O FOLGADO conto de guilherme cantídio/rn

Tonho era o tipo do cara folgado. Preguiçoso, inimigo de cadernos e livros, estava já na casa dos vinte e poucos anos e ainda não tinha terminado o curso ginasial. Morava com uma irmã, mais velha, casada há pouco mais de um ano, a quem convencera a morar na mesma casa com o casal, em um dos quartos da casa. O cunhado, chamado Valdir, educadíssimo e totalmente apaixonado, concordou de pronto e logo se afeiçoou a Tonho.           

          Em seu quarto havia uma cama de solteiro, mas Tonho preferia ficar a maior parte do tempo na rede estrategicamente armada de frente para uma TV de quatorze polegadas, daquelas que tinham uma tecla para cada canal disponível que ele trocava com a ajuda de um cabo de vassoura, que fazia as vezes de controle remoto.
         
          Mas Tonho já estava achando chata a vidinha que levava porque pensava – “Preciso achar uma moça rica prá casar, já que não tenho saco prá estudar nem dar duro na vida”. O problema é que até prá investir em um relacionamento sério era exigir demais do ânimo do pobre coitado. Um namorinho aqui, um amassinho ali, mais outro programinha ali, tudo bem; mas o diabo era o compromisso, a obrigação.
        
          Assim transcorria a vida de Tonho: Um verdadeiro marasmo. Se alguma coisa de novo acontecesse, certamente não seria por iniciativa dele. Teria que ser algo fortuito, de fora prá dentro de sua vida.

          – Maninha, um copo d´água, vai…

          – Oi, cunhado, tem uma pipoquinha aí?
  
   Tonho já não tinha nenhum resquício de cerimônia. O cunhado, que a essas alturas já estava enchendo o saco com aquela situação, mas ainda submisso à mulher, foi até o quarto de Tonho prá lhe avisar que estavam indo fazer a feira. Encontrou-o no quarto, só de cuecas.

          – Ah! tá, cunhado. Diz prá maninha que eu só gosto de banana da casca verde.

          Valdir saiu do quarto e, pela primeira vez, indignado, bateu a porta atrás de si. Escutou algo despencar da porta e voltou prá ver. Era uma tabuleta de madeira onde estava escrito: “HEI DE VENCER”

5 Respostas

  1. muito legal guilherme gostei

  2. Guilherme, cada um de nós tem um pouco do Tonho, quando queremos tirar proveito da situação. Na vida real, a fase “Tonho” de cada um tem que ser passageira, pois a vida é breve e o saco dos outros tem limite. Muito bom.

  3. Parabéns Guilherme
    Bom o que acontecerá com o Tonho ficará na imaginação de cada um. Adorei o estilo.
    Ismenia

  4. Só isso???
    Um cara como Tonho certamente produziu centenas de fatos interessantes.
    Estou curioso para saber se ele conseguiu mudar de vida ou se embromou muito seus protetores.. se teve algum atrito sério com o cunhado, se conseguiu casar, se amigou-se com alguma “bicha”, se deu para pedir “aval” em cheques, qual a marca da “brilhantina”, que ele usava, etc.

  5. Parabéns pelo 3º mês …
    Que seja uma saudável gestação
    Cheia de boas histórias e muita diversão!

    Mar

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