DE MORTOS e MONUMENTOS por osmar soares

A relação entre morte e memória tem uma de suas representações mais interessantes na Grécia. Há os que digam que morrer é deixar-se esquecer e que a entrega do corpo ao sepulcro é irremediavelmente adentrar a última instância (e estância) humana. Há os que afirmam ser o homem sempre desejoso pela eternidade, mas nunca facilmente a alcançando. Há os que afirmam muito sobre o corpo, sobre a memória, a morte, a verdade e o esquecimento – os gregos.

Primeiramente, Gaia se une a Urano – Éter e Terra dão à luz a titãs e titanesas, dentre os filhos, Mnemosine, a guardiã de toda a lembrança, produtora da eternidade e mantenedora dos feitos dos homens. Mais tarde, após a vitória de Zeus na batalha pelo Olimpo, o pai dos deuses se une à Memória e dá à luz mais verdades, as musas, feitoras das artes, formas de memória de construção poética. Em Memória está fundamentalmente guardada a verdade dos fatos; contra Memória é impossível manter-se o falto e o falso; em Memória não se deixa levar o passado – o passado permanece. Mas por quê?

A contribuição dos gregos para a noção de verdade nasce do entendimento do status da deusa e da construção da própria palavra verdade. Letes é o rio da morte, viscoso, lento, por onde leva Caronte todos os mortais – Letes, o rio do esquecimento. Ao navegarem rumo aos Infernos, os mortos deixavam passar, como as águas, todas as suas lembranças, rumando à contestação e ao obscurantismo – Letes, o deus da ocultação: nele está todo o esquecimento, nele reside o apagar das formas e o negativo das coisas; ele é uma força absolutamente de baixo, tudo que mantém em si se apaga. Nasceu para o apagamento da lembrança, nasceu desde o seu parentesco com Nix, a Noite, com Thánatos, a Morte, com Hypnos, o Sono. Esquecer é ocultar, na noite, na morte, no sono. A verdade grega está na contestação radical ao status desses deuses todos, conhecedores da não permanência. Verdade é, pois, aletheia, uma palavra composta por a- prefixo de negação “não” e lethes, a ocultação: assim, verdade é não ocultação, não-esquecimento, memória. O que se lembra do visto, do ouvido, do sentido e do passado é tudo verdade. Os gregos separaram a morte da verdade, a história da falsidade, a lembrança do esquecimento, o mito do esquecimento do mito e instituíram o monumento como uma unidade a ser pensada como verdade, em todas as suas formas de aparecer como monumento: a arte, a palavra, a estátua, a Ilíada, a Odisséia, os despojos de uma guerra qualquer, os filhos de um Imperador – tudo pode ser monumento, menos a morte.

Mas e os mortos monumentais? Onde ficam? E mesmo as fotografias – nova formas de monumento – que militam pelos mortos? Onde estão os mortos em grego? Ao chegarem ao Hades, era a primeira atitude das almas beber de Letes, para esquecer de tudo que lhes houve na terra como havido e pensado, e, como segunda atitude, beber da fonte de Mnemosine, para que toda a sua lembrança (e sua verdade) seja a nova vivência no mundo paralelo dos mortos. Está hoje João Paulo II, no mundo dos mortos, sendo levado por horas por Caronte para o Hades, lá o papa pop e monumental encontrará Cérbero – cão de três cabeças – e horríveis sensações de esquecimento e destinações à lembrança – esquecer: toda a vida; lembrar: só o mundo dos mortos. Fora do mundo dos vivos e católicos, a realidade grega e mítica é assim.

Há tantos mortos monumentais… Eles estão todos suspensos por Letes, mas num esforço contrário e contraditório, suspensos por Mnemosine e pela intenção histórica de manter as verdades à mostra. E como revelava Maria Teresa Horta, a missão de alguns vivos é fazer com que o “homem interrogado” seja pontualmente questionado, massacrado pela opinião, desestabilizado. Os movimentos a que se dedicaram os homens durante toda a sua história foram os de construção e desconstrução, ida e vinda de stati e mentalidades, levante e derrubada de verdades. Mas qual o papel do monumento nisso tudo? Em que ponto Thanatos toca o homem e o leva, entregando-o a Letes? Em que ponto, mais superior e sublime, age Mnemosine para suspender…

O termo monumento, vindo do radical indo-europeu men* > mné (unidade a ser pensada), tem estrita relação com memória, mnese, ato de dar, guardar, eternizar uma unidade. O monumental nada mais é, então, que o único, mantido mnemonicamente e politicamente – pois que para Foucault toda memória é política e para Halbwachs não há memória individual sem contribuição coletiva e, quiçá, do Estado. O Papa é pop – e é um monumento, ao redor deles milhares, ao redor do monumento muita manifestação para que todos lembrem juntos – co-memorem. Ao lado dos monumentos, muita festa; às vezes, muita falta de esclarecimento e verdade. Verdade? Como a verdade, se tudo o que se produz para celebração da aletheia – não esquecimento, não ocultação – é descoberto anos mais tarde como muita ocultação. Como a verdade, se todo monumento, para ali, no tempo, evocado pelos vivos, mas esquecido como morto, está definitivamente no que restou, na reminiscência, no passado.

Para Bergson, filósofo francês revolucionário das noções de percepção, o corpo é um movente que se situa no liame entre o passado, o presente o futuro – o corpo conhece, por se mover, as três instâncias temporais; o corpo que se move está vivo e por isso mesmo é contrário ao monumento. O monumento está morto (é de Thánatos) e sua navegação é pelo esquecimento (é de Letes), mas está, contraditoriamente – eu diria forçosamente – embutido no ventre de Mnemosine, a geradora de poemas, construtos melhores que a vida no Hades. Em Memória reside a construção da permanência; e vivência é permanência.

É investigando e vasculhando o oculto da(s) memória(s) que se encontrarão as verdades. Com a memória verdadeira, não subsistem as contribuições a-históricas e contra-gregárias que se fizeram durante toda os tempos (eternos para Zeus e Memória), debaixo dos panos, debaixo das mesas, debaixo dos olhos dos deuses – e de Deus – já distanciados pelos homens que sustentam a ocultação. E por que não os monumentos de quem não quis ser lembrado, e de quem nem pensou nisso?

O monumento é António Conselheiro.

O monumento é a cabeça de Zumbi (tão na cabeça do Brasil e dos Brasis).

O monumento não pode ser o corpo parado de Mal. Deodoro da Fonseca.

O monumento não pode ser os movimentos patéticos de Hitler.

O monumento não pode ser eu, nem você, senão estivermos dispostos a não vivermos a ocultação.

2 Respostas

  1. Relevante e profundo! Vou utilizar numa aula no curso de arquitetura. Obrigado, Osmar Soares! (estou procurando referencias sobre vc)

  2. nao muito enteressante ms gostei, legalllllllll

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: