  bilhões de metros cúbicos.
 Comparemos, agora, com a fantástica rede de açudagem do Semi-Árido .
O Nordeste, mais precisamente o  Semi-Árido brasileiro, é a região mais açudada do Planeta. Mais que a Índia, mais que o Egito, mais que os E.U.A. Os nossos açudes são os melhores do Mundo, melhores projetos, melhores construções. Os engenheiros do DNOCS-,Departamento Nacional de Obras contra as Secas- foram e são os melhores barrageiros do Globo, só comparados aos grandes hidrólogos do Egito. Açude do DNOCS não se arromba.
O século XX, foi o século da açudagem no Semi-Árido. Assim como tivemos a Civilização do Ouro, a Civilização do Algodão da qual nos fala Câmara Cascudo, a Civilização do Couro, comentada e analisada  por Capistrano de Abreu, tivemos, também  a Civilização do Açude, por todo um  período de 100 anos. Quando da grande seca de 1877/80, o Semi-Árido quase não possuía açudes, uma meia dúzia, nem poços tubulares, nem estradas, o veículo não existia, só o telégrafo em pouquíssimas comunidades. Os retirantes, famélicos, perambulavam pelos caminhos, sem destino. Nesta seca foram ceifadas 500.000 vidas, o gado foi dizimado. Calamidade total. O Governo Imperial se comoveu e o Conde d’Eu criou uma Comissão Científica para fazer estudos topográficos, geológicos, hidro-geológicos, meteorológicos, fitogeográficos,  faunísticos, bem como, estudos  das bacias hidrográficas dessa grande região semi-árida. Logo após, em 1886, o Governo autorizou o inicio do grande açude do Cedro, em Quixadá, Ceará, rio Sitiá, afluente do Banabuíu, do Sistema Jaguaribe , que só foi concluído no ano de 1906, já no Governo Republicano. Cem anos de construído, este açude , armazenando 126.000.000 de m³, continua prestando seus serviços relevantes a milhares de nordestinos.
 Foi o passo inicial para o programa de construção da grande rede de açudes espalhados pelo Semi-Árido. Foi um trabalho hercúleo do Governo e da sociedade nordestina, chegando ao final do século XX com a construção, de cerca, de 70.000 açudes, públicos, particulares e de  cooperação. Mais de 10% são açudes plurianuais, construídos para suportar as grandes travessias estivais, projetados, alguns, com geração de energia hidrelétrica e  muitos outros com projetos de irrigação. São açudes que não secam, apesar da fortíssima e drástica evaporação processada pela radiação solar nesta região, próxima ao equador. Perdem até 60% do seu volume, mas renovam nos anos seguintes, total ou parcialmente. Assoreamentos existem nos açudes diminuindo a sua  capacidade volumétrica, como existem, também, no talvegue do rio São Francisco e em todos os açudes e rios do Mundo. É questão de conservação, e manutenção. O maior açude dos EEUU, o Elephant Bute, capacidade de 3 bilhões de metros cúbicos, está quase totalmente assoreado. O açude Vale do Inferno, na Espanha, está entulhado. O Gokak, em Bombaim, Índia, a mesma coisa.
As regiões áridas do mundo se caracterizam por sua baixa  pluviosidade. No caso do Semi-Árido esta pluviosidade  é de 600 mm/ano. Quando as precipitações ocorrem abaixo desta média, instala-se uma seca.  A cada século temos, em média, 1/3 de anos  secos, 30 anos.  Os açudes plurianuais foram construídos tendo em vista esta série histórica das grandes secas.
Hoje, existe um gigantesco cubo de água armazenado no Semi-Árido, capaz de resistir às estiagens mais severas da região, desafiando as leis fatais da natureza. É a vitória do homem sobre o meio.
Dos grandes lagos construídos pelo homem, com a avançada engenharia hidráulica nacional, temos exemplos dignificantes como na bacia do rio São Francisco, a barragem de Três Marias, acumulando um volume de 21 bilhões de m³ de água , representando 8,7 vezes o volume da Baia da Guanabara. O Lago Sobradinho, também no Vale, o maior do mundo em superfície, detendo um volume de água de 35 bilhões, representa 14,6  vezes  a  Baia da Guanabara.
 Agora vejamos o Semi-Árido brasileiro, sem as águas do São Francisco: O açude ORÓS, no vale do Jaguaribe, Ceará, construído, em 1960, inaugurado pelo Presidente J.K, reserva no seu bojo, 2,5 bilhões de m³ (2,5 Km³ ) de água, igual  ao volume da Baia da Guanabara, aliás, um pouco maior. O Açude ARMANDO RIBEIRO GONÇALVES, construído no Rio G. do Norte, inaugurado pelo Presidente Figueiredo em 1983, reserva na sua bacia hidráulica o volume de 2,4 bilhões de m³ (2,4 Km³) de água, igual ao volume da Guanabara. O BANABUÍU e o ARARAS, ambos no Ceará, juntos somam 2,7 bilhões (2,7 Km³), volume superior à Guanabara. O CASTANHÃO, no vale do Jaguaribe, CE, concluído no ano de 2003, inaugurado pelo Presidente Lula, é um açude oceânico, maior do mundo, construído pela mão do homem, orgulho da engenharia hidráulica nacional. Reserva na sua concha hidráulica, 6,7 bilhões de m³ (6,7 Km³), 2,8  vezes, quase 3 vezes, o volume da baia da Guanabara. Os 8 grandes açudes dos 3  estados (Ceará, Rio G. do Norte  e Paraíba), que irão receber 2,1 bilhões de m³  das águas aduzidas do rio São Francisco, já  possuem um volume de 12,6 bilhões( 12,6 Km³ ), equivalente a 5,3 vezes  o volume da Guanabara. O total da água acumulada nos 3 estados, representa 72% de todo o estoque do Semi-Árido, 26,7 bilhões ( 26,7 Km³ ) , equivalente a 11 vezes a Baia da Guanabara.
Totalizando, as águas de todos os açudes do Semi-Árido  somam 37 bilhões de m³ ( 37 Km³ ) superior a 15   vezes a  Baía da Guanabara. O SERTÃO JÁ VIROU MAR. Cumpriu-se a  profecia do Conselheiro.
Diante desta gigantesca riqueza de águas acumuladas, estocadas nos seus 70.000 reservatórios, a solução para o problema hídrico do Nordeste é somente distribuição e tão somente distribuição através um robusto e potente sistema de adutoras. A infra- estrutura hídrica já está pronta. Só falta a gestão.
Assistimos protestos, reivindicações e greves de movimentos organizados como o  dos Sem Terra (MST), dos Sem Teto, dos Sem Salários, dos camponeses sem crédito para o amanho da terra, dos índios vindos dos confins do País, das Associações e Federações deste nosso Brasil, só não assistimos protestos dos Sem Água, logo a água que é vital na sua essencialidade. É curioso que o nordestino pobre e sequioso não grite por água.
Conclamamos os engenheiros do Brasil, arquitetos, agrônomos, meteorologistas, os demais profissionais das ciências exatas. Conclamamos os clubes de engenharia; os  Conselhos Regionais de Engenharia (CREAs), conclamamos  o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura, e Agronomia (CONFEA), órgão máximo da engenharia nacional, a exigir do Governo da Republica, participação e acompanhamento nas análises técnicas e econômicas  deste  Projeto de Transposição O Semi-Árido não suporta mais projetos de  resultados duvidosos, muito menos  de um projeto,  hidrologicamente,  errado.

3 Respostas

  1. Você é contra a transposição? Então meu amigo venha morar no sertão, ou no cariri do nordeste, enfrente seis meses de seca, só seis. Depois desse tempo, você só encontra sal e carcaças de animais onde antes havia água.
    Nas grandes barragens, os níveis chegam a 20%, ou mesmo mesmo 17% da capacidade, podendo se tornar imprópria para o consumo humano. Agora vamos para o outro lado, sem falar nos prejuizos financeiros. Como os senhores são dotores em matemática, me respondam: quantos crianças
    já morreram no Nordeste acometidas de diarreia, apenas por não poder consumir água dentro dos padrões de qualidade da OMS, e quantas morrem em 1 ano de seca nessas mesmas condições. Quantas crianças haverão de morrer?
    Pimenta na água dos outros, na minha é refresco!!!

    Gilson Oliveira
    Profº de História.

  2. Paulo Afonso da Mata Machado | Responder

    O Prof. Manoel Bonfim Ribeiro é um ardoroso defensor do sistema de acumulação de água de chuva. Nesse ponto, estamos empatados. Também entendo que, sem os açudes, especialmente os grandes açudes, o Nordeste continuaria a se despovoar, mandando seus habitantes para outras regiões a cada nova seca.
    Gostaria, no entanto, de comentar sobre a salinização dos açudes. Cada vez que se evapora uma gota de água, aumenta a concentração salina no açude.
    O Prof. Manoel Bonfim fala em evaporação de até 60% do volume dos grandes açudes. Isso significa que a água adquire concentração salina acima do dobro da que tinha ao ser represada (e que, no semi-árido, é, normalmente, muito alta).
    O Projeto São Francisco visa a acabar com essa salinização progressiva dos grandes açudes. Os técnicos do projeto chamam a isso de sinergia hídrica. Os açudes não precisarão trabalhar tão cheios, expostos ao sol inclemente da região. Com isso, evitam a evaporação, restringem a perda de água e diminuem a salinização.
    Um abraço, Prof. Manoel Bonfim. Você tem o meu e-mail. Assim, que puder, escreva para mim.

  3. […] Le sol s’appauvrit jusqu’à devenir du sable. Bref, comme le dit Manoel Bonfim Ribeiro (pt), le problème du sertão, c’est pas le manque d’eau. C’est de parvenir à la retenir avant […]

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