Arquivos Diários: 27 fevereiro, 2008

A ESTRANHA e LABORATÓRIO contos de raymundo rolim

A estranha

Era uma espécie de sabor chocolate e baunilha o beijo quente que aquela moça deixava na boca dos moços a quem beijava e os perpetuavam escravos dos seus lábios e desejos. Sem dúvida que algo  extraordinariamente raro acontecia. Nunca mais os rapazes beijados por ela tornavam a ser os mesmos. Alguns desapareciam sem jamais mandar notícias. Outros, com olhos de quem viam anjos, perdiam-se de suas conformidades em meio a palavras desconexas e deixavam-se passear intransponíveis num bom e desconhecido mundo. Depois de muitos anos, falou-se de um deles que reapareceu, com a mesma razão e idade de quando havia partido e sobre uma moça das redondezas que beijada por ele, passou a dizer amiúde, palavras ininteligíveis e que balbuciava a sós e já exalava agradável aroma de chocolate e baunilha através dos poros.

Laboratório

Algumas gotas de chuva caíram pesadas de inexistentes nuvens. Ao tocarem o solo, fizeram brotar uma espécie de erva que a todo botânico enviou-se alguns exemplares. Nenhum compêndio científico forneceu indícios de similaridade. Com toda a certeza aquela espécie ainda desconhecida não pertencia ao planeta! Foram inúmeras as tentativas de reproduzi-la com muita tecnologia de primeiríssima geração e investigação avançada nos domínios da micro e macro matéria. Mas a criatura de inusitada estrutura não se deu a conhecer. Um dia em sua sala, um cientista deparou-se com singular forma de vida que lembrava planta trepadeira, e que se agarrava às paredes com minúsculas e tenras artérias violeta que cresciam rápidas, céleres, em sua direção. Até o dia de hoje, num laboratório lacrado e declarado inexistente numa instituição de ensino e pesquisas, o vigia da noite teima em dizer que por vezes ouve gargalhadas por lá e que morre de medo nas suas rondas e que evita e bate na madeira quando passa por perto e que se agarra ao crucifixo e que perdeu a conta de quantas Ave Marias e outros tantos Padre-Nossos chamou no rosário e que passa de costas e tal. E que jamais enquanto viver tornará lá os seus olhos que tomados ultimamente de cor e brilho intensos, assemelham-se a inidentificáveis formas e tons vegetais arroxeadinhos.

POEMA de otília martel/portugal

A ti me dou, em forma de palavras
Para que nos teus sentires, despertes os meus
E nessa paixão que nos enlaça
Um poema satisfazemos.

Um poema…
 
 
O dia morre… e, a terra, escurecendo
diz ao céu que vele o nosso dormir,
e nossos olhos docemente, adormecem a sorrir…

As estrelas começam a luzir
com a luz hesitante e mal segura
que pronuncia a noite que há-de vir…

É a voz do silêncio a murmurar
em palavras de sonho à natureza
as vozes dos anjos a balbuciar

E tudo dorme, tudo sonha docemente
Numa tranquilidade indefinida
a alma, o corpo, sonha… calmamente

Vem muito longe a luz da madrugada,
e as estrelas, como visões deslumbrantes
são pontos distantes na noite sossegada…

 
É noite… nada vibra…nada fala…
Tudo mergulha num sonho vago e mudo…
E a solidão desprende-se de tudo
Qual bálsamo subtil que a noite exala…

Silêncio…estou sózinha…eu me desnudo
Manifestando a dor, sem disfarçá-la…
E por adormecê-la e suavizá-la,
A noite envolve a terra, qual veludo!

Eu não quero quebrar esta magia!
Silêncio…a noite morre…é quase dia…
E eu, não sei quem sou, nem onde vou.

Nada murmura…nada…tudo dorme…
A noite é para mim deserto enorme,
Aonde meu destino me atirou!

DA AVÓ conto de nelson padrella

Emília, minha avó catalã, casou aos 14 anos de idade, mas eu não a conheci nessa época. Fui conhecê-la já muito idosa e tenho dela apenas duas lembranças vívidas.
Na primeira, ela está sentada numa cadeira, na sala, e minha mãe olhava ferozmente para ela. Então a avó pronunciava uma palavra que soava como carrer e recebia um bofetão no rosto, desferido por minha mãe. Em seguida, a mãe dizia a palavra rua várias vezes. Até que desistia e, num gesto dramático, deixava a sala. Vó Emília mantinha-se imperturbável, o rosto ardente. Dali a pouco, teimosamente, repetiaa palavra que soava como carrer. Em outro aposento, minha mãe, desesperada, esmurrava um móvel, soluçando: é rua, rua, rua.
Eu tinha para mim que a avó procurava ensinar-me as palavras que conhecia, passar-me os ensinamentos da longínqua Catalunha, e isso incomodava minha mãe, que insistia que o filho devia conhecer apenas o idioma do país onde estávamos.
A outra imagem que tenho da avó é ela no leito de morte, uma tarde quente de janeiro ou fevereiro. Ela não queria morrer antes que meu pai chegasse da fábrica, tarde da noite. Queria se despedir do Arthur. Eu me vejo sendo retirado do quarto da velha.

Há uma outra imagem amarrada à minha infância. A avó já tinha sido levada e meu pai mostrava à minha mãe o papel deixado pela finada, onde estava escrita uma única palavra: Ferrer. Era a mensagem que, naquele último suspiro, tentou inutilmente passar para nós. Meu pai fez gravar em seu túmulo, após o nome Llorenzo, também o Ferrer, pelo qual Emília tanto lutara ao final da vida.

CHAMAÇÃO de CHUVAS poema de marilda confortin

Acorde a ansiedade da carne mal passada
Doure a aura que te reveste em flamas
Afrouxe a corda que te segura atada
Aporte em meu peito, nave em chamas

Atice a fome com teu cheiro fêmeo
Chame meu nome sobre teu leito aceso
Acate-me frágil sob tuas asas tênues
Ataque de surpresa meu corpo indefeso.

Afague esse fogo que me loura pelos
Contorne a borda, minha orla adorne
Mostre-me atalhos, solte meus cabelos
E depois me chova de saliva morna.

Então se porte como incasta santa
Que acode pronta, enquanto cede a fenda
Que prende o riso enquanto come a fome
E mostra aonde os meus rios acendem

Demore-se amando-me como quem perde hora
More-me inteiro como quem decora a casa
E lembre-me de querer-te novamente, aurora
quando mais tarde, ardente, acordares brasa.

(poema feito para o personagem Dionísio, da peça de teatro Portas Entreabertas)
 

MULHERES TRAÍDAS por joanna andrade / miami.usa

Como se traição fosse somente o homem sair com outra(s) apenas.
Quando a mentira , a falsa ideologia, a palavra que não é cumprida, as calúnias contadas aos amigos, a falta de tolerância, a falta de valoração se passam por verdades?????
Apesar de tudo ainda há amor?
Quantas vezes ha de se dar a face do rosto para bater?
Quantas vezes as portas serão batidas e trincarão os corações?
Quantas vezes as chaves serão trocadas por falta de confiança?
Até quando os homens poderão errar mais com a desculpa de que sair com outra mulher é a pior coisa que poderia acontecer?
Quantas outras coisas erradas pelas costas são feitas todos os dias?
A falha de caráter está na educação social emocional de seu povo.
A musica não pode parar, a vida há de continuar nessa baladinha de sexo drogas e rock and roll?
Não quero ser cúmplice dessa idiotice alheia a mim.
As mulheres e os homens precisam quebrar esses padrões impostos pela sociedade, caso contrario viverão sofrendo os revezes de uma sub cultura dominadora a procura de poder.
O verdadeiro amor por nós mesmos está cada vez mais difícil de ser encontrado, vem sendo confundido com esses instintos de defesa animalescos como mostram os fatos diários.
O amor próprio só faz bem e impede que façamos ao outro o que não gostaríamos que fizessem a nós. Se conseguirmos pensar assim, muita coisa insalubre deixará de acontecer.
Por amor próprio não se mata, não se destrói, ama-se cada vez mais a vida dentro e fora de nós.

Ama o próximo como a si mesmo.

( As vezes brinco que crime passional faz bem ao ego, contratar um advogado ou um psicólogo não teria o mesmo efeito.)

EXPRESSO, ANTES do MEIO poema de alexandre frança

tomo o meio-dia

como um café preto expresso,

para que ele escorra quente

entre as minhas vontades,

para que ele permaneça

durante o tempo

da circulação

apressada

da tarde.

um café preto,

como um trago com o diabo

ao meio-dia:

forte e suave

doce ou amargo.

um café preto

é que faz o meu dia.

Irish Coffees, Choconhaques,

nada faz tanto

a felicidade do estriquinado.

tanto faz puro ou com leite,

só tome cuidado:

um puro batizado

faz o dia de Deus

um pouco mais

diabólico.