UM TANGO MELODRAMÁTICO conto de luis felipe leprevost.

A bordo do último ônibus da Viação Cometa cheguei em Fé altas horas da noite. Ela, Consuela, estava atrás de uma cortina que a escondia mas (de tão fina) a mostrava mais do que ocultasse, formas que lembravam flores na ventania. Ao lado, um cachorro desajeitado com cara de jegue trombando nos móveis da grande sala e cozinha, que são um ambiente só dividido em dois ambientes. Havia também três médicos, jantavam e riam. Conversavam, estranhamente, sobre literatura, operavam inconseqüentes cirurgias em Camões e Homero. No entanto, tudo o que conseguiram ao final da noite foi silêncio, macio e inconveniente, como devem ser as utopias que se prezem, aliás. A pensão toda estava iluminada por velas, que pareciam pingar sutis em nossos olhos marejados de neblina e chá preparado pela mãos feiticeiras de Consuela. No outro dia, após reforçado café matutino eu, Jassei Brenneli, saí passear por regiões afastadas do Vilarejo, em busca da casa ideal. Vou pela periferia que resiste, região metropolitana. Gosto e contemplo estes lugares de antes de existir a metrópole. Quero morar ali, o saudosismo angustiado de não me ter havido casas de madeira, samambaias na varanda e hortênsias as cercando. Há um bosque desvairado. Há uma estradinha amarela que leva às vacas distraídas pastando lá na idade da pedra, ruminando paciência. Os patinhos tristes no escuro da lagoa. A planta é viva. E para sombra lilás de galhos e nuvens uma gralha retorna ao noturno do verão carregando uma sacola que vaza estrelas. É o Vilarejo de Fé, onde Arietta Spalmam ficou internada. Meu tio-avô, Breno Brenneli, jamais colocou os pés nessas terras. Acusaram-me de ser semente da discórdia quando disse que viria passar o feriado de sete de setembro aqui. Na verdade queria conhecer Ondestou blues, mas meus pais me proibiram de me hospedar na velha cidadezinha, com o argumento de que só marginais transitam por lá. Acabei ficando em Fé mesmo, na pensão de Consuela, região central. Em Fé conheci Boca Grande e Larissa, só o que fazem é se beijar o tempo todo, parece que desejam um engolir o outro. Huck é o cão, fica solto, circula livremente por entre as dependências. Sempre que Huck está por perto provoca certa tensão, pois o temo mais que aos dragões que dizem haver batendo asas lá no bosque. Penso que a qualquer momento Huck abrirá suas asas, mostrará a língua para nós e alçará portão afora gargalhando chamas enquanto Consuela tira os pratos da mesa de jantar. Curioso este Vilarejo, mais curiosa ainda a pensão. Agora mesmo uma lagartixa, não com X, mas com CH, segundo Larissa, espreguiça-se recém acordada de um sono sem relógios e defende os tijolos da parede de ataques aéreos dos mosquitos que, não obstante, parecem ter sido treinados para fazer-nos coçar. Então, sentindo nó por nó meu sangue se desmanchando comecei escrever algumas impressões na toalha que reveste a mesa escalpelada sobre a qual fazemos as refeições. É uma série de poemas sobre Ondestou blues, a região está tomada por lupanares, comércios ilícitos e tudo o mais, o pessoal de Vilarejo de Fé não sabe mais que resoluções tomar, tentam evitar que o trânsito de pessoas vindas de Ondestou para Fé seja regulado no acesso às barcas, mas a verdade é que o pessoal cruza o rio Narciso durante a madrugada com barquinhos particulares. Além do mais, muitos moradores honestos de Fé trabalham em Ondestou. Em suma, uma confusão danada. Não sei, tão pouco pergunto, o que pensa disso minha anfitriã Consuela, no entanto quase ensurdeço de medo quando esta besta denominada Huck resolve me interpelar com seu próprio focinho e presas à mostra. Ele quer meu sanduíche de carne seca, diz um dos médicos adoradores de Camões. Então pego o sanduba com a mão e de algum modo detenho poder sobre Huck, e chego a acreditar que saberia adestrá-lo à minha maneira, caso optasse em fazê-lo. Deixo pra lá, embora houvesse reparado que nem os nativos Larissa e Boca Grande, e mesmo Consuela, ficaram constrangidos por presenciarem esta minha perversão incontida. Em resumo, estava sendo aquele um frutífero feriado. É claro que era impossível não achar graça quando um novo hospede chegava e em sua direção Huck lançava seus guturais latidos. A graça, no entanto, está não nos latidos, porém no fato de que o homem, um coxo, apoiou-se sobre uma perna só e mirou a bengala na direção de Huck, e assim pudemos reparar que aquilo não era uma bengala e sim uma espingarda de duplo cano. Huck, para minha surpresa, calou-se imediatamente, abanou o rapo e fugiu para o jardim. Na manhã seguinte eu iria embora, por esse motivo o chá preparado após o jantar era de especial teor, disse-me Consuela. Após a segunda xícara eu não escutava mais nada da antiga conversa dos médicos sobre Homero e Camões, as velas em segundos começaram a ser decapitadas pela lâmina de um vento escuríssimo. Lembro-me apenas vislumbrar um tanto ao longe Consuela e Huck de mãos dadas cantando um tango melodramático, e mais nada. 

Uma resposta

  1. Antes de dizer que esse conto é daqueles gostosos de se ler, mas difíceis de se dançar, é preciso que se diga que ando te procurando…
    Eu sou aquela, que era conhecida da Gabriela.
    Eu sou aquela lepravada que ainda guarda na casa da mãe, na gaveta da escrivaninha, aquele seu poema de amor debochado escrito no guardanapo do salgado engordurado…
    Será que você ainda lembra? Não do poema, de mim.
    Hoje sou diferente, mas só no nome. O sobrenome continua o mesmo.
    Por que você sumiu da minha vida? Poxa, você me fazia rir e mais um monte de outras coisas. Só rir já bastaria pra eu andar te procurando, mas nem era só isso…
    Andou raspando a cabeça, notícias de internet, publicando, escrivinhando… é só o que sei. E é pouco.
    Me manda uma notícia? Qualquer pouca já basta.
    Não, não manda notícia nenhuma… apareça em alguma esquina da minha vida… a gente conversa e toma um vinho… nada de chás alucinógenos.

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