Arquivos Mensais: março \31\UTC 2008

A DITADURA EM MARCHA, BRASIL ENTRA NA ESCURIDÃO (l)

Momentos antes do Golpe e da vitória das “Forças Ocultas”
Parte 1: agitação política e ilusão progressista

por Paulo Alexandre Filho
Forças ocultas sussurraram nos ouvidos presidenciais do imprevisível Jânio Quadros que a sua renúncia, uma apelação golpista, acabaria fortalecendo suas posições no poder. Nem o povo nem o Congresso se iludiram quanto as suas intenções misteriosas e Jânio acabou entrando para a História como o pivô de uma das mais graves crises políticas que o Brasil já viveu. Da renúncia, em 25 de agosto de 1961, ao Golpe de 1º de abril de 1964, se instalou um clima politicamente convulso no país com a colisão entre os posicionamentos progressistas e a as forças conservadoras de sempre, sendo a “revolução” verde-oliva o resultado imediato mais grotesco e anti-democrático destes conflitos.

O então Vice-Presidente João Goulart deveria legalmente assumir as chefias de Governo e Estado como legítimo Presidente da República, mas seu governo já teve um início incomum, pois, na tentativa de limitar as prerrogativas presidenciais, o Congresso Nacional realizou uma das grandes proezas históricas da irracionalidade política brasileira: desprezando que o país possuía uma Constituição e que os Poderes a ela deveriam seguir, foi imposto um regime parlamentarista improvisado que foi, pelo bem da legalidade, posteriormente derrubado pelo plebiscito de 6 de janeiro de 1963. Goulart, herdeiro político de Getúlio Vargas, buscou imprimir uma série de medidas que desagradaram as vontades dos setores conservadores e reacionários, cujos interesses geralmente nortearam as políticas governamentais. Além de impor o monopólio estatal para importação de petróleo e regulamentar o fluxo de remessa de lucros ao exterior por parte das multinacionais, Goulart buscou manter uma política internacional mais autônoma, o que poderia alarmar aqueles que tinham receios a respeito de suas supostas relações com o comunismo numa época na qual imperava o domínio da Guerra Fria sobre o alinhamento das “nações periféricas” entre os dois pólos antagonistas – EUA e URSS.

O país se agitou durante o Governo Jango. O processo de democratização acentuou a politização dos atos públicos que se espalharam pelas ruas das principais cidades brasileiras. Verificou-se o fortalecimento dos organismos de representação dos movimentos trabalhistas por meio da atuação de entidades como o Movimento Unificado dos Trabalhadores (MUT), o Pacto de Unidade e Ação (PUA), o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) e das centrais que congregavam os trabalhadores rurais, cuja sindicalização somente foi regulamentada em junho de 1963. O movimento dos estudantes esteve igualmente ativo e solidário a qualquer causa que, mesmo romanticamente, tentasse servir como via de libertação para o Brasil – eram tempos em que a IV Internacional e seu viés trotskista seduziu jovens em nome da aventura revolucionária. Os temíveis comunistas voltaram a atormentar seus perseguidores e Cuba tornou-se uma espécie de “Paraíso na Terra”, um lugar onde se podia viver em liberdade do tenebroso capitalismo e experimentar a grandeza do socialismo.

Como agitação popular sempre foi encarada como sinônimo de perigo e subversão, então, os vigilantes senhores zelosos pela integridade de suas posições ameaçadas por este clima de mobilização que se instalou como uma praga no país, resolveram que alguma resistência ou coisa pior precisava ser executada com certa urgência. A tentativa de implodir a ascensão dos subversivos contou com apoio financeiro norte-americano através da Aliança para o Progresso e com o suporte o de endinheirados colaboradores nacionais que, através do Instituto Brasileiro de Ação Democrática – IBAD, distribuíram bastante capital para a cooptação de bases no movimento social e financiamento de campanhas políticas. Os conservadores passaram a articular também os seus próprios movimentos de massa com os apoios de grupos como a hedionda Sociedade em Defesa da Tradição, Família e Propriedade (a TFP) ou a grotesca Frente Patriótica Civil-Militar. O ápice deste ativismo de extrema-direita foi a realização da incrível “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”.

Jango, o ícone-mor do colapso populista, buscou canalizar o furor dos movimentos sociais parar o seu lado, buscou encampar as suas Reformas de Base e nos seus últimos dias de governo participou do apoteótico comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, ocasião na qual fez questão de anunciar o lançamento de seu plano de reforma agrária: o Decreto de 13 de março de 1964, que declarava as terras que ladeavam as rodovias federais, ferrovias e terras que contaram com benefícios bancados pela União cumpririam sua função social, sendo então destinadas a uma distribuição entre os trabalhadores sem terras. Os progressistas, os “agitadores” e os sonhadores confiavam na idéia de que aquele clima de efervescência política inspirava um estado favorável à concretização de seus intentos. O eufórico Luiz Carlos Prestes chegou a afirmar, um mês antes do golpe, que os comunistas já estavam no poder. Nos instantes anteriores à queda de Jango, a CGT articulou uma greve geral no Brasil como forma de pressão contra os grupos que se opunham às reformas. A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) declarou, em nota do 31 de março de 1964, dia em que os conspiradores e golpistas acertavam o assalto ao Poder, que os trabalhadores não podiam permitir que as reformas propostas por Jango fossem perturbadas por forças reacionárias.

Mas já não havia mais reformas a defender, pois já não havia mais Governo Jango. O “Hamlet dos Pampas” foi derrubado pelos conspiradores sem maiores alardes. Os golpistas devem ter cansado do espetáculo de radicalização ideológica, da farra dos agitadores e do otimismo dos comunistas. O sonho acabou.

Dizem que há três maneiras de lidar com os problemas: a maneira certa, a maneira errada e a maneira dos militares. A maneira militar de lidar com problemas políticos costuma ser isenta de parâmetros racionais ou valores democráticos. O negócio é simples: guerra é guerra, inimigo é inimigo e identificado o inimigo, proceda-se o ataque. Os bravos militares acorreram aos apelos patrióticos dos conspiradores civis (sendo muitos deles homens de execráveis comportamentos políticos, como Magalhães Pinto, Carlos Lacerda ou Adhemar de Barros, governadores dos três mais influentes Estados brasileiros – Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente). O Exército, como já havia notado Antonio Callado, era o efetivo e verdadeiro partido político brasileiro. Se os generais, que não são eleitos pelo povo, decidem não admitir um governo, seja ele de quem for, eles simplesmente decidem dar-lhe um fim. Já não haviam acolhido com boa vontade a posse de Jango, mas resolveram pagar para ver. A paciência bélica da caserna se esgotou e próprios militares decidiram tomar o controle do governo. Enjoaram dos civis.

Há quem esteja plenamente convicto de que no período imediatamente anterior ao Golpe Militar o Brasil viveu uma experiência ardentemente progressiva, um surto de inspiração revolucionária plenamente estabelecido. Mas esta convicção talvez não resista ao confronto com os fatos. Ocorre que radicalização dos movimentos sociais organizados, ao contrário de beneficiar o Governo Jango, acabou o desestabilizando e poucos de seus aliados possuíam uma apurada percepção de que o governo trilhava por um campo minado – não haviam captado os sinais oferecidos pelas tramas políticas que estiveram ligadas ao processo de imposição do parlamentarismo “anti-constitucional” como condição para a admissão de Jango como Presidente. A situação de Jango era insustentável e não havia um suporte firme o bastante para impor uma resistência ao golpe. O Governo Jango desmantelou-se como um castelo de cartas. As resistências ao funcionamento das Reformas de Base não seriam impostas apenas no plano retórico da discordância por declaração e a prova cabal da inconsistência de solidez dos progressistas foi a forma fácil como deixaram o poder, sem qualquer resistência ou apoio.

O dia em que o Brasil acordou com o anúncio de que o governo havia sido deposto por uma quartelada foi o nosso grande e inesquecível dia como uma legítima “República de Bananas”, identificação típica jocosamente atribuída à lastimável tradição latino-americana de apelo a golpes de Estado, prática que entre nós já foi bastante vulgarizada.

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AMAZÔNIA poema de manoel de andrade

Antes da pátria, eras úmida promessa…
semente primordial
árvore mãe
planta continental
arvoredo, floresta, selva palpitante.
Hoje canto tua  vertical beleza
o mogno gigantesco,  sua estatura secular
seu colossal diâmetro
canto essa caudalosa geografia
essa multidão de vidas que sustentas
canto o itinerário sazonal da seiva
e  essa infinita linfa…
parto de infinitas criaturas.
Canto teu verde planetário
e no teu imenso respirar,
canto o nosso pão de oxigênio…
Canto a ti… Amazônia
bosque inquietante da esperança…
e  eis porque denuncio esse machado cruel sobre  teu peito…
essa fruta milenar, dia a dia devorada.

Antes da grande nação…já eras tu…
a nação primogênita
filha dos filhos da mata.
A infância da pátria foste tu,
sílaba aborígine, idioma tupi
cerâmica, canoa e tacape
ritual, dança e canção.
Foste tu a raiz,  sangue ameríndio
o parto da nacionalidade.
Hoje canto os povos da floresta
e o desencanto dessa memória esquecida.
Falo de sobreviventes
de tribos desgarradas
de aldeias tristes
de sonhos desmatados
de segredos e tradições pirateadas
das águas lavadas na bateia do mercúrio.

Amazônia….Amazônia…
quem deterá o teu martírio
uma vida tão diversa num  adverso viver…
Falo dos teus hectares de sangue
da lâmina cruel, da pira ardente
dessa cartilha de serras, rifles e archotes
dessa morte plural
na diversidade de aves e primatas
roedores, felinos e serpentes.
Falo de uma terra de cepos
de raízes degoladas
de caules retalhados
de castanheiras preservadas… a morrer de solidão.
Falo da linha negra do fogo
e desse cemitério de troncos defumados.

Falo da floresta sitiada
por uma legião de máquinas assassinas
falo de estradas e picadas clandestinas
de súbitas clareiras
desse assalto interminável… lento e invisível.
Falo de grileiros, posseiros, garimpeiros, bandoleiros
e de terras demarcadas sob a mira das pistolas.
Falo de dragas e crateras
das águas manchadas e dos rios estropiados.
Falo da vida degradada pelas pastagens da ambição.

Amazônia…Amazônia…
com que verde vestiremos nosso mapa
acuados pelo apetite voraz das motosserras,
por uma fronteira incinerante que avança insaciável.
Acuados pelo gatilho mercenário da violência
e pelo estigma oficial da impunidade.

Passo a passo e esse avizinhar-se do colapso…
quantos fóruns se abrirão para “resolver” essa tragédia!?
Crimes silenciados na cumplicidade regional dos gabinetes…
gritos sem eco nas vozes da omissão…
acenos sem resposta nos protocolos renegados…
e o poder dos maiorais contra tudo o que respira.

………………………………………………………………………………….

Deixaste ali teu heróico testemunho
teu seringal sagrado
teu rosto  solidário.
Contigo… caiu o tronco ensangüentado…
Tua alma…teu nome…Chico Mendes,
sobrevivem  em deslumbrante  hiléia,
na invisível bandeira das espécies
e na memória da pátria agradecida.

Depois chegaste tu…Dorothy  Stang…
estrangeira,  franzina e destemida
desafiando   víboras e chacais
e defendendo a floresta com a paz do nazareno.
Em  Anapu  ergueram teu calvário
mas  hoje  ergo aqui,  no jardim humilde da poesia,
a tua estátua de missionária imperecível.

……………………………………………………………………………………….

Amazônia… Amazônia…
Quantos ainda cairão para que sobrevivas?
Com que vozes  cantaremos a esperança
enlutados  pela ausência dos que ousaram manter suas denúncias?
quem te fará justiça?
quem suspenderá esse cerco que te aperta lentamente?
como conter teu holocausto
e a agonia silenciosa das espécies?

E eis porque canto o desencanto da árvore secular que tomba
e essa sinistra paisagem de troncos decepados…
E falo da imensa copa baqueada…
seus frutos, seus aromas
remédios e resinas,
seus colares e adereços…
Falo de samambaias e orquídeas
de cipós e de bromélias agonizantes.
De garras, patas e plumagens…
de berços destroçados, de ninhos mortos
e dessa maternidade em lágrimas.

Falo do patrimônio ambiental da pátria
da grilagem descarada
de negociatas e falsos documentos.
Falo da destruição diária e sorrateira
de pastagens criminosas
e de uma ingrata agricultura.
Falo da natureza usada e abandonada
de uma terra arrasada
e de um deserto verde que cresce…dia a dia.

Eis tu…e eu te chamo legião…
o mundo te observa e nos pergunta: por quê???
e todos nos perguntamos: até quando???
os que irão nascer perguntarão quem foste tu e por que tanto desamor…
os céus vigiam teus passos,
rastreiam teus crimes
e a tua sombra imensa que avança para o norte…
Sabem de ti o rei e os seus vassalos…
conhecem  teus látegos de aço
tua tocha incendiária
teus cúmplices e tuas vítimas
tuas mãos manchadas com o sangue da floresta…
Somos os que te acusamos
nessas sementes queimando
nessas pétalas feridas
nesses pássaros sem ninho…
Somos os que assistimos, impotentes, esse indigesto banquete,
tua dieta vegetariana
e a euforia com que brindas o lucro e o  bom negócio
nessa taça transbordante de cinzas, de sangue e de lágrimas…

Amazônia… Amazônia… sem lei, sem testemunhas…
e essa  oficial improvidência…
Nada que te ampare…
nada..
Talvez um vento reverso
uma chuva perene que apague essa queimada.
Talvez um decreto impossível
uma lei implacável
a mão de Deus, quem sabe…
a espada da justiça pra sangrar os que te sangram…
algo que feche essa ferida
algo que estanque essa agonia.
Quem sabe, o refluxo imperdoável do teu próprio martírio…
uma malária cruel…
algo que empeste essa ganância…
antes… bem antes
que essa segunda geração de abutres choque também os seus filhotes.

 poema do livro CANTARES editado pela Escrituras.

A QUARTELADA de 44 ANOS ATRÁS e HÁ 40 do FAMIGERADO AI5

Os presidentes do regime militar

por leonardo silvino.

A ditadura militar interrompeu o processo democrático brasileiro que durava desde o fim do Estado Novo de Vargas em 1945. Em 1º de Abril de 1964, o Congresso Nacional era aberto às pressas para que fosse declarada vaga a presidência da República, este gesto atropela a constituição pois o presidente João Goulart ainda estava em território nacional.

Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara, assume figurativamente a presidência. A grande imprensa, a mesma que hoje é chamada de comunista pelos fascilósofos, apoia o golpe e declara a fuga do presidente e o retorno da “democracia”.

Oito dias após o dia da mentira é declarado o primeiro dos nefastos Atos Institucionais. O AI-1 cassou mandatos, suspendeu imunidade parlamentar e estabilidade dos funcionários públicos.

Governo Castello Branco (1964 – 1967) –

No dia 11 de Abril o congresso elege, em nome da “democracia”, o chefe do Estado-maior do Exército, marechal Humberto de Alencar Castello Branco. Este governo duraria até as eleições de 1965, mas foi prorrogado por mais dois anos em nome do “amor, ordem e progresso”.

O cearense Castello Branco tome posse quatro dias depois e consolida o golpe (chamado de revolução pelos defensores e fascilósofos). A ditadura mostra a sua cara: mais três Atos Institucionais são baixados, limitando a liberdade e dissolvendo todos os partidos políticos. São permitidos apenas dois novos partidos, a Arena (Aliança Renovadora Nacional) e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Na verdade, a existência do partido de oposição (MDB) serve apenas para legitimar a “democracia”.

Esta ditadura foi atípica porque previa eleições para presidente e governadores, mesmo que indiretas, e permitia uma oposição figurativa. Todos os mecanismos foram usados para tentar manter uma aparência democrática. Entretanto, vários políticos foram cassados, principalmente aqueles que podiam enfraquecer o golpe como o ex-presidente Juscelino Kubitschek e o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que apoiou o golpe mas foi cassado porque achava que o golpe garantiria a médio prazo eleições para presidente. A ditadura militar dura e não foi uma nuvem passageira como Lacerda gostaria. Um trampolim para a presidência.

As cassações ocorrem para manter os militares no poder. No governo da renovação nacional as uniões nacionais e estaduais dos estudantes são abolidas. Cria-se o Serviço Nacional de Informações (SNI), uma espécie de polícia do pensamento orwelliana. Usando informantes, em outubro de 1965, a polícia militar invade e fecha a Universidade de Brasília.

A sexta Constituição do país e a quinta da República faz a ditadura se assumir de vez. A Constituição de 1967 incorpora os atos institucionais vigentes, dá mais poderes ao executivo enquanto os do congresso são reduzidos. São criadas as novas leis de imprensa e a nefasta Lei de Segurança Nacional, a qual toda oposição ao regime se enquadrava.

Governo Costa e Silva (1967 – 1969)

É no governo do gaúcho Arthur da Costa e Silva que a ditadura se consolida. Com o discurso de combate ao terrorismo, a ditadura militar cria um aparato estatal quase nos moldes dos países comunistas, além do centralismo e da castração da liberdade partidária e individual.

Ex-Ministro da Guerra de Castello Branco, Costa e Silva havia sido afastado do comando do 4º Exército pelo presidente João Goulart por ter reprimido manifestações estudantis.

Como uma mentira de 1º de Abril não dura muito, a oposição cresce no país, mesmo entre aqueles que desejavam a saída de Goulart em 1964. As passeatas aumentam na mesma proporção do descontentamento popular. Afinal, o golpe para defender a pátria e a liberdade havia se convertido numa ditadura, mal disfarçada de democracia, sem prazo para terminar.

Em 1968 a situação estava insustentável para a “redentora”. Para conter os protestos e greves, principalmente nas grandes cidades, o governo decreta em abril que 68 municípios são estratégicos para a segurança nacional, e portanto, têm seus prefeitos nomeados diretamente pelo governo federal.

A oposição se reúne na Frente Ampla, um movimento democrático que reunia os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart e o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Os três morreram em circunstâncias duvidosas – num curto intervalo nos anos 1976 e 1977.

Os mais fascistas pressionam o governo a radicalizar a ditadura. A única forma para afastar o perigo do desmonte da farsa. 13 de dezembro, uma sexta-feira, o governo decreta o AI-5, considerado o golpe dentro do golpe, o primeiro Ato Institucional sem prazo de vigência, dissolve o congresso, cassa mandatos e dá plenos poderes ao presidente. Enfim, a ditadura mostra as suas garras numa sexta-feira 13. Para um golpe que começou no dia 1º de Abril, o dia da mentira, todos os símbolos irônicos tornam-se uma piada de mau gosto.

Costa e Silva sofre uma trombose e é obrigado a se afastar da presidência em agosto de 1969. Como seu vice-presidente Pedro Aleixo é civil, cria-se um impasse. A solução para manter a “democracia” é a criação da “Junta Militar”. Costa e Silva morre quatro meses depois.

Governo da Junta Militar (1969)

 A Junta Militar é formada pelos ministros da Exército (Aurélio de Lira Tavares), Força Aérea (Márcio de Sousa e Melo) e Marinha (Augusto Rademaker). O governo da Junta aa-junta-militar-01.jpgMilitar, popularmente conhecida como “Os Três Patetas”, dura apenas dois meses e é marcado pela radicalização dos descontentes e das reações do governo, que cria, em nome de Deus e da democracia, a punição de expulsão do país e a pena de morte para os contra-revolucionários. O congresso, agora amordaçado pelas cassações, é reaberto após dez meses de recesso.

Governo Médici (1969-1974)

Sonho de consumo de qualquer nazi-fascista, o governo de Emílio Garrastazu Médici leva o Brasil aos anos de chumbo. A luta armada passa a ser cada vez mais forte no governo do ex-chefe do SNI. Para contê-la, o Destacamento de Operações e Informações ao Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) amplia para todo o país as torturas contra aqueles que fossem, inclusive, suspeitos de lutar contra os princípios democráticos.

O governo ganha força popular com o milagre econômico, os fascilósofos justificam qualquer atrocidade devido aos ótimos índices econômicos do governo Médici, como se a Alemanha Hitlerista também não tivesse seus anos de glória. O povão que sempre deixa a vida o levar, apoia o governo. O tri-campeonamento da seleção brasileira no México contribui ainda mais a “ilha de tranqüilidade mundial”, afinal não são os brasileiros que moram num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza? Não é o Brasil que deve ser amado o deixado? Não é o coração dos brasileiros que é verde, branco, amarelo e azul anil?

Nos anos 70 começam os mega-projetos que fariam inveja a Albert Speer. Transamazônica, Ponte Rio-Niterói, Hidrelétrica de Itaipu. Todos os projetos eram os maiores do mundo, ampliando o complexo de inferioridade do país.

Governo Geisel (1974 – 1979)

Com o fim do milagre econômico, o governo do gaúcho Ernesto Geisel tem de enfrentar o aumento da inflação, crise do petróleo e transferência de investimentos para os Tigres Asiáticos. Depois de 10 anos, a ditadura sofre uma grande derrota nas urnas. A oposição vence nos Estados e cidades mais importantes do país. Geisel mantém a legalidade das eleições, descontentando fascilósofos e fascistas, e passa a comandar a abertura “lenta, gradual e segura”.

A derrota nas eleições de 1974 é fundamental para a criação da Lei Falcão, que abole os debates políticos nos meios de comunicação. No ano seguinte, a censura é oficialmente suspensa. Ou seja, a ditadura terminaria em breve, mas apenas seria entregue às pessoas “confiáveis”. Este era o plano, que foi mudado com uma nova derrota nas urnas em 1976. Como resposta às urnas, o governo fecha o congresso e modifica vergonhosamente as regras eleitorais com o intuito de garantir a maioria das cadeiras do parlamento. As bancadas do Nordeste, reduto da Arena, passam a contar com maior peso proporcional na Câmara e Senado e o mandato presidencial é aumentado em mais um ano. A maior aberração fica por conta do surgimento do “senador biônico”, este era eleito pelas assembléias estaduais, indiretamente, claro.

Panis et Circenses. O campeonato nacional de futebol, criado em 1971, é ampliado com fins políticos. “Onde a Arena vai mal, um time no nacional”, este refão popular teve de ser modificado com o inchaço do Campeonato Brasileiro ano a ano. Em 1979, o torneio foi disputado por 94 clubes. Um novo refrão foi criado: “Onde a Arena vai mal, um time no nacional. Onde a Arena vai bem, um time também.”

Geisel, ex-ministro do Supremo Tribunal Militar e ex-presidente da Petrobrás, enfrenta a ala linha-dura dos militares para realizar a abertura. Geisel mantém a legalidade das eleições de 1974, dá uma resposta às pressões estrangeiras ao afastar o general Ednardo d’Ávila Mello devido a morte do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, no interior do DOI-Codi. Os estadunidenses tinham um dilema na América Latina: como poderiam lutar em nome da democracia na Ásia e ter de apoiar ditaduras vizinhas que torturavam pessoas nos porões?

Devido às pressões populares (motivadas pelo fim do milagre econômico) e do governo dos EUA, o governo Geisel poê fim ao AI-5 e restaura o habeas-corpus. A dívida externa cresce e a opisição vence novamente as eleições.

Governo Figueiredo (1979 – 1985)

A mentira se encerra com chave-de-ouro. O general Figueiredo certamente foi o menos cortês de todos os presidentes do período militar, frases ríspidas e gafes foram correntes em seu governo. Ex-chefe do SNI no Rio de Janeiro, o carioca João Baptista de Oliveira Figueiredo governa o país entre 15 de março de 1979 e 15 de março de 1985.

A abertura política se intensifica com a anistia ampla, geral e irrestrita. Mais um vexame da ditadura e dos grupos que agora estão no poder. Este tipo de anistia beneficia o terrorismo de ambos os lados e só garante a normalidade aos interessados. Entretanto, os atentados continuam, como o mal sucedido no RioCentro em 1981. Uma bomba foi detonada antes do tempo. O terrorismo do Estado tinha com o objetivo culpar a oposição, e assim, prolongar ao máximo o regime militar.

Volta a inflação e o pluripartidarismo. A Arena dá lugar ao PDS e o MDB vira o PMDB. Assim como vários exilados, Leonel Brizola retorna ao país, tenta refundar o PTB, mas perde a sigla para Ivete Vargas, e cria o PDT. A força das greves em São Paulo faz nascer o PT, partido do atual presidente que tem apoio de várias figuras da Arena, PDS, seitas oportunistas e semelhantes.

Nas eleições parlamentares de 1982, novamente as regras do jogo eleitoral são mudadas para favorecer o regime militar. Já prevendo a abertura, o mandato de vereadores e prefeitos são prorrogados e as eleições gerais são adiadas em dois anos. Para amarrar o eleitor é criada a vinculação do voto. O PDS elege 18 governadores, enquanto o PMDB elege oito e o PDT apenas um.

20 anos depois do golpe, o país inteiro é sacudido pela campanha da Diretas Já. A emenda constitucional previa eleições diretas em 1985. Os mantenedores do sistema acharam arriscado demais. Havia apenas três anos que Brizola se elegera governador do Rio de Janeiro e Tancredo em Minas Gerais. Outras figuras indesejáveis ao poder despontavam no cenário político, como o Lula versão 1985, não este clone de 2004 embelezado pelo Duda Mendonça e apoiado pelo Sarney e afins. A princípio, a grande imprensa tentou esconder as manifestações e comícios das Diretas Já. No final chegou a trasmiti-los de olho na audiência. O maior comício reuniu quase dois milhões de pessoas em São Paulo com a participação de personalidades e políticos de tendências opostas. Logicamente, os oportunistas de plantão não deixaram de comparecer.

Em mais uma página do grande livro das vergonhas do Brasil, o congresso ignora o pedido popular, e mantém as eleições indiretas para presidente. 298 deputados votam a favor e 65 contra. Apenas 22 votos a mais seriam necessários para aprovar a emenda constitucional, mas três deputados se abstém e simplesmente 113 não comparecem. Nas eleições indiretas para presidente, Tancredo Neves, o mesmo que foi primeiro-ministro no período-golpe parlamentarista, derrota Paulo Maluf, candidato do PDS. Tancredo, governador de Minas Gerais pelo PMDB, é eleito com o apoio de dissidentes do PDS, a Frente Liberal, que se tornou o PFL. A história sempre se repete. Na iminência de sair do governo, um grupo se desassocia do poder e passa a apoiar a ala que irá governar em breve. Não é à toa que o PL, partido do atual vice-presidente, foi o que mais cresceu depois da vitória do milionário ex-torneiro-mecânico.

A ditadura que se iniciou envergonhada termina numa quebra de protocolo. Figueiredo recusa-se a passar a faixa para José Sarney, presidente interino devido a internação de Tancredo. No final das contas, o ex-presidente do PDS, é quem assume de vez o governo por mais cinco anos com a morte de Tancredo. A abertura no Brasil teria mesmo de ser bem lenta. Só em 1989 o país voltou a ter eleições diretas, isto porque Sarney usou uma brecha na constituição para ficar mais um ano, distribuindo concessões de rádio e televisão.

Os 21 anos de ditadura interromperam o processo democrático e, mesmo com aumentos consideráveis em alguns anos do PIB, deixou mais pontos negativos do que positivos, como a centralização, o inchaço das grandes cidades, o sucateamento da malha ferroviária, o emburrecimento do ensino, o endividamento externo e a estatização excessiva. O Brasil tem uma tradição pouco democrática em que até os partidos de esquerda sabem de cor. O PT pediu a saída de todos os presidentes eleitos democraticamente no pós-ditadura e fez de tudo para barrar uma CPI que certamente revelaria muitos podres a mais e daria num impeachment de Lula. Se o governo Lula continuar a pensar que ainda está em campanha e apenas se apoiar na propaganda, em muito pouco tempo ouviremos “Fora Lula”.

Enquanto isso, acompanha-se o Big Brother sem saber o sentido do nome do programa e louva-se a apatia em receitas musicais de diversos estilos musicais como: “Deixa a vida me levar…” e “Vou deixar a vida me levar…”

COMENTÁRIOS em: “sabor da fruta (a primeira trepada de um guri)” conto de jb vidal

1. Anonymous

quanta ternura, que simpliciadade!!!lírico.
muito bom.
abços para a equipe dos palavreiros,
 

Tania Scorsin
 

2. 

edit this em fevereiro 6, 2008 às 2:49 pm2  Ademário da Silva

É assim mesmo como mostra a filosofia
mete o olho, depois o dedo,
descobre o cheiro e o gosto e
acende um fogo que não mais se apaga
e afoga o medo no fundo da surpresa
no meio do mato ou embaixo da mesa
é a lei da natureza conduzindo-nos à
simplicidade do tesão!
A descoberta primeira do sexo
é sempre sem muito nexo
mais traz uma felicidaade imensa por
descobrir a si mesmo no meio da vida!
 

3. 

edit this em março 24, 2008 às 8:24 pm3 

Reni
Muita sutileza no conto, agradável leitura. Parabéns ao autor.

comentários em: SABOR DA FRUTA

JOÃO BATISTA DO LAGO comenta em: “poema” de carolina correa

COMENTÁRIO João Batista Lago | I

PHenri Bosco, em Le jardin d’Hiacinthe, p. 192, descreve (e me ensina):
“Sob a pressão das mãos e o calor útil de lã, a cera macia penetrava nessa matéria polida. Lentamente, a bandeja de madeira adquiria um brilho suave. Essa irradiação atraída pela ficção magnética parecia vir da entrecasca da árvore centenária, do próprio cerne da árvore morta, e expandir-se pouco a pouco até o estado de luz sobre a bandeja. Os velhos dedos carregados de virtudes, a palma generosa extraíam do bloco maciço e das fibras inanimadas as forças vitais latentes. Era a criação de um objeto, a obra da fé diante de meus olhos maravilhados”.
Por sua sua vez, Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, p. 80, infere (e me ensina) que:
“Os objetos assim acariciados nascem realmente de uma luz íntima; chegam a um nível de realidade mais elevado que os objetos indiferentes, que os objetos definidos pela realidade geométrica. Propagam uma nova realidade de ser. Assumem não somente o seu lugar numa ordem, mas uma comunhão de ordem. Entre um objeto e outro, no aposento, os cuidados domésticos tecem vínculos que unem um passado muito antigo ao dia novo. A arrumadeira desperta os móveis adormecidos”.
Esses dois excertos revelam o que de fato penso desta poesia. A poeta estreante (e que bela estréia!), como uma arrumadeira, transforma o ambiente (”objeto” morto) num “sujeito” que faz e dá sentido à vida, ou seja, ela – a poeta – dá luz ou pari o seu sujeito e nos oferece na bandeja da poesia. Aos meus olhos, a A., encaixa-se, perfeitamente no conjunto filosófico da poesia do espaço como se nos revela Gaston Bachelar.
De resto, resta-me parabenizá-la:
Parabéns, Poeta.

João Batista do Lago

comentário em: poema de carolina correa

COMENTA-SE QUE… neste site em: “receita para se manter comunista após os 30 anos”

Oscar

First of all, I would like to point out that i really like your sarcastic writing style. But i disagree in the substantive meaning.
“O importante não é só enganar os outros, mas enganar a si próprio”
That`s right. OK. After some easy-hand criticism to the so-called communism, Why don`t you try to make a self-critical-analysis? I mean, why don`t you try to go beyond your own stereotypes? Like the one that communist are just some bourgeois who paint canvas and in their free time read Lenin and Gramsci. Thanks of they have no need to work, they can analyse the “reality” and achieve some conclusions about what`s going on out there. Almost all the left-hand writers have been writing in prison, as Gramsci, where they could spent some time writing.
It`s very easy to say:
“As pessoas deixam de ser comunistas após os 30 anos porque entram em contato com a realidade”.
If you think that the ontology of the human being is a conservative one, OK, is your own choice. That`s a very philosophical debate that is closely intertwined with epistemological views (man are intrinsically “good”, and society make them go in the wrong way, or, man is “bad” and society make them go in the correct way). I completely disagree. I don`t think that human beings are intrinsically egoist. For example, most of the International brigades from the Spanish Civil War were workers really concerned about the “reality” of their time who
“…procedían de muy diferentes estratos sociales, desde intelectuales a trabajadores manuales, pasando por militares. Muchos sindicalistas, mineros de Centroeuropa, estibadores y cargadores de los principales puertos europeos, miembros del ejército ex-combatientes de la Primera Guerra mundial, médicos, afroamericanos y orientales naturales de suburbios neoyorkinos, también estadounidenses eran un numeroso grupo de universitarios, británicos procendentes de las zonas de concentración industrial, algunos escritores, artistas, políticos y muchos militares de la Europa del Este. Como vemos, la procedencia tanto geográfica como social y profesional era de una heterogeneidad impresionante. El importante número de intelectuales, médicos, artistas y científicos que integraban las BI, ha hecho que en muchas ocasiones se les haya definido como “la unidad militar más intelectual de la historia”. Hay que añadir en este apartado que hubo varios escritores como Ernest Hemingway y George Orwell, que aunque sí participaron en la guerra y escribieron algunas obras que se han hecho muy populares (Por quién doblan las campanas u Homenaje a Cataluña) no se encuadraron dentro de las Brigadas Internacionales.”

comentário em : RECEITA PARA SE MANTER COMUNISTA APÓS OS 30 ANOS.

NUNCA, JAMAIS É IRRISÓRIO. por josé zokner (juca)

Constatação I

Não se pode confundir dados com dedos, muito embora quando o leão do imposto de renda cruza certos dados, na malha fina, por exemplo, ou a auditoria da polícia federal compara pagamentos efetuados com as fontes de renda, aí quem está sendo controlado e tem culpa em cartório cruza os dedos das mãos e dos pés para não ser indiciado. A recíproca não é necessariamente verdadeira. Afinal, tem gente que cruza os dedos, a fim de que o pênalti que vai ser batido a favor do seu time não vá fora ou o goleiro adversário defenda. E, quando é o time da gente que tem um pênalti contra, o dito cujo não seja convertido em gol.

Constatação II

Deu na mídia no dia 10 de junho de 2007: “BRASÍLIA – Congresso e OAB reagem a grampos; PF fez reunião com CIA por cooperação. As últimas operações da Polícia Federal (Hurricane, Navalha e Xeque-Mate), com a prisão de mais de 200 pessoas flagradas em conversas telefônicas comprometedoras, entre políticos, empresários, advogados, policiais e até juízes, instalaram o pânico nos altos círculos do poder”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas, cada vez, tenta-se obstaculizar a ação de quem reage a corrupção. Isso, em nome de Deus, democracia, liberdade, etc. concomitantemente a não punição dos transgressores. Agora, sob a ótica do Big Brother, (nada a ver com o programa da Rede Globo), o Grande Irmão, de George Orwell, com seu livro 1984. E, quase íamos esquecendo: Viva “nóis”! 

Constatação III (Via pseudo-haicai)

O ditador era uma bizarria
Para massacrar, roubar, matar
Na sua tradicional tirania.

Constatação IV (De outra dúvida crucial).

Foi uma sogra a autora do livro Como não fazer amigos e influenciar pessoas para que fiquem maldosas?

Constatação V

Rico desafoga as mágoas num uísque Chivas Regal, previamente envelhecido 12 anos; pobre, afoga as mágoas numa pinga e ainda se vê na, digamos, obrigação e gentileza de dividir com o santo.

Constatação VI

Antes, somente a televisão era considerada a máquina de fazer doidos; posteriormente, com o advento do computador, a televisão não ficou inteiramente só; hoje em dia, os caixas eletrônicos, afilhados dos computadores, vieram se unir aos dois primeiros.

Constatação VII (Quadrinha amigável).

Tive que rever um ou outro conceito,
Com relação a minha grande amizade,
Os que eram, então, amigos do peito
Invejaram minha conhecida notoriedade.

Constatação VIII (Ninharia, mixaria, bagatela; mixuruquice? Nem pensar…)

Os vôos estão sempre atrasados
Neste nosso território.
E lá, acolá, por outro lado,
Os afanos continuam adiantados.
E o valor evaporado
Nunca, jamais é irrisório.

Constatação IX

Rico recende agradável aroma; pobre, trabalha.

Constatação X

Não se pode confundir creditar com acreditar, muito embora ocorram certos casos, como por exemplo, a Receita Federal creditar, em curto prazo, a devolução do imposto de renda que já havia sido cobrado no pagamento do salário ou quaisquer outros pagamentos. O fato é tão auspicioso, mormente quando se tem compromissos a pagar sem que se soubesse de onde se iria arrumar numerário para tal, que o vivente não pode acreditar o que está vendo ao constatar o aviso do feliz evento. Alguns chegam a se beliscar para ter certeza que não estão sonhando. A recíproca não é necessariamente verdadeira principalmente de a pessoa prometer eternamente retribuir o jantar que se auto-convidou e filou na tua casa, alegando que vai creditar em conta-corrente e pagar num prazo imediato, pois, nos últimos tempos anda muito ocupado e que você, passado mais de dois anos, infere que não dá para acreditar que o convite algum dia virá. Como obviamente jamais veio…

Constatação XI

Rico usa dicionário; pobre, inventa vocabulário.

Constatação XII

Deu na mídia: “Brasileira Andréia Schwartz, testemunha-chave no caso do ex-governador de Nova York, é esperada em São Paulo”. Taí uma notiícia de transcendental importância para o futuro da Humanidade, ainda que muito provavelmente tenha alterado o futuro do ex-governador Eliot Spitzer.

Constatação XIII

A fé remove montanhas. E, conforme a constatação anterior, certas partes do corpo humano remove governadores…
E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

MARTÍN FIERRO, O GAÚCHO! pela editoria

O GAÚCHO MARTÍN FIERRO 

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O gaúcho do pampa (foto Christopher Ralling)

“Ele anda sempre fugindo. Sempre pobre e perseguido; não tem cova nem ninho como se fora um maldito, porque ser gaúcho….ser gaúcho é delito.” – José Hernández – Martín Fierro, 1872

A vastidão do Pampa

Por onde o olhar se esparrama pelo horizonte lá esta o pampa. Um imenso mar verde que tem suas beiradas no Rio da Prata e seu fim, se é que o tem, na Patagônia, bem mais ao sul. Ao se depararem com seu gigantismo solitário – onde no dizer do poeta Echeverria “nenhum apoio encontra a vista no seu desejo de fixar seu vôo fugaz” -, os argentinos chamaram-no de “deserto”. Duas Franças ou mais cabem por inteiro nele. Se por acaso visse o Barão de Montesquieu aquelas planícies desamparadas, desoladas de gentes, de tudo, seguramente as consideraria a topografia ideal para o império do despotismo.

Pampa, a terra do bárbaro
 

“Gira en vano, reconcentra su imensidad, y no encuentra la vista en su vivo anhelo do fijar su fugaz vuelo/ como el pájaro en mar/
Doquier campo y heredades del ave y bruto guaridas, doquier cielo y soledades de Dios sólo conocidas, que é solo puede sondar”
– Echeverría – La Pampa, in La Cautiva
Para Domingo Faustino Sarmiento, autor do “Facundo” – um dos clássicos da literatura histórico -ensaística argentina e mundial, publicado em 1845 – o pampa era a matriz da barbárie americana. Nele só sobreviviam os que Walter Scott chamou de “cristãos selvagens” – os gaúchos. A superfície inculta, os bosques raros, a pobreza do seu arvoredo e a ventania endoidada, sem freios, açoitando a vastidão, era “a imagem do mar na terra” O pampa só permitia vagar por ele aqueles cavaleiros nômades que viviam ao deus-dará, mandibulando aqui e ali a abundante carne que devoravam ainda meio crua, abrigados em toldos de couro cru erguidos de improviso no meio do campo, no meio do nada. Eram os hunos do Novo Mundo, que Átilas-caudilhos como Facundo Quiroga (um personagem real, centro do seu livro) arrebanhavam com gritos selvagens para ir lutar aos montões (por isso o termo “montonera”) contra as cidades, contra a chegada da civilização. O ambiente selvático, o perigo, a presença constante da morte, fazia com que aquele mestiço – meio bugre, meio castelhano – reforçasse o seu primitivismo devido a sua intimidade com um fim sangrento, ríspido e violento. 

CONTRA A PLATAFORMA DE SARMIENTO 

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José Hernández (1834-1886), o criador de Fierro

Sarmiento foi categórico: para que a civilização imperasse algum dia naqueles descampados da Argentina era preciso primeiro derrotar o gaúcho. A sua plataforma (Sarmiento foi presidente do país entre 1868-1874) poderia reduzir-se a três pontos: 1) desarvorar a gauchada das províncias argentinas a tiro e a canhonaço, se for preciso; 2) educar a juventude, e; 3) importar gente européia para povoar o país. Contra isso José Hernández rebelou-se. O manifesto do seu desagrado – o contrapondo ao “Facundo” de Sarmiento – foi “O gaúcho Martin Fierro”. Diga-se que antes de redigí-lo em língua nativa e rústica, Hernández ainda tentou derrubar Sarmiento num malogrado levante em 1870. Exilado numa pequena pensão de Santana do Livramento, no sul do Brasil, Hernández não desanimou. À luz da lamparina deu-se a esboçar a sua epopéia guasca, que editou em 1872. Respondendo diretamente ao programa de Sarmiento, Hernández arremessou-lhe o célebre verso: “Ele [o gaúcho] anda sempre fugindo. Sempre pobre e perseguido: não tem cova nem ninho como se fosse um maldito; porque ser gaúcho … o ser gaúcho é um delito.”  

Literatura autóctone

Sáinz de Medrano, um emérito crítico, além de creditá-lo como a expressão máxima da literatura autóctone argentina – oposta à importação dos modelos europeus tão em voga no século passado -, disse ser Martín Fierro o herdeiro de uma tradição que remontava ao século 18, à narrativa dos feitos de D.Pedro de Cevallos (o vice-rei portenho que invadiu o Rio Grande do Sul em 1763), descrito por Baltazar Maziel, ou ainda ao “Lazarillo…” de Carrió de La Vandera.

Fierro, o el Cid do Pampa

Gaudério brigão, sempre eriçado em aparar o bote traiçoeiro do índio inimigo, desenhando à faca sua estética belicosa, Martín Fierro era a encarnação do façanhudo. “Sou” lamentou ele, um gaúcho desgraçado, não tenho aonde amparar-me”. Indomado e livre como um Ulisses, galopava por tudo metido em correrias e aventuras mil sem mais achar ancoradouro. Sem ter uma Penélope que o esperasse, sem um Telêmaco que o procurasse. “Vou amigo – para onde a sorte me leve”, porque “o gaúcho que chamam vago não pode ter querência”. Martín Fierro, porta-voz da sua própria história, foi a revivência do el Cid campeador, o caudilho ibérico de mil anos atrás que, também desterrado, saiu a pelejar contra meio mundo na Espanha daquela época.Com ele, com a criação daquele personagem, rapidamente consagrado entre o povo argentino, Hernández quis mostrar a Sarmiento que matando o gaúcho liquidava com uma força telúrica, uma das mais autênticas expressões da liberdade do homem: “Andei à minha vontade”, diz Fierro, “qual um mouro sem senhor; foi esse o tempo melhor e em que vivi mais feliz: de medo de outro tutor não mais busquei o juiz”(Canto XIX, 829).  

                                     Borges e Fierro

 

 

 

Jorge Luís Borges, apesar de apreciar a obra literária, não entendia a razão dos argentinos fazerem de um desertor, um prófugo, um borracho, um vira-casacas (e, acrescento, um sempre lamentoso mulherengo “perseguidor de viúvas”), um ícone nacional. Além disso, Borges acreditava que aquele tipo de gaúcho queixoso, composto por Hernández, tinha algo de falso, uma antecipação de Carlos Gardel com aquelas suas letras de tango quase sempre chorosas, indignas de um varão gaudério. Se elas fossem de fato pronunciadas frente a um payador – um trovador popular do pampa – Martín Fierro não passaria para ele de um reles maricas.

Foram porém essas particularidades – o misto de ternura amarga em meio às durezas – que fizeram com que Che Guevara o tomasse como exemplo: o do macho solto pelo mundo a denunciar as injúrias e responder aos agravos. Mas foi Domingo Faustino Sarmiento afinal, ainda que assombrado pelo fantasma de Martín Fierro, quem ganhou a parada.

 

 

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XICO LÔRO e o DELEGADO poema de cordel de manoel antonio bonfim

Káro Jb Vidal,

Uma piquena istóra verdadêra
Feita in forma de cordé
Parece que é brincadêra
Mas, cum certeza num é
Acunteceu dessa manêra
iscrita purêsse Mané
Veja-a. Se gostá pode pubricá…

Xico Lôro e o Delegado

Essa istóra é verdadêra
Que conto cum munto aprêço
Aconteceu na Gamilêra
Falo sem nium tropêço
Terra de Xico Perêra
Um lugá que bem cunheço

Fica na minha cidade
No estado do Ceará
Uma bela localidade
Pra quem quisé visitá
Foi em Iguatu, na realidade
O fato que vou narrá

Terra de gente de brio
Que vive do seu trabaio
Fica às margens do rio
Jaguaribe e seus atáios
Um clima de pôco frio
Nem precisa de agasaio

Lá vive-se da agricultura
E também da pecuária
Produz munta rapadura
Verdura, queijo de coaio
Na roça munta fartura
Arroz, cebolinha e aio

Lugá de povo singelo
Sem pompa e sem vaidade
Nos pés, um simples chinelo
Ao viajá rumo a cidade
Admiradô do que é belo
E de munta simpricidade

Um hômi bem cunhicido
Era o “seu” Xico Perêra
Prestativo e divertido
“Cabra” de boas manêras
“Xico Lôro” era apilido
Devido sua cabelêra

Lá, a gente cunhecia
Xico Lôro, o leitêro
Que ao amanhicê o dia
Já tava no seu terrêro
Cum toda sua alegria
Aboiando no bezerrêro

Ela tinha trêis vaquinhas
Que dava gosto de oiá
As tratava de amiguinhas
Bastava ele chamá
Mimosa, Lua e Neguinha
Elas vinha lhe encontrá

Ele, além de agricultô
Era um valente vaquêro
Pois, lidava sem temô
Correndo o dia intêro
Também era o vendedô
Do seu leite e verdurêro

Antís do sol sair
Todo dia bem cedin
Sua muié dona Nair
Passava um cafezin
Ele bebia antes de ir
Vendê aquele leitin

Xico Lôro era sincero
Incapaz de uma mintira
Não aceitava despaupéro
E nem gostava de intriga
Era limpo, sem mistério
Longe dele, qualquer briga

Só vindia leite puro
E verdura bem “fresquinha”
Era um hômi maduro
Pra mais dos “50” tinha
Na palavra era seguro
Não era pessoa mesquinha

Mas, aconteceu que um dia
Passaram-lhe uma rastêra
Coisa que ele não fazia
Na sua vida intêra
Participar de zombaria
Nem mêrmo de brincadêra

Alguém de má consciência
Cum inveja e sem coração
Sem pensá nas conseqüências
Pôis água no seu latão
E avisô a diligência
Lá da fiscalização

Xico Lôro foi detido
Por adulterá o leite
Que já ia sê vindido
Sendo ali um suspeito
Ficou muito entristicido
Não aguentou essa desfeita

Disse lá pro delegado:
– Sou um hômi de bem
Se eu ficá aqui trancado
Prefiro morrê, tombém
Num vorto pro meu roçado
Num quero mais vê ninguém

Foi uma peleja danada
Dentro da delegacia
Ele cum voz alterada
O delegado às vezes ria
Era uma coisa engraçada
Tudo que ele dizia

Ele num mais suportando
Toda aquela humilhação
Xico estava se zangando
Com tanta interrogação
Foi logo derramando
Todo leite ali no chão

– Olhe aqui seu doutô
Pode se acabá o mundo
Vou falá para o sinhô:
– É um desgosto profundo
A gente sê trabaiadô
E tá preso que nem gatuno…

Quando eu daqui saí
Se Deus quisé, sairei
Logo, logo… vou partí
Nunca mais eu vortarei
E nesse lugá… aqui
Leite num mais venderei

Essa foi a última vez
Que Xico foi a cidade
Logo, no mêmo mêis
Dispôis dessa mardade
Vendeu as terras e rezes
Foi pr’outra localidade

Num deu adeus a ninguém
Deixou tudo e foi s’imbora
Nem ao dono do armazém
Onde ele passava horas
Num se dispidiu, tombém
Num se sabe onde ele mora

Essa é uma pequena istóra
Dum hômi trabaiadô
Que perdeu toda sua glória
Por causa de um fraudadô
Hoje eu guardo na memória
Sua honestidade e sua dor

PARA MINHA LÁPIDE poema de sérgio bitencourt

” O caso é que,
  Independente do acaso,
  O tempo é ultrapassado.
 
  Então daqui,
  Aparentemente estacionado,
  Participo com vocês.
 
  Não se aflijam,
  Grande é a fila,
  Mas certamente,
  Chegará a tua vez”
 

1968/ANOS DE CHUMBO, É PERMITIDO PROIBIR! pela editoria

É permitido proibir

A liberdade de imprensa sumiu, entre 68 e 75, e os jornais reagiram com receitas, poesia e outros truques.
N o dia 12 de dezembro de 1968, após tomar conhecimento do resultado da votação em que o Congresso negou à ditadura licença para processar o deputado Márcio Moreira Alves, acusado de ofender as Forças Armadas, o diretor de redação do Estado, Julio de Mesquita Filho, começou a redigir a Nota Um – o primeiro editorial da seção Notas e Informações. Com o título Instituições em Frangalhos, procurava descrever a crise política e a falta de visão do general Costa e Silva, que pensava poder governar o País como se fosse uma caserna, além de vaticinar dias mais difíceis.
Saiu um texto indignado, que a maioria dos leitores do Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde, onde também seria publicado, nunca chegou a ler. Às três horas da madrugada, o general Sílvio Correia de Andrade, chefe do Departamento de Polícia Federal em São Paulo, chegou ao jornal e foi para a oficina, onde pegou um exemplar na boca da impressora. Depois de ler o editorial, mandou parar a impressão e ainda confiscou todos os exemplares que já estavam nos caminhões, prontos para serem despachados. Numa conversa com Julio de Mesquita Filho, diretor-responsável do jornal, o general chegou a propor a liberação do jornal desde que o editorial fosse substituído por outro que não fizesse referência à derrota do governo. Mas a proposta não foi aceita.
Estava em marcha um dos piores períodos de censura à imprensa no País. Durante o governo Castello Branco, ocorreram pressões contra alguns empresários da área de comunicações e jornalistas. Jornais de tendência política mais à esquerda foram fechados, mas prevaleceu uma relativa liberdade. Na oficina do Estado, naquela madrugada, até ela começava a desmoronar.
O episódio ocorreu horas antes da assinatura do Ato Institucional n.º 5. Ainda no dia 13, Julio Mesquita Filho compareceu a uma reunião com o governador Abreu Sodré e o general Andrade, no Palácio dos Bandeirantes, onde foi informado que a partir dali o jornal deveria ser mais cauteloso nas críticas ao regime. Ele respondeu que a censura era uma tarefa da Polícia Federal e que o Estado não praticaria a autocensura.
“Se vocês quiserem, censurem”, disse. E foi o que fizeram.
Inconformado com a falta de liberdade, o diretor-responsável do jornal, que morreu em 1969, não escreveu mais editoriais. Ainda em sinal de protesto, o espaço nobre da página 3 deixou de ser utilizado. “Não comentamos mais matéria política por não dispormos de liberdade para dizer o que pensamos”, explicou Julio de Mesquita Neto, que substituiu o pai na direção do jornal, durante um debate na ECA/USP, em 1970.
A censura aos dois jornais persistiu de forma irregular durante quase seis anos, entre 1968 e 1975. O rigor dos censores foi maior ou menor de acordo com as necessidades do regime. A pior fase aconteceu a partir de 1972, com a instalação definitiva de censores na redação. Era um momento de instabilidade para o regime, às voltas com uma disputa interna em torno da sucessão do general Garrastazu Médici.
No dia 15 de setembro daquele ano, o ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, proibiu a publicação de notícias sobre redemocratização, anistia e sucessão presidencial. Passados 4 dias, ele recebeu uma carta indignada de Ruy Mesquita, diretor do JT. Começava assim: “Ao tomar conhecimento dessas ordens emanadas de V.Sa., o meu sentimento foi de profunda humilhação e vergonha. Senti vergonha, senhor ministro, pelo Brasil, degradado à condição de uma republiqueta de banana ou de uma Uganda qualquer por um governo que acaba de perder a compostura.”
A maioria das publicações preenchia o espaço censurado com outras notícias, mas alguns editores se recusavam a fazê-lo. O semanário Movimento, que nasceu censurado em 1975, substituía os textos vetados com retângulos com fundo branco ou negro, com a inscrição Leia Movimento. A revista Veja denunciava o rastro do censor com figuras de demônios.
Os Lusíadas – No Estado e no JT a orientação era mostrar o resultado da censura aos leitores da forma mais clara possível. A primeira tentativa, logo proibida, foi deixar os espaços em branco. Então, por sugestão de Ruy Mesquita, o JT começou a publicar receitas culinárias nos espaços censurados. Muitos leitores demoraram a compreender a razão daquelas receitas de empadões e tortas no meio do noticiário político.
O Estado decidiu inicialmente publicar cartas de leitores no lugar do que fora proibido. Em julho de 1973, por sugestão de Julio de Mesquita Neto, os buracos começaram a ser preenchidos com poemas – de Gonçalves Dias, Cecília Meireles, Olavo Bilac, Manuel Bandeira. No dia 2 de agosto saiu um trecho do épico Os Lusíadas, de Luís de Camões. Chamou tanto a atenção que se decidiu manter a receita.
Entre 1973 e 1975, Os Lusíadas apareceram no jornal outras 660 vezes. Alguns leitores não entenderam e um deles chegou a escrever à redação pedindo mais cuidado na publicação do poema, pois na forma como era feita não conseguia colecioná-lo.
O efeito global, no entanto, foi positivo: Camões acabou virando sinônimo de censura, como observou a historiadora paulista Maria Aparecida d’ Aquino, na tese de mestrado Censura, Imprensa, Estado Autoritário (1968-78): “O poema de Camões ficou no imaginário coletivo como lembrança de um tempo em que os cortes dos censores promoveram sua publicação. Restou como símbolo de resistência.” Certa vez, irritado com a proibição de suas entrevistas no Estado, o deputado Ulysses Guimarães desabafou: “Quem mais atrapalha o MDB é Luís de Camões. Este poeta tem-me perseguido desde os bancos escolares, quando eu o achava incompreensível.”
O censor vetou a frase.
Em 1973, foi proibida a divulgação da notícia de que um ministro (Cirne Lima, da Agricultura) renunciou, e liberada a notícia da nomeação de seu sucessor. O espaço da matéria sobre a demissão foi substituído com um anúncio da Rádio Eldorado, onde se lia: “Agora é samba.”
No dia 3 de janeiro de 1975, véspera do centenário do Estado, foram publicados os últimos trechos de Os Lusíadas e as receitas do JT. No dia seguinte os censores deixaram a redação.
ROLDÃO ARRUDA

“Instituições em frangalhos”

Este foi o último editorial escrito por Júlio de Mesquita Filho e que resultou na apreensão de O Estado de S.Paulo e do Jornal da Tarde do dia 13 de dezembro de 1968 e desencadeou a censura aos órgãos de imprensa independentes do País. Nele são apontados os desvios a que a Revolução de 64 estava sendo levada, numa previsão do que viria a acontecer na noite daquele mesmo dia. Este editorial marcou o início da luta de ambos os jornais contra o regime de arbítrio que se instalou no País.

Eis o editorial: “Instituições em frangalhos”
Das palavras ultimamente pronunciadas pelo sr. presidente da República, infere-se não ser o seu estado de espírito aquele que até há pouco sistematicamente definia a confiança que depositava em si e na sua gestão. O otimismo, de resto inconsistente, que transpirava de todas as suas atitudes, acabou por ceder lugar a uma inquietação crescente, na qual são evidentes os sinais de que admite S. Exa. que as coisas venham a piorar – não porque elas se tenham em si mesmas deteriorado, mas em conseqüência dos erros praticados por S. Exa. É que, com o correr do tempo e o contacto com a realidade, vai S. Exa. percebendo que governar uma nação de mais de 80 milhões de habitantes e que acaba de dar, com a vitória de 64 – que, embora S. Exa. a considere como obra das Forças Armadas, se deve ao próprio esforço da coletividade –, uma demonstração viva de fé democrática, é coisa muito diferente do comando de uma divisão ou de um exército.
Ao assumir as funções de presidente da República, imaginou o sr. marechal Costa e Silva que para essa dificílima missão estava perfeitamente capacitado, tanto mais que na profissão que adotara havia galgado com facilidade toda a escala hierárquica, dando sempre provas de aptidão e de descortino. Ao deixar os quartéis para bruscamente se investir das responsabilidades de supremo mandatário do Estado brasileiro – e isso nas condições que ele e seu antecessor estabeleceram, de comum acordo e prescindindo das advertências que lhes dirigiam cotidianamente os que haviam encanecido na vida pública – fê-lo S. Exa. de ânimo leve, na convicção de que, no novo terreno que pisava, bastar-lhe-ia empregar a experiência adquirida na carreira militar e devotar aquele mesmo respeito que sempre demonstrara pelos regulamentos disciplinares ao sistema legal que juntamente com o sr. marechal Castelo Branco tinha encomendado ao sr. Carlos Medeiros da Silva e aos autores de seus complementos naturais, as leis de Imprensa e de Segurança Nacional.
No decorrer das primeiras etapas do seu governo tudo parecia sorrir-lhe, pois que, além de saber contar discricionariamente com a força dos regimentos, das brigadas e das divisões, dava ainda por certa a passividade da Câmara e do Senado, ambos constituídos pelos dois conglomerados que ele, como o seu antecessor, acreditava representarem a substância popular. Já nessa altura, para aqueles que através dos tempos afinaram aquela sensibilidade sem a qual ninguém será capaz de perceber os sinais precursores dos grandes terremotos, se mantinha S. Exa. acima dos acontecimentos, na ilusória suposição de que tudo ia pelo melhor e que, se algumas vozes se levantavam em dissonância, não correspondiam ao sentir das camadas profundas da nacionalidade. Pouco tempo durou, porém, a euforia presidencial. Umas após as outras, começaram a manifestar-se as contradições do artificialismo institucional que, pela pressão das armas, foi o País obrigado a aceitar. A desordem passou a campear nos arraiais estudantis, ao mesmo tempo em que, ante o mal-estar geral, o clero revoltoso fazia sentir a sua presença até mesmo nas praças públicas. Dentro dos próprios limites do feudo aparentemente submisso à vontade do Palácio da Alvorada, não se passava dia sem que se manifestassem sintomas da insurreição latente. A Arena aderia à rebeldia geral com tamanha evidência que o próprio MDB sentiu que era chegado o momento da desforra. Resolveu então, com uma ousadia que a todos espantou, enfrentar a ditadura militar em que vivemos desde 1964 ferindo na sua suscetibilidade as Forças Armadas brasileiras.
Já agora, a ordem que julgava S. Exa. o sr. presidente da República dever a Nação às instituições que ele lhe impôs revela-se uma vã aparência, pois que, ao apelar para os que considerava correligionários seguros das acutiladas da oposição contra os seus companheiros de armas, se vê S. Exa. totalmente desamparado. Sob o cansaço das humilhações sofridas, aquilo que S. Exa. supunha ser a maioria parlamentar, lembra-se enfim de que, pela própria Constituição que passivamente aceitara, lhe assistia o direito de afirmar as suas prerrogativas, como lhe assistia a autoridade moral suficiente para discutir as razões com que tanto as Classes Armadas como o Executivo Nacional pretendiam ditar-lhe a pena a aplicar a um deputado faltoso. É então que o ex-general de exército, habituado a não admitir que lhe discutam as ordens, se viu na pouco edificante posição de deixar de lado aqueles escrúpulos que o tinham levado a afirmar que jamais transgrediria um milímetro sequer as linhas da legislação que ele mesmo traçou para cometer uma série de desmandos contra a Lei e o regulamento interno do Congresso, tentando arrancar da Comissão de Justiça da Câmara, sob o protesto do seu digno presidente e o sentimento de nojo do País, a licença para processar o autor das injúrias aos militares.
Conforme o havia decidido, a sua vontade foi obedecida naquela Comissão, mas à custa da confiança que S. Exa. depositava em si mesmo e da excelência das instituições vigentes. E é diante desse quadro, todo ele feito de tonalidades sombrias, que nos achamos. Até aqui as coisas pareciam suscetíveis de uma recomposição. Apesar de tudo, a passividade do Congresso Nacional, aliada à disciplina militar, poderia ainda fazer as vezes do apoio da opinião pública. Agora, porém, que são claros os sinais da desagregação irredutível da maioria parlamentar, como o comprova a estrondosa derrota sofrida ontem pelo governo, quando mais de 70 deputados da Arena votaram contra a concessão de licença para processar o deputado Marcio Moreira Alves, pergunta-se: que é que poderá resultar de um estado de coisas que tanto se assemelha ao desmantelamento total do regime que o sr. presidente da República julgava fosse o mais conveniente àquele delicadíssimo e frágil arquipélago de grupos sociais a que se referia ainda ontem, cuja integridade, é S. Exa. o primeiro a reconhecê-lo, está por um fio?
 

PEDRO BIAL recebe carta do petroleiro CARLOS AUGUSTO LORDELO ALMEIDA – É PRECISO LER! pela editoria

Carta do petroleiro Carlos Augusto Lordelo Almeida da plataforma P-18 a Pedro Bial do BBB da TV Globo.

Prezado Senhor Pedro Bial
Digníssimo Jornalista, apresentador da Rede Globo de Televisão.
 

Confesso Sr.Bial que não sou expectador do programa que o senhor apresenta. Talvez para felicidade da minha cultura e para infelicidade do índice de audiência, ao qual seu programa está atrelado. Mas tive durante um dia desses, num dos raros casos fortuitos que o destino apresenta, a oportunidade de, por alguns minutos, apreciar o tão falado Big Brother Brasil, o BBB.

 Para minha surpresa, durante uma ou duas vezes o senhor, ao chamar os participantes para aparecerem no vídeo o fez da seguinte maneira:
– Vamos agora falar com nossos heróis!

 De imediato tive uma surpresa que me fez trepidar na cadeira. Heróis????

 O senhor chama aqueles que passam alguns dias aboletados numa confortável casa, participando de festas, alguns participando até de sessões de sexo sob os edredons, falando palavras chulas e no fim podendo ganhar um milhão de reais, de heróis?

 Pois bem Sr. Pedro Bial, eu trabalho numa Plataforma Marítima que se localiza a aproximadamente 180 km da costa brasileira e contribuimos, mesmo modestamente, para que o nosso País alcançasse a auto-suficiência em Petróleo e continuamos lutando, todos nós, para superar esse patamar.

 Neste último dia 26 de Fevereiro presenciamos um acidente com um dos Helicópteros que faz nosso transporte entre a cidade de Campos e a Plataforma. As imagens que ficaram em nossa mente Sr. Bial, irão nos marcar para o resto das nossas vidas. Os seus ‘heróis’ Sr Bial, são meros coadjuvantes de filmes de segunda categoria comparados com os atos de heroísmos que presenciamos naquele momento.

 Certamente o Senhor como Jornalista que é, deve estar a par de todo o acontecido. Mas sei que os detalhes o Sr. desconhece.

 Pois bem, perdemos alguns colegas. Colegas esses, Sr Bial, que estavam indo para casa após haver trabalhado 15 dias em regime de confinamento. Não o confinamento a que estão sujeitos os seus ‘heróis’, pois eles têm toda uma parafernália de conforto, segurança e bem estar, que difere um pouco da nossa realidade. Durante esse período de quinze dias esses colegas falaram com a família apenas por telefone. Não tiveram oportunidade de abraçar seus filhos, de beijar suas esposas, de rever seus amigos e parentes… Logo após decolar desta Plataforma com destino a suas casas o Helicóptero caiu no mar ceifando suas vidas de modo trágico e desesperador. E seus ‘heróis’ Sr Bial, a que tipo de risco eles estão expostos? Talvez aos paredões das terças-feiras, a rejeição do público, a não ganhar o premio milionário ou a não virar a celebridade da próxima novela das oito.

 Os heróis daqui Sr Bial foram aqueles que desceram num bote de resgate, mesmo com o mar apresentando um suel desafiador. Nossos heróis Sr. Bial desceram numa baleeira, nossos heróis foram os mergulhadores, que de pronto se colocaram à disposição para ajudar, mesmo que isso colocasse suas vidas em risco. Nossos heróis Sr. Bial, não concorrem ao Premio de um Milhão de reais, não aparecem na mídia, nem mesmo os nomes deles são divulgados. Mas são heróis na verdadeira acepção da palavra. São de carne e osso e não meros personagens manipulados pelos índices de audiência. Nossos heróis convivem aqui no dia-a-dia, sem câmeras, sem aparecerem no Faustão ou no Jô Soares.

 Heróis, Sr Bial são todos aqueles que diariamente, saem das suas casas, nas diversas cidades brasileiras, chegam à Macaé ou Campos e embarcam com destino as Plataformas Marítimas, sem saber se regressarão às suas casas, se ainda verão seus familiares, ou voltarão ilesos, pois tudo pode acontecer: numa curva da estrada, num acidente de Helicóptero, no vôo comercial de regresso a sua cidade de origem….

 Não tenho autoridade suficiente para convidá-lo a conhecer nosso local de trabalho e conseqüentemente esses nossos heróis, mas posso lhe garantir Senhor Bial, que caso o Sr estivesse presente nesta plataforma durante aquele fatídico acidente seu conceito de herói certamente seria outro.

 Em memória dos colegas:
 Durval Barros
 Adinoelson Gomes
 Guaraci Soares

 Carlos Augusto Lordelo Almeida
 Técnico de Segurança
 Plataforma P-XVIII

A VIDA DOS OUTROS – por frederico fullgraf

– O número para o qual você ligou está desativado há mais de um ano, você deve ter conversado com o serviço de espionagem, hahahah, debochou Wolf Biermann e recebeu-o com mesuras: “seja bem vindo”! Conduziu-o até a cozinha, onde se juntaram à então jovem cantora lírica (e futura roqueira) Nina Hagen e sua mãe (uma das ex-namoradas), Tine (a então mulher do poeta) com o filho recém-nascido no colo, e vários outros artistas de Berlim Oriental. Tomando chá, deblateraram até o sol se pôr no oeste, atrás do muro, tentando elucidar como aquele antigo número de telefone se instalara em sua agenda; provavelmente por um engano ou ato falho do próprio Biermann. Enfim, concluiu, perspicaz, o bardo: não desativaram a linha, mantêm-na grampeada e mapeiam meus contatos ocidentais que, como você, ainda não dispõe do número novo…

A confusão tinha começado assim: era início de tarde de um dia de outono, gris, quando ele ligou de Berlim Ocidental para Berlim Oriental, anunciando sua visita ao outro lado do muro. Estranhamente o poeta pareceu não reconhecê-lo ou lembrar-se do encontro previamente marcado, para uma entrevista a O Pasquim. E ele se surpreendeu com a reação. E também com a vibração daquela voz. Intrigado, mergulhou no túnel do metrô com o percurso mais doidivano do mundo daqueles dias: a linha Zôo – Märkisches Viertel, que partia do centro do mais coruscante cartão postal do capitalismo, se embrenhava nas entranhas do “primeiro estado operário-camponês em solo alemão” (protegido por um muro) e, feito toupeira distraída, re-emergia por baixo deste muro, vinte quilômetros adiante, em pleno ocidente, território do inimigo de classe – uma dupla ironia, geográfica e ideológica, e aventura simultânea no túnel do tempo, pois a cada estação subterrânea em território já oriental, o metrô reduzia sua velocidade, proibido de parar, policiado desde as plataformas fantasmáticas, abandonadas desde os anos 60, por guardas de fronteira com fuzis Kalashnikov em punho.

Alcançada a histórica estação Friedrichstrasse, em plena fronteira da cidade dividida, e desembaraçado do controle de passaportes, fez nova ligação à casa do poeta para confirmar que já pisava seu território. E na outra extremidade da linha atendeu-o uma mulher, pelo seu tom de voz, uma mulher jovem. Ele perguntou se era Tine, a namorada de Biermann, e ela tropeçou na resposta, agravando sua apreensão. Mas não lhe fez caso e logo alcançou o prédio antigo da Chaussee-Strasse, com frontispício Jugendstil, barbaramente agredido por intempéries e sinais de guerra, em irônica vizinhança com a “representação diplomática da República Federal da Alemanha”. Por uns instantes parou na calçada e sob a alça da mira do olhar perscrutante dos policiais orientais, que do outro lado da rua protegiam aquela pseudo-embaixada, encimada pelo brasão nacional da inimiga Alemanha Ocidental, não conteve o riso ao sentir-se encarado pela imensa águia preta de maus bofes, ironizada como “gavião da rapina” numa das faiscantes canções políticas do bardo que eu deveria avistar nos próximos minutos. E depois de alguns lances na velha escada, bateu então à porta do apartamento e abriu-a o próprio, Wolf Biermann; de queixo caído quando lhe contou dos dois telefonemas. Mas havia também algum desconcerto em sua atitude, espécie de pedido de desculpas sussurrado de viés, alguma vergonha por um constrangimento só admitido sob pressão.

Biermann acabara de lançar seu quinto ou sexto LP, com dois títulos que pela primeira vez em sua carreira faziam referência à América Latina: a brilhante versão alemã da canção cubana Comandante Che Guevara, de Carlos Puebla, e a Balada do Câmera-man – arrepiante poema musical sobre o fuzilamento do cinegrafista sueco, que durante o tancazo de junho de 1973, em Santiago do Chile, aponta sua câmera para um soldado. Este se volta enfurecido para o cinegrafista, aponta sua arma, mira e… então as cordas do violão de Biermann sonorizam a macabra contagem regressiva do vídeo-clipe, tal como o vimos na TV, até a imagem tremular, a câmera cair no chão, ainda empunhada por seu operador, que acabara de filmar sua própria morte. Já outro motivo para a entrevista inédita era a dissidência de um dos intelectuais mais inquietos e prestigiados do “socialismo realmente existente” – auto-definição daquela república alemã, cuja perversão autoritária, paranóica e repressiva estava fazendo inveja às ditaduras latino-americanas; Marx e Engels virando-se indignados na sepultura.

Filho de pai comunista (e judeu), militante das Brigadas Internacionais, morto na Guerra Civil Espanhola, Biermann opta voluntariamente pela RDA, muda-se de Hamburgo, sua cidade natal, para a Berlim da Guerra Fria dos anos 50, estuda com Bertolt Brecht e faz carreira amealhando a aura do “intelectual orgânico”, confiável. Até o início dos anos 70. É quando se solidariza com a revolta estudantil em Berlim Ocidental (esquerdista demais para o paladar do partido único SED, oriental), suas obras são publicadas por editoras ocidentais, (as únicas que impediram que morresse de fome), e o poeta percebido como “influência nefasta”; considerado um “renegado”.

Começa então a crônica da perseguição anunciada de Biermann, sua ex-mulher Sarah Kirsch, o físico nuclear Robert Havemann, a roqueira Nina Hagen e sua mãe, e muitos outros; alguns presos e narcotizados em Niederschönhausen; a penitenciária política da Stasi (abreviatura de MfS, “Ministerium für Staats-Sicherheit” = [Ministério] da Segurança do Estado), uma Gestapo com fraseado “socialista”. Havemann morreria pouco tempo depois, Biermann seria expulso da RDA em 1976, Nina Hagen e sua família também. E durante mais treze anos a Stasi, com seus 200 mil agentes e uma rede de mais de 150 mil informantes “voluntários” (alcaguetes, dedos-duros), para uma população que não passava de 18 milhões (1 agente para cada 60 habitantes), continuou bisbilhotando, achacando, desestabilizando e arruinando A Vida dos Outros – Das Leben der Anderen – título alemão premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007, em cartaz pelo Brasil afora e altamente recomendável.

Sendo guiado agora pela câmera dentro daquele apartamento de Dreymann, infestado de microfones escondidos sob tapetes, reboco, vão de portas e janelas, assento de cadeiras e vaso sanitário, ele percebe finalmente por que em certos momentos de suas conversas no apartamento de Biermann, sobretudo quando ele falava da boca para fora, habituado como estava no ocidente, parecia instalar-se certo constrangimento, o poeta e seus amigos entreolhando-se; às vezes em silêncio, noutras mudando subitamente de assunto.

Mas vendo na tela a namorada do personagem Dreymann (emblema do intelectual trágico, porque oportunista, comendo da mão do regime) sendo acoimada e molestada pela Stasi, abriu-se uma janela para outro “filme”; risível, do qual ele fora protagonista, com um título também divertido: No Café com os Secretas… – um prato cheio, roteiro hílare. Garoto ainda, mal tinha colocado os pés no setor ocidental da cidade dividida, e revoltado com a violação dos direitos humanos no Brasil, certo dia assaltara-o um repente e com a aura dos heróis, do paladino de justa causa, rumou à fronteira e às portas do paraíso socialista pediu para falar com o oficial de plantão.

Enquanto aguardava alguma resposta naquela recepção do céu de São Pedro comunista, presenciou e não entendeu por que um trabalhador turco, de simples vestimentas, mal conseguindo expressar-se satisfatoriamente em alemão, era agredido, maltratado com ofensas e violentos pontapés sob a bandeira socialista, expulso da pátria dos proletários… Aquilo o indignou, evocava imagens do nazismo (a propósito: a semelhança daqueles uniformes!). E apareceu então um guarda, que cara de anjo não tinha, marcando um encontro para a semana seguinte. Encontro?! Momentaneamente sentiu a vertigem do mergulho no escuro, naquelas tramas de Green e Le Carré, em grande parte inspiradas em Berlim, praça globalizada da Guerra Fria, maior concentração do mundo de espiões por metro quadrado: esbirros do Circus (M-16 britânico) caçando os de Karla (KGB soviética), os Primos (CIA) bisbilhotando ambos; todos admiradores do mitológico Alm. Canaris, o quase infalível oráculo de Delfos, digo: de Adolfo, o austríaco.

E no dia e hora marcados aproximou-se pela calçada daquela imensa avenida, zombeteira alegoria da inevitável “transição para o socialismo”, pois iniciava no Ocidente como Kaiserdamm (= esplanada do Imperador) e terminava do outro lado do muro como Stalin-Allee (= Avenida Stálin); nome logo corrigido, quando o georgiano caiu em desgraça e sua imagem foi raspada das fotos históricas do Politburô. Acomodados a uma mesa próxima à entrada estavam dois senhores engravatados. Um deles apressou-se como professor de alguma cátedra e ele consenti na mentira. E então lhes entregou em mãos o motivo de sua tempestiva visita: o pedido de divulgação através da Rádio Berlim Internacional, de uma lista do comitê brasileiro pela anistia. Emissora que tinha no ar um programa em Português e cujo locutor sem dúvida era membro do PCB (filiação que não era a dele, como sem outra dúvida deduziram de sua estampa “foquista”).

Matreiros, tentaram empanturrá-lo com torta de cereja rançosa e café de sabor indecifrável, enquanto num canto deste histórico e agora decadente Café Unter den Linden ouviam poutpurris desafinados, arrancados de seus instrumentos por um pianista coxo e um violinista que parecia surdo. E marcaram novo encontro para confirmar a divulgação da lista de presos políticos da ditadura militar brasileira, que corriam risco de vida.

Pontualmente, outra semana depois lá estava ele flanando no trottoir (melodioso galicismo que desde a passagem de Napoleão ainda designa a calçada em Berlim) socialista, confundindo os passantes cabisbaixos com as figuras imaginárias de Brecht, Piscator e Tucholsky, ou de Fritz Lang e G.W. Pabst entrando e saindo pelos cafés e bistrôs da Praça Potsdam (arruinada então, cruzada pelo muro), quando já adentrava o Unter den Linden. E lá estavam novamente dois obsidiantes (um deles novo) e desta vez ele se absteve da torta de cereja e do café. Mal lembrando, pediu uma dose dupla de vodca russa e saudou nasdrovje! Mas os anfitriões agradeceram, “não bebemos em serviço”.

Pois começaram a circunavegar o motivo do encontro, comendo pelas bordas feitos gatos (certamente a lista brasileira estava sendo analisada, perscrutada, esmiuçada, a textura do papel inclusive…). E trocando o atacado pelo varejo assaltaram-no então com perguntas sobre sua jubilosa vida de estudante. Insinuaram que no ocidente a vida não deveria ser fácil, mas que poderiam dar um jeito nisso, “uma mão na roda”. Como assim, senhores camaradas? Ora, certa “ajuda de custo em troca de algumas observações”, provocou a dupla cara-dura e generosa, a proposta indecorosa – e ele quase vomitou no colarinho do “professor” a vodca revolvendo-se nas entranhas, seus olhos encharcados de aguardente, buscando o sorriso salvador de Brecht, mas deparando-se com a figura apoquentada dos dois instrumentistas aleijados. Deu um “bolo” no terceiro tête-à-tête com a Stasi e apostou que abririam uma ficha com seu nome naquele imenso, perverso arquivo sobre A vida dos outros, que ainda há de consultar.

E no caminho de volta, do oriente para o ocidente, reparou no muro uma intrepidez impossível de denunciá-lo como mero outdoor – quem imaginaria que poucos anos depois “tudo o que é sólido se desmancha[ria] no ar” (Karl Marx) e que – insólita ironia – o que caía não era exatamente a velha e odiada burguesia?

POETAS! SE IDENTIFIQUEM! pela editoria

 ou acrescentem outras!

Transtorno de Personalidade Esquizóide:

demonstra frieza emocional, distanciamento ou afetividade embotada.

Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva:

Um padrão invasivo de preocupação com organização, perfeccionismo e controle mental e interpessoal, às custas da flexibilidade.  Rigidez e teimosia.

Transtorno da Personalidade Esquizotípica:

Distorções cognitivas ou perceptivas e comportamento excêntrico, crenças bizarras ou pensamento mágico.
 

Transtorno da Personalidade Esquiva:

sentimentos de inadequação e hipersensibilidade à avaliação negativa, preocupação com críticas ou rejeição em situações sociais, vê a si mesmo como socialmente inepto, sem atrativos pessoais ou inferior.

MARIA e JOSÉ de marilda confortin

– Oi. Você é São Caetano?
– Não. Sou Santa Maria e você?
– Atlético. Não vai me dizer que é Coxa?
– Sou. Bem branquinha.
– Ah! Que merda. Então porque está com essa blusa azul-são-caetano?
– Não é azul-são-caetano. É verde-coxa.
– É… sou míope. Teus olhos são lindos…. verdes e profundos como o mar.
– Não são verdes! São azuis, seu daltônico.
– Não sou Daltônico. Sou José. E você é?
– Já falei: Maria
– Maria e José. Que romântico… To afim de fazer uma arte hoje Maria. Você faz arte?
– Faço poesia, serve?
– Não era bem isso que eu tava pensando… sou engenheiro, não entendo nada de abstrato. Só de concreto.
– E eu sou poeta e não entendo nada de cantadas. 
– É…já vi. Pra quem você torce na primeira divisão?
– Torço pro resultado ser exato. De preferência igual a zero. Tenho pena do resto da divisão. Ninguém liga pro resto da divisão. Ninguém compreende uma dízima periódica… Não gosto de divisão nem subtração. Só de soma e multiplicação. 
– Eu to falando de futebol, sua loira burra! To falando de primeira divisão. Do campeonato paranaense. To falando de bola desenhando uma parábola no ar e procurando um par de pernas pra entrar e fazer um gol.
– Ah… Eu não entendo nada de futebol e a única parábola que conheço é a do filho pródigo. Porque raios você me abordou?
– Pra me livrar do cara sentado aí do lado. Ele é um saco.
– Humm… precisava ser salvo pelo gongo.
– Isso! Por um lindo gongo azul.
– Tinha um gongo no meio do caminho. No meio do caminho tinha um gongo. Conhece esse poema?
– Era um gongo? Nunca entendi esse poema. Você já publicou alguma poesia?
– Sim. Várias. 
– Sério? Você tem um poema publicado?
– Um não. Três livros cheios de poesia. Quer um?
– Agora fiquei nervoso. E quando fico nervoso preciso mijar. Não saia daqui! Nunca conheci uma poetisa…  péra aí tá? Deve ser bem interessante… poetisa… essa é nova prá mim.
E ele foi mijar. Bar da Brahma cheio. Minhas amigas na mesa, de mini-saia, pernas bronzeadas, lindas, solteiras e nenhum cristo para dar uma cantada nelas. Eu, recém apartada, cansada, de porre, com uma blusa ridiculamente verde e um cara pedindo para eu esperar enquanto ele mijava. Pode? Só quero ir pra minha caminha. Sozinha. Esse cara tem barulho de trem na cabeça, disse Cinthia. Tem mesmo, confirmou Celita, a dona da blusa verde-ridícula que eu usava. Barulho de carroça vazia… Pedi uma Skol pro garçom. Não tem, ele disse. Então me dá uma coca-cola para curar o porre, falei. E o garçom ficou me olhando com aquela cara de ponto de interrogação. Qualé? Apontou a placa com o nome do bar. Não entendi. Ele falou bem baixinho no meu ouvido “a senhora está no bar da Brahma”. É? E daí? É proibido beber neste bar?  Indignado ele disse que só tinha Pepsi. Não quero Pepsi. Então me dá um guaraná Antártica.Preciso repor glicose. Ficou mais brabo ainda, me xingou de burra e não me trouxe nada. Garçom bobo e mal criado.  E o tal engenheiro voltou.
– Fez xixi?
– Homem não faz xixi. Homem mija, mulé. Nossa senhora, que pernas!
– Pare de olhar pras pernas das minhas amigas, seu tarado!
– Tira os teus peitos do caminho que eu quero passar com a minha dor… lembra dessa música?
– Lembro. Mas não é peito. É sorriso. Vamos falar de engenharia. Eu gosto de teodolito e papel vegetal. E você?
– Teodolito?
– É divino. Nunca comeu? Um enorme Deus pirulito embrulhado numa folha de papel vegetal transparente. Papel vegetal não é a salada preferida dos engenheiros?
– Você é louca!
– E você é engraçado.
– Tá me chamando de palhaço? Sou engenheiro. E dos bons. Acha que não entendo nada de arte, é? Pois na última palestra, abri a apresentação com uma imagem da Pedra da Gávea para mostrar o que é uma obra prima divina. Sempre passo um pouco de poesia para essa garotada que sai da faculdade.
– Isso é bom. Desculpe. E também uso essas metáforas. Falei das Cidades Invisíveis, do Calvino e citei Leminski na última apresentação de Tecnologias.
– Eu já ouvi falar desse tal Calvino. E li o Catatau, mas, não entendi nada.
– Eu gosto dele. Até tomei umas vodcas com ele.
– Porra… Quem é você? Tomou vodca com o Leminski?
– Tomei, e daí.
– Mas ele está morto! Você é fantasma?
– Calma. Ele estava vivo ainda. E eu estou viva. Amanhã posso morrer. Se eu morrer você vai dizer que eu era boa?  
– Não sei. Ainda não comi. Amanhã te digo. Tenho cara de tio?
– Tem. Porquê?
– Porque não sou mais tio. Hoje eu fiquei avô..
– Sério? Parabéns, vovô!
– Nasceu hoje de tarde. É uma coisinha tão feinha, uma bolinha enroladinha…
– Que linda!  Você deve estar feliz com a netinha.
– To… to muito feliz… vou ter que sustentar mais um. Eu quero é pegar aquela bolinha de meia, enroladinha em cueiros e fazer embaixadinha com ela no corredor da maternidade e chutar pro gol. Gooooool! Já pensou? Uma bolinha viva saindo pela janela procurando o gol? Uma bola de gente, inteligente. Atlético, Atlético! Conhecemos seu valor.
– Fanático. Pare com isso. É tua neta.
– É neto. Macho! Duas bolas. Eu tenho três filhas, uma mulher e uma sogra. Estou cheio de mulher. Elas não me deixaram chutar a bolinha de gente. Disseram que vou quebrar os vidros do berçário.
– Três filhas, mulher, mora com a sogra e agora tem um neto… era só que me faltava. Você disse que era separado.
– E sou. Durmo na sala. Desde ontem.
– Briguinha a toa, Dói, mas passa.
– A única dor que sinto é nas costas. Tem uma mola quebrada no sofá.
– E você, tem um parafuso solto…. Por falar nisso, to com sono.
– Eu também. Vamos dormir?
– Vamos.
E fomos dormir. Literalmente. Cada um no seu sofá.
Você esperava o quê de uma história de Maria e José que se passou num bar, com dois cinqüentões torrados e frustrados, as quatro da madrugada em pleno século XXI?  Que desse cruzamento nascesse um jesuscristinho que perdoasse todos os nossos pecados, curasse nosso porre e nos devolvesse o paraíso?  Cai na real, Zé!
E foram infelizes para sempre. Amém.

POVOFOBIA ou WILLIAM WAACK o prestidigitador – por walmor marcellino

waackianas

Uma curiosidade malsã me leva a prospectar na TV os conhecimentos em estudos de alguém que a opinião criteriosa sustém. Desta vez, o prestidigitador William Waack puxou seu “papo científico” para a situação política da América espoliada (Globo News, 10/11/2007).
O viés global se fixou em Evo Morales, Rafael Correa e Hugo Chávez, a prevenir o Brasil de posicionamentos não alinhados com Washington, principalmente dos arreganhos anti-imperialistas, nacionalistas e “populistas”; e, no caso Chávez , consoantes uma pérvia trilha para um “socialismo” assustador.
O anti-imperialismo destoa mais do que a desafinada antiglobalização, e o “pensamento politicamente correto”   capitalista neocolonialista das pessoas domadas   se perturba e escandaliza com essa vaga pelos continentes (a insânia militarista do império pode, de repente, provocar tsunamis nacionalistas, até étnicos). Em parte, porque os pensares dessa cultura colonizada e seus interesses de classe e poder os leva a “salvaguardas democráticas” através da “imprensa livre”, seguidas de legionários conservadores nas ruas; depois atentados da CIA, culminando com os golpes das armas e milícias coloniais para reentronizar o tzarismo imperialista; de outra parte, seu papel de acólitos da igreja imperial, de ritualistas profissionais, de feitores ideológicos das massas e de guia mental da intelligentsia lhes dá oportunidade de mostrar serviço com estentóreos abanicos.
À batuta de William Waack, Carlos Pio (da Universidade de Brasília), Marco Antonio Villa (da Universidade Federal de São Carlos), e o ex-embaixador Sérgio Amaral   esse maneirista notabilizado porta-voz do neoliberalismo colonial e alter-ego do manipanço Fernando-Henrique Cardoso.
Não é meu propósito recuperar aqui preconceitos, enfileirando o besteirol presunçoso que rolou no fraseado acadêmico e fez professoral. Entretanto, não pude passar de largo, pois essas pessoas têm direito à palavra e à opinião   livrem-nos os deuses de incorrer na intolerância e na censura proibitiva!  , porém, quando se albergam no alcouce imperialista-colonial e a serviço do patronato “cosmopolita” opressor, precisam que uma resistência lhes objete. É necessário que alguém, sem apelos doutrinários, lhes profligue a estupidez pretensiosa e os desmascare na berlinda de professores da sociedade brasileira; mestres de cerimônia do frasismo universitário e palhaços do refinamento crítico.
Entrementes, sem chegar ao contraponto temático, a experiência diplomática de Sérgio Amaral prevaleceu em momentos de lucidez insuspeitada, livrando-o de abonar a extremada e insana fúria de ataques a Morales, Correa e Chávez. Enquanto os “patifes ilustres” ordenhavam a vaca imperialista de Bush e se apequenavam como fâmulos gráceis globalizados, o embaixador Amaral explicou-lhes como o capitalismo neoliberal dissente dos líderes e seus movimentos de libertação nacional anti-imperialistas. Afinal, estar-se-ia tratando, antes de mais, de uma contradição de fins, meios e classes sociais. O contraditório emergiu sozinho.
Pano rápido, com vários palhaços batendo matracas!

REVITALIZAÇÃO (do Rio São Francisco) – UMA EPOPÉIA -por manoel bonfim ribeiro

                                    “ O homem é a única criatura que
                                     combate a natureza, com loucura”
                                                                              J. Swift

 

Com os compromissos assumidos pelo Governo, de aprofundar os estudos  da Transposição do São Francisco e dar prioridade ao Programa de Revitalização,   após a revolta pacífica de Dom  Luiz Cappio em 2005, (um fato que merece registro) podemos debruçar, agora, sobre este grande tema que é a salvação do nosso rio. A atitude de um homem forte, trouxe à mostra da sociedade o desprezo e o abandono que o Governo tem  por esta grande jugular do Nordeste brasileiro.
Por todo o século XX, o Governo, com inicio no final do Império (1886), construiu, no Nordeste, a maior rede de açudagem do Planeta . Foi também neste mesmo século XX que o rio São Francisco foi literalmente demolido. Enquanto se construía lá, se demolia cá. Cerca de 40  navios a vapor, singrando de Juazeiro a Pirapora, 1371 Km,  consumia, como lenha, anualmente,  900 hectares de mata ciliar, . A agricultura empírica, com  métodos rudimentares, foi deixando o solo do Vale totalmente desnudo. No tempo de Cabral, a  bacia hidrográfica do rio tinha total cobertura verde, a chuva caia sobre a copa das árvores, escorria pelas galharias, e ia formar os lençóis  freáticos  que alimentavam o seu talvegue. A água era cristalina, não tinha carreamento de material sólido, a máxima enchente era  de 12.000 m³/s  e a mínima  5.000 m³/s, em termos gerais.  Era um rio equilibrado.
Agora temos um vale desnudado pela sanha dos madeireiros e por outros processos destrutivos. Solo calcinado, as águas das chuvas descem  como um bólido , abrindo grandes  voçorocas, aterrando o rio e os seus tributários. A largura se abriu de 500 metros, em média, para 1000 metros, pelo fenômeno das terras caídas.  A máxima  chegou  a 19.000 m³/s e a mínima a 500 m³/s , 3% da máxima – rio desequilibrado .Com o mesmo volume de água, mas com sua largura  dobrada, o momento de calado  caiu, perdeu-se o tirante de navegação, prejudicando totalmente a  navegabilidade do Grande rio. O homem é um vândalo, um destruidor das messes que a natureza nos oferece.
 A poluição do  São Francisco ocorreu  pelo processo natural  com o aumento populacional. A poluição dos rios da Terra é causada pelo homem inculto e pelo homem civilizado. Todos fazem do seu rio uma  cesta de lixo. O homem vive em função do rio, mas ele  é o seu próprio algoz. Toda a  concha hidrográfica do nosso rio tornou-se,  totalmente, degradada.
A  revitalização  deste grande  rio é  a inversão do processo a que chegou,  é o restabelecimento de toda a bacia deteriorada e mutilada pelas ações  antrópicas  exercidas ao longo do século XX.
Vejamos em que consiste a tão comentada  revitalização, que não é nada fácil:
Projetos existentes.  Reunir e ordenar todos os projetos e programas da Bacia. Existem cerca de 500 projetos entre particulares e públicos, municipais, estaduais e federais, que devem  ser ordenados e priorizados, tendo a Bacia  como  unidade de planejamento.
Hidrometria.  Recuperar e ampliar a rede hidrométrica do rio e de todos os seus tributários: fluviometria,  pluviometria , temperatura,  evaporação, insolação, etc, que é o recenseamento  do rio, das  águas de toda sua bacia.Trabalho caro , penoso e demorado. Foi um programa que já existiu  no tempo do Departamento de Portos e Vias  Navegáveis,  hoje, totalmente esquecido e desprezado.È a vida de um rio.
Sedimentometria.  Instalar  postos no rio, nos seus tributários  e nos seus barramentos. Estes postos sedimentométricos,  distribuidos  por toda a  bacia, medem o material sólido carreado pelas águas,  no período sazonal de  cheias, responsável pelo grande assoreamento da calha principal, que  obstrui a navegação e  promove o aterramento das grandes represas construídas.
Reflorestamento.   Bacia hidrográfica do rio com 168 confluentes,  rede filamentar  de riachos  e  milhares de  micro-bacias. Trabalho demorado e árduo com técnicas apoiadas na silvicultura, na arboricultura e na vegetação de baixo extrato, adequadas  á vocação do solo, para conter os processos erosivos do Vale, recompondo todo o seu manto verde. Esta operação gigante, mesmo abstraindo cidades, vilas, sistema viário e projetos  agropecuários  deve atingir mais de 40% da bacia hidrográfica do rio.
Lagoas marginais. Consiste na restauração das lagoas, maternidade e berçário de toda a fauna  potâmica. . Estas lagoas ganglionares, ao longo da calha, em ambas as margens, são o  útero do rio,  hoje,  destruído, literalmente, pela mão do homem. A fecundação dos peixes  reofílicos, responsáveis pela piracema, é extra corpórea e o nascimento dos alevinos ocorre nessas lagoas  rasas e quentes. Grande nicho de reprodução, com rica e farta alimentação para anfíbios e répteis, para a fauna terrestre e alada, onde pássaros e insetos se insinuam por  toda a ambiência,  gerando  um bioma de vida própria -água,  vegetação, fauna e  homem – a que chamamos de biocenose. Esta é a vida que faz pulsar  o rio.
Despoluição.  Tema  para adultos. Não é impossível   mas haja dinheiro. A poluição teve o seu começo nos primórdios da civilização, excrementos humanos, animais mortos, lixo. Depois vieram  os biocidas,  a química, os agrotóxicos, a mineração, etc. A poluição contrasta com todos os índices de civilidade. O NILO e a sua fantástica rede de canais está  contaminado pelos insumos agrícolas. Cairo e Alixandría  lançam fosfatos e nitratos no rio, poluindo o litoral mediterrâneo. O TÂMISA , no inicio dos anos 90, era uma cloaca e a Agência inglesa  “Nacional Rivers Autority” ( NRA),  em 9 anos, ressuscitou o rio, deixando, hoje,despejar  suas águas cristalinas  no Mar do Norte. O GANGES,  rio místico, cheio de lendas e fábulas, recebe, “in natura”,  os dejetos de  cidades milenares como Nova Delhi,  Benares, Patna, e Calcutá, esta, o  maior porto fluvial da Índia. O RENO, em 1986, ficou vermelho de mercúrio, 300 toneladas de pesticidas destruindo a  micro e macro fáuna e a  microflora do vale,  poluíção  vinda de Basiléia, o “Vale Químico da Suíça”.Os paises europeus, todos eles, recebem fortes pressões da Comunidade Econômica Européia para não poluírem os seus rios. O PARAÍBA DO SUL, cujo vale é o mais industrializado do Brasil ,( Minas Gerais, São Paulo e Rio), com Votorantin, Refinaria, Cervejarias, etc , só possui 12% dos municípios com tratamento de esgotos. O CAPIBARIBE, com seus 250 Km de extensão, renasceu  no inicio dos anos 90, com o modelo matemático dos ingleses usado no Tâmisa, mas o vinhoto e  a lama negra  e fétida já voltaram ao seu leito. O PARNAÌBA, irmão siamês do São Francisco,  está com seus mananciais soterrados, suas belas nascentes nos contrafortes da Serra das Mangabeiras estão obstruídas. Voçorocas imensas.  No TIETÊ, já foram gastos mais de US$ 2 bilhões e continua sendo um exemplo indesejável de poluição. São 40.000 indústrias e 1,3 milhão de Ton/dia de esgotos. A  capacidade de tratamento operada pelo Governo, representa,  apenas, 10% da capacidade que tem a sociedade de polui-lo. Vergonha nacional. A lista de rios poluídos é infindável. E o VELHO CHICO, o rio que  querem tirar do lugar! À sua direita, o rio das Velhas  recebe, diariamente, 470 toneladas de dejetos da Grande Belo Horizonte, não há   BDO que resista. À sua direita, também, o Paraòpeba, contribuindo com  poluição pesada e venenosa, mercúrio, cádmio, zinco, arsênio, tudo gerado pelo  Quadrilátero Ferrífero Mineiro. Acresce mais os agrotóxicos  de 300 mil hectares irrigados, às margens do rio e seus afluentes. Despoluir o rio é um desfio.
Saneamento básico. Existe no Vale do São Francisco 415 cidades e mais de 800 povoações entre distritos, vilarejos e aglomerados humanos, ocupando   terras  da Bacia, em cinco estados da Federação, totalizando 15 milhões de habitantes,  numa superfície de 640.000 Km²,  área  igual á toda a Península Ibérica (Espanha + Portugal) e mais a Dinamarca, três  paises  europeus. Nada, quase nada temos de saneamento. È outro desafio para esta territorial e imensa  bacia hidrográfica.
Navegabilidade.  Este é o último item da revitalização do rio. Instalado todo o processo sedimentométrico  na calha principal e nos seus afluentes e, uma vez, plantado e implantado o reflorestamento da Bacia, determina-se os pontos de depósitos  aluvionais e os seus volumes  para a grande operação de dragagem. Esta dragagem é contínua, rio acima e rio abaixo, ao longo do curso principal e dos afluentes navegáveis,  garantindo uma navegabilidade permanente durante os 365 dias do ano. Só assim o transporte fluvial  poderá ser restabelecido.
O grande paradigma, um exemplo para o mundo inteiro, é a revitalização do vale do rio TENNESSEE,  a conhecida TVA  (Tennessee Autority Valley) que se tornou um símbolo de desenvolvimento hídrico unificado. A bacia foi projetada e executada como um todo, respeitando a unidade da sua própria  natureza. Ela tem uma área de 360.000 Km², metade  da bacia  do nosso rio e despeja 60 bilhões m³/ano no Ohio, um sub-afluente do majestoso Mississipi. O São Francisco despeja 100 bilhões no Atlântico. O Presidente Franklin Delano Roosevelt elegeu essa revitalização, como  a grande epopéia da sua  administração. Em 20 anos (1933-1953), planejou e construiu toda sua obra: 39 grandes barramentos, sendo cada um deles, um pólo de energia, um pólo de piscicultura, um pólo de irrigação e um pólo de turismo. Restabeleceu a navegação em 1.040 Km dos seus 1.650 Km de extensão, e mais, criou, dentro da bacia, 233 parques de recreação, todos com boa infra-estrutura. Suas margens são perfeitamente contidas e encaixadas, a  água é cristalina, um rio niveal e indômito, hoje, um rio sereno e majestoso.
Este, é um rio revitalizado  na acepção técnica do termo. É tudo o que temos a fazer no rio São Francisco. Diante do que expomos, a REVITALIZAÇÃO DO SÃO FRANCISCO É UMA EPOPÉIA, obra para 30 anos ininterruptos, um projeto governamental para administrações sucessivas.

 

rio são francisco. foto de joão zinclar. ilustração do site.

UM CARÁTER PARA MACUNAÍMA por jorge mautner

Quando eu e Gil nos conhecemos em Londres, em 1972, ele disse para Caetano: ‘Jorge Mautner é o primeiro intelectual branco que respeita a cultura negra no mesmo nível’. Tenho uma arte diferente da dele, mas nos entendemos muito bem. Gil já gravou várias canções minhas, “O Relógio Quebrou”, “Rouxinol”, “Maracatu Atômico”. Essa união de negro, mulato e branco só é percebida por uma minoria, como eu, descendente dos campos de concentração e Gil descendente de escravos – não existe problema que não assimilamos. Figa Brasil tem a ver com isto, como tem a ver com o Movimento do Kaos, jorge-mautner-foto-foto_56.jpgque lancei em 1958. Vamos juntar tudo: Oswald de Andrade, a filosofia humanista, a poética e a filosofia da Democracia, baseada em primeiro lugar na liberdade. Antes até da negritude, antes até das lutas sociais, queremos a visão humanista. Cada ser humano é único e sagrado. Isso nos fez sempre inimigos dos dogmas e suspeitos aos dogmáticos.

Vejo tudo mergulhado numa grande superficialidade, nunca o ser humano foi tão manipulado. Nunca se manipulou tanto a idéia da vida humana, a política, a democracia: o idealismo está sendo submergido. Nossa intenção é reverter essa situação. Queremos criar clubes filosóficos onde as pessoas se reúnam, discutam, analisem. Não se vê mais intelectuais discutindo, mostrando. Até os artistas estão encastelados no tédio dos seus castelos. O ensino, depois do Acordo MEC-USAID, foi completamente barateado, não se discute mais no colégios, não existe mais curiosidade, criatividade, estímulo. Comecei a escrever meus livros em classe, no Dante Alighieri. Tudo era ensinado com vida, palpitação, paixão. Hoje isso foi amordaçado, cortaram as interligações, os fios condutores. O resultado é essa superficialidade, essa tristeza do pós-modernismo, esse desespero.

Figa Brasil é uma convocação para nos comunicarmos de novo. Que venham todos os de boa vontade. Só estão barrados os racistas e os belicistas, pois até os conservadores esclarecidos são bem-vindos. Falando sobre o povo brasileiro, Julian Marias disse que “a maior riqueza do povo é o próprio povo. Existe um sonho que não foi destruído em cada um, que resiste”. O Gil sempre tocou isso para seu grande público, e eu para meus fiéis seguidores. Vamos sair dos pequenos feudos do Brasil, chegar ao Brasil grande. No Brasil, inteligente é quem tira vantagem, idealista virou sinônimo de bobo. Mas não estou desencantado. Acredito em modernizar o país, acredito em ler, escrever, estudar. Acredito na paixão de resgatar a história real, a história do sambista, do feirante, do Filho de Gandhi. Essa história tem sido cerceada pela direita e pela esquerda – que cerceou Gilberto Freyre, por exemplo. Essa universidade paralela proposta pelo Figa Brasil está além da esquerda e direita, sua matéria-prima é a preocupação humanista que resiste em todos os lugares, desde a favela.

Não somos o Messias que chega, apenas juntamos nossas forças. Queremos caminhar sobre a brasa, não sobre a chama. Essa é uma coisa para nós todos fazermos – ou ninguém. Sem lideranças ou prioridades hierárquicas. Vamos misturar tudo, cultura alemã, americana, artes marciais, da China, samba e afoxé, o jeitinho brasileiro, nossa intuição. Chegou a hora de Macunaíma começar a elaborar seu caráter. Queremos o lúdico responsável, a radical democracia. D. Pedro II planejou bem a libertação dos escravos com educação, mas aí os latifundiários aliados com os militares proclamaram a República e jogaram os negros na liberdade selvagem, tão terrível quanto o capitalismo selvagem. Figa Brasil é o desejo de uma alquimia que faça encontrar os que estão separados. Que faça sambar os que só escrevem, que faça escrever os que só têm sambado!

foto sem crédito.

O TEMPO, ESSE IMPLACÁVEL poema de guilherme cantídio

Anjo da morte, implacável destruidor
Algoz infalível dos seres mortais
Fiel guardião da lei do Criador:
“Do pó vieste, ao pó tornarás”.

Não te temo, ó mil vezes amaldiçoado!
Que mal me poderias fazer
Que já não houvesses começado?
Já tanto me fustigaste o corpo e abateste a alma
Que o espírito se eleva a Deus e encontra calma
Certo de que nada que me faças será o fim
Prevalece o amor de Deus que existe em mim.

E quando, enfim, chegar a tua hora
Posto que não és criador, mas criatura
Tudo será um eterno agora
Lançado serás à sepultura

GAIVOTA de helena sut

 

helena-sut-gaivota.jpg

Na murada de um cais distante, o desassossego salgou o instante com uma emoção ainda pretérita… Restou o retrato, quase em preto-e-branco, para me preencher com a intenção do vôo.

Foto de Helena Sut – Orla de Cascais – dezembro de 2007

MINHA QUERIDA e MILENAR AMIGA por ademário silva

1º. De março de 2008.!

Pronto, já passou, não doeu e fiquei mais velho. E todos me desejaram feliz aniversário, inclusive você. Mas eu acho que tem algo meio mal resolvido na linha entre o que somos e o que estamos. Deveríamos neste momento desejar ‘Feliz ano novo’, na razão natural dos acontecimentos. Aí é que essa vida daqui começa.
Quando saímos do ventre da mamãe configuramos nossa apresentação no mundo das formas. Aí está o nosso primeiro dia no mundo das formas iniciando. Assim meio sem jeito, meio constrangido, sem saber ainda onde deve se sentar.
E ao se dar conta que a nossa vestimenta se constitui de retalhos de placenta coloridos de sangue e água, fazemos o primeiro vexame no mundo. Colocamos a boca no trombone e exigimos explicações, mas ninguém entende o nosso dialeto, a nossa atitude então passa desapercebida, até que o médico nos aplica o primeiro trauma.
Mete a mão na tesoura e corta o cordão, primeira relação de umbigo, desliga-nos do antigo e tucha-nos no agora, como se isso fosse solução, é pura imposição! O vento frio da enfermaria causa-nos o primeiro impasse térmico. O médico se aproveita da situação e aplica-nos o primeiro golpe e satisfeito ergue-nos no ar como se fôramos à taça de suas glórias de histórias tão repetidas. Até que alguém de melhor senso, pelo menos é o que eu penso, nos leva de volta ao calor da epiderme da mamãe. Então vem o primeiro ‘cala boca’, mamãe que não dorme de toca faz tempo, conhece o ungüento, coloca sua teta em nossa boca e resolve a mutreta. E aqui também, um caso a ser estudado. É a primeira carícia da ilusão, que conforme o andamento do processo, em muitos casos trocam os seios fartos por chupeta. 
E aí vem o terceiro golpe, percebemos então que nos colocaram na periferia daquele ambiente morno, aconchegante. É o primeiro empurrão na economia.  Muitos de nós já temos o roteiro traçado, é Itaquera, Lajeado, Taipas e outros itinerários estranhos.  E então que percebemos pela primeira vez que o Caetano está poeticamente incorreto. “O sol não vai me encher de alegria e de preguiça”. A casa da preguiça e do descompromisso, após denúncia vazia, foi fechada para reformas e o que é pior sem aviso prévio, e nós recebemos um laudo de expulsão, incluído os detalhes de performance e apresentação. Laudo de expulsão é igual a Certidão de Nascimento, é aquele papelzinho que a burocracia se acha com direito de nos mandar procurar nossa turma
Aqui eu acho que o Noel Rosa está poética e politicamente correto: “Mas a filosofia/Hoje me auxilia/A viver indiferente assim/Vou fingindo que sou rico (louco)/Pra ninguém zombar de mim”
A partir de então se desenrola, pela vida afora algumas contradições, que hoje aos 5.7 já não me espanta. Essa Pátria mãe gentil deitada em berço esplêndido que não se levanta e outras cositas más.
É já dobrei o cabo das tormentas pelas raízes africanas da vida, passando é claro por Cabo Verde pra ouvir uma ‘morna’ canção na voz doce e suave da Cesária Évora e rever os sítios da saudade dormentes na cripta da imortalidade. Afinal, 5.7 anos de idade é certo que a felicidade ganhou algumas rugas, alguns pontos de impedimento, que pra alguns desavisados podem se transformar em tormentos, aquela vontade obsessiva de ser o que não se é, e até já não se tem, por que a vida é na verdade um agente transgressor. Muda por suas próprias razões, em expectativas desejos no Além-Tejo das vontades esquecidas. Ouvir Cesária é claro que incorporando sua alma pela internet, e aprisioná-la num Mp3, que quer dizer “Música preta de terceira dimensão”, mas que ajuda muito nessa nossa vida meio previdenciária de ser. 
Em quase tudo uma vontade, um desejo que se afoga no ostracismo das inverdades desse sistema sócio econômico, realmente tragicômico, que só sabe poluir, desfazer, destruir e colocar a culpa de tudo nos costados do povo, impingindo-lhe um analfabetismo dirigido, subliminar. E como quase tudo da errado na mentalidade desses políticos, CPI vira fuxico nas páginas ‘Caras” de uma certa Revista, e o povo continua “a dançar na pista” como disse o Chico de Holanda, e a elite só “na galeria”. É parece camarim no sambódromo, da Brahma, da Globo. Até quando vamos nos acabar nas quartas-feiras com “As fantasias que são cortinas, que são bandeiras/Pra vida real da quarta-feira”, como cantou o Martinho num samba de enredo da Vila Isabel.
É então que em assim sendo, entendo que o melhor é desejar ‘Feliz ano’ no dia do aniversário.
Feliz ano novo pra vida no dia do aniversário da real fraternidade, quando o salário mínimo não precisar subir por que a extorsão desencarnou…….

LUIZ VAZ DE CAMÕES poema de carlos nejar / porto alegre

Não sou um tempo
ou uma cidade extinta.
Civilizei a língua
e foi resposta em cada verso.
E à fome, condenaram-me
os perversos e alguns
dos poderosos. Amei
a pátria injustamente
cega, como eu, num
dos olhos. E não pôde
ver-me enquanto vivo.
Regressarei a ela
com os ossos de meu sonho
precavido? E o idioma
não passa de um poema
salvo da espuma
e igual a mim, bebido
pelo sol de um país
que me desterra. E agora
me ergue no Convento
dos Jerônimos o túmulo,
que não morri.
Não morrerei, não
quero mais morrer.
Nem sou cativo ou mendigo
de uma pátria. Mas da língua
que me conhece e espera.
E a razão que não me dais,
eu crio. Jamais pensei
ser pai de tantos filhos.

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO poema de augusto dos anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

COANDO UM MOSQUITO E ENGOLINDO UM CAMELO (ou a corrupção) por argemiro pertence

  Na  edição  de janeiro de 2008 da revista Brasil Energia, o empresário
 Eike  Batista, dono da holding EBX, controladora da MMX mineradora,
 revelou alguns  dados que associados a fatos recentes fazem o escândalo dos
 cartões corporativos   do  governo  Lula  parecer  brincadeira.  Indagado  sobre
 o faturamento  do  grupo  que  comanda,  Eike foi taxativo: estamos numa
 fase pré-operacional.   O   valor   de   mercado   da   MMX   (mineração)  é
 de aproximadamente  US$  8  bilhões.  O valor da LLX (logística) é de cerca
 de US$  2  bilhões.  O  da  MPX  (energia  elétrica),  que  abriu o capital
 em dezembro  gira  em torno de US$ 4 bilhões. E o da OGX (petróleo e gás)
 está entre US$ 8  bilhões e US$ 10 bilhões.

      Em  outras  palavras, uma mineradora estreante, desconhecida da maior
 parte  do  público  e  dirigida  por  um  auto-assumido  play boy vale R$ 8
 bilhões,  enquanto o governo Fernando Henrique vendeu a Vale do Rio Doce,
 a maior e mais produtivas mineradora de ferro do mundo por R$ 3,3 bilhões,
 ou seja, menos da metade do valor da MMX!!!

       Para  piorar o quadro, uma notícia de 27/09/2007, veiculada no sítio
 http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios revela algo estarrecedor:
 “a forte  valorização das ações da Companhia Vale do Rio Doce nos últimos
 dias fez  o valor de mercado da mineradora atingir R$ 291,14 bilhões,
 encostando no da Petrobras, atualmente em R$ 291,22 bilhões, segundo dados da Bolsa
 de Valores de São Paulo (Bovespa).

      Portanto,  a partir de dados da Bovespa, o valor de mercado da Vale é
 atualmente  cerca  de  90  vezes  o  preço cobrado pelo governo tucano
 pela empresa num daqueles obscuros leilões dos anos 90. Para agravar ainda
 mais.
 O grupo que adquiriu o controle da Vale no leilão dos tucanos foi um tal
 de Bradepar, uma empresa de fachada, criada pelo Bradesco para se esconder,
 já que  o próprio Bradesco participou da “avaliação” da Vale do Rio Doce e
 não poderia arrematar seu controle, conforme as regras do leilão (jornal
 Brasil de Fato de 24/08/2007).

     Este quadro apresenta indícios muito claros de um crime. As diferenças
 entre  o  valor  de mercado e o valor da avaliação são muito gritantes
 para serem  atribuídas  apenas à incompetência dos avaliadores. Até hoje
 ninguém investigou as arbitrariedades desse quilate praticadas pelos tucanos e
 seus asseclas. Um país sério não conviveria com fato semelhante por mais de
 meia hora.  No  entanto,  já  se  passaram  mais  de  10 anos e todos os
 tucanos envolvidos  nessa  lama  continuam  vagando  lépidos e fagueiros pelo
 mundo afora,  vomitando  regras  de  boa conduta. Alguns deles ainda são
 mantidos pelos impostos que nós pagamos, como é o caso do Fernando Henrique.

      O  volume  de  dinheiro  público envolvido neste imbroglio daria para
 manter  a farra com os cartões corporativos do governo Lula por mais de
 100 anos.  Exigimos  que  se  apurem  todos os crimes e se punam os
 criminosos, desde os depósitos na Suíça até a tapioca do ministro, nesta ordem. Isto
 me faz  recordar  o  aforismo  bíblico que nos aconselha a eleger
 prioridades.
 Será  que  estaríamos  “coando  um  mosquito  e  engolindo  um
 camelo?”  –
 Evangelho de São Mateus 23:24.

SEIS HAI CAIs de leonardo meimes

O Amor Por Um Fio

As rosas no jardim
Revelam cores camélias.
Seu perfume de ouro
 

O Animal

O que muda são as
Estações, comportamento
É instintivo. Homem…

O Câncer

O corpo que cresce
Sobre si mesmo, entulho na
Grande metrópole.

O Mal

Seu nome flutua em nós.
Sua insígnia, sombra, atenua
Minha consciência nua

O Velho

A vista que falha.
Pagamento em corpo de quem
Viu e não observou tudo

O Quintal

Se as rosas existem
É para que sejam calor.
Lembrança no inverno

HERBÁCEO (as flores o engoliam) por haroldo lima

Despertou assustado com o florescimento repentino das margaridas por todo corpo, pelo quarto. Sentia o néctar das flores invadir todos os poros – pelos e sentidos. Estava imóvel, assustado, permaneceu na cama e deixou-se levar pela confusão mental que as flores faziam sentir. Os badulaques do quarto, as páginas dos livros, todas as letras se transformavam em pétalas de sabor amargo, sabores naturalmente apaixonantes.
Via o corpo transformar-se numa imensidão branca. Um corpo branco com bolas doces e amarelas, macias. Aflito, em uma onda de desespero, tentou arrancar as pequenas margaridas do corpo, margaridinhas, como as da infância, uma vingança. Tentava extraí-las, arranhava a pele extraindo às raízes. Doía, doía muito todas as flores arrancadas, os pelos controversos, o acolchoado, o corpo agora era mais macio, cheiroso e fresco; debilitado, todos os movimentos fazia doer. Não conseguia, cresciam continuamente, acima sempre, sempre acima, incessantemente, como advérbios, os gerúndios que rodeavam a cabeça. Os tentares, não conseguia. Simples.
Tentado, não parava de se contorcer, tatear o controle remoto no chão, sentia a pequena selva de todo ambiente, transformara-se numa planta. Acariciava, acariciavam-se, flores nos dedos, havia uma liberdade maior, o sentir, a ponta dos dedos, conseguiu, imaginou o controle, segurou firme, era uma planta agora também. Lançou ao ar, caiu, o estrondo sufocado, viu a TV ligar, o líquido ensolarado do controle remoto. A substância dourada pelo chão, regando, adubando o plantio, cresceram assustadoramente, margaridas gigantes ocupando o quarto, as cusparadas da televisão, flores para todos os lados, a redoma branca, inundava o quarto, o plasma agora duvidoso da tela, todas escorriam pelas caixas do aparelho, agora verde, uma erva.
Via os móveis em vida, a mesa e o computador não mais existiam, o guarda-roupa expelir a seiva, prova da sobrevida. Tentou levantar, crescer junto às margaridas, debatia-se na cama, tentava se desprender, alargar os sentidos, enxergar talvez um novo mundo com novos olhos palpitantes. Todo o mundo sentia margaridas, saboreava borboletas. Com dor e fúria se livrou da cama, as raízes penduradas arrastavam, arranhavam a relva, morreria agora?
De pé, para caminhar até o banheiro, tentava imaginar sua nova aparência, cuidadosamente para não feri-las, limitava seu contato ao chão, já não haviam paredes. Um plantio embaçado pelo contato-quase-sexual-flor-com-flor. Só via margaridas, os espelho cheio de margaridas, tentava arrancá-las, ora reflexos. Ânsia de vômito e delírio. Preso entre a folhagem debatia-se, procurava um rumo, a saída. Num esforço tamanho sentiu tudo se desintegrar. Agora tudo era branco.

DILEMA do ESTADO por flávio calazans

No caso de você achar que os homens são maus, então por conseguinte devem ser controlados e reprimidos para não fazerem o mau; Assim, alguém os controlaria de cima e castigaria seus erros e pecados.

Ora, se você vê os humanos assim, e você também é humano, faz parte deste conjunto, então você é mau, como todos os homens.

Logo, se todos os homens são maus e fazem o mau, quem seria eleito para governar e castigá-los de cima, um destes homens maus? Então ele fará o mau com seu poder sobre os outros!

É um beco sem saída…e não adianta tentar mentir com a abstração do Estado, pois o chefe de estado será um homem mau; e nem justificar com as leis, pois seriam escritas por políticos profissionais, que são homens maus!!!

Por uma questão de coerência lógica, admitir o homem como mau é admitir a conseqüência que não pode governar, e será a negação do Estado e do Governo, de todo Poder instituído.

Entretanto, por outro lado, já se você acreditar que o homem é bom, pode viver em liberdade , pois reinará a amizade e solidariedade, sendo o Estado e as leis desnecessárias, inúteis.

Assim, surge uma proposição da tipologia lógica “Silogismo Irregular” que Aristóteles chamou de DILEMA, que pode ser assim enunciado:

Ou os homens são bons , ou os homens são maus. Se são bons, então não precisam do Estado e das leis. Se são maus, não podem ter Estado nem leis. Logo, os homens não precisam/podem ter Estado nem leis.

Na verdade, não importa em que você acredite, seja o homem bom ou mau, em ambos os casos o Estado e as leis serão um absurdo.

Você já leu os filósofos da Liberdade ou do Anarquismo? Pessoas como Epicuro, Diógenes, Lao-Tsé, Malatesta, Bakunin, Koprotkin, ou mesmo Thoureau (desobediência civil) , Gandhi ou Osho? Há pessoas sensíveis e inteligentes que não estão nem à direita nem à esquerda ou muito menos ao centro, estão à frente e acima disto.

COLOMBIA, PARAGUAI & CIA por walmor marcellino

Enquanto a direita política brasileira faz o cenário e a esquerda sacode o rabo, o Departamento de Estado dos Estados Unidos tenta retomar a América do Sul, depois de assegurar-se o domínio econômico-político do México e o controle político de (quase) toda a América Central. O incidente político Chávez, ou reação popular-nacionalista na Venezuela, demonstrou, porém, o açodamento da CIA no aliciar políticos e atrair empresários sem analisar todos os aspectos do processo de neocolonização latino-americana. Significa que as políticas de força (acompanhadas de dissuasão por via diplomática) enfrentam contradições nos fatos.
Aos distraídos que pensam estar o governo Bush exangue pelas guerras do Afeganistão e Iraque e o projeto fascista Condor ter sido uma página na história da intervenção política e militar na América do Sul   de que as tropas ianques e as paramilitares (do narcotráfico) de Uribe seriam simples remanescência  , a reativação diplomática e a intervenção direta do FBI e da CIA em todos os países da pauta social-desenvolvimentista, sob governos de centro e centro-esquerda, dá o alarme. É necessária a reorganização da resistência anti-imperialista.
Além dos reforços da força ianque e da mercenária na Colômbia, e dos atritos e provocações ao governo da Venezuela, o Paraguai vem sendo o alvo: uma rede de intrigas “nacionalistas” entre políticos paraguaios contra o Brasil e a Argentina   sob a alegação de “imperialismo no Mercosul”  , o fomento de demandas “compensatórias” nacionais que os acordos do Cone Sul não satisfazem, entre eles Itaipu, o disfarçado estímulo no Paraguai ao tráfico de armas e livre trânsito de importados. E, enfim, a indução ao liberalismo colonizado através da imprensa (La Nación, El Clarín, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo, Jornal de Brasília, Zero Hora, Gazeta do Povo, Diário Catarinense et alii) para difundir uma ameaça etnopolítica na Tríplice Fronteira e justificar a ação de forças norte-americanas no Paraguai, com a finalidade de “ajuda no combate aos crimes de fronteira” e com acenos de uma intervenção “saneadora”.
A canalha burocrático-militar guarani e seus sócios, empresários e bandidos, exultam com a decisão de Washington e vão aderindo à instalação de agências e forças ianques para maior controle da região. O colonialismo assumiu demandas “compensatórias” eleitorais contra o Mercosul.

LUIZ FELIPE LEPREVOST, assume o personagem em ASSUNTO TERMINADO e raspa a cabeça!

luis-felipe-leprevost-foto-assunto_terminado.jpg

Em uma sociedade controlada, o jovem Ivan – funcionário do “Sistema” – passa a questionar a ordem estabelecida e por isso recebe a visita de um inspetor. A partir desse encontro, abordando conteúdos do homem contemporâneo, cria-se um habilidoso jogo de sedução psicológica e de poder.
Para poder interpretar o personagem o jovem poeta, escritor, compositor e ator LUIZ FELIPE LEPREVOST, raspou a cabeça como todo ator profissional o faria. sucesso LEPRE!!
onde:
21/03/2008 – 21:00 – ACT – Ateliê de Criação Teatral- Rua Paulo Graesser Sobrinho, 305
22/03/2008 – 21:00
23/03/2008 – 21:00
24/03/2008 – 21:00
25/03/2008 – 21:00
26/03/2008 – 21:00
27/03/2008 – 21:00
28/03/2008 – 21:00
29/03/2008 – 21:00
30/03/2008 – 21:00

ingresso: 20,00 e 10,00

TENHO 164 AMIGOS por ricardo boessio dos santos

Espero que você tenha ficado tão impressionado (a) quanto eu fiquei ao ouvir a afirmação que empresto para ser o título deste artigo.

Essa frase eu ouvi de uma estudante de Educação Física que estava usando um computador ao lado do meu. Ela virou-se para uma amiga que estava ao seu lado e fez essa afirmação com sorriso nos lábios que estampava sua clara satisfação em dizer em alto e bom som que tinha essa quantidade de amigos.

Uma frase dessas não poderia me passar incólume, pois eu achei estapafúrdia. Como assim 164 amigos? Como é que alguém pode ter uma quantidade dessas de amigos, como ela conseguiu isso? Será que ela é uma pessoa tão especial assim, ou será que cada vez mais o ser humano está relegando a um plano superficial as suas emoções e as suas relações com os outros? Será que o significado de amizade é mais um que se tornou raso, ou até vazio? Como já disse o psicanalista Jurandir Freire Costa “Até agora, o amor era um ideal de auto-realização afetiva que acenava para um tipo de felicidade no qual o êxtase da dissolução no outro era compatível com a consciência da individualização do desejo. Atualmente, o amor vem sendo desidealizado. Estamos, pouco a pouco, aceitando que a experiência amorosa é fugaz e seu destino é a provisoriedade”.

Também do psicanalista vem outra reflexão, retirada do livro “Sem fraude, nem favor”: “O amor deixou de ser puro momento de encanto para se tornar uma corvéia. Quando é bom não dura, e quando dura já não entusiasma mais”. A afirmação da aluna foi desferida após vislumbrar o seu espaço no Orkut (para quem não conhece: trata-se de uma rede de relacionamentos e comunidades na internet).

Ao saber disso cheguei a conclusão de que tratava-se de uma superficialização do significado da amizade. Mais uma emoção que jogamos a um plano menor, que fazemos com que perca sua profundidade. Não bastava o amor já ter se tornado um sentimento banal, comum, simples, corriqueiro? Hoje em dia você pode ver casais que mal se conhecem dizendo que se amam. Um dia, dois dias e pronto, lá vem a frase: eu te amo! Frase vazia, morna, fria como se dissesse “vou ver TV”.

Ninguém está afirmando que o amor não pode acontecer em pouco tempo, ou que uma amizade não pode ser encontrada na internet. De forma alguma eu diria algo tão irresponsável. Só estou afirmando que, hoje em dia, para muitos tudo é amizade, amor.

Esses dois sentimentos são indissociáveis, na minha humilde opinião, porque acredito que amizade é uma forma de amor. Amor em um outro nível, mas é amor. Por isso não consigo conceber afirmações como a que foi feita. Posso estar muito enganado, mas amigo não é alguém que você somente cumprimenta, alguém que você somente diz um “olá”. É isso também, mas não é só isso. Não é somente alguém que trabalha na mesma empresa que você, que estuda na mesma sala que você, que mora no mesmo prédio que você. É mais do que isso. Muito menos é somente alguém que entra na sua comunidade no Orkut. É muito mais do que isso.

Neste momento quero descrever algumas cenas da vida que presenciei, ou que me foram contadas pelos atores principais.

Cena 1

Um colega de sala da universidade, após começar a falar sobre uma amiga minha e ser interpelado por mim, disse algo como:

– Não adianta, a Fulana (não quero mencionar o nome) é queridinha sua. Você sempre vai defendê-la. Tem algo que eu penso e naquele momento não expressei, mas me veio à cabeça logo. Claro que vou defendê-la, e farei isso sempre. Isso é a amizade. Você não permite que ninguém fale mal de quem você gosta. Mal sabia ele que, assim como com ela e com outros (as) amigos (as), também já o defendi…

Cena 2

A situação econômica de uma pessoa era terrível. Momentaneamente sem trabalho, ele estava passando por dificuldades enormes para manter-se e para manter a pensão para seus filhos. Faltava até comida na geladeira. Certo dia ele recebeu um telefonema de um amigo, que tinha, mais ou menos, o seguinte conteúdo: – Fulano, você vai estar em casa às “X” (não lembro a hora e nem sei se me foi dita) horas? Eu e o Beltrano vamos passar aí.

Quando o autor do telefonema e o Beltrano chegaram trouxeram com eles sacolas de compras do supermercado. Essa história me contada por quem estava passando necessidades que, agora muito bem estabilizado profissionalmente, é muito grato pelo que fizeram.

Cena 3

Noite de réveillon. Virada do ano passado (2004) para este ano de 2005. Em meio à alegria das comemorações entre amigos estava patente no olhar e nas ações que um deles estava feliz, porém não tanto quanto poderia (ou queria). Motivo: estava (verbo no passado porque já aconteceu) de transferência marcada poucos dias depois do reveillon para Recife (PE) por causa de trabalho. Vai ter um crescimento profissional, vai ter uma grande melhora financeira. E porque não estaria feliz?

Simples, todos os seus amigos ficaram em São Paulo e a dor da separação e da falta do convívio diário com alguns, ocasional com outros, deixará um vácuo em sua vida. Ninguém deixará de ser seu amigo, mas a falta deste convívio não é fácil.

Impossível segurar o sentimento, como ficou evidente no início do seu discurso. A voz já não conseguia sair normalmente, o sentimento precisou de poucos segundos para manifestar-se em forma de lágrimas, e o pranto se fez, deixando claramente à mostra o que já era difícil de esconder: a tristeza da separação.

Essa história eu presenciei.

O que eu quero dizer com estas histórias?

Simples. Quantas das pessoas que você conhece e diz serem seus (suas) amigos (as) te defenderiam quando alguém falasse alguma coisa sobre você? Quantas você defenderia? Quantas pessoas chegariam à sua casa e te trariam um alento (seja de qual forma for: financeiro, material, espiritual, sentimental) em um momento de dificuldade? A quantas você levaria este alento? Quantas pessoas viriam às lágrimas por serem obrigadas a perder o convívio com você? Por quantas você choraria convulsivamente?

Como já disse o psicanalista Contardo Calligaris “Trate como íntimo só quem poderia sem riscos lhe devolver a mesma cordialidade”.

O escritor tcheco Milan Kundera escreveu que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Para ele toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.

Fernando Pessoa lamentou a falta de amigos (e de amor) dizendo que isso traz uma negra e fria solidão. William Shakespeare disse em um dos seus textos que você “aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo apesar de longas distâncias. E que o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitem escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam; percebe que seu melhor amigo e você podem fazer alguma coisa, ou nada, e ter bons momentos juntos”.

O grande escritor inglês Shakespeare também disse que, algumas vezes, tudo o que você necessita é de uma mão para segurar e um coração para te entender.

Poderia ficar uma eternidade aqui fazendo citações de escritores, poetas, filósofos, artistas, ou pessoas comuns sobre a amizade, sobre sua importância para a nossa vida, sobre a profundidade que esta possui.

Não é isso que eu quero, senão poderia incorrer no mesmo erro e acabar por tornar frívolo o que desejo expressar. O que realmente desejo não é ficar parafraseando essas pessoas, outrossim, é clamar para que todos revejam suas relações com as outras pessoas. Quem você considera seu amigo (a) é realmente uma pessoa amiga ou só alguém que você sabe que existe?

A amizade pode nascer das formas mais estranhas, dos jeitos mais engraçados. Tenho amigos que fui conhecendo aos poucos por meios de conversas instigantes. Tenho amigos que conheci melhor após homéricas discussões. Tenho amizades que nasceram de uma total antipatia inicial um pelo outro. Só que a todos considero amigos. Chega de superficialidade! Chega de transformar alguns sentimentos em coisas banais! Chega de dizer “eu te amo” como quem diz “oi” para pessoas que são inteiramente desconhecidas!

Eu recebo algumas correntes de e-mails sobre como a amizade é linda, que eu deveria ficar feliz por ter recebido aquele e-mail e deveria passar para “não-sei-lá-quantas” pessoas, inclusive devolver para quem enviou para mim. Só que muitas vezes eu nem conheço quem me enviou o e-mail!

Ou será que tudo isso que escrevi é uma grande bobagem e eu é que não sei qual é o valor de uma amizade e estou me prendendo demais a algo que só existe na minha cabeça?

Tennessee Williams disse certa vez que ninguém vale nada enquanto não foi amado. Ele que me desculpe, mas também não vale nada quem não amou de verdade.

Pouco me importa ter cem “amizades” taciturnas.

É mais válida uma única amizade verdadeira.

Não quero ter cinqüenta “amizades” tartufas.

Para mim, vale mais uma única amizade sincera.

Tão pouco desejo trinta “amizades” tacanhas.

Basta uma única amizade generosa.

Amizade real, honesta, genuína, autêntica, legítima. Acima de tudo verídica.

Quero dedicar este texto aos meus amigos e minhas amigas. Poucos em quantidade, muitos em qualidade. Um círculo de amigos pequeno em número, mas grandes em veracidade.

PORÃO LOQUAX de mário domingues e ieda godoi no FRINGE

Projeto idealizado por Mário Domingues e realizado em parceria com Ieda Godoi no Wonka Bar, o Porão Loquax existe desde 2005 e é um dos eventos mais importantes de poesia do estado. Divulgou a produção de poetas locais e permitiu o intercâmbio entre escritores de várias partes do país, além de ter sido palco para o lançamento de diversas obras. Desde 2006 ganhou uma versão itinerante, com apresentação no Mini-Guaíra e agora fazendo parte da programação do Fringe no Teatro Uninter.

Dia 25 de março
 
20:30
Lucas Haas Cordeiro, nascido em 28/07/1989. Cursando Psicologia na UFPR. Lançou: Sussurro&codeína, em 2006; no prelo: Os mantras no café, de contos.
Lindsey Rocha – Escritora e artista plástica. Publicou o livro Nervuras do Silêncio(7 Letras, 2005).
Ricardo Pozzo – Publicou o livro Transmigrações. Participou do cd Psiconáutica. Participa do Grupo de Escritores Pó&Teias, que lançou livro de antologia homônimo em 2006. Participa da coletânea Poesia de Ponta, editado em Ponta grossa, em março de 2007.
 
Dia 26 de março
20h30

Bárbara Lia – Escritora, poeta, professora de História. Publicou os livros de poesia: O sorriso de Leonardo (Kafka), O sal das rosas (Lumme), Noir (independente) e A última chuva (ME ed alternativas). No prelo, o romance – Solidão Calcinada (Imprensa Oficial do Paraná).
Hamilton de Lócco – Músico, compositor, artista plástico. Publicou o livro de poemas Sonífero das Almas (1998).
Luciana Cañete – Professora de Espanhol, revisora e poeta. Tem poemas publicados na Revista Mural Beatriz e na Idéias.
Jorge Barbosa Filho – Formado pela Universidade Federal do Paraná em Letras/Licenciatura, atualmente ministra Oficinas de Texto, Criação e Sensibilização. Escreve a coluna “Diversos” sobre poesia na Revista Idéias, e é o Curador da Revista Etcetera 10 e 11 .
Todas as apresentações serão no Teatro Uninter, campus Divina Providência,
 
com entrada franca.
Dr. Muricy, 1088

A IDADE DELA NÃO ESTÁ MAIS POR PERTO conto de luis felipe leprevost

“Joguei-me na cama e rasguei o travesseiro com as mãos.”
(John Fante)

Quando Huck ficou doente Consuela se viu obrigada a procurar ajuda médica em Gélida, já que o Hospital do Vilarejo de Fé sofria reformas há mais de quatro meses. Em verdade para o bem do Vilarejo, diga-se, o que outrora fora um sanatório, com mínima ala destinada à problemas gerais da população que não houvessem relação direta com a loucura, acolhendo-se em tal ala improvisada clínica veterinária, inclusive.
Inconsolável a minha amiga. Huck fora seu mais íntimo companheiro. E agora estava no porta-malas do carro que meu irmão Sussí havia me emprestado para levarmos Huck à algum lugar que merecesse que ali o enterrássemos, segundo palavras da própria Consuela.  
Veja, o trânsito vai como um afluente, às vezes quase seco, em outras trasbordando ferocidade, disse-me ela durante esta única e última vez em que esteve em Gélida.
Porém naquele dia o trânsito estancara. Talvez por culpa da massa pesada de calor que o sol derrubava sobre nós. No rádio do carro tocava uma melodia que hoje traduzo por água mansa raspando pedra de fogo. Ao longe uma ambulância desesperava músculos e gargantas, vinha cortando as águas daquele rio caudaloso de lata e asfalto. Os carros assustados feito cardumes de peixes abriam espaço. Quando se pensa em sangue e morte as pessoas respeitam respirando para dentro, disse-me e sorriu manso a anciã Consuela. Olhei para ela, que contemplava o ir das pessoas na calçada, e lamentei: Sirene sempre me comove.
Jamais haveria sirenes ao socorro de tipos como Huck, retribui-me Consuela.
Anos depois, no dia em que Consuela faleceu a ambulância demorou demasiado para vir socorrer sua despedida. Seria ela da mesma estirpe que Huck? Era madrugada e quase não havia trânsito de vivos. O telefone tocou lá em casa, intrometendo-se no sonho de toda a família. Larissa era quem trazia até mim a notícia. Consuela do alto de seus 78 anos estava passando mal, alarmava-me sua neta.
Em mim um oceano se atormentou. Minhas roupas correram ao socorro da amiga velha antes de eu me dar conta completamente. Peguei mais outra vez emprestado o carro de meu irmão Sussí e acelerei em direção ao Vilarejo de Fé, foram duas horas de viagem angustiada, minhas mãos suavam segurando a direção, pois me assombrava a idéia de que seria a última vez que veria Consuela, autora de tantas alegrias que colecionei durante a vida desde que havia, à revelia da família, começado a freqüentar o Vilarejo de Fé e a cidade vizinha Ondestou blues.
Cheguei em Fé e a pensão de Consuela respirava com dificuldade. Peguei suas mãos apoiando sua morte e chorei, nada mais poderia fazer contra aquilo que não se explica.
Estranho como as coisas são. O resgate não acompanha o tempo do desespero. Os médicos chegam com a sirene das pálpebras ligadas, porém cansadas. Parece que vêm buscar alguém para um passeio. Parecem não querer despertar o sono derradeiro e infinito a que se encaminha o que precisa de socorro. 
Quando conheci Consuela ela já tinha cabelos brancos, e os raspava. Por isso eu pensava que os anciãos quando nasciam já nasciam daquele jeito, com rugas e encurvados. Nunca vi ninguém desrespeitá-la. Meu pai Bento Brennelli diz que ela esteve à passeio no mundo. Por conta disso não encarei como erro grave o atraso dos médicos, os mesmos médicos que ela hospedou e alimentou durante anos, desde quando o hospital instalado em Fé era ainda um manicômio, em sua pensão.
Ali ia embora depois de ter olhado este mundo como quem vai ao circo a minha amiga. Como quem senta em uma varanda e contempla o enorme lago sitiado no coração do Vilarejo de Fé partia Consuela, sem que jamais houvesse reclamado das picadas dos mosquitos que, talvez, tenham sido seus mais fiéis companheiros após a morte de Huck e a partida de Larissa para a Cidade Maravilhosa.
Quem sabe ela tenha vivido por aqui apenas como quem patina sobre o gelo e ri depois com a perna engessada. Era como se a neve aparada de seus cabelos tivesse mantido por toda vida sua cabeça fresca.
Daquela vez comigo no carro, quando procurávamos a cama de descanso eterno para Huck, quando coincidentemente por nós passaram os escândalos apressados de uma equipe de salvamento, Consuela disse sem indiferença: Como dirigem mal estes motoristas de ambulância, um dia ainda matam alguém de tanto que correm.
A velha Consuela era esperta. Tricotou direitinho toda sua vida em um pano branco e limpo. Pressentiu sua despedida. Foi embora como quem pressente o odor da chuva se armando no céu claro. Fez-se a neblina em seus cabelos perfumados pelo orvalho das manhãs de Fé.
Fizeram-se molengas seus tríceps, abraços de água-viva, sem correnteza. Trazia sempre para a mesa o almoço feito um discreto e alegre pingüim. Personagem de fábulas que se apagam em um dia intacto. Agora está lá a velha, retida no coração fosfóreo da terra, habitando o escuro. E aqui vamos nós iludindo a idade dela não estar mais por perto.

OS “INTELECTUAIS” VÃO AO TEATRO no FESTIVAL DE CURITIBA

Mais engraçado do que Terra em Trânsito, espetáculo encenado neste sábado (22) no Teatro do Unicenp, com texto e direção de Gerald Thomas, foi o comportamento do público que o assistiu. Antes mesmo que a personagem Fabí – interpretada pela ótima Fabiana Gugli – soltasse um de seus comentários a respeito de personalidades como o jornalista Paulo Francis, grande parte da platéia já não continha as gargalhadas.

O curioso é que quando, na peça, foi citado o também jornalista, porém um pouco menos conhecido do grande público, Reinaldo Azevedo, ou ainda quando Fabí reclamava, aos berros, que havia outra pessoa que não ela interpretando em seu lugar a Isolda, da ópera de Wagner, houve um silêncio brutal. Mas foi só ela falar em George W. Bush que todos voltaram a sorrir.

Por essas e outras, às vezes chega a ser constrangedor pôr os pés num espetáculo da Mostra de Teatro Contemporâneo. Além de aturar alguns espetáculos de qualidade duvidosa, o espectador pode ter que aturar a pessoa da poltrona ao lado, que, para não parecer que não entendeu a piada, não pára de rir.

Interrupção e revolta

Um problema em um projetor levou ao cancelamento da peça Vestido de Noiva na noite deste domingo (24). A peça, encenada pela companhia Os Satyros, estava em cartaz no Guairinha.

Com meia hora de espetáculo, o equipamento começou a apresentar problemas, fazendo com que a apresentação fosse interrompida – o que fez com que o público se revoltasse e criticasse o festival. Bastante nervosa, a atriz Norma Bengell subiu ao palco para acalmar a platéia.

Western no Largo da Ordem

Os atores Paulo Américo e Thiago Barros, da Cia Independente de Teatro, passaram por apuros neste domingo (23) enquanto encenavam a peça “O abajur Lilás”, integrante do Fringe. De acordo com a reportagem da Folha Online, um homem, que teria se identificado como policial militar, apontou uma arma para a cabeça dos atores, reclamando dos palavrões ditos durante o espetáculo.

A montagem estava sendo encenada na rua, nas proximidades de barracas de artesanato da feirinha do Largo da Ordem – uma das quais seria do suposto PM.

A diretora da peça, Fernanda Levy, conta que o homem armado teria dito que “em Curitiba ninguém diz palavrão”, e que, apesar de não conseguir pegar o nome dele, uma queixa na polícia foi feita.

Por: Daniel Fonseca – Gazeta do Povo Online

SAIS DE MIM poema de jb vidal

lanço um olhar ao cosmos
na expectativa de senti-lo,
pulsar junto, ser infinito, ser todo,

sê-lo,

lentamente a imagem se reduz,
sem horizonte, as retinas não suportam fixar 
o olhar se cansa, os olhos se fecham, a cabeça tomba,

giro dentro de mim
transpiro rios de sais,
sinto e não sinto,
vejo tudo e nada,

ínfimo, sou grande,
grande, sou meu próprio cosmos

olhar sim, olhar-me

segundos infinitos me abduziram
reajo, retornar não!
miséria não, guerra não,
fome não, peste não,
amor não, ódio não,
morrer não, consciência não!

vida, vida sim!

se sou e não sei onde sou,
sou o que não sei,  onde não estou

MULHER prosa de marilda confortin

Quando o padre falou: “Eu vos declaro marido e mulher”, levei um susto. Desde quando mulher é feminino de marido? E o quê é que ele pensava que eu fosse até aquele momento, então? Homem? Assexuada? Indefinida? Animal? Justo um padre, que não sabe nada sobre a mulher, vai me declarar “mulher”! Quase interrompi meu casamento e me atraquei no tapa com ele.
Isso me lembrou algumas datas comemorativas. Inventaram datas para tudo. Tudo o que deveria ser comemorado durante todos os dias, foi resumido num único dia. Tudo o que leva anos para se resolver, resolveram resolver num dia só. Fácil acabar com os problemas assim. Desse jeito, até eu resolvo.
Duas dessas datas, deixam-me particularmente incomodada: Dia da mulher, por exemplo. Já começa por aí. Tem o dia do homem? Não que eu saiba. No dia 8 de maio, recebi cartões, poesias e dezenas de emails inteiros falando um monte de coisas sobre minha beleza, força, compreensão, inteligência, sensibilidade. Olhei cuidadosamente o destinatário para ver se não havia engano. Era para mim, mesmo. Me peguei rindo, imaginando que, se meus amigos homens dissessem aquelas coisas todos os dias e não só do dia da mulher, correriam o risco de se convencerem de que sou mesmo tudo aquilo que disseram. E aí teriam de admitir que não sou tão burra, tão feia, tão fraca, e até tenho uma certa sensibilidade. E teriam que aceitar o fato de eu ser igual a eles. E aí eu poderia querer ter os mesmos direitos. Já pensou?
É bem cômodo ter o dia da mulher. Se alguma vez esquecermos deste pequeno detalhe amigas, não precisamos nos preocupar. Sempre haverá um bom homem, do tipo que mente pouco (só uma vez por ano, no dia da mulher) que vai nos lembrar do quão emocionante e lindo é ser do sexo frágil. De quanto ele nos admira pela força e inteligência por ter conseguido a genialidade de acumular às nossas funções, as dele também. Por fazer tudo o que faziam nossas avós, e ainda trabalhar fora o dia inteiro, disputando muitas vezes com o próprio marido ou filho, um mercado de trabalho cada dia mais escasso e desumano. E por tentar ficar sempre linda, jovem e bem humorada para nosso amado marido e filhos. Tudo em nome da tal liberação feminina. E por fingir que acreditamos nessa liberdade.
Começo a acreditar que aqueles neurônios a menos, nos fazem falta. Como fomos cair nessa armadilha? E porque continuamos alimentando essa farsa? Merecemos ser consideradas uma minoria problemática e ter o dia Internacional da Mulher!

Nessa mesma linha, tem o Dia das Mães. Tudo bem, o dia dos pais também é um saco. Mas vejam a diferença nos cartões, presentes e mensagens. Os cartões para o dia dos pais são decorados com cores e figuras sóbrias (lupas, furadeiras, livros, mesas de escritório). Coisas concretas que lembram trabalho, austeridade, responsabilidade, realidade. Os cartões do dia das mães são decorados com imagens de santas, moças muito lindas e jovens, bebês corados com asas, flores, anjos, fadas. Como se fossemos eternas, etéreas, entidades abstratas. Borboletas, sem crisálidas.
Os presentes então, são de uma criatividade! Está na hora dos professores se perguntarem: “Quando uma criança lembra da mãe, o ele lhe vem à mente?”. Um avental todo sujo de ovo? Pano de prato? Grampo de prender roupa no varal? Aparador de panela? Colher de pau? Saboneteira? Porta retrato?
Esses são os objetos que os professores de arte ensinam para crianças e as fazem presentear no dia das mães. Parece que somos só um compartimento da casa que precisa de um enfeite, de uma inutilidade.
E tem aqueles maridos que esquecem do dia do aniversário de suas esposas, mas lembram do dia das mães… E aproveitam para dar de presente a elas (às esposas), na data errada, aqueles eletrodomésticos que já deveriam ter comprado há muito tempo. E ainda perguntam: “Gostou, mãezinha?” Quer que ela responda o quê? Maridos, maridos… Vocês estão confundindo as bolas. Dêem e digam isso para suas mães (aquela que vocês chamam de avó, agora).
As mensagens então… São verdadeiras orações à Virgem Maria. Não sei qual a conseqüência psicológica do que vou dizer agora, mas preciso contar um segredo: Nós, mães, não somos mais virgens. Deixamos de ser virgens muito antes de vocês nascerem, filhos. E de santas não temos nada. Vocês não imaginam quantas vezes pecamos para conceber vocês. E com que prazer! E essa mania de enaltecer nossa aceitação em relação a dores e desgraças? Ai caramba! Nenhuma mãe gosta de sofrer, não. Parem com essa história de “ser mãe é padecer no paraíso”. Nós não somos masoquistas! E chega de dizer que somos entidades dotadas de infindável paciência, abnegação, bondade, capacidade de perdoar. Tem paciência! Isso é o que vocês querem que a gente seja. Que a gente diga amém pra tudo e perdoe todas as cagadas da humanidade.
Olha, enquanto vocês são pequeninos, ainda vá lá. A gente sabe que quem escreve essas besteiras não são as crianças. Mas, convenhamos: Marmanjos e marmanjas, maridos, diretores(as) e presidentes de empresa, mandando essas mensagens açucaradas para as mulheres? Parem!
“Você diz isso por que não conhece minha mãe. Ela tem quase oitenta anos e é uma santa”, disse-me um amigo. Cresça, respondi-lhe. Coitada da sua mãe! Imagine a culpa que ela sente por ter criado você assim tão bobinho. Ela não vai morrer nunca, com medo de que você não sobreviva sem ela. Pare de se enganar dizendo que foi morar com ela, depois do divórcio porque ela precisava de você. É você que precisa de mãe e transforma toda a mulher em mãe. Por isso seus casamentos não duram. Cai na real!
Um dos maiores pecados que as mães cometem, é deixar que os filhos cresçam acreditando nessa baboseira toda. Elas se arrependem muito depois, podem ter certeza. É por isso que as mães rezam tanto. Não é porque são santas, não. É para pedir perdão pelos erros que cometeram na criação dos filhos e pela falta de coragem de dizer umas verdades.
Não viverei para ver, mas só dá pra dizer que evoluímos, quando todas essas datas forem extintas do calendário. Quando no dia a dia sem aviso prévio, respeitarmos as crianças, os velhos, os índios, os negros, os brancos, os amarelos, os pais, as mães, as mulheres, os homens, a natureza, a humanindade, a paz, adeus!

O MAR poema de manoel de andrade

Conheço teu agitado marulho
tua voz de barítono
conheço tua zangada pronúncia
tuas lanças arrojadas pelos braços da tormenta
conheço tua suave dança
na onda calma e inumerável
na  crista transformada em súbita canção de espumas
conheço-te na beleza da baía amanhecida
na hora melancólica do crepúsculo
e no teu dorso enluarado.

Me deste a paisagem das águas litorâneas
e a espuma se estendendo sobre a areia
me mostraste a nudez e o encanto das praias solitárias  
a preamar e a vazante
e o teu perfil de mastros e gaivotas
me deste a magia do horizonte
uma vela solta ao vento
e um barco de papel para os meus sonhos
mas nunca me mostraste
a extensão azul dos teus domínios
e nem um indício sequer dos teus enigmas.

Marinheiro sem mar e sem destino
nunca pude navegar tuas distâncias.
Deste banquete
me deste apenas o paladar salgado dos meus versos
minha sílaba de sal
e a tua própria essência salpicada entre meus dedos
molécula elementar
unânime cristal
para que na minha dieta imprescindível
eu possa provar teu sabor todos os dias.

OUTONAL poema de joão batista do lago

As minhas folhas caducas
Começam a desfolhar-me
É chegada a hora de virar planta seca
Preciso desnudar-me
Amarelar-me
Avermelhar-me
 
Tenho que fechar os poros
Das poucas folhas que se me teimam ornar
Desambiguado na nordestinação
Tornar-me seco feito chão rachado
Ainda que a morte seja meu presente
Preciso reter nas minhas entranhas
Sustentar nas minhas raízes – e na minha mente –
A água da vida que, totalmente,
Gerará no futuro novas primaveras
Que se há de transformarem em novos frutos…
E novas sementes
 
Preciso desfolhar-me
Dessas folhas verdes, caducas
Promover o mimetismo do meu ser
Só assim poderei sobreviver nesta selva de pedras
Onde não há árvores floridas – e nem Homens! –
Onde a falta de oxigenação me perecerá
De toda água da vida
De toda primavera florida

Rumorejando (Cartão corporativo? Como toda a população brasileira, abominando). por josé zokner (juca)

Constatação I

O destaque
Do bloco carnavalesco,
No tríduo momesco,
Foi o obcecado, donjuanesco,
Nababesco,
Fanfaronesco,
Pedantesco
Ter comportamento quixotesco
Quando perpetrou um ataque
De modo burlesco,
Caricaturesco
Para conquistar um tedesco,
Achando ser uma gata com badulaque.
Que tava com um atabaque.
Levou um trampesco.

Constatação II

Rico usa preservativo; pobre, camisinha.

Constatação III (Pseudo sextilha para ser recitada pelo técnico do time ao fazer uma preleção aos jogadores de defesa).

Chutar a bola pra frente
Sem que ela saia pra fora
E no pé do companheiro
É de ficar assaz contente
E, daí, saindo um gol se comemora
Seja com um golaço ou frango do goleiro.

Constatação IV

Rico sofre de climatério masculino; pobre, é broxa.
Constatação V
Rico infere; pobre, chega à conclusão (quando deixam, é claro…).

Constatação VI

Murchou o riso
Quando o dentista Narciso,
Qual um “pitoniso”,
Nada indeciso,
Nem impreciso
Ou de improviso
Deu o terrível pré-aviso
Que ela teria de extrair o siso.

Constatação VII

Não se pode confundir proteja com projeta, até porque tem muita gente dizendo “que Deus nos proteja” ao assistir os vários partidos políticos apresentarem seus esquemas de governo que algum mau caráter, ou vários, projeta, naquele esquema de empulhação, embromação, enrolação, enganação, tapeação. A recíproca, provavelmente é só verdadeira no céu, onde um ou outro anjo da guarda projeta para que proteja quem tem conta no exterior, não declarada no Brasil, ou alhures e que intervenha para que um receptor do mensalão não seja cassado e coisas desse jaez.

Constatação VIII

Deu na mídia: “Correspondência revela amante de Einstein”. Evidentemente, para o mestre, como para tantos, a prevaricação, como tudo, era uma questão relativa…

Constatação IX

Rico vive envolvido com um recíproco cafuné; pobre, com uma indefectível comichão.

Constatação X

Rico faz uso da profilaxia; pobre fica a mercê do destino.

Constatação XI

Rica faz operação para botar silicone nas, digamos, partes principais; pobre, forra com enchimento.

Constatação XII (De conselhos úteis).

O chimarrão, segundo os entendidos, é um coadjuvante para evitar um ateroma que, segundo o dicionário Houaiss e que Rumorejando já divulgou é “depósito lipídico na superfície interna das paredes das artérias” que pode provocar um acidente vascular cerebral ou um infarto. Por outro lado (qual lado?), quem toma um chimarrão extremamente quente corre o risco de vir a sofrer de um câncer no esôfago. Portanto, prezado leitor, se o Amigo está a fim de tomar um chimarrão capriche na temperatura do dito. De nada!
P.S. De tereré, muito apreciado no Paraguai e no Mato Grosso, este assim chamado escriba não entende nada. Só sabe que se toma com água gelada o que faz supor que se os ingleses apreciassem tais bebidas não iriam optar pela água gelada, já que apreciam a cerveja fora do gelo*, o que, para nós brasileiros, é inconcebível, mormente quem aprecia a loira “estupidamente gelada”.
*Não foi possível averiguar se eles chegam a esquentar em banho-maria, o que, cá entre nós, ninguém tem nada a ver com isso.

Constatação XIII

Quando o médico recomendou para o ricaço que ele deveria eliminar gorduras e frituras do seu cardápio, maneirar as bebidas alcoólicas e fazer caminhadas diárias, o ricaço, de origem italiana, amante da boa e farta mesa, acompanhado de bons vinhos, contestou: “Doutor, tudo isso que o senhor falou corresponde pra mim uma ofensa, porque o senhor está me dizendo, em outras palavras, para que eu vá me catar. Cáspite!

Constatação XIV

Quando o obcecado leu na mídia a entrevista que o economista José Roberto Mendonça de Barros, comentando a atual situação econômica e do comércio atual que “no mundo conturbado, se ganha na tática”, falou do alto da sua inquestionável sapiência: “Puxa é exatamente o que eu penso e o que eu faço em relação as minhas inumeráveis táticas para ser conquistado”.

Constatação XV

Deu na mídia: “Paul McCartney vai pagar U$ 48 milhões à ex-mulher”. Taí uma notícia de transcendental importância para o futuro da Humanidade, exceto para a ex…

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

METAMORFOSE de GREGOR SAMSA PAI conto de zuleika dos reis

         
  Gregor Samsa, pai, sonha. No sonho, vê-se transformado em gigantesco inseto. Quer dormir e não pode, está deitado de costas e em tantas décadas de vida, jamais conseguiu dormir deitado de costas, só de lado, sempre com o corpo voltado para a porta do quarto, pronto para revidar rapidamente qualquer ataque, a exata postura que Gregor Samsa Filho mantém enquanto dorme, sendo esta, por sinal, a única característica que ambos possuem em comum.
  No sonho, o inseto tenta desvirar-se uma, duas, três, dezenas de vezes “…antigamente tanto poder, agora onde meus olhos sem catarata, minhas patas vigorosas, minhas mãos que curvavam o mundo e as gentes à vontade… terrível, a mais terrível das coisas a velhice…” e de novo e de novo tenta desvirar-se, esforço infrutífero.
  Gregor Samsa, pai, ignora o axioma dos insetos “Uma vez de costas, para sempre de costas”, conhecido de todos: pré-históricos, contemporâneos, velhos, moços, gigantescos, mínimos. O fato de conhecê-lo e de, por conhecê-lo, ter que admiti-lo sem reservas nem contestações, impede qualquer um de tais invertebrados de entregar-se a especulações de natureza metafísica, como causas primeiras e últimas que o confortem na posição inexorável de pernas para o ar quando, por mero instinto de sobrevivência, debate as próprias patas à exaustão, tentando recuperar a postura com a qual os viventes costumam andar pelos caminhos do mundo. O fato de conhecer aquele axioma impede o mesmo invertebrado de abandonar-se a lamentos, ao contrário de Gregor Samsa, pai, ser de exceção em sua espécie, com o único pensamento a martelar-lhe a cabeça “que pesadelo, que dor nas costas”, ente apavorado com a perspectiva da longa noite de insônia que o aguarda dentro deste sonho de inseto velho.
  

  Acorda, de repente, com o quarto inundado de Sol, as patas todas no chão, as antenas eretas, a visão perfeita “que maravilha, foi só um sonho, sou de novo inseto forte, jovem”, e esmaga a barata que dormia recostada no rodapé. 

1964, LEMBRANÇAS dos PORÕES pela editoria

Sem trégua, órgãos de segurança travaram embate sangrento com opositores do regime
À sombra de Prá Frente, Brasil – 90 milhões no embalo dos tricampeões e do milagre econômico –, os órgãos de segurança travavam um embate sangrento e sem tréguas com os opositores do regime.
Na virada dos anos 60 e 70, Carlos Marighella e Carlos Lamarca eram os guerrilheiros mais procurados do País. Ousados, conduziam com destemor, idealismo e armas pesadas duas poderosas facções, a Ação de Libertação Nacional (ALN) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Assaltos a bancos – para financiar suas atividades –, seqüestros de embaixadores e outras autoridades – para exigir a libertação de companheiros aprisionados pelas forças regulares – eram praticados em série por Marighella e Lamarca, por isso eleitos “inimigos públicos”.
Marighella morreu crivado de balas na noite de 4 de novembro de 1969, emboscado pelo delegado Fleury na Alameda Casa Branca, ainda uma rua sem requinte dos Jardins. Após telefonema a uma livraria da Rua Bento Freitas, foi atraído para um encontro com padres dominicanos, que nunca apareceram. A polícia política o esperava.
Lamarca caiu na tarde de 17 de setembro de 1971. Quando os agentes o alcançaram, encontraram um homem debilitado pela fome, o corpo estirado ao pé de uma árvore no sertão da Bahia. O legista Charles Pitex contou “mais de 40 tiros” no cadáver do capitão do Exército que abandonou o 4.º Regimento de Infantaria, em Quitaúna, para se alistar nos quadros da VPR.
Condenado por traição às Forças Armadas e pelo desvio de um caminhão com armas e munições, Lamarca foi submetido a breve interrogatório, sem a solenidade e os ritos de augusta Corte, antes de ser fuzilado na localidade de Pintada, município de Ipupiara.
Relatório oficial transcreve trechos do diálogo entre um oficial e o guerrilheiro, à beira da morte:
– Você é Lamarca?
O terrorista ficou em silêncio. Seu algoz retirou do bolso uma foto de Lamarca, comparou-a com o rosto do homem subjugado e repetiu a pergunta:
– Sim, sou Lamarca.
– Como é o nome de sua amante?
– Yara (Yara Iavalberg, morta pelas forças de repressão um mês antes, em Salvador).
– Sabe o que aconteceu com ela?
– Suicidou-se, não é?
– Morreu. Onde está a sua família?
– Em Cuba.
– O que você acha disso?
– Sei quando perco.
– Você é traidor do Exército.
Confidencial – Parte da história dos anos de chumbo está contada na exposição Cotidiano Vigiado, da Pinacoteca de São Paulo. É um rico acervo de fotos e documentos produzidos pela repressão. Por décadas esses papéis permaneceram protegidos pela rubrica “confidencial”.
Desde que o governador Mário Covas mandou abrir os segredos dos porões, a coleção de obras da repressão tornou-se pública. A documentação está sob guarda do Arquivo do Estado que, em conjunto com a Universidade de São Paulo, resgatou detalhes de uma época em que a censura predominava.
Não por acaso, os painéis da exposição ocupam metade do quarto andar de um prédio espaçoso no Largo General Osório, no centro – erguido no começo do século passado, o edifício de tijolos vermelhos e janelões altos foi o olimpo da repressão, sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops).
Ali ficou encarcerado, já nos idos de 1980, um metalúrgico da Indústria Villares, enquadrado na Lei de Segurança Nacional por ter instalado o novo sindicalismo no Brasil. Luiz Inácio da Silva – presidente Lula, 22 anos mais tarde –, ficou preso 32 dias no Dops, então sob comando do delegado Romeu Tuma, hoje senador.
No Dops trabalhou Sérgio Fernandes Paranhos Fleury, delegado de Polícia de carreira, laureado e aclamado como “herói” depois que comandou o cerco e a execução de Marighella.
Reverenciado pelos generais, dedicava-se de corpo e alma na caçada obstinada a comunistas e terroristas. Não fugia a um entrevero, orgulhava-se de ter sido o autor de “pelo menos um” dos quatro disparos que derrubaram o Número 1 do terror, espremido no banco traseiro de um Fusca.
Na madrugada de 1.º de maio de 1979, às vésperas da anistia ampla, geral e irrestrita de João Figueiredo, o delegado Fleury morreu em Ilhabela, Litoral Norte. Morte banal, mas inesperada – suas circunstâncias até hoje são contestadas pela esquerda, que imaginava ver Fleury cortado por uma rajada de metralhadora.
Ele perdeu o equilíbrio, quando saltava do barco de um amigo para Adriana I, sua lancha. Caiu no mar e morreu afogado, no apogeu da carreira.
O legista Harry Shibata, ícone da repressão, não submeteu o corpo à necropsia por considerar que a causa da morte estava definida. O sepultamento de Fleury foi uma cerimônia grandiosa, digna de chefe de Estado.
Shibata ganhara notoriedade quatro anos antes, quando assinou o laudo de autópsia do jornalista Wladimir Herzog, morto nas dependências do Departamento de Operações Internas (DOI), braço operacional do antigo II Exército. O legista endossou a versão dos militares: suicídio.
Chamado para depor sobre “atividades criminosas ligadas ao PCB”, Herzog, então com 38 anos, diretor-responsável do Departamento de Jornalismo da TV Cultura, compareceu ao DOI. Eram 8 horas da manhã, 25 de outubro de 1975. Às quatro da tarde, o corpo foi encontrado em uma cela. O comando do Exército divulgou nota oficial: “(…) Encontrado morto, enforcado, tendo para tanto utilizado uma tira de pano.”
Em outro trecho da nota: “As prisões até hoje efetuadas se encontram rigorosamente dentro dos preceitos legais, não visando a atingir classes, mas tão-somente salvaguardar a ordem constituída e a segurança nacional.”
Em outubro de 1978, a Justiça Federal responsabilizou e condenou a União a indenizar Clarice Herzog, viúva do jornalista.
Ibiúna – A repressão também apontou suas metralhadoras para o movimento estudantil, que tinha em José Dirceu um de seus líderes. Em ação espetacular – era 12 de outubro de 1968 –, 255 soldados da Polícia e 80 agentes do Dops invadiram o sítio Murunda, em Ibiúna, e acabaram com o 30.º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). Oitocentos estudantes foram encarcerados no Presídio Tiradentes. Para o Dops foram levados os principais dirigentes do movimento, entre eles Dirceu, Vladimir Palmeira e Luís Travassos.
Nove anos depois, em setembro de 1977, a tropa-de-choque entrou em cena, desta vez para uma operação no campus da PUC, onde se realizava o Encontro Nacional de Entidades, preparatório ao Congresso de Reconstrução da UNE. O resultado: 900 estudantes capturados, quase 100 fichados no Dops.
A operação foi ordenada pelo então secretário da Segurança Pública, coronel Erasmo Dias, hoje vereador paulistano pelo PP. Bombas incendiárias faziam parte do arsenal dos invasores da Pontifícia – pelo menos cinco estudantes sofreram queimaduras graves.
Financiamento – Quando a luta armada recrudesceu, ainda nos anos 60, os órgãos de segurança passaram a contar com o apoio de uma organização – formada por civis e militares –, financiada por empresários, batizada Operação Bandeirantes (Oban). As primeiras ações da Oban, que agrupava efetivos do Dops, do Exército e agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI), ocorreram em junho de 1969, numa reação à onda de seqüestros.
Em setembro de 1968, no Rio, o comando integrado da ALN de Marighella e o MR-8, que havia surgido da dissidência estudantil do Partido Comunista Brasileiro (PCB), capturou o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick – em troca da liberdade do diplomata, foram soltos 15 prisioneiros políticos. Um mês depois, a Ação executou o capitão americano Charles Chandler, que havia servido no Vietnã e estaria no Brasil em missão da CIA.
Em março de 1970, a VPR de Lamarca seqüestrou o cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi – devolvido após libertação de 4 prisioneiros políticos.
A criação da Oban, segundo relatório reservado da Coordenação de Informações e Operações da Secretaria de Segurança, tinha a finalidade de “integrar para metodizar, sistematizar e ter mais força para combater a subversão.”
 

FAUSTO MACEDO
TEMPO GASTO À TOA

A memória da repressão, exposta no velho prédio do Largo General Osório, revela como os arapongas gastavam tempo à toa com bisbilhotagens, preparando longos e enfadonhos relatórios. Em 29 de janeiro de 1973, o primeiro delegado assistente do Dops, delegado Tácito Pinheiro Machado, encaminhou informe ao Serviço Secreto e à Divisão de Ordem Política: “Consta que Fernando Henrique Cardoso, teólogo e professor universitário, vêm orientando o jornal Opinião, bem como o Partido Comunista Brasileiro.”
Outro relatório, de 2 de fevereiro de 1976, com o timbre confidencial, destacava: “Compõe, com Ruth Corrêa Leite Cardoso e Leôncio Martins Rodrigues, também professores do Departamento de Ciências Sociais, o grupo que lidera o movimento esquerdista em toda a faculdade. Ruth é esposa do professor Fernando Henrique, da USP, aposentado pelo AI-5.”
De novo, Tácito Machado: “Consta que Alberto Goldmann, deputado, está com uma equipe de arquitetos e engenheiros no Litoral Norte para estudar o plano do presidente na construção de casas populares pelo BNH com a finalidade de fazer críticas.”
José Serra mereceu severa vigilância, por isso: “José Serra, ex-líder estudantil, fez em 1970 inúmeras viagens entre Santiago e Montevidéu com despesas pagas pelo esquema Miguel Arraes-Almino Afonso, no sentido de infiltração no setor estudantil do Brasil.”
O sepultamento de Wladimir Herzog, em outubro de 1975, foi acompanhado de perto pelos agentes secretos: “No enterro de Herzog foram notadas, além das pessoas citadas no relatório de hoje, dia 28, as seguintes: Horácio Ortiz, Alberto Goldman, Ruth Escobar, Fernando Faro, Júlio Lerner, Raul Cortez, Juca de Oliveira.” (F.M.)
 

UMA BOMBA E UM MASSACRE

D ois episódios violentos, um no Rio, outro em São Paulo, marcaram as derradeiras ações dos organismos de repressão. O massacre da cúpula do PC do B na Lapa e a farsa do Riocentro, em Jacarepaguá, deixaram muitas dúvidas, que permanecem sem explicação.
Os comunistas capitularam ao amanhecer de 16 de dezembro de 1976, em uma casa simples de dois cômodos e cozinha da Rua Pio XI. As forças de segurança mantinham o reduto do PC do B sob vigilância havia 15 dias. Ao final da operação, três dirigentes máximos da organização estavam mortos: Ângelo Arroyo, Pedro Pomar e João Batista Franco Drumond.
 
Segundo a versão oficial, a operação visava “a segurança nacional”. Os comunistas teriam reagido à bala, de acordo com nota do II Exército – informação contestada pelos familiares.
Menos de 5 anos depois, na noite de 30 de abril de 1981, uma bomba explodiu dentro de um Puma com chapa fria, no estacionamento do centro de convenções Riocentro. O sargento do Exército Guilherme Pereira Rosário morreu. O capitão Wilson Chaves Luís Machado, gravemente ferido.
Os dois militares, agentes do DOI, estavam “em missão de informações” no Riocentro, segundo afirmou, na época, o então comandante do I Exército, general Gentil Marcondes Filho. No local estava programado um show promovido pelo Centro Brasil Democrático – vinculado ao PCB –, em homenagem ao Dia do Trabalho.
Cerca de 20 mil pessoas lotavam o Riocentro. Dez minutos depois da explosão no Puma, outra ocorreu na subestação de força. Os peritos encontraram no carro dos militares outras duas bombas, “intactas e desativadas”.
O coronel Job Lorena de Sant’Anna, que conduziu o inquérito militar sobre o atentado, concluiu que a bomba tinha sido colocada no Puma por “pessoas não identificadas”. O capitão Machado e o sargento Rosário foram apontados como “vítimas de um atentado de autoria desconhecida”.
Segundo o IPM, as bombas teriam sido obra de “terroristas de esquerda ou de um grupo de direita chamado Comando-Delta”. Um ano depois de encerrar a apuração, Sant’Anna foi promovido a general-de-Brigada. A farsa do Riocentro foi desmentida pelo general Newton Cruz, em depoimento à Câmara. Cruz afirmou que a ação foi obra dos militares. O general chefiava o SNI no Rio. Disse ter sido informado sobre o atentado uma hora antes.
Antes do massacre da Lapa e o Riocentro, entre 1972 e 1974, a repressão exterminou cerca de 60 guerrilheiros no Araguaia, ao Sul do Pará, onde se havia instalado um núcleo do PC do B liderado por Oswaldo Orlando da Costa, o negro Oswaldão. Quase dois metros de altura, formado em engenharia na Tchecoslováquia, ele foi eliminado por um camponês a quem pedira alimento – na verdade, seu matador estava a serviço do Exército. (F.M.)

REVISTA ” O CRUZEIRO” de 1950, A COR DE SÃO PAULO – pela editoria

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Guilherme de Almeida  
Poetas estrábicos – um olho em Londres, outro em São Paulo – têm cantado esta cidade em toda a gamma do cinzento. Vêem cinza neste céo de redoma que guarda a fuligem dos bairros trabalhadores, cinza nesta garôa bohemia, cinza nestes asphaltos e nestas pedras, cinza nestes telhados de ardosia, cinza nestes cerebros tristes. Cinza: côr do tédio, côr do spleen. E concluem: São Paulo é melancólico. É Bugres, em cujos canaes de nenuphares doentes Rodembach cantou e morreu como um cysne…
Mas – ah! – o ponto de vista desses Jeremias daltonicos do Parnaso é baixo demais para estas colinas historicas espetadas de fura-céos. Pégaso, que elles cavalgam quando querem descortinar, julgar e lamentar, está velho e pesado: o seu vôo parnasiano não passa da primeira cornija de granito da cathedral gothica… Se, em vez do cansado Bucephalo alado, tivessem a coragem e o espirito de domar um avião, e, principalmente, se não fossem assim tão vesgos, ao olharem, lá de cima, de uma altura sufficientemente moderna, a sua cidade cá embaixo, de certo mudariam de opinião. E se possível a um sêr timido e rachitico ficar alegre a 800 metros de altura, teriam os bons hypocondriacos um sorriso claro de satisfação. Curados do seu daltonismo e da sua neurasthenia, ficariam sabendo que São Paulo não é cinzento: São Paulo é vermelho. De um vermelho fôsco de tijôlo.
A cidade que constróe uma casa de duas em duas horas, a cidade que se estende e se avoluma e sóbe, num record assombros, a capital da terra rôxa, veste, para os olhos limpos e entendidos que sabem vêr, uma “toilette” que Lanvin ou Vionnet descreveriam assim: “Vestido de esporte em Jersey ‘brique dégradé’, cinco tons…”
“Brique” – côr de construcção. Côr dos cubos de terra cosida que se apinham, das telhas acolhedoras que se imbricam, dos vergões que o progresso abre nas glébas uteis, da poeira que erguem na estrada as modernas bandeiras de tractores e caminhões… Côr activa do trabalho, côr alegre de construcção. Côr com que o sol edifica o dia e fabrica a noite. Tijôlo – côr de São Paulo…
 

A NOITE SERÁ DEVAGAR poema de charles bukowski

bem, aqui estou eu
de novo
ouvindo as boas e velhas
músicas
de novo,
sentindo tristeza,
a boa
tristeza
à moda antiga
em que as lágrimas
não chegam
a sair.
bom.
ouço mais um pouco.

a mente pode
consumir quantidades
mágicas de
memória
enquanto  a noite se
desdobra
noite adentro,
enquanto outro charuto
é acesso,
como se pode ficar
terrivelmente amuado
quando velhas
músicas seguem-se
uma às
outras,
rostos são
lembradas,
rostos jovens,
 como fatias novas de uma
maçã,
estão mortos
agora,
quase todos
eles
mortos
agora.

a aparente
beleza e
a aparente bravura,
se foram.

sentado aqui
permitindo que meus
melhores sentidos
sejam diluídos pela
melancolia,
um  homem
velho,
lembrando
de novo,
olhando de cima
a baixo o bar imaginário
cheio de assentos
vazios,
pensando naquela
criança com os loucos
olhos
vermelhos
que sentava lá
enchendo o copo e
enchendo e enchendo e
enchendo
de novo
ao ponto da
imbecilidade,
agora lembrando,
ouvindo
de novo,
permitindo a idiotice
entrar
de novo,
somos todos
idiotas para sempre
idiotizados
para sempre.
alegremente.
agora.

A ORIGEM DA PÁSCOA pela editoria

A origem da Páscoa

A palavra “Páscoa” tem origem hebraica (Pessach) e significa passagem.
Considerada, essencialmente, a Festa da Libertação, a Páscoa é uma das festas móveis do nosso calendário, vinda logo após a Quaresma e culminando na Vigília Pascal.

Páscoa Cristã

Celebra a passagem de Jesus, da “morte para a vida”. A ressurreição também simbolizando um novo começo.
Páscoa é outra ocasião ligada à gastronomia, em que a conduta Cristã de não se comer carnes vermelhas no período serve como estímulo para que peixes, notadamente o bacalhau, sejam as estrelas de cardápios criativos ou tradicionais.

Páscoa Judaica

É a principal festa do judaísmo, que comemora a libertação dos hebreus do Egito pela passagem do mar Vermelho. Durante uma refeição solene, em família, come-se o Cordeiro da Páscoa e o pão sem fermento, o matzá. O pão sem fermento retrata a situação vivida pelos judeus que como estavam em fuga, não tinham tempo para esperá-lo crescer.

Como se determina a data da Páscoa?

A Páscoa é uma das festas móveis do nosso calendário, vinda logo após a Quaresma e culminando na Vigília Pascal. A Páscoa acontece no primeiro domingo depois da lua cheia, que ocorre no dia ou depois de 21 março (a data do equinócio).

Porém, a data da Lua Cheia não é a real, mas a definida nas Tabelas Eclesiásticas. A igreja, para obter consistência na data da Páscoa definiu, no Conselho de Nicea em 325 d.C, a Páscoa relacionada a uma Lua imaginária – conhecida como a “lua eclesiástica”.

Ovo de Páscoa

O ovo é considerado a mais perfeita embalagem natural. Em diversas culturas também simboliza o começo do universo. Os sacerdotes druidas escolheram o ovo como símbolo de sua seita. Outra corrente assegura que o ovo é símbolo pascal inspirado no costume chinês de colorir ovos de pata, para celebrar a vida que deles se origina.

Ovos eram cozidos e comidos durante os festivais do antigo Egito, Pérsia, Grécia e Roma. Coloridos, eram presenteados para celebrar a chegada da florida primavera, depois do inverno branco no Hemisfério Norte.

Estas culturas tinham o ovo como emblema do universo, a palavra da suprema divindade, o princípio da vida.
Acredita-se que os missionários e os cruzados trouxeram para a Europa Ocidental o costume de presentear com ovos. Na época medieval, eram pintados de vermelho para representar o sangue de Cristo.
Os cristãos adotaram esta tradição e o ovo passou a ser o símbolo da tumba da qual Jesus ressuscitou.

Ovos de chocolate começaram a aparecer no século XVII. Ovos de plástico recheados de ovos de chocolate ou bombons surgiram na década de 60.

Coelho da Páscoa

O coelho simbolizando a Páscoa também tem origem anglo-saxônica e pré-cristã – simboliza a fecundidade.

Lebres e coelhos eram associados à abundância da nova vida, após um inverno de ao-coelho-da-pascoa1525r-81254.jpgprivações. Na verdade era uma lebre, que já nasce com os olhos abertos e não um coelho que simbolizava a Páscoa.

Desde a antiguidade a lebre, cuja gestação dura apenas um mês, era a representação da Lua, que neste mesmo espaço de tempo passa da escuridão da Lua Nova ao brilho da lua Cheia.

A última Lua cheia após o equinócio de inverno determinava a data da Páscoa. Também de acordo com as lendas, o coelho de Páscoa era um belo pássaro que pertencia à deusa Eostre e, um dia, transformou-se. Como no âmago – continuava pássaro, o coelho continuava a construir seu ninho e o enchia de ovos.

JÚPITER: CONQUISTA DA GALÁXIA – FESTIVAL DE TEATRO

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JÚPITER:  CONQUISTA DA GALÁXIA.

 

A Ópera de Arame não chegou a sua lotação máxima na estréia de ‘Júpiter: Conquista da Galáxia’, na noite de quinta-feira (20). Mas as gargalhadas que tomaram conta do teatro-ponto turístico durante a apresentação do único grupo estrangeiro presente no festival, a companhia japonesa Condors, foram mais que suficientes para preencherem o espaço.
Dançando, os condores parecem uma boy-band ao dobro em seus ‘gakurans’ – uniformes pretos para meninos das escolas japonesas. As coreografias do fundador da companhia, Ryohei Kondo, que também entra em cena, são vibrantes, espontâneas e leves, repletas de movimentos aéreos e aparentemente elaboradas a partir das músicas que as embalam – em sua grande maioria, pérolas do rock de todos os tempos (‘Paradise City’, dos Guns n’Roses e ‘Do You Remember Rock’N’Roll Radio, dos Ramones, encerram a noite).
Com a ciência de que a maioria dos bailarinos não possui formação em dança – antes de entrarem para o Condors, grande parte dos integrantes atuava em outras áreas, como Filosofia, Artes Plásticas e Publicidade – o trabalho coreógrafico de Kondo torna-se ainda mais interessante. É incrível (e um tanto quanto engraçado) notar como cada um dos condores interpreta os movimentos independentemente de coordenação motora, porte ou jeito pra coisa. Todos dão o máximo de si e fica perceptível ao público como eles se divertem em cena.
Estruturado em esquetes humorísticas intercaladas por coreografias (ou vice-versa), ‘Júpiter’ é deboche do início ao fim. Não faltam referências à cultura de consumo em massa – hilária a cena em que dois astronautas tomam Coca-Cola e comem yakisoba de cabeça pra baixo, puro pastelão! Televisão e cinema também não são poupados. O inocente ‘Vila Sésamo’, na versão japonesa vira o desbocado ‘Vila Suja-Me’, esquete em que três integrantes dublam um tosco show de marionetes com texto todo em português, com forte sotaque nipônico, é claro. Até o capenga Ronaldo Fenômeno dá as caras em ‘Júpiter’. Para interpretá-lo, um dos atores mais rechonchudos da trupe surge em cena pintado de marrom, com peruca afro, uniforme da Seleção Brasileira, mancando e com um gigantesco curativo no joelho, fazendo a platéia chorar de tanto rir.
Se a intenção é ir ao teatro, entender o espetáculo do início ao fim sem precisar perguntar nada para a pessoa sentada na poltrona ao lado e voltar para casa com as bochechas latejando de tanta risada, ‘Júpiter’ é a opção ideal.
Juliana Girardi

GERALD THOMAS e RAINHA MENTIRA

Rainha Mentira é cancelada

Gerald Thomas não virá ao Festival de Curitiba. A assessoria do festival assumiu a responsabilidade pela ausência do diretor, devido a um erro de logística que impossibilitou sua viagem de Nova York para Curitiba a tempo de cumprir seus compromissos aqui.
As conseqüencias são os cancelamentos da palestra Gerald Thomas e seu Teatro, que aconteceria hoje, e do espetáculo Rainha Mentira, que seria encenado junto a Terra em Trânsito, neste sábado (22) e domingo (23), no que foi chamado Mundo Gerald Thomas. Apenas Terra em Trânsito, montagem que põe em cena uma cantora lírica e um cisne, será apresentada.
Quem já comprou ingresso para a palestra pode trocar pelo evento de amanhã, às 16 horas, com a produtora de dança Mayumi Nagatoshi, de Tóquio, ou receber de volta o valor pago.
Se algum dos espectadores que já garantiram seu ingresso para o Mundo Gerald Thomas preferir não assistir a apenas Terra em Trânsito, também pode devolver o ingresso e ter o valor ressarcido.

blog do festival – por email.

QUANTO CUSTA MORRER? por márcio salgues

A morte pode ser boa – desde que não seja a nossa, claro! Afinal, no capitalismo, mesmo a morte tem uma tabela de preços e, com algum investimento, pode-se obter algum lucro com ela. O descanso eterno de um finado pode variar de 50 reais, no caso dos indigentes bancados pelo serviço público a 120 mil dólares, no caso de um serviço mais sofisticado de congelamento, por exemplo. Vamos por partes:

No congelamento, chamado de criogenia, o defunto tem todo o líquido do corpo drenado e substituído por um outro líquido não congelante, sendo depois imerso em nitrogênio líquido, onde permanecerá a espera de uma “cura” para a morte – que a ciência obviamente não descobrirá -, e o sujeito possa ser descongelado, para descobrir que o mundo continua a mesma droga e cometa suicídio. Li recentemente que, nos Estados Unidos, uma família visita regularmente um parente congelado, inclusive comemorando seu aniversário com bolo e velinhas. Só não dá para desejar o “… muitos anos de vida”.

Outra empresa desenvolveu um processo para a confecção de diamantes a partir das cinzas do ente querido, que passa por uma espécie de purificação, a uma temperatura altíssima, até que se obtenha o diamante sintético.

Para os aficionados em internet, uma funerária no Peru lançou um cemitério virtual. Depois de “sepultado”, pode-se encontrar uma biografia do defunto, ver fotos, etc. Há até sala de bate-papo (deve ser uma sala de bate-papo assombrada). Custa 120 dólares para que a alma do finado vague em paz pelo ciberespaço por três anos.

Há também uma galeria de arte que oferece quadros e esculturas confeccionados também com as cinzas do falecido e, finalmente uma empresa que propõe depositar essas cinzas em uma pequena esfera de cimento e depositá-la no fundo mar. A intenção é criar uma mórbida espécie de coral artificial à medida que se acumulem as tais esferas. São as maravilhas que o mundo moderno nos proporciona. Não sei como os homens conseguiram viver, ou melhor, morrer durante tantos séculos simplesmente usando os métodos tradicionais. Se você for curioso o suficiente, encontrará tudo isso na internet, com fotos e calendários dos eventos agendados.

É obvio que esses serviços não são oferecidos no Brasil. A classe média ainda pode optar pelos serviços dos crematórios. Mas, para os mais pobres, que cedem ao chamado do crime organizado, resta a “desova” num matagal ou à beira de uma estrada qualquer. Também já é possível dispor dos serviços de algumas funerárias que oferecem “Planos-Caixão”. Os associados destes planos ainda têm direito a desconto em salão de cabeleireiro, lojas, restaurantes, revendedoras de gás, auto-escola, etc. Mas o que se oferece ao povão mesmo é o bom e velho paletó de madeira, o que pode não durar muito tempo dadas às implicações ecológicas.

Há alguns meses li em O Diário de São Paulo uma matéria falando sobre a aprovação, pela Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Estado, de um Projeto de Lei que proíbe o uso de madeira na confecção de caixões. A explicação, de acordo com o projeto, é que a confecção de uma única urna requer a derrubada de três árvores, destruindo 12 metros quadrados de floresta. A multa pelo descumprimento da lei, de acordo com o projeto, é de 1.000 UFIRs. Como a notícia não dava mais detalhes, suponho que se prevê então que os defuntos passem a ser sepultados aos montes, em grandes valas coletivas, como os nazistas faziam com os judeus na segunda guerra. Aliás, isso que aliviaria o problema da superlotação dos cemitérios nos grandes centros urbanos, que, do que jeito que anda, logo vão se tornar em imensas favelas funerárias. Quem sabe o Stedille organize um Movimento dos Mortos Sem Terra (MMST), incentivando a invasão dos cemitérios privados ocupados pela burguesia, com grandes áreas improdutivas.

O que me incomoda mesmo é que tudo isso reforça a impressão de que, mesmo no além-túmulo, existe uma enorme desigualdade social que só será resolvida quando nosso presidente passar desta para uma melhor e criar um programa “Inferno Zero”, que dará um basta no abismo que separa o céu do inferno e o paraíso seja para todos – com três refeições diárias, claro. Mas é importante que antes disso ele faça uma reforma ministerial, já que até o “Fome Zero” continua no zero. E o atual ministério anda como uma bando de baratas tontas, salvo as exceções. Porque se for assim, até no mundo dos mortos as almas vão se revoltar e começar a gritar “Fora Lula!”.

Mas, sábio como é, ele apaziguará os ânimos com alguma parábola do tipo: “Companheiros, primeiro vamos colocar a casa em ordem. Os meus antecessores transformaram isso num inferno. E o Inferno é como o Brasil: é um sofrimento eterno para o povo. Mas aqui tem muito mais vantagens: não tem FMI, não tem ALCA, não tem gente passando fome, o índice de criminalidade é zero, ninguém morre em acidentes rodoviários e não adianta ser corrupto, pois não existe dinheiro. Além do mais o regime aqui é socialista. Todo mundo come o mesmo pão que o chefe amassou”.

Bom, mas enquanto isso não acontece e como sou precavido, já penso em financiar o meu cantinho em suaves parcelas pagas em 120 meses.

Raul Seixas tinha razão: “… Tem que pagar pra nascer; tem que pagar pra viver; tem que pagar pra morrer… tá tudo errado, tá tudo errado…”.

MEU PAI ESTÁ com ALZHEIMER e agora? por roberto goldkorn

Meu pai está com Alzheimer.
Logo ele, que durante toda vida se dizia “o Infalível”.
Logo ele, que um dia, ao tentar me ensinar matemática, disse que as minhas orelhas eram tão grandes que batiam no teto.
Logo ele que repetiu, ao longo desses 54 anos de convivência, o nome do músculo do pescoço que aprendeu quando tinha treze anos e que nunca mais esqueceu: esternocleidomastóideo.

O diagnóstico médico ainda não é conclusivo, mas, para mim, basta saber que ele esquece o meu nome, mal anda, toma líquidos de canudinho, não consegue terminar uma frase, nem controla mais suas funções fisiológicas, e tem os famosos delírios paranóicos comuns nas demências tipo Alzheimer.
Aliás, fico até mais tranqüilo diante do “eu não sei ao certo” dos médicos;
prefiro isso ao “estou absolutamente certo de que…”, frase que me dá arrepios.
Há trinta anos, não ouvia sequer uma menção a essa doença maldita.
Hoje, precisaria ter o triplo de dedos nas mãos para contar os casos relatados por amigos e clientes em suas famílias.
O que está acontecendo?
Estamos diante de um surto de Alzheimer?
Finalmente nossos hábitos de vida “moderna” estão enviando a conta?
O que os pesquisadores sabem de verdade sobre a doença?
Qual é o lado oculto dessa manifestação tão dolorosa?

Lendo o material disponível, chega-se a uma conclusão: essa é uma doença extremamente complexa, camaleônica, de muitas faces e ainda carregada de mistérios.
Sabe-se, por exemplo, que há um componente genético.
Por outro lado, o Dr. William Grant fez uma pesquisa que complicou um pouco as coisas.
Ele comparou a incidência da doença em descendentes de japoneses e de africanos que vivem nos EUA, e com japoneses e nigerianos que ainda vivem em seus respectivos países. Ele encontrou uma incidência da doença da ordem de 4,1 para os descendentes de japoneses que vivem na América, contra apenas 1,8 de japoneses do Japão.
Os afro-americanos vão mais longe: 6,2 desenvolvem a doença, enquanto apenas 1,4 dos nigerianos são atingidos por ela.
Hábitos alimentares?
Stress das pressões do Primeiro Mundo?
Mas o Japão não é Primeiro Mundo?
Não tem stress?
A alimentação parece ser sem dúvida um elo nessa corrente, e mais ainda o alumínio. Segundo algumas pesquisas, a incidência de alumínio encontrada nos cérebros de portadores da doença é assustadoramente alta.
Pesquisas feitas na Austrália e em alguns países da Europa mostraram que, em ratos alimentados com uma dieta rica, o sulfato de alumínio (comumente colocado na água potável para matar bactérias) danificou os cérebros dos roedores de forma muito similar à causada nos humanos pelo Alzheimer.
Pesquisas do Dr. Joseph Sobel, da Universidade da Califórnia do Sul, mostraram que a incidência da doença é três vezes maior em pessoas expostas à radiação elétrica (trabalhadores que ficavam próximos a redes de alta tensão ou a máquinas elétricas).
Mas não param por aí as pesquisas, que apontam a arma em todas as direções.
Porém, a que mais me chocou e me motivou a fazer minhas próprias elucubrações foi o estudo das freiras.
Esse estudo, citado no livro A Saúde do Cérebro, do Dr. Robert Goldman, Ed. Campus foi feito pelo Dr. Snowdon, da Universidade de Kentucky. Eles estudaram 700 freiras do convento de Notre Dame. Na verdade, eles leram e analisaram as redações autobiográficas que cada freira era obrigada a escrever logo ao entrar na ordem.
Isso ocorria quando elas tinham em média 20 anos. Essas freiras (um dos grupos mais homogêneos possíveis, o que reduz muito as variáveis que deveriam ser controladas) foram examinadas regularmente e seus cérebros investigados após suas mortes.
O que se constatou foi surpreendente. As que melhor se saíram nos testes cognitivos e nas redações – em termos de clareza de raciocínio, objetividade vocabulário, capacidade de expressar suas idéias, mesmo apresentando os acidentes neurológicos típicos do Alzheimer (placas e massas fibrosas de tecido morto) não desenvolveram a demência característica da doença.
Ou seja, elas tinham as mesmas seqüelas que as outras freiras com Alzheimer diagnosticado (e que tiveram baixos escores em testes cognitivos e na redação), mas não os sintomas clássicos, como os do meu pai.
A minha interpretação de tudo isso: não temos muito como controlar todos os fatores de risco apontados como os vilões – alimentação, pressão alta, contaminação ambiental, stress, e a genética (por enquanto). Mas podemos colocar o nosso cérebro para trabalhar.

COMO?
Lendo muito, escrevendo, buscando a clareza das idéias, criando novos circuitos neurais que venham a substituir os afetados pela idade e pela vida “bandida”.
Meu conselho: é para vocês não serem infalíveis como o meu pobre pai; não cheguem ao topo nunca, pois dali, só há um caminho: descer.
Inventem novos desafios, façam palavras cruzadas, forcem a memória, não só com drogas (não nego a sua eficácia, principalmente as nootrópicas), mas correndo atrás dos vazios e lapsos.
Eu não sossego enquanto não lembro do nome de algum velho conhecido, ou de uma localidade onde estive há trinta anos. Leiam e se empenhem em entender o que está escrito, e aprendam outra língua, mesmo aos sessenta anos.
Não existem estudos provando que o Alzheimer é a moléstia preferida dos arrogantes, autoritários e auto-suficientes, mas a minha experiência mostra que pode haver alguma coisa nesse mato
Coloquem a palavra FELICIDADE no topo da sua lista de prioridades: 7 de cada 10 doentes nunca ligaram para essas “bobagens” e viveram vidas medíocres e infelizes – muitos nem mesmo tinham consciência disso.
Mantenha-se interessado no mundo, nas pessoas, no futuro. Invente novas receitas, experimente (não gosta de ir para a cozinha? Hum… Preocupante.)
Lute, lute sempre, por uma causa, por um ideal, pela felicidade. Parodiando Maiakovski, que disse “melhor morrer de vodca do que de tédio”, eu digo: melhor morrer lutando o bom combate do que ter a personalidade roubada pelo Alzheimer.

Dicas para escapar do Alzheimer:

Uma descoberta dentro da Neurociência vem revelar que o cérebro mantém a capacidade extraordinária de crescer e mudar o padrão de suas conexões. Os autores desta descoberta, Lawrence Katz e Manning Rubin (2000), revelam que NEURÓBICA, a “aeróbica dos neurônios”, é uma nova forma de exercício cerebral projetada para manter o cérebro ágil e saudável, criando novos e diferentes padrões de atividades dos neurônios em seu cérebro.

Cerca de 80% do nosso dia-a-dia é ocupado por rotinas que, apesar de terem a vantagem de reduzir o esforço intelectual, escondem um efeito perverso; limitam o cérebro.
Para contrariar essa tendência, é necessário praticar exercícios “cerebrais” que fazem as pessoas pensarem somente no que estão fazendo, concentrando-se na tarefa. O desafio da NEURÓBICA é fazer tudo aquilo que contraria as rotinas, obrigando o cérebro a um trabalho adicional. Tente fazer um teste:
– use o relógio de pulso no braço direito;
– escove os dentes com a mão contrária da de costume;
– ande pela casa de trás para frente; (vi na China o pessoal treinando isso num parque);
– vista-se de olhos fechados;
– estimule o paladar, coma coisas diferentes;
– veja fotos de cabeça para baixo;
– veja as horas num espelho;
– faça um novo caminho para ir ao trabalho.

A proposta é mudar o comportamento rotineiro.
Tente, faça alguma coisa diferente com seu outro lado e estimule o seu cérebro.
Vale a pena tentar!
Que tal começar a praticar agora, trocando o mouse de lado?

o autor é psicólogo e escritor.

MENSAGEM SUBLIMINAR NA MÚSICA, backward masking – por flávio calazans

 Palíndromos para patetas?

Muitas vezes sou procurado para falar sobre entidades metafísicas ou mitológicas que supostamente estariam inserindo subliminares na música popular, são os famigerados Subliminares de Satã.

Como cansei de repetir sempre a mesma coisa, vou explicar este mistério pela última vez.

Tudo exige conhecer um pouquinho de História para saber como tudo começou, as origens do problema.

Após a reforma, alguns protestantes na Inglaterra (agora livres da ameaça do Santo-Ofício, Inquisição) passaram a fazer orgias sexuais em ruínas de igrejas católicas, deitando mulheres nuas na mesa do altar e rezando uma tal de “missa negra”; como não sabiam latim (língua na qual os padres católicos oficiavam e oravam) então, pra dar um toque teatral e misterioso de língua estrangeira, os sarristas diziam frases ao contrário brincando com a igreja católica de modo covarde, vilipendiando símbolo religioso (como o pastor que chutou a santa na televisão Record).

E estes ingleses com suas brincadeiras de mau gosto ficavam repetindo blasfêmias, por exemplo: “ Pai Nosso que estás no Céu” seria pronunciado “Uéc on sátse euq osson iap”, que parece mesmo outra língua e impressiona os incautos e tolos que acreditavam ser mesmo um pacto com diabos chifrudos cheirando a enxofre.

Este “samba do crioulo doido” dava um ar de língua desconhecida, profana, diabólica, e com uma música sensual e mulheres nuas, regado a muito vinho e sexo, liberava as culpas dos ingleses reprimidos sexualmente e impressionava os ignorantes que não sabiam do truque de falar invertendo.

Nas histórias em quadrinhos do Batman tem até uma feiticeira inglesinha de meia arrastão e corpete justo, bem sensual, a Zatana, que diz feitiços somente falando as frases ao contrário, zombando desta palhaçada dos ingleses!

Como os adolescentes são muito impressionáveis, e tem uma fase na qual todo adolescente fica revoltado e questiona os valores religiosos dos pais; sabendo desta fase da Psicologia do Adolescente, algumas bandas de Rock da mesma Inglaterra passaram a colocar figuras satanizadas nas capas dos discos de vinil nos anos de 1970, algumas até usando pentagramas invertidos, bruxas, morcegos, e até com nomes de aparelhos de tortura (fase anal-sádica) como Iron Maiden ou missas negras, algo como Black Sabbath ou outros nomes do gênero…

Muito espertas, as produtoras destas bandas passaram a colocar frases invertidas como as das antigas missas negras da mesma Inglaterra gravadas ao contrário nos sulcos dos velhos disquinhos de vinil, estes discos de vinil eram umas bolachas de um tipo de plástico preto duro muito anteriores aos cd’s, que ainda podem ser encontrados em sebos e museus.

Ora, após inserir tais frases ao contrário e prensar os tais discos de vinil, as gravadoras mandavam cartas aos fanzines espalhando o boato que o vocalista da banda tinha morrido de overdose ou num acidente de carro e feito um “pacto de Fausto” com o próprio Diabo em pessoa lá no Inferno, e que voltara a vida com a missão de espalhar estas frases seduzindo a alma dos jovens.. ..risível, teatral, ridículo, algo que só uma mentalidade infantil e reprimida de um estudante escolar da Inglaterra nos anos 1970 poderia acreditar! Os bobinhos adolescentes então ficavam horas girando os discos ao contrário…e ouvindo tais frases, reunindo os amiguinhos espinhudos com acne para ouvir tais frases e fumando escondidos, bebendo cerveja, e outros “horrores pecaminosos” para os pais puritanos ingleses de 1970!

Acontece que os discos tinham sulcos, como degraus, e uma agulha de diamante da vitrolinha ia batendo nestes sulcos enquanto gira o disco…só que virando ao contrário, a agulha bate direto na quina destes degraus-sulcos e isto vai quebrando, os engenheiros de som chamam de ABRASIVO, desgaste, este resultado..e vai lixando os sulcos, o que estraga o disco bem rapidinho, o som vai ficando chiado, apagado, rouco…o que obriga os tolinhos (otários) a comprar outro disco pra substituir o estragado.

Na verdade, então esta história de frases invertidas sempre foi uma estratégia de marketing bem maldosa, sem vergonha, um desrespeito ao consumidor, tirando proveito da ignorância e infantilidade dos crédulos menininhos ingleses.

E deu tão certo que duplicou as vendas, em alguns casos até triplicou!

Foi aí que aconteceu o inesperado; na Inglaterra e principalmente nos EUA havia nos anos 1970 algumas seitas neo-pentecostais supersticiosas cheias de operários migrantes ignorantes oriundos do campo (caipiras), cujos dízimos vinham de apavorar ameaçando os indefesos crentes com o fogo do inferno e com diabos malvados, com os oportunistas prédios das igrejas sempre construídos em favelas e bairros de pobreza, miséria e ignorância da periferia de Londres e depois de Nova York… talvez já chegando até a São Paulo em pleno Século XXI.

Ora, para estes pastores oportunistas esta estratégia de marketing “caiu do céu”, pois tinham mais uma arma para apavorar os ignorantes e extorquir dinheiro-dízimos dos pobres coitados indefesos e crédulos que confiavam nos pastores; agora todas as músicas tinham frases demoníacas e só doando muito dinheiro podiam ficar exorcizados e livres do mal ! Estes aproveitadores faziam seções públicas com suas vitrolinhas portáteis virando os discos de vinil ao contrário… Mas logo acabaram as músicas de heavy metal que tinham mesmo estas frases, o modismo passou, perdeu a graça para os consumidores adolescentes, acabou a novidade e as gravadoras pararam e partiram para estratégias mais criativas.

Como alguns pastores usam consultoria de psicólogos, logo descobriram um modo de continuar enganando os fiéis; pois existe um mecanismo que a Psicologia chama de projeção; a mente humana quer ver coisas conhecidas e seguras, familiares, e força ordem em padrões caóticos…um exemplo é quando estamos olhando as nuvens no céu, e alguém diz – “Olha só, aquela parece um elefantinho, tá vendo? Como não! Olha ali, mais para cá é a tromba, e ali é a perna, viu agora?”

Assim a imagem contagia a percepção, é uma projeção que foi imposta por sugestão, como um tipo de hipnose coletiva, de massas…

A Projeção é tão antiga, mas tão antiga que já era conhecida no Renascimento italiano, o Leonardo da Vinci, Pintor daquele famoso quadro, o retrato da Mona Lisa. No livro escrito por ele, “Tratado da Pintura”, da Vinci explica a seus alunos que prestem atenção nas manchas da parede do quarto antes de dormir e projetem figuras, cavalos, rostos e castelos para que a cada dia possam forçar a ver coisas diferentes na mesma mancha e ir desenhando tudo para treinar a criatividade. Ora, esta projeção acontece também nos sons, se você tocar uma música de trás para a frente e disser que tem uma frase ali, vai predispondo e sugestionando as pessoas, induzindo-as a projetar no som a frase, e se repetir diversas vezes vai convencendo a pessoa; do mesmo modo que o elefantinho nas nuvens do céu. Este processo é chamado de projeção pela Psicologia, e ao induzir outras pessoas a ver-ouvir o mesmo delírio o que ocorre é sugestão. Se tocar então num aspecto sombra, num medo reprimido, inconsciente, um personagem como o diabo, pode ter até histeria de massas; uma atividade irresponsável e perigosa que pode ocasionar linchamentos ou vandalismo, quebra-quebra! Sem falar em até mesmo um surto psicótico numa pessoa predisposta!

Ouvir estas ditas músicas invertidas é um enorme risco à saúde mental e uma irresponsabilidade destes pastores sedentos de dízimos e sequiosos por riquezas e bens materiais a custa de criar traumas e fobias talvez irreversíveis nas suas vítimas incautas.

Com isto, como toda e qualquer música sempre pode ter tudo o que o indutor-pastor desejar, desde culto ao diabo até ordens de suicídio, uso de drogas, homossexualismo, assassinato, adultério, etc. Todo criminoso/pecador poderia dizer que ouviu ou viu uma “mensagem ao contrário” e que foi induzido ao crime por Satã; ou seja, foi forçado, não estava em pleno uso de suas faculdades mentais, não podendo ser responsabilizado pelo crime, devendo ser solto imediatamente sem culpa nenhuma! Segundo a lógica destas seitas neo-pentecostais você pode assassinar todo mundo que desejar, alegar que foi “subliminado”, como eles dizem, que seu livre-arbítrio foi anulado e minado pela frase invertida (que eles erroneamente ou maldosamente chamam de “subliminar” mesmo sabendo que nada tem a ver com a tecnologia subliminar de vender produtos ou serviços que a propaganda usa), e o criminoso poderia então exigir ser exorcizado e posto em liberdade, para depois matar outra pessoa, estuprar, roubar e sempre dizer que ouviu uma música no rádio ou saindo de uma janela quando passava na rua, livre de conseqüências e de responsabilidades…acho que isto incluiria até mesmo, segundo esta mesma lógica, trucidar até seu próprio pastor. Sempre “subliminado” pelo Satã. Os tais maus pastores ingleses chegaram até a batizar estas frases de uma tal de ‘Backward Masking’.

Além de tudo isto, resta explicar tecnicamente que a agulha de diamante da vitrolinha não toca nunca naquela parte de baixo dos sulcos do disco de vinil, não reproduz o som, apenas o faz quando virando o disco ao contrário. Só então surgem as tais frases ao contrário como naquelas brincadeiras antigas das tais missas negras inglesas!!

As frases nunca foram tocadas nem ouvidas. Caso você grave do modo normal noutra fita a música que tem mesmo frase ao contrário, e a toque ao contrário, tal frase nem apareceria.

Ora, se propositalmente, intencionalmente, consciente e deliberadamente rodamos o disco ao contrário, a mensagem não é subliminar, não tem nada de subliminar na medida em que a mensagem é emitida de forma clara, sem subterfúgios? Ou não sabem o que é subliminar ou desejam induzir em erro aos incautos!

Um menino de família crente, adolescente na fase de revoltado, poderia então agora comprar tranqüilamente cd’s de bandas metaleiras com a desculpa de estudar subliminar e pode até mostrar os trechos para os pais, ainda vai inflar o ego ficando com fama de estudioso e defensor da fé. Esta ai a estratégia de marketing: os pais deixam e até incentivam a compra destes discos de vinil (hoje cd’s). Um golpe excelente, muito bem planejado, conhecendo o comprador inglês pateta e panaca; um golpe desrespeitoso, sem escrúpulos nem ética!

Na verdade a tal ‘Backward Masking’ é apenas e tão somente só um criptocódigo, uma mensagem escondida, como um acróstico, aqueles poemas onde a primeira letra de cada estrofe-linha forma o nome da namorada, mas você precisa avisá-la, é um código consciente como os palíndromos, frases que podem ser lidas de trás pra frente como “Roma é amor”, mas repare que o som ficaria diferente, os fonemas seriam outros se estivesse invertida foneticamente. Tudo não passa de um absurdo sem sentido nenhum; e alguns oportunistas podem usar isto para ganhar dinheiro dos incautos que desconhecem isto tudo, aproveitando-se da ignorância alheia.

Aproveitadores que buscam auto-promoção comparecendo a programas televisivos de cunho sensacionalista com suas vitrolinhas e velhos disquinhos de vinil, nunca resistiriam a um exame sério e com o rigor da metodologia científica; com notação fonética das frases por um fonoaudiólogo habilitado, um perito judicial não-engajado ou praticante que professe a seita neo-pentecostal; bem como engenheiros de som e psicólogos especializados em mecanismos de projeção, em sugestão de massas, e em tecnologia subliminar.

O lamentável é que nesta busca desenfreada por donativos e dízimos, certos fanáticos religiosos estejam maculando uma importante linha de pesquisa da Propaganda Subliminar, super-exposição que banaliza e ridiculariza as pesquisas sérias desta tecnologia que ameaça as instituições democráticas e o modo de vida esclarecido e civilizado, pois pregam a intolerância e propositalmente afrontam o direito a liberdade de professar crença religiosa garantido pela Constituição brasileira e pela Declaração dos Direitos Humanos, pois afirmam que todas as religiões afro-brasileiras seriam culto ao demônio, e que a Bíblia recomenda “não deixarás viver a feiticeira”, incentivando a violência, indo contra a paz pública ao insinuar aos crentes que queimem bruxas vivas ou depredem templos afro-brasileiros, ignorando as palavras de Jesus de “Amai-vos uns aos outros” e “Não faça aos outros o que não queres que te façam”, pregando um Deus de ódio, rancor e violência, e não um Deus de amor como pregou a palavra de Jesus . Com isto, o grande público associa a palavra subliminar ao ridículo e à supertição, ao fanatismo religioso mais infantil, ficando desprevenido e fragilizado frente aos verdadeiros abusos que alguns setores da mídia fazem destas tecnologias subliminares.

Existem, sim, tecnologias subliminares no som, em freqüências baixas, quase inaudíveis, mixadas a outros sons em faixas sobrepostas, como explico no meu livro em Sexta Edição que foi uma Dissertação de Mestrado defendida frente a uma banca de doutores (incluindo um Médico Psiquiatra) na USP, que teve nota dez com distinção.

Estas tais frases ao contrário não constam da minha pesquisa científica reconhecida e aceita pela USP, pois nunca foram subliminares, e sim apenas um golpe pega-trouxa que caiu nas garras de oportunistas destas seitas abusivas que envergonham os verdadeiros neo-pentecostais tementes a Deus; estes oportunistas parecem ser um tipo de gente que acabaria trazendo má fama e péssima reputação a todos os evangélicos, que acabam sendo taxados de fanáticos religiosos e ignorantes graças a estes pastores em sua frenética busca de auto-promoção querendo aparecer na mídia a qualquer custo, sem noção de ridículo e do desserviço que prestam tanto à religião séria quanto à ciência verdadeira.

Maiores detalhes das tecnologias de som subliminares VERDADEIRAS no livro:
CALAZANS, Flávio Mário de Alcântara. Propaganda Subliminar Multimídia. 6.edição, São Paulo, Summus Editorial, 1991. (Coleção Novas Buscas em Comunicação, vol.42), página 44, capítulo O Som Do Silêncio.

Exemplos de músicas brincando com o ridículo das frases invertidas:

Estes exemplos podem ser conferidos até com sonoplastias nas centenas de sites anônimos espalhados na internet cujo único e invariável título é mensagem subliminar, basta colocar estas duas palavras em qualquer mecanismo de busca tipo Google ou Alltheweb e conferir.

1) Capital Inicial – Na música “Mickey Mouse em Moscou”, surge uma conversa estranha com ruídos entre Dinho e outro integrante do grupo. Ao se fazer a inversão destas frases dizem que surge:
Hei Tobi, eu acho que eles estão nos espiando…
-Você acha mesmo?
-Yeah, vamos para um lugar mais reservado
-Que tal na Ilha de Malta?
– Why, animal? .
– Hei você aí, escutando, dá um tempo! Cai fora babaca.
-Hahahahaha… .
.
2) Engenheiros do Hawaii -. Na música “Ilusão de Ótica”, quando executada normalmente no trecho ouve-se ” Ih, não roda assim, não gosto que rode assim….”, que provoca e dá claramente a dica direta ao ouvinte, e quando executada ao contrário, alegam que surge: “Por que você está ouvindo isto ao contrário, o que você está procurando, hein?” claramente ridicularizando os fanáticos por inverter todas as músicas que ouvem, aliás, ótimos consumidores que compram tudo o que sai para ouvir ao contrário!

3) Pink Floyd – Na música “Empty Spaces”, quando executada ao contrário, afirmam surgir a voz de Roger Waters falando: “Congratulations, You have just discovered the secret message. Please send your answer to ‘Old Pink’, Care of the funny farm, Chalfont…” (Parabéns, você descobriu a mensagem secreta. Por favor envie sua resposta para o Velho Pink, aos cuidados da engraçada fazenda, Chalfont), o que geraria um excelente cadastro ou mala direta de quantos fãs podem ser localizados para pré-venda de convites de shows, pré-testes de novos discos, etc. Maxi-Marketing, mala-direta com banco de dados, confirmando ser uma estratégia de marketing antiética mais uma vez.

Há inumeráveis exemplos na internet desta palhaçada que seria cômica se não fosse trágica.

Enfatizo um teste: sugiro ao leitor divertir-se ouvindo os chiados e ruídos sem nexo sem ter lido a frase que direciona a percepção antes, para confirmar os mecanismos de projeção e sugestão e falsear a hipótese alucinada dos fanáticos pseudo-religiosos.

Como você viu, uma pessoa inteligente e bem intencionada percebe que nada há de subliminar em discos de vinil (que nem existem mais, já existe o cd e o dvd), tudo foi para promover grupos ingleses como Iron Maiden e Black Sabbath (que mostram diabos desde a capa, título do disco e dentro das letras às claras, explícito e assumido, nada de subliminar escondido ou oculto), divulgando que havia orações ao diabo invertidas nos discos, insinuado em entrevistas a fanzines nos anos 70, os adolescentes na fase de revolta rodavam o disco errado, raspando os sulcos do vinil, estragando o disco aos poucos cada vez que faziam isto, o que os obrigava a comprar outro… logo, era um pega-trouxa. Foi quando alguns neo-pentecostais desejando extorquir dízimos dos seus crentes passaram a divulgar isto gerando uma histeria entre fanáticos religiosos…por um mecanismo da mente humana , projetamos sentido em nuvens no céus (quem nunca brincou disto?) ou manchas na parede, e fazemos o mesmo com som, se ouvir um chiado diversas vezes, vai forçando a fazer sentido, os psicólogos chamam de projeção e os casos reais de frases invertidas feitos por gravadoras não eram subliminares, e sim golpes para vender mais.

Cuidado com estes fanáticos religiosos pseudo-neo-pentecostais , alguns mais exaltados deliram e afirmam até mesmo que um dos Beatles seria um “clone criado por Extra-Terrestres a mando do Diabo”… e ainda pede dízimos e doações para “salvar o mundo” dos “Subliminares de Satã” …se tudo isto não for piada de internet, quem acredita deve ter problemas mentais sérios e precisa procurar ajuda imediatamente com psiquiatras e psicólogos. Este tipo de delírio ou sensacionalismo desacredita pesquisas sérias de pessoas bem intencionadas, antes de entrar nestas fofocas sem base, deve-se pesquisar sobre o currículo de quem faz estas afirmações e exigir provas científicas, evidências verdadeiras.

No site univesitário das Faculdades SEAMA tudo pode ser esclarecido no artigo “Ética e rigor científico: um caso subliminar” de autoria do professor com Mestrado Chris Benjamin Natal.

Este é o segredo e o mistério desvendado do Subliminar Musical, e Ponto Final!

 

WOK toca rufar. foto de marta ferreira. ilustração do site.

EM NOME poema de jorge barbosa filho

do pai
do fumo                               da filha                             da grana
do álcool                 dos espíritos do mundo                 da fama
das drogas do mundo        o êxtase        das modas do mundo
a vagina                             da cama                                  o falo
do coma
dos sonhos do mundo
a foda
da trama
do palco
das máscaras do mundo
a merda
da forma
do fundo
das estruturas do mundo
a mola
da bala
da vala
dos mortos do mundo
o mudo
da muda
do mundo
das flores do imundo
amém…

SONETO da SEPARAÇÃO de vinícius de moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

MÁRIO BENEDETTI: PORQUE CANTAMOS poema de

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel
 
você perguntará por que cantamos
 
se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos 
antes mesmo de explodir a vergonha
 
você perguntará por que cantamos
 
se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro
 
você perguntará por que cantamos
 
cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino
 
cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos
 
cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota
 
cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta
 
cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.

EDITOR FURIOSO, provocações por email

consulta por email:

P: Tenho 20 anos e não transei ainda porque gostaria que a primeira vez fosse com um namorado fixo. O que você acha?

R: Minha primeira  vez também foi com uma namorada fixa. Eu a amarrei na cama!!

FESTIVAL DE TEATRO DE CURITIBA – ARRIBA, CURITIBA!

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A montagem teatral de “Laranja Mecânica”, que lotou o Espaço Cultural Falec em sua estréia anteontem (18), é uma das boas opções do Fringe deste ano.
O diretor Edson Bueno preferiu se guiar pelo livro de Anthony Burgess, mantendo um distanciamento do filme inspirado por ele, de Stanley Kubrick. A escolha foi acertada e coloca em cena o final original, e não aquele que se consagrou no longa-metragem.
Mesmo assim, é nítida a influência do cinema, principalmente, na primeira parte da peça, em que Alex – o ator Dimas Bueno, em seu primeiro grande papel – e seus amigos praticam todo o tipo de violências em cenas de movimentação rápida e transição seca. Os estupros, assaltos e espancamentos, mesmo de mentirinha – os atores não chegam a se encostar – lembram o que foi feito na peça “Educação Sentimental do Vampiro”, de Felipe Hirsch, e provocam um riso constrangido do público, em dilema entre o ódio e a simpatia pelo personagem.
Dimas Bueno não decepciona. Sem nunca sair de cena, imprime em seu corpo as inúmeras emoções, por vezes contraditórias, de Alex. Algumas vezes, no entanto, é difícil distinguir algumas de suas palavras, embora, muitas delas sejam mesmo incompreensíveis, pois são expressões particulares à gangue criada por Burgess.
São méritos também a iluminação de Beto Bruel, em constante diálogo com a encenação; o figurino agressivo e feito, em boa parte, com vinil preto e vermelho, de Áldice Lopes; e as escolhas ousadas do sonoplasta Chico Nogueira.

Annalice Del Vecchio
blog do festival – por email

O LIXO na ARTE de EFIGÊNIA ROLIM

Uma casa para a arte popular

Prêmio federal propicia construção de um museu em homenagem à artista Efigênia Rolim

por ANNALICE DEL VECCHIO

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Museus de arte são uma espécie de “templo”, nos quais o público observa as obras em silêncio, certo? Não se for um museu em homenagem à artista plástica e poeta Efigênia Rolim.

A presença imaginativa e tagarela dessa senhora de 76 anos é parte integrante – e indispensável – da exibição de suas telas, bonecos, objetos e vestimentas feitas de embalagens, tecidos e outros materiais descartados. Ela precisa estar ao lado de cada obra para explicá-las por meio de um verso, uma dança, uma canção. “O pior de tudo é isso”, diz Efigênia, fingindo ser rabugenta.

Pois ela que se prepare para recitar poesia, dançar, rolar no chão, contar histórias. Em breve, a artista popular terá um museu ao seu modo, bem longe das regiões nobres ou centrais da cidade, nos fundos de sua casa, à Rua Alceu José Guadagmim, 71, na Vila Oficinas.

O feito, Efigênia atribui à sua “madrinha das artes”, a artista Kátia Horn. “Ela que pôs a batata quente na mão. Agora, vamos comê-la quentinha”, brinca. Kátia ajudou outra artista, Rejane Nóbrega, a montar o projeto do museu para inscrever, “da noite para o dia”, no Prêmio Culturas Populares, do Ministério da Cultura. Agora põe, literalmente, a mão na massa. “Considero Efigênia uma das maiores artistas da cidade, ela tem muito a dizer não só para a vizinhança, mas para o mundo todo”, diz Horn. 
O projeto foi contemplado e Efigênia recebeu R$ 10 mil para o início da reforma da casa, que será transformada não apenas em museu, mas em lojinha, ateliê, espaço para oficinas e biblioteca. A inauguração do espaço, batizado de A Vida do Papel de Bala, está prevista para o início de maio. “Mas o dinheiro já acabou”, conta Kátia, que, para finalizar a obra, recebe doações de materiais de construção, objetos de decoração e dinheiro dos amigos.

Enquanto a obra não fica pronta, Efigênia se vê louca com os pedreiros que demolem paredes e tiram seus varais do lugar. Em meio ao barulho do martelo de Kátia, que constrói um grande mosaico de azulejos no chão, tenta “bordar isopor” para as telas que serão expostas em uma vitrine, no museu.

Ela mostra a caixa com as peças que já produziu, enquanto fala, sempre em forma de versos, sobre os materiais que utiliza: “Fuxico virou cultura. Melhor do que fuxicar o nome das criaturas”. Ou: “Tudo no mundo tem valor/Você sabia que o homem já borda isopor?”.

Espécie de “câncer que nem na terra apodrece”, o isopor é transformado no suporte em que a artista aplica seus bonecos feitos de restos de materiais que ninguém mais quer. “Não é fácil carregar os restos dos outros”, filosofa a mineira de Abre Campos. Mas, é como ela mesma diz: “O que perdeu valor, põe na mão da Efigênia que vira arte”.
 
DOAÇÃO
• A artista Kátia Horn, que coordena o projeto do museu em homenagem a Efigênia Rolim, pede doações de dinheiro, materiais de construção e decoração e um computador para a biblioteca. Interessados podem entrar em contato pelo e-mail
katia@familiahorn.com.br ou pelo telefone (41) 3272-1578.

RECEBIDO POR EMAIL. 

MAYTÊ CORREA e seu SAMBA de MESA é hoje no WONKA

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…TAPAR os SEXOS e COZINHAR BEM a CARNE! por danielle morreale

Falei com meus botões que os buracos só serviam para prender a elegância. Eu estava certa. Não importa as remendas os retalhos nem o xadrez da roupa. Andar cru e nu é sinal de atropelos na dignidade.
É preciso tapar os sexos e cozinhar bem a carne! O reverso disso é um estado roto. Os preliminares começam no principio da história, como os prefixos, os pontos e também os nascimentos.
Comecei a vida assim, no INdigno ponto da parição. Acordei sem nenhuma veste e minha pele era alvura estatelada nas mãos da genitora. Nasci atropelando o manual de instrução. Fiquei vermelha rápido.

Quando desmamei, aprendi a falar palavrão, não digo palavra grande de baixo escalão, mas de palavras com teor de autenticidade pura. Estava firmando a personalidade fora o mundo de fora.

Criei um parlamento, montei minha comissão. Mas ninguém era suficiente fidedigno com si para levantar bandeira pacífica de uma existência sem vergonha. Eu fui apedrejada desde sempre nas praças da impunidade.

No principio onde tudo era branco fiz logo o cinza-sujo brotar, que era a cor forjada, que escondia das crianças inocentes a verdade pros olhos, que era como um conto de fadas.

Mundo embalado de fumaça. Tive de aprender a ser contorcionista cedo, equilibrando corpos em copos in copa e colossos. Tirando, rasgando, arrancando as embalagens. Sempre com muita sanha.

Em cada desembrulho era um embrulho no estômago. Minhas vertigens começaram aí, ao dar a cara nos lixões, manipulações, doenças desenvolvidas, mentiras e muitas cores escuras.

Quando cresci, pensei que minhas pernas eram grandes para dar rasteira na hipocrisia. Mas não era nada, a hipocrisia é um titã. Difícil, quase impossível, encarar esse duelo.

Depois de alguns tombos e anos, voltei a andar na corda bamba de quando meu corpo ainda pelejava em ser leve. Agora, com peso nas costas, cérebro gelado, cílios resfriados e meus olhos atônitos. Continuo buscando o equilíbrio mesmo zonza.

Ainda, na esperança dos meus músculos sentimentais, de empurrar o peso de uma vida que roda, roda e roda sob um sol aquecido. Persisto. Com minha casca dura e invencível tenho fé dos passos nesse espaço especial.

Abrir as cortinas dessa história milenar, engraçar os prazeres, enganar os desprazeres, encostar-se às gargalhadas e realmente viver sem discriminação na realidade dos desamparados.

Isso pra mim é viver!

PERMUTA DE HÁBITO e AJUDA DE SANTO dois contos de raymundo rolim

Permuta de hábito 

Recebeu o salário magro e entrou no ônibus que passava a umas seis quadras da casa velha e mista – madeira e alvenaria – a qual chamava “seu lar”. Desceu no feio e carcomido ponto, passou no bar costumeiro, pagou um trago aos amigos mais chegados. Falaram sobre futebol, o último jogo da seleção que havia empolgado todo o país. Mastigou qualquer coisa que lhe oferecera um outro e fez uma cara esquisita, pois não havia gostado nada das propriedades impalatáveis daquele diabo daquele negócio. Achou que fosse um rolmops semiconservado Mais por delicadeza que por fome, engoliu, tudo de uma vez, com uma talagada da também intragável cachaça com mentruz, servida contumazmente ao pé do balcão. A ‘branquinha’ funcionou como veículo para que ‘aquilo’ descesse melhor. Sentiu aquele arrepio feio, pensou que fosse adoecer ali mesmo. Pagou ao dono do botequim, despediu-se dos que se achavam mais perto. Aos outros, mais ao fundo, os que jogavam um baralhinho, saudou à distância com a mão agitando o ar e saiu. Um ancião da vizinhança passou cantarolando uma modinha antiga. Animou-se um pouquinho mais com a vida.  Lembrou-se de remoto baile à fantasia e daquela moça de tranças loiras que dançava incrementando o frevo. Somava-se ao fato a graciosidade em que ela se transformava com aquela sombrinha colorida. Um sorriso bobo franziu-lhe os lábios. Rodou a chave no ferrolho da porta. Havia esquecido o rádio ligado desde a manhã quando saíra. “A voz do Brasil” andava a meio caminho. Ouviu ainda o locutor anunciar que no senado da república, um parlamentar do estado de Alagoas acabara de atirar num colega, por engano. Engano! Oras! Como aquela gente podia se enganar tanto se viviam atirando! Gente ruim de mira! Sentou-se à mesa, olhou o jornal do dia anterior que não conseguira ler ainda. Na primeira página estampada estavam os números da mega-qualquer-coisa-lotérica que havia saído para uma única pessoa, e o prêmio era um dos maiores da história, acumulado há várias semanas. Dizia a matéria, que com o dinheiro, daria para comprar apartamentos, um não sei quantos exemplares de aviões, milhares de bicicletas, centenas de carros novos, milhões de vasos sanitários, uma ilha que estava à venda em terras distantes e que sobraria o bastante para não se ter de trabalhar mais em vida. Colocou a mão no bolso interno do paletó. Tirou um papelzinho que guardava já meio amassado, recheado de números e conferiu. Um sorriso grávido afunilou-lhe dessa vez os lábios pensos. Levantou-se da cadeira, foi até o quarto, jogou-se na cama do jeito que estava. Sapatos empoeirados, mãos e dentes por lavar. Fechou os olhos, e antes de adormecer, lembrou-se da primeira coisa que faria pela manhã ao despertar. Iria sim até o velho e insuficiente emprego de contador “do lojinha de Sr. Simon”, o judeu que escapara miraculosamente de um campo de concentração e pediria finalmente a sonhada demissão daquela vida de fastio e ralos prazeres. Começaria por comprar a ilha, e depois um avião, e os apartamentos. Daria de presente para o dono do botequim sujo da esquina e de aluguel escaldante (afeito a baratas que voavam sobre panelas e clientes), aquele prediozinho em que o mesmo morava anos a fio e que nunca lograra êxito como comerciante por estar sempre a beber acompanhando os outros. Aos amigos, permitiria que tomassem lá toda aguardente que pudessem, e também não deixaria que lhes faltasse muita cerveja gelada. E ainda, compraria baralhos novos e os deixaria por debaixo da antiga e pesada porta de aço cheia de dobras e tintas superposta. Desligaria o rádio sobre a pia da cozinha (na eterna ‘Voz do Brasil’ )que já andava a misturar-se com louças empilhadas e talheres por lavar. Logo pela manhã, daria uma grande, grata e justificada banana a Sr. Simon e o mandaria plantar muitas e longas favas na Alsácia! Bocejou e acordou com o sol batendo na vidraça. Ficara-lhe a impressão de um sonho singular, que não sabia mais o que era, e um amargor de algo estragado na boca. E tinha gosto de rolmops mal conservado!   

A ajuda do santo  

Rezou ao padroeiro de devoção uma reza das mais fervorosas desde a primeira e última comunhão. Pediu numa prece sincera que ela voltasse. Afinal, a saudade era já comprida e doída por demais. Jurou várias juras, acendeu velas, curvou-se mais uma vez humilhado ante os pés imóveis da imagem de gesso já meio feiinha e desbotada. Levantou-se meio atordoado. Buscou recuperar-se encostando-se à parede da antiga igrejinha construída por escravos. Assoou o nariz no lenço amarrotado, que já o havia auxiliado no enxugamento de tantas e tão sofridas lágrimas. Prometeu a si mesmo que não mais chegaria tarde e nem se deixaria enredar pelos amores fortuitos das putas de fim de noite, mesmo porque, não havia dinheiro que bastasse. Jurou também que uma vez sanados os problemas mais próximos, desencadearia uma corrente de orações por todos que sofriam de mal de amor. Suas pernas ainda tremiam pelo esforço da genuflexão prolongada em horas contritas. Por fim, se recompôs. Sentiu o coração irrequieto, cheio de nós, de embaraços, de lembranças antigas e sujas. Saiu de perto da pequena capela com uma certeza, um pressentimento de que o seu santo lhe responderia qualquer coisa. Uma sombra de dúvida ainda pairava sobre os seus queixumes interiores e já não sabia ao certo se entendera o recado que lhe fora soprado pela voz tênue e fugidia vinda de dentro do nicho. Talvez proviesse do fundo dos seus pensamentos turvos, embaralhados, confusos, que buscavam a todo e qualquer custo uma solução mágica e adequada para aquele caso que lhe angustiava e trazia inquietações constantes, desmesuradas e que lhe desarrumava eternamente o juízo. Deu alguns passos. Não, não tinha confiança quanto ao rumo a seguir e qualquer um seria bem-vindo. Atravessou a rua, olhou para um e outro lado e já alcançava o meio da pista de rolamento quando pressentiu a frenada forte. Os pneus guincharam; um barulho feio e seco, como de quando um carro bate em algo compacto e mole. A sirene de uma ambulância foi a última coisa que ouviu, bem ao longe, longe, muito longe, cada vez mais distante.  

DAS NUANCES DA LITERATURA e suas MALDIÇÕES por alessandro garcia

Edgar Allan Poe estabelece que a gênese do bom conto deve partir de um efeito único a ser atingido e assim ir acomodando os acontecimentos de forma a satisfazê-lo, insistindo na regularidade e eficiência que deverão manter a atenção do leitor e de um único eixo dramático, não permitindo intervenções, comentários e descrições quando desnecessários. Ele visa a um objetivo único, ímutável, caminha em direção a uma luz sem propósitos de alterações que possam vir a confundir o leitor a respeito da proposta inicial do autor. Poe estabelece uma situação inicial e a partir dela trabalha de forma concentrada situações capazes de criar o suspense no leitor conduzindo-o até o clímax. Para Poe, isto é o necessário para o escritor do conto atingir seus objetivos.

Já Julio Cortázar, no ensaio Alguns aspectos do conto [publicado no livro “Valise de Cronópio”], nos diz que os contos de Tchekov visam apresentar algo que está além do conto em si, tanto antes como depois. Muito além do fato narrado, escondem-se outros fatores que devem ser destrinchados pelo leitor. Utilizando como exemplo o conto “O bilhete de loteria”, onde a tensão está concentrada em Ivan Dmitritchi e sua esposa que imaginam terem ganho o prêmio da loteria. Durante o conto a ação é praticamente nula, apenas com os dois se observando e imaginando o que fazer com o dinheiro, porém quando certificam-se de que não ganharam nada, voltam-se para a realidade. Não há nada além disso se pensarmos de acordo com a teoria de Poe, mas de acordo com o pensamento de Cortázar sobre a obra de Tchekov as coisas se passariam de modo diferente. O que seria, então, esta outra intenção?

Existem subterfúgios diversos, possibilidades mil de se esconder as diversas nuances existentes em um conto. Ou de contá-las da maneira mais fascinante possível, deixando ao leitor o intrincado jogo de revelação sobre o que de fato ele representa. Em uma palestra para escritores cubanos da Revolução, Cortázar discorreu sobre sua maneira de olhar para o conto. Para ele, a função de um conto é quebrar seus próprios limites para ir muito além da pequena história que narra. E neste quesito, a escolha do tema se torna imprescindível como ato de criação. Cortázar defende que o tema deve ser uma condição primordial para o contista esmiuçar sua história de maneira aglutinante e mais vasta que um mero argumento. E para isto, é necessário uma total dedicação e motivação com o assunto a ser retratado, caso contrário, o conto já nasce completamente comprometido. Dedicação, conhecimento – o esmiuçar do tema escolhido, procurando retirar do conto, desde a sua proposta de escrita, todos os diferentes ângulos de análise possível ou apresentar um, deixando para o leitor as possibilidades interpretativas de todos os outros existentes.

E isto vai além de toda a verborragia que perpassa uma produção literária que hoje tem insistido mais nas digressões e no vomitar vazio de palavras, do que no esmiuçar destas diversas possibilidades que Cortázar nos apresenta. A atual safra de contos que tem se apresentado, principalmente através das revistas eletrônicas tão vastas na net, têm apresentado, quase sem novas ousadias, o apego as características dos escritores “malditos”. Não à toa, as suas referência esbarram quase que inevitavelmente em John Fante, Charles Bukowski, Jack Kerouac, Alan Ginsberg, entre outros. Sobre o primeiro, acho peculiar que também sempre esteja inserido no rol da “maldição”. Sua obra prima, Pergunte ao Pó, tão aclamada por Charles Bukowski, apesar de contar com fluxos de memória freqüentes, narração em primeira pessoa e com uma temática comum nestas obras — a busca de sentido pelo personagem título que vaga insone, com pouco dinheiro e intercalando diversas aventuras mundanas pelas noites de alguma grande cidade — a meu ver não pode ser simplesmente comparada com obras como a de seu próprio “discípulo” Bukowski e suas insanas e toscas aventuras repletas de gratuita imersão na quase pornografia e constante embriaguez de seus personagens alter-egos.

Alguns jornalistas e críticos, interessados em fazer um mapa atualizado sobre quem são os escritores da dita nova geração que têm se prestado a perpetuar tal espécime de “categoria literária”, se assim se pode chamar, têm, no entanto, ensacado todos os escritores estreantes como cópias mal disfarçadas uns dos outros.

É notória, no entanto, a constatação de um tipo de literatura atual que, se não totalmente fundamentada nos alicerces da geração dos malditos, têm apresentado elementos que os equiparem em algum ponto a esta literatura evidentemente provocativa de então. Lógico que a literatura como provocação é uma atitude louvável quando não calcada em experimentações já desgastadas e em formas fáceis. O apelo para o estranhamento, como se buscou outrora, deve buscar ao menos o novo para se fazer original e não caricatura de um estilo que, mais do que discriminado como foi na sua primeira geração, hoje tem se convertido em status, grife identificadora. Desta maneira, quem não quer ser maldito?

“POEMAS MAL_DITOS” livro de julio almada – por andréa motta

“Ao ler, eu procuro um respiradouro…Se meu olhar escava entre as palavras, é para tentar discernir o que se esboça a distância, nos espaços que se estendem para além da palavra fim” (Calvino, Ítalo. 1999. Se um viajante numa noite de inverno . Trad. N. Moulin. São Paulo: Companhia das Letras).
 
            O livro Poemas Mal_Ditos, do poeta Julio Almada proporciona efeitos múltiplos. A cada nova poesia, a dualidade dos sentidos aflora, se avoluma e transborda em seus infinitos significados.
            A priori, o leitor mais precipitado, ávido por leituras superficiais, pode achar que o livro é construído em torno de clichês cansados. Mas, não se enganem, é ao contrário, construído com fervor, onde a intertextualidade com seus mestres, encena o jogo das palavras da liberdade e dos signos.
            Em cada verso há um pouco da medula óssea do autor. Suas palavras compõem, decompõem e recompõem sua voz lírica na árdua busca do fazer poético e de si mesmo.  
            A angústia, a dramaticidade e o ar confessional característico de sua poesia, instigam o leitor a uma profunda  e prazerosa inquietude acerca do sentido Vida e Morte na Poesia, sobre seu papel na produção social, enfim sobre a solidão do Poeta.
            Poemas Mal_Ditos, possibilita várias leituras, reflexões e discussões rumo a novas descobertas, exatamente como prevê a epígrafe  de Ítalo Calvino. Trata enfim da necessidade premente de viver Poesia. O mais? Que descubra o leitor!

Andréa Motta  é Poeta, escritora, advogada, membro efetivo do Centro de Letras do Paraná e associada a Academia Paranaense de Poesia.
 
Publicações digitais: Fonte de meus Silêncios mais Profundos, Natureza Íntima e Águas do Inconsciente.
 
Antologias : Antologia Internacional Terra Latina (Projeto Cultural Abrali, Ed.2005), uniVERSOS,  Antologia Poética (Escritores e Poetas – Ed.2005), Pó&Teias (Antologia de Poemas, crônicas e Contos, Ed.2006), Poesia do Brasil, Vol.3 (Proyecto Cultural Sur/Brasil, 2006) e Poesia do Brasil, Vol.5 (Proyecto Cultural Sur/Brasil, 2007) .

poema do livro:

 Um poeta em seu reino dos céus
Tem sempre esse inferno particular:
  Se cortando na sutileza dos véus
Olha no olho do que há para revelar
 
  Vê claro o que claramente oculto
É o mais escondido dos tesouros.
  logo o acusam de estar em surto
ao dançar com a alma dos touros.
 
Chega de promessas do paraíso
  repleto de prazeres artificiais.
Escrevo uma dor ácida e aviso:
  sou o menos morto dos mortais!
 
Vestido com a ousadia nua:
  Como flor de lótus nos funerais.
Quero a tinta que a beleza sua
  E deitar vivo, aonde a vida jaz.

RÉQUIEM (no funeral de minha mãe) poema de jb vidal

tuas mãos quentes me conduziam,
por entre estrelas e abstrações,
sonhavas e sonhei,
sonhei teus sonhos!

ondulações em nuvens negrecidas,
agitavam duas almas distintas,
o tempo, exigia asas resistentes,
confrontos, traumas, decepções,
preencheram os espaços,

a Vida surgia para ser feita,
bela e drástica como lhe cabe!

a experiência teme o descobrir,
os sonhos se deformaram,
penhascos, abismos, trevas,
surgiram dos caminhos percorridos,
soluços e gemidos  da chuva
enlamearam os passos da partida

em meio a mágoas dissolventes dos afetos
fez-se a Estrada!

é doloroso percorre-la,
retornar, refazê-la, recomeçar,
uma, mil, um milhão de vezes
por diáfanos sonhos renegados
em benefício de certezas inexistentes,

suores, dores, sofrimentos,
corpo rasgado, veias latejantes
e a Alma sentada no tabuleiro de xadrez
sorria irônica a indagar “até quando?”

palmo a palmo trilhei,
sonhei, senti, chorei,

Tempestades lavaram sonhos de ontem,
não recordo, esqueci?
são certamente palimpsestos da memória
que um dia voltarão a reclamar vitória
sobre os atendidos, e não se fez!
assim, ando e percorro
minha própria Espiral,
extraio das vísceras a força para ir além-de-mim
enredo-me como o cipó
que une árvores diversas e não sabe de nenhuma,

dói-me estar só,
o silêncio se impõe,
uma névoa seca envolve o caminho…

agora, aqui, ao teu lado,
vendo e sentindo teu cadáver pálido e frio,
ponho sobre as tuas minhas mãos quentes e não aqueço,
recordo as palavras nas estrelas
e penso, se te encontrar:
quem sabe as Almas, de mãos dadas, possam Sonhar!
 

NÃO ME FECHEM AS PORTAS poema de walt withmanm

Não me fechem as portas, orgulhosas
Bibliotecas,
Pois justamente o que estava faltando
Em tuas prateleiras apinhadas,
É o que venho trazer
-mal acabando de sair da guerra,
um livro escrevi:
pelas palavras do meu livro, nada;
pelas intenções, tudo !
Um livro à margem,
Sem nada a ver com os restantes,
E que não pode ser sentido só
Com o intelecto.
Vocês, porém, com seus silêncios latentes,
A cada página hão de estremecer
Maravilhadas.

A MULHER BOAZINHA por martha medeiros / porto alegre

Qual o elogio que uma mulher adora receber?
Bom, se você está com tempo, pode-se listar aqui uns setecentos:
mulher adora que verbalizem seus atributos, sejam eles físicos ou morais.
Diga que ela é uma mulher inteligente, e ela irá com a sua cara.
Diga que ela tem um ótimo caráter e um corpo que é uma provocação,
e ela decorará o seu número.
Fale do seu olhar, da sua pele, do seu sorriso, da sua presença de espírito,
da sua aura de mistério, de como ela tem classe:
ela achará você muito observador e lhe dará uma cópia da chave de casa.
Mas não pense que o jogo está ganho: manter o cargo vai depender da sua
perspicácia para encontrar novas qualidades nessa mulher poderosa, absoluta.
Diga que ela cozinha melhor que a sua mãe,
que ela tem uma voz que faz você pensar obscenidades,
que ela é um avião no mundo dos negócios.
Fale sobre sua competência, seu senso de oportunidade,
seu bom gosto musical.
Agora quer ver o mundo cair?
Diga que ela é muito boazinha.
Descreva aí uma mulher boazinha.
Voz fina, roupas pastel, calçados rente ao chão.
Aceita encomendas de doces, contribui para a igreja,
cuida dos sobrinhos nos finais de semana.
Disponível, serena, previsível, nunca foi vista negando um favor.
Nunca teve um chilique.
Nunca colocou os pés num show de rock.
É queridinha.
Pequeninha.
Educadinha.
Enfim, uma mulher boazinha.
Fomos boazinhas por séculos.
Engolíamos tudo e fingíamos não ver nada, ceguinhas.
Vivíamos no nosso mundinho, rodeadas de panelinhas e nenezinhos.
A vida feminina era esse frege: bordados, paredes brancas,
crucifixo em cima da cama, tudo certinho.
Passamos um tempão assim, comportadinhas, enquanto íamos alimentando um
desejo incontrolável de virar a mesa.
Quietinhas, mas inquietas.
Até que chegou o dia em que deixamos de ser as coitadinhas.
Ninguém mais fala em namoradinhas do Brasil: somos atrizes,
estrelas, profissionais.
Adolescentes não são mais brotinhos: são garotas da geração teen.
Ser chamada de patricinha é ofensa mortal.
Pitchulinha é coisa de retardada.
Quem gosta de diminutivos, definha.
Ser boazinha não tem nada a ver com ser generosa.
Ser boa é bom, ser boazinha é péssimo.
As boazinhas não têm defeitos.
Não têm atitude.
Conformam-se com a coadjuvância.
PH neutro.
Ser chamada de boazinha, mesmo com a melhor das intenções,
é o pior dos desaforos.
Mulheres bacanas, complicadas, batalhadoras, persistentes, ciumentas,
apressadas, é isso que somos hoje.
Merecemos adjetivos velozes, produtivos, enigmáticos.
As “inhas” não moram mais aqui.
Foram para o espaço, sozinhas.

FICCIONÁRIO (DO) DEMO por darlan cunha

 
Todo mundo sabe o que me disseste e me fizeste naquele então de fios e pavios, taras e sombras desvairadas rua abaixo, avenida acima, em todo mundo os ecos do embate percutem ainda a sua graça e a minha desgraça (já que em cada qual vive um consenso, diferentes ópticas fecham e abrem de/graus).
Fuga é risco, ficar é risco, certeza de embotamento, e me fui de ti, me fui aos passadiços de plástico e aos finos tratados de oncologia, semínima e abemolada, comi pela primeira vez um rabo de porco (porca ?), provei do acinte de alguém mais esperto do que o que eu pensava ser comigo a vida, assim me vi mais além de mim, do que pretensamente era meu. Oral é o mundo, menos que visual, eis que a saciedade, o entupir-se se faz e nos faz modernos, e só assim se pode dizer que se é fruto da modernidade, da maré negra ou ovos do padrão… qualquer coisa serve para absorver a atenção geral e sobre ela jogar mais anuências, valores estreitos cada vez mais entre máximo e mínimo, sim, toda manhã vou ao mercado onde se compram mentiras, no dizer do poema, vou lá refinar-me em algo pois na praça tudo é mais barato e cordial, as finíssimas senhoras das avenidas, diz a canção bairro velho, avivam com suas mengas e nós o ficcionário do demo. Todo mundo sabe de que ovos a serpe se acerca.

CORTANDO A PRÓPRIA CABEÇA poema de tonicato miranda

Sentei-me para conversar com o Sr. das Vergonhas Baças
fui a ele me queixar de um partido que se acreditava puro
e ele passou uma tarefa de terror, dura pra caraças

Pediu-me para enviar cartas aos cemitérios
convocando todos a uma reunião em Curitiba
tarefa a cumprir sem medos ou mistérios

Pediu-me para enviar cartas a Marx, a Rosa de Luxemburgo,
a Gramsci, Sartre, Maiacovski, a Lênin, a todos depois do muro
que as enviasse a todos os campos santos, em todos os burgos

“Fale do que acontece por aqui, diga: se levantem os mortos ”
fale “dos malas ” e ” das malas”, dos corrompidos, dos desgovernos
diga tudo, não esqueça um traço ou vírgula, mostre todos os tortos

Num boteco, na esquina da Brigadeiro com a Saldanha Marinho
sentei-me com o Sr. das Vergonhas Baças e montamos uma lista
lista para cortar cabeças, deixar o que está muito gordo bem fininho

Cortamos os juros extorsivos e as propinas dos apaniguados
fomos cortando tudo, mas principalmente cortando cabeças
cortamos até os que se associam para conquistar cargos

De uns cortamos as orelhas, para que não ouçam mais as palavras
de outros cortamos as pernas, para não irem além de um quarteirão
de alguns cortamos o olhar para somente verem a escuridão e suas larvas

E fomos cortando narizes, cabelos, braços, línguas e membros
mas está tudo corrompido, ou segundo os “hapers” “está tudo dominado”
É preciso sanear a sociedade, as comunicações e até os mamulengos

Então o Sr. das Vergonhas Baças disse ser preciso
muito mais sacrifícios, para poder sanear a moral e as lutas
era preciso morrer tudo e todos, sem espelho a qualquer narciso

Propôs que cortasse minha própria cabeça e a depusesse na mesa
foi assim que com pavor e solidariedade cortei-a com faca afiada
meu corpo assistiu a última lágrima descendo na face, quanta tristeza

Ainda ficamos ali, eu – meu corpo, o Sr. das Vergonhas Baças e a cabeça
os três a conversar, a organizar a grande conferência das mortandades
quem sabe poderei ter, numa outra maioridade, de volta minha cabeça?

Será que não escreverei mais?
são tantas as amarguras e tristezas, ai dos meus ais
ai das lutas brigadas, minhas vitórias corrompidas

ENVELHECER poema de mário quintana

Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

BRAZIL CARTOON…..este é o BLOG!

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                                             http://www.brazilcartoon.com/

…TALVEZ DEUS PUDESSE… por joanna andrade

O silencio na vida em um segundo, mortal, sobrepõe-se às vivas vozes,
Tão veloz, cala o mundo como num apagar de luzes em noites de verão,
 Pela expectativa da luz se intensifica com o inesperado suspiro vindo do alheio.
O silencio cala tanto que emudece a alma, que por si morre aniquilada pela surpresa da própria escuridão,
 É  tão rápido enquanto em vida, mal dá noticias do lado de lá, deixa no ar um fúnebre cheiro de amor a vagar,
Se pudesse ser escutado, longamente, talvez Deus pudesse ter a chance de, pelo menos uma vez, ser ouvido.
O silencio é o prenuncio do nascer em um grito mudo de dor,
Amedronta a solidão, chora o desespero, assusta o coração,
Dá vida à monstruosas indagações.
O silencio nada mais é do que o sopro da ante-vida,
um instrumento surdo  em desatino,
um piscar de olhos remanescido
intacto.

DESDÊMONA poema de bárbara lia

Olhou-me como nuvem,
a sugar os vapores
da minha alma.
Por que ele é meu deus,
guardei-o em um lago
onde iago
jamais chegará.

O TIBETE X CHINA (hoje) por walmor marcellino

pastoreio das almas

Ignoro como os bonzos do Tibete (igual maneira aos bonzos em qualquer geografia?) disciplinam sua dominante sociedade de crentes e ensinam trabalho, lucros e perdas ao cidadão das alturas. Tampouco sei se a China tem direitos políticos, históricos e etno-sociais, sobre o “topo do mundo”, a Xangri-lá ou “O Paraíso Perdido”, descoberto por James Hilton (o que lhe valeu o Prêmio Nobel e muitas esterlinas e dólares), o que sei é de coisas ininteligíveis no topo do globo.
Sei que a imagem pública do Dalai Lhama e do Príncipe Rainier me pareciam iguais (até que um começou a viajar pelo mundo e o outro se foi para outra viagem) e embora o jogo no Tibete e em Mônaco sejam diversos: um negocia com almas e o outro (negociava!) com fichas, mas ambos apostando que azar dos homens é sorte.
Não sei se há um bom casamento entre o capitalismo e o pastoreio das almas por esse mundo de vários deuses; como ignoro se o socialismo e as almas têm feito bom conúbio ou se um convele o outro pelos fundamentos. Sei é que Karl Marx disse que o pastoreio de almas é parte de alienação dos homens; enquanto Max Weber afirmou que o calvinismo é sobrevalente gênero do capitalismo, assim como nos fundamentos todo o protestantismo (quiçá o judaísmo). Entretanto, vai daí que o sistema econômico-financeiro faz sociedades e as doutrinas apenas as abençoam.
Para o imperialismo, o mercado é que faz as almas; por isso enquanto negocia com os chineses enfatiza a obra missionária do Dalai Lhama em nome das liberdades privadas, e não só as públicas porque estas não pagam espórtulas e não se oferecem ao controle da mente. Assim se compreende que não é o atraso social e político que atrai as canhoneiras colonialistas para realizar obras edificantes em nome da “civilização”; é o firme controle das almas e a possibilidade de mercado; coisas indissolúveis.
Os norte-americanos “Wallwoorld” (pai e filho), missionários (e profetas naturalmente! Não me lembro se do Missouri) publicaram o livro “Armagedon” (sobre religião, professias e petróleo) e eu os cito porque aquele país é a pátria da “congruência civilizatória”; o que dá de imbecil como George W. Bush, Dick Chaney, Condoleezza Rice – nunca sei se ela já perdeu um l, um e ou um z – dá de artista de rua, escola, igreja ou de clube. Por isso é o maior mercado mundial e está a ensinar civilização para acabar com xamãs, abaquistas, trompeteiros e almuadens que atormentam e corrompem indivíduos nos países de pequeno ou caótico mercado.
O Tibete não vale, entretanto, apenas pelo mercado; a geopolítica de encurralar inimigos e concorrentes é uma só, global.

ilustração do site. foto sem crédito.

ARAÇÁS poema de edu hoffmann

 
 
O sol se põe
no horizonte azul
do teu olhar
 
         recolho araçás
         no canto dos teus lábios
 
nem junho é
porém te vejo
em meus balões coloridos

MARCOS KONDER REIS lança o livro de poemas UM PRIVILÉGIO de PÁSSAROS

 

veja aí maneco, recebi agora, avisa a tua turma de santa catarina. quem enviou foi a laurinha vasquez.

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ABSTRACIONISMO POÉTICO poema de manoel antonio bonfim

 
Andar nas asas do tempo
Por caminhos distantes
Esse é o meu passatempo
De andarilho errante
 
Em cada palmo de espaço
Que piso sem direção
Encontro em cada passo
O fogo da minha paixão
 
Eu queria ser um poeta
Para conversar com Deus
Não para traçar metas
Pra falar dos sonhos meus
 
Que sinto na mente vazia
As chamas da minha emoção
E um mundo de poesia
Brotando do meu coração
 
Sigo minha caminhada
Mesmo sem um rumo estético
Tangendo pelas estradas
Meu abstracionismo poético

AQUILO QUE VOS FECHA A VIDA poema- tradução de jasmin druffner

Nun schlafet süß,
Biss der himmel euch gebe
Dass euer leben schließt.
Die liebe lebe.
   

tradução: 

Adormeçam num sonho lépido
Até o momento que o céu lhes dê
Aquilo que vos fecha a vida;
O amor que se vive e se vê.
 

HERMETO PASCOAL o músico/compositor – por fernando jardim

Hermeto Pascoal,  piano, sax alto, bateria, escaleta, flauta, violão, contrabaixo, bombardino, sanfona, percussão.
Nascido em Município da Lagoa da Canoa de Arapiraca em 22 de junho de 1936, o “Galego do seu Pascoal”, como costumavam chamá-lo, começou a se maravilhar com os sons ainda hermeto-pascoal-foto-hermetopascoal.jpgmuito menino na serralheria de seu avô, batendo em pedacinhos de ferro que pendurava em um varalzinho. Aos sete anos começou a tocar sanfona de sete baixos e flautas rudimentares feitas por ele mesmo. Um ano mais tarde ganhou de seu pai uma sanfona de 32 baixos com a qual começou a tocar em bailes da região, acompanhado do irmao José.
Aos quatorze anos mudou-se com a família para Recife, onde se apresentava em programas de rádio, e aos vinte anos foi contratado pela Rádio do Comércio onde acompanhava calouros e comandava uma orquestra. Lá formou com seu amigo Sivuca – também albino, e com quem costuma ser confundido – um trio chamado O Mundo em Chamas.
Em 1958 trocou Recife pelo Rio de Janeiro, onde tocou por três anos acompanhando outros músicos, em programas de rádio e no grupo Regional de Pernambuco do Pandeiro antes de mudar-se para São Paulo.
Tocou em casas noturnas como a Stardust, onde tocava piano de maneira conservadora seguindo os requisitos da casa. Nos intervalos ia ao banheiro estudar flauta. Logo formaria o Trio Sambrasa no qual tocava piano ao lado de Airto Moreira na bateria e Claiber no baixo. Mais ou menos na mesma época, Airto o convidou para integrar o trio do qual fazia parte, o Trio Novo, com Théo de Barros no baixo e Heraldo do Monte no violão. Com a entrada de Hermeto Pascoal surgiu o conjunto que abriu trilhas para a música instrumental brasileira, o fantástico e desbravador Quarteto Novo, com propostas novas, misturando ritmos nordestinos com arranjos jazzísticos sofisticados. Infelizmente, dessa formação só foi lançado um álbum, Quarteto Novo, que vergonhosamente segue sem uma reedição em CD. O quarteto participou do terceiro festival da Record, acompanhando Edu Lobo na canção vencedora de festival, “Ponteio”.
O grupo se dissolveu com a partida de Airto para os EUA em 1969, e dois anos mais tarde a convite do mesmo Hermeto seguiu para Nova Iorque, onde se apresentou para uma platéia seleta que incluía Joe Zawinul, Miles Davis, Wayne Shorter e Gil Evans. Miles ficou muito impressionado com Hermeto e o convidou a participar de um concerto em Washington D.C. do qual resultou o álbum Live Evil, descrito por alguns como “assustador”. O disco traz duas composições de Hermeto, “Capelinha” (Little Church) e “Nem Um Talvez”. Na primeira Hermeto faz um duo de assobio com o trompetista. Hermeto conta que, nas horas vagas, quando não estavam tocando, Miles e ele costumavam lutar boxe. Um ano mais tarde, ao voltar dos EUA, havia trocado o corte militar por uma vasta cabeleira.
De volta ao Brasil, seguiu com suas pesquisas musicais, revolucionando e se renovando a cada novo disco. Lançou em 1973 o disco A música livre de Hermeto Pascoal e regressou três anos mais tarde aos EUA para gravar o álbum Slaves Mass, que conta com a participação de dois porcos – que, segundo Hermeto, tiveram cada um o seu microfone, e os cachês devidamente pagos. Em 1978 fez uma apresentação histórica no Festival de Jazz de Montreux, registrada no álbum duplo Ao Vivo em Montreux.
Ao longo de toda a carreira, a criatividade de Hermeto tem se mostrado inesgotável. Valendo-se de todo e qualquer tipo de objeto capaz de produzir sons – além dos instrumentos convencionais, como saxofone, bateria, piano, escaleta, flauta, violão, contrabaixo, bombardino, sanfona, que toca magistralmente – Hermeto Pascoal é uma força da natureza. Esse caráter experimentador lhe valeu o apelido de “bruxo dos sons”. Em Calendário do Som (2000), chegou ao requinte de criar uma composição diferente para cada dia do ano, homenageando assim todos os habitantes do planeta. Essa obra sintetiza bem o caráter de Hermeto: uma pessoa cordial, espontânea e generosa, para quem a música não é um mero ganha-pão, mas sim um sacerdócio.

“O TESTAMENTO do SR. NEPOMUCENO” de germano almeida / resenha – por helena sut

“Mas neste momento penso que era sobretudo um homem que foi apanhado pelas coisas. Desembarcou descalço em São Vicente e não só comprou sapato como enriqueceu. Mas acho que ele mesmo nunca soube como nem por quê, embora seja verdade que era inteligente e tinha uma sorte danada. Mas penso que sempre receou voltar ao Napumoceno de São Nicolau.”
Germano Almeida

A metáfora não poderia ser mais adequada, um testamento cerrado, carta sigilada que, após a morte do protagonista testante, confidencia seus deslizes, dá nome à filha ilegítima e revela uma vida sem as máscaras impostas ou assumidas na trajetória do próspero homem de negócios.

Sr. Napumoceno da Silva Araújo, solteirão de hábitos ponderados e muitas manias, deixa como legado uma carta de trezentos e oitenta e sete laudas, escrita dez anos antes de sua morte. A vida do homem que enriqueceu com a venda de dez mil guarda-chuvas num país onde a seca impera e que continuou a aumentar seu patrimônio com o “sistema de compra-venda-lucro, nada de caixa, razão e outras leviandades afora as estritamente necessárias”, é descerrada pela filha Maria da Graça, fruto de suas investidas na mulher da limpeza, dona Chica, no tampão da secretária estilo Luís XV. Graça, instituída herdeira universal, busca nas palavras e nos pios legados deixados à ex-amante Adélia, ao primo Carlos e à empregada dona Eduarda, conhecer o pai póstumo, seus amores e seus ódios.

Numa narrativa abarcante, o escritor cabo-verdiano Germano Almeida nos apresenta os mundos paralelos, as hipocrisias sociais, a ingratidão e a luta desesperada do menino de pés descalços que vai para São Vicente fazer a vida, enriquece e, apesar de suas conquistas, passa a vida no limbo das classes sociais sem reconhecer a sua origem no pobre menino oriundo de São Nicolau ou ser aceito pela elite local nos clubes aristocráticos.

O sobrinho Carlos foi morar com o tio ainda menino. Decepcionou-o quando não mostrou aptidão pelos estudos na juventude, pois o Sr. Napumoceno considerava que somente os livros e a escola faziam os homens. Contudo, quando teve oportunidade, demonstrou um excelente tino comercial, ampliando e “desburocratizando” ainda mais os negócios do tio. Carlos recebeu a carta com o último pedido do morto: ser enterrado com a marcha fúnebre de Beethoven e o atendeu mesmo tendo sido afastado da condição de membro da família. Sr. Napumoceno deixou-lhe como legado apenas um pardieiro para sua velhice.

A relação ambígua marca a extensão da gratidão e do ódio. Carlos conhecia a história do tio, como ele também fora um menino descalço vindo de São Nicolau. Este fato era suficiente para o Sr. Napumoceno perceber a zombaria em seu olhar e tê-lo sempre sob escorreita vigilância.

Sr. Napumoceno gostava da pobreza envergonhada, de ser o protetor das várias pessoas que batiam em sua porta e lhes rendiam os frutos de uma eterna e humilde gratidão. O homem de negócios bem-sucedido precisava ser generoso para se redimir de ter enriquecido com a desgraça de milhares de cabo-verdianos.

Assim como a vida do homem revelada após a sua morte e com a tentativa dos órfãos de buscarem motivos para idolatrarem ou desmitificarem a história de sua ancestralidade, são as obras dos governos que só mostram seus verdadeiros legados depois de terminados e com cartas sibiladas que muitas vezes só serão compreendidas após muitas buscas e testemunhos.

Germano Almeida alinhava com ironia e sarcasmo uma narrativa ímpar que prende a atenção do leitor do primeiro ao último capítulo.

A POLUIÇÃO dos RIOS por manoel bonfim ribeiro

“O planeta Terra está aqui para existir, se não cuidar ele vai embora”.
                                                                     De um sertanejo.

Dentre os bens da natureza que Deus nos ofertou ,a ÁGUA, é indiscutivelmente, o mais importante deles. A água é a fonte da vida. È ela que mitiga a sede da humanidade .Umedece e irriga os campos produzindo o alimento que aplaca a fome dos povos. Gera a energia que movimenta as industrias e ilumina as nossas noites. Faz flutuar os corpos, cujas embarcações transportam nossas riquezas pelos mares, oceanos e pelos rios sinuosos da Terra.  A água é um insumo de grande transversalidade, está presente em todos os programas de desenvolvimento
O homem, ao tempo em que se beneficia da água, a linfa mais preciosa da natureza, ele a polui e a depreda com grande loucura. A poluição grassa em quase todos os rios da Terra ,causada pelo homem civilizado e pelo homem inculto .Poluir água e desperdiça-la é uma cultura da própria humanidade.
A poluição teve seu começo nos primórdios de uma civilização ainda rudimentar. Inicialmente, com excrementos humanos, lixos e animais em decomposição. Depois, com o aumento da população, o desenvolvimento industrial e o advento da irrigação, o teor de poluição começou a ter maior crescimento causado pelos esgotos sanitários, pelos metais pesados, pelos pesticidas e agrotóxicos.
A poluição hídrica passou a se constituir num problema cada vez mais preocupante para os destinos da humanidade. No ano 2.006 tivemos no Brasil, segundo Atlas do Saneamento, IBGE, 1.430.000 casos de doenças por veiculação hídrica. Pelo volume e quantidade de água disponível, jamais os habitantes do Planeta sentiriam sede se não fora a poluição generalizada, a distribuição deficiente e desequilibrada e o grande desperdício existente . A nossa água é a mesma de sempre, nenhuma gota emigra para outro planeta.
Entenda o processo de poluir: As bactérias aeróbias auto-depuram a água mantendo o seu oxigênio, mas havendo excesso de poluentes surgem as bactérias anaeróbicas que fazem desaparecer o oxigênio e esta água entra em processo de putrefação, transformando rios e lagos em gigantescas cloacas. Estas águas, ricas em componentes químicos provocam verdadeira hecatombe
na vida aquática dos diversos corpos líquidos. Mede-se, facilmente, a qualidade das águas de um rio pela intensidade da sua fauna potâmica.
Vejamos diversos exemplos no mundo:
O indiano considera o GANGES o seu rio sagrado, o rio da espiritualidade com seus banhos milagrosos mas os esgotos de Nova Delhi, Benares, Patna e Calcutá são lançados “in natura”, nas suas águas peregrinas. O TÌBERE, de um passado rico de histórias, abrigou nas suas águas os grandes imperadores romanos e até o Incitato, cavalo de Calígula, banhou nas suas águas remansosas. Hoje, este rio está totalmente poluído na sua travessia pelo centro de Roma, recebendo diariamente 450 toneladas de dejetos dos seus três milhões de habitantes, despejando suas águas no Mar Tirreno. O PÓ, também na Itália, em cujo vale os pracinhas brasileiros, na ll Guerra Mundial, derrotaram os alemães no Monte Castelo, é um rio totalmente poluído, apesar das grandes áreas irrigadas nos seus polderes, próximo ao delta, no Mar Adriático. O TÂMISA, o rio mais importante do Reino Unido, berço de Oxford e Londres, rio dos grandes passeios fluviais de príncipes, reis e rainhas, tornou-se um rio fétido e morto pela incúria dos seus habitantes. O empenho do Governo britânico e da sociedade organizada, o fez ressuscitar, sendo , hoje, o rio mais límpido que deita suas águas no Mar do Norte. O RENO, que atravessa quatro paises, o rio mais navegado do mundo, tendo, a cada instante, 2000 embarcações singrando no seu dorso, em 1986 tornou-se um rio morto e mortífero, causado pelos desastres químicos do parque industrial de Basiléia. As águas, do seu terço superior até a sua embocadura no Mar do Norte, em Roterdan, ficaram totalmente vermelhas de mercúrio, a fauna potâmica desapareceu e a fauna alada arribou-se. Em 2 anos de trabalhos técnicos e ecológicos incessantes, a vida aquática ressurgiu. O dia 15 de março tornou-se feriado numa pequena aldeia alemã quando se pescou no rio o primeiro salmão. O DANÚBIO, navegável da Áustria ao mar Negro, rio da nobreza européia, com seus 300 afluentes, atravessando sete paises ao longo do seu curso, foi atingido pela poluição orgânica, pelos agrotóxicos, e esgotos, por diversas vezes. Abriga um riquíssimo acervo histórico nas suas veias, sobretudo em Viena, com o gênio de Strauss e outras luminares da música clássica. Enriquecem mais ainda, o seu Vale, as lutas napoleônicas que aí se desenrolaram. Hoje ,despoluído, chega ao mar Negro formando um belíssimo delta. Além de um bonito labirinto de canais, há uma grande variedade de pássaros aquáticos e um refúgio de vida selvagem, em áreas pantanosas, que embelezam toda a ambiência, já em terras da Iugoslávia. O SENA carrega toda a história da França com Paris, sua cidade Luz. Rico de passado, este rio recebeu as cinzas de Joana D’Arc e assistiu a barbárie da noite de São Bartolomeu.  Viu, no Século Xll, o drama de Abelardo e Heloisa e as janelas de Gustave Flaubert se abriam para os seus meandros. Rio de um belo passado histórico sofreu forte poluição de agrotóxicos desde suas nascentes em Borgonha, berço do vinho, até seu estuário no Mar da Mancha. O rio HUDSON, 650 km de extensão, o mais belo dos EE.UU, está literalmente poluído com curtumes e usinas nucleares. Este é o rio que banha a estátua da Liberdade em New York e no seu vale situa-se a Academia Militar de West-Point onde estudaram Dwight Eisenhower. e Douglas  Mac Arthur.  O TIETÊ, via de acesso á penetração dos bandeirantes pelo interior do País, nasce bem próximo ao litoral e se adentra pelos sertões sulistas. Capta ,ainda, boa parte dos dejetos de São Paulo e continua poluído. O Governo já gastou mais de dois bilhões de dólares, mas o problema continua. A capacidade que tem a população de poluir o rio é maior que tem o Governo de despoluí-lo. O MADEIRA, maior afluente direito do Amazonas, que banha a cidade de Porto Velho, está poluído pelo mercúrio no amálgama para a extração do ouro. Num pequeno subafluente deste grande rio, o JUMA que despeja suas águas no ARIPUANA há uma nova corrida do ouro que está provocando um grande desnudamento do seu vale aliado a uma forte poluição pelo mercúrio. TOCANTINS, dos seus 407 municípios da bacia, somente 27 (6,6%) têm esgotos tratados. No PARNAÍBA apenas 2,2%.(IBGE). Triste retrato. BEBERIBE E CAPIBERIBE são eternamente poluídos pelo vinhoto dos canaviais pernambucanos. O ITAPICURU na Bahia , está contaminado pela cromita que desce, via Jacurici, das fraldas da Chapada Diamantina. O SUBAÉ, no Recôncavo Baiano, está contaminado pelo chumbo O TUBARÃO da cor de café é o resultado das minas de carvão de Santa Catarina com mais de 90 anos de exploração. O rio dos Sinos, o vale das indústrias de couro do Rio Grande do Sul, recebe cerca de 100 mil m³ de poluentes por dia e a sua vida aquática está exaurida. A BAIA DA GUANABARA recebe as águas de 35 rios das encostas circundantes. Belos no passado, hoje todos poluídos. O S. FRANCISCO, O VELHO CHICO, o rio da Unidade Nacional,a grande jugular do Nordeste, está cansado dos seus afluentes poluídos. O RIO DAS VELHAS, maior afluente direito e que transportou Pedro II nas suas águas, recebe, diariamente, 470 toneladas de dejetos da Grande Belo Horizonte através dos afluentes Arruda e Onça. O PARAOPEBA, outro afluente pela direita, recebe os metais pesados cádmio, cromo, mercúrio, arsênio, selênio, chumbo, etc., efluentes minerais do Quadrilátero Ferrífero Mineiro. O DISTRITO FEDERAL com área de 5.800 Km², possue 49 rios perenes em três bacias principais, Maranhão, Rio Preto e S. Bartolomeu, mas a RIDE (Região Integrada do Desenvolvimento do Entorno do D F), a Grande Brasília, com área de 52.000Km2, rica em cursos de água, possue cerca de 550 rios e uma população de 3,1 milhões de almas. A poluição cresce na razão geométrica da população. Os problemas de água do Distrito Federal serão graves, se não houver uma forte política conservacionista. O mal maior, entretanto, está na destruição das nascentes, drasticamente soterradas. Mais de 2.000 nascentes que compõem as micro-bacias no Distrito Federal desapareceram em razão dos loteamentos desordenados. São águas puras e cristalinas que se perderam para sempre.
Só a educação ambiental resgata a cidadania de um povo ao ter consciência da importância da preservação do meio, influindo diretamente na sua qualidade de vida.
Somando todas as providências do Governo brasileiro, relativas á despoluição dos nossos rios, os fracassos são bem maiores que os êxitos. O progresso evolutivo industrial e o aumento descontrolado da população estão levando os rios brasileiros a um deplorável estado de saúde, pois, diariamente, centenas de toneladas de substâncias tóxicas e nocivas são despejadas nos nossos mananciais hídricos O homem se tornou algoz do seu próprio rio, o rio que o beneficia.
As transgressões contra os mananciais hídricos resultam, sempre, em pesadas penalidades contra o HOMEM.

o autor é engenheiro.
manoel.bomfim@terra.com.br

 

cataratas do iguaçu na estiagem. foto sem crédito. ilustração do site.