DA AVÓ conto de nelson padrella

Emília, minha avó catalã, casou aos 14 anos de idade, mas eu não a conheci nessa época. Fui conhecê-la já muito idosa e tenho dela apenas duas lembranças vívidas.
Na primeira, ela está sentada numa cadeira, na sala, e minha mãe olhava ferozmente para ela. Então a avó pronunciava uma palavra que soava como carrer e recebia um bofetão no rosto, desferido por minha mãe. Em seguida, a mãe dizia a palavra rua várias vezes. Até que desistia e, num gesto dramático, deixava a sala. Vó Emília mantinha-se imperturbável, o rosto ardente. Dali a pouco, teimosamente, repetiaa palavra que soava como carrer. Em outro aposento, minha mãe, desesperada, esmurrava um móvel, soluçando: é rua, rua, rua.
Eu tinha para mim que a avó procurava ensinar-me as palavras que conhecia, passar-me os ensinamentos da longínqua Catalunha, e isso incomodava minha mãe, que insistia que o filho devia conhecer apenas o idioma do país onde estávamos.
A outra imagem que tenho da avó é ela no leito de morte, uma tarde quente de janeiro ou fevereiro. Ela não queria morrer antes que meu pai chegasse da fábrica, tarde da noite. Queria se despedir do Arthur. Eu me vejo sendo retirado do quarto da velha.

Há uma outra imagem amarrada à minha infância. A avó já tinha sido levada e meu pai mostrava à minha mãe o papel deixado pela finada, onde estava escrita uma única palavra: Ferrer. Era a mensagem que, naquele último suspiro, tentou inutilmente passar para nós. Meu pai fez gravar em seu túmulo, após o nome Llorenzo, também o Ferrer, pelo qual Emília tanto lutara ao final da vida.

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