Arquivos Diários: 25 fevereiro, 2008

MARQUES de SADE e SEU PENSAR – pela editoria.

A ideia de Deus é, confesso, o único erro que não posso perdoar ao homem.

Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes.

Tudo é bom quando é excessivo.

A primeira lei que a natureza me impõe é gozar à custa seja de quem for.

Só me dirijo às pessoas capazes de me entender, e essas poderão ler-me sem perigo.

Quando o ateísmo quiser mártires, que o diga, o meu sangue está pronto.

A tolerância é a virtude do fraco.

Antes ser um homem da sociedade, sou-o da natureza.

Todo o universo poderia ser conduzido por uma única lei, se essa lei fosse boa.

As paixões humanas não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus fins.

É sem qualquer terror que eu vejo a desunião das moléculas da minha existência.

Nunca devemos admitir como causa daquilo que não compreendemos algo que ainda entendemos menos.

Quem sabe se não teremos de ultrapassar muito a natureza para perceber o que ela nos quer dizer?

Quando defendemos os nossos amigos, justificamos a nossa amizade.

Em vão procuramos a verdadeira felicidade fora de nós, se não possuímos a sua fonte dentro de nós.

O FOLGADO conto de guilherme cantídio/rn

Tonho era o tipo do cara folgado. Preguiçoso, inimigo de cadernos e livros, estava já na casa dos vinte e poucos anos e ainda não tinha terminado o curso ginasial. Morava com uma irmã, mais velha, casada há pouco mais de um ano, a quem convencera a morar na mesma casa com o casal, em um dos quartos da casa. O cunhado, chamado Valdir, educadíssimo e totalmente apaixonado, concordou de pronto e logo se afeiçoou a Tonho.           

          Em seu quarto havia uma cama de solteiro, mas Tonho preferia ficar a maior parte do tempo na rede estrategicamente armada de frente para uma TV de quatorze polegadas, daquelas que tinham uma tecla para cada canal disponível que ele trocava com a ajuda de um cabo de vassoura, que fazia as vezes de controle remoto.
         
          Mas Tonho já estava achando chata a vidinha que levava porque pensava – “Preciso achar uma moça rica prá casar, já que não tenho saco prá estudar nem dar duro na vida”. O problema é que até prá investir em um relacionamento sério era exigir demais do ânimo do pobre coitado. Um namorinho aqui, um amassinho ali, mais outro programinha ali, tudo bem; mas o diabo era o compromisso, a obrigação.
        
          Assim transcorria a vida de Tonho: Um verdadeiro marasmo. Se alguma coisa de novo acontecesse, certamente não seria por iniciativa dele. Teria que ser algo fortuito, de fora prá dentro de sua vida.

          – Maninha, um copo d´água, vai…

          – Oi, cunhado, tem uma pipoquinha aí?
  
   Tonho já não tinha nenhum resquício de cerimônia. O cunhado, que a essas alturas já estava enchendo o saco com aquela situação, mas ainda submisso à mulher, foi até o quarto de Tonho prá lhe avisar que estavam indo fazer a feira. Encontrou-o no quarto, só de cuecas.

          – Ah! tá, cunhado. Diz prá maninha que eu só gosto de banana da casca verde.

          Valdir saiu do quarto e, pela primeira vez, indignado, bateu a porta atrás de si. Escutou algo despencar da porta e voltou prá ver. Era uma tabuleta de madeira onde estava escrito: “HEI DE VENCER”

O disse-que-disse da TV GLOBO por gilson caroni filho

O ano de 2008 ainda não conta dois meses e já vemos o aparato informativo redobrar seus esforços para intensficar uma ofensiva que tem dois alvos claros: a sua própria credibilidade e o governo Lula.

A imprensa brasileira, tal como o diabo, pode ser melhor apreciada nos detalhes. Em pequenas trucagens, direcionamento de coberturas e editorialização de textos que não disfarçam seus propósitos, a marcha batida continua. O ano de 2008 ainda não conta dois meses e já vemos o aparato informativo redobrar seus esforços para intensificar uma ofensiva que tem dois alvos claros: a sua própria credibilidade e o governo Lula. Se há paradoxo, ele é secundário para uma mídia opera na lógica dos fins que justificam os meios.

A cobertura dada pela TV Globo ao depoimento do publicitário Marcos Valério, acusado de ser o principal operador daquilo que a imprensa chama de “o esquema do mensalão”, merece um breve registro sobre o tipo de jornalismo praticado pela emissora da família Marinho.Estamos diante de um noticiário que, objetivando reforçar axiomas, abre espaço para temas repisados, subtraindo qualquer coisa que contrarie a coerência interna das premissas construídas para “explicar” crises políticas recentes. É o reforço necessário para reiterar o dogma da “infalibilidade global”.

Trata-se de um jogo de espelho que, confundindo o leitor/telespectador, busca colonizar o seu imaginário através de representações simplificadoras. É o que chamamos de persuasão pelo reducionismo. Um procedimento que tem marcado a prática narrativa do campo informativo de tal forma que, aos profissionais mais jovens, já afeitos à ideologia do jornalismo de mercado, soa com “operação técnica” admissível.

Em seu clássico Ideologia e técnica da notícia, Nilson Lage chama a atenção para dois aspectos constitutivos básicos que não devem ser esquecidos quando se busca uma definição correta da produção noticiosa: a) “uma organização relativamente estável, ou componente lógico”; e, b) “elementos escolhidos, segundo critérios de valor essencialmente cambiáveis, que se organizam na notícia – o componente ideológico”.

O telejornalismo global ilustra bem como se dá a seleção de elementos e como eles conformam proposições seqüenciadas pelos interesses políticos do veículo. Mostra, com clareza cristalina, a que estão sujeitos os que já foram condenados pelo tribunal midiático, sem qualquer direito a apelação em colunas ou editoriais.

Interrogado pela Justiça Federal, em Belo Horizonte, Marcos Valério disse, como registra a Folha de S.Paulo (2/2), que “que nunca conversou sobre empréstimos com o ex-presidente do PT, José Genoíno, nem tratou do tema com Dirceu, cuja trajetória política disse respeitar e admirar”. Não está em questão a credibilidade ou não do depoente, mas o objeto do fato noticiado.

Preferindo omitir esse trecho do depoimento, o Jornal Nacional de sexta-feira (1/2), informa que “segundo Marcos Valério, o ex-secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, disse a ele que o ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, sabia dos empréstimos ao PT”. Mas, tal como destaca o ex-ministro em seu blog, a edição se esqueceu de um dado crucial: Sílvio Pereira nega que tenha dito qualquer coisa.

O “disse-que-disse” e a supressão de algo favorável a um desafeto político não constam das boas regras de cobertura jornalística. Corroboram mais ainda a tese que aponta para a crescente partidarização da imprensa, com destaque para a emissora hegemônica e monopolista.

É sempre bom destacar que o contexto da notícia se dá em lugar, espaço e tempo definidos. Relatos que prescindem de exigência de demonstração têm sentido no campo religioso. Quando se trata de jornalismo, é procedimento ideológico tosco. E de eficácia duvidosa. Temos um longo ano pela frente. A militância das redações não precisa de manuais.

 Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.