Arquivos Diários: 14 março, 2008

ODE À TIPOGRAFIA poema de pablo neruda – tradução de frederico fullgraff

 

Letras amplas, severas,
verticais,
feitas
de linha pura,
erguidas
como o mastro
do naviofrederico-pabloneruda-foto002.jpg
no meio
da página
cheia
de confusão e turbulência,
Bodonis
algébricos,
letras
cabais,
finas
como lebréis,
submetidas
ao retângulo branco
da geometria,
vogais
elzevires
cunhadas
no miúdo aço
da oficina junto à água,
em Flandres, no norte
traçado por canais,
cifras
da âncora
caracteres de Aldus,
firmes como
a estatura
marinha
de Veneza
em cujas águas-mães
como vela
inclinada,
navega a cursiva
curvando o alfabeto:
o ar
dos descobridores
oceânicos
agachou
para sempre o perfil da escritura.
Desde
as mãos medievais
avançou até teus olhos
este
N
este 8
duplo
este
J
este
R
de rei e de rocio.
Ali
se lavraram
como se fossem
dentes, unhas,
metálicos martelos
do idioma.
Golpearam cada letra,
erigiram-na
pequena estátua negra
na alvura,
pétala
do pensamento que tomava forma
do caudaloso rio
e que ao mar dos povos navegava
com todo
o alfabeto
iluminando
a desembocadura.
O coração, os olhos
dos homens
se encheram de letras,
de mensagens,
de palavras,
e o vento passageiro
ou permanente
levantou livros
loucos
ou sagrados.
Debaixo
das novas pirâmides escritas
a letra
estava viva,
o alfabeto ardendo,
as vogais,
as consoantes como
flores curvas.
Os olhos
do papel, os que miraram
nos homens
buscando
seus presentes,
sua história, seus amores,
estendendo
o tesouro
acumulado,
espargindo prontamente
a lentidão da sabedoria
sobre a mesa
como um baralho,
todo
o húmus
secreto
dos séculos
o canto, a memória,
a revolta,
a parábola cega,
pronto
foram
fecundidade,
celeiro,
letras,
letras
que caminharam
e se acenderam
letras
que navegaram
e venceram,
letras
que despertaram
e subiram,
letras
que libertaram,
letras
em forma de pomba
que voaram,
letras
vermelhas sobre a neve,
pontuações,
caminhos,
edifícios
de letras
e Villon e Bercéo,
trovadores
da memória
apenas
escrita sobre o couro
e também sobre o tambor
da batalha,
chegaram
à espaçosa nave
dos livros,
à tipografia
navegante.
Mas
a letra
não foi só beleza,
e sim, vida,
foi paz para o soldado,
baixou às soledades
da mina
e o mineiro
leu
o panfleto duro
e clandestino,
ocultou-o nos recônditos
do segredo
coração
e acima
sobre a terra,
foi outro
e outra
foi sua palavra.
A letra
foi a mãe
das novas bandeiras,
as letras
procriaram,
as estrelas
terrestres
e o canto, o hino ardente
que reúne
aos povos
de
uma
letra
agregada
a outra
letra
e a outra
de povo em povo foi sobrelevando
sua autoridade sonora
e cresceu na garganta dos homens
até impor a claridade do canto.
Mas
tipografia,
deixe-me
celebrar-te
na pureza
de teus
puros perfis,
na redoma
da letra
O,
no viçoso
alguidar
do
Y,
no
Q
de Quevedo
(como poderia passar
minha poesia
em frente dessa letra
sem sentir o antigo arrepio
do sábio moribundo?),
à açucena
multi
multiplicada
do
V
de vitória,
no
E
escalonado
para subir ao céu,
no
Z
com seu rosto de raio,
no P
alaranjado.
Amor,
amo
as letras
de teu cabelo,
o
U
de teu olhar,
os
S
de tuas curvas.
Nas folhas
da jovem primavera
refulge o alfabeto
diamantino,
as esmeraldas
escrevem teu nome
com iniciais frescas do rocio.
Meu amor,
tua cabeleira profunda
como selva ou dicionário
me cobre
com sua totalidade
de idioma
vermelho.
Em tudo,
no estalão
do verme
se lê,
na rosa se lê,
as raízes
estão cheias de letras
retorcidas
pela umidade do bosque
e no céu
de Isla Negra, à noite,
leio,
leio
no firmamento frio
da costa,
intenso,
diáfano de formosura,
despregado,
com estrelas capitais
e minúsculas
e exclamações
de diamante gelado,
leio, leio
na noite do Chile
austral, perdido
nas celestes solitudes
do firmamento,
como em um livro
leio
todas
as aventuras
e na erva
leio,
leio
a verde, a arenosa
tipografia
da terra agreste,
leio
os navios, os rostos
e as mãos,
leio
em teu coração
onde
vivem
entrelaçados
a inicial
provinciana
de teu nome
e
o arrecife
de meus sobrenomes.
Leio
tua fronte,
leio
teu cabelo
e no jasmim
as letras
escondidas
elevam
a incessante
primavera
até que eu decifro
a enterrada
pontuação
da papoula
e a letra
escarlate
do estio:
são as exatas flores do meu canto.
Contudo
quando
desfralda
seus rosais
a escritura,
a letra
sua essencial
jardinaria,
quando lês
as velhas e as novas
palavras, as verdades
e as explorações,
te peço
um pensamento
para quem as ordena
e as levanta,
para o que separa
o tipo,
para o linotipista
com sua lâmpada
como um piloto
sobre
as ondas da linguagem
ordenando
os ventos na espuma,
a sombra e as estrelas
no livro:
o homem
e o aço
uma vez mais reunidos
contra as asas noturnas
do mistério,
navegando,
hora dando,
compondo.
Tipografia,
sou
apenas um poeta
e és
o florido
jogo da razão,
o movimento
do cerzir
da inteligência.
Não descansas
de noite
nem no inverno
circulas
nas veias
de nossa anatomia
e se dormes
voando
durante
alguma noite ou greve
ou fadiga ou ruptura
de linotipia
baixas de novo ao livro
ou ao jornal
como nuvem
de pássaros ao ninho.
Regressas
ao sistema
à ordem
inapelável
da inteligência.
Letras
continuai caindo
como precisa chuva
em meu caminho.
Letras de tudo
o que vive
e morre,
letras de luz, de lua,
de silêncio,
de água,
amo-vos,
e em vós
recolho
não apenas pensamento
e o combate,
mas também vossos vestidos,
sentidos
e sonoridades:
A
de gloriosa aveia,
T
de trigo y de torre
e
M
como teu nome
de maçã.

“HENFIL – O HUMOR SUBVERSIVO” o livro – pela editoria

ao-cartunista-nico-henfil-imagem.jpg

Um livro, programado para ser lançado neste ano, vai mostrar a trajetória do humor político de Henrique de Souza Filho, o Henfil.

“Henfil – O Humor Subversivo”, nome da obra, vai ser uma espécie de homenagem ao eclético desenhista. Nesta sexta-feira, completam-se exatos 20 anos da morte dele.
 
O livro, escrito pelo sociólogo e cartunista carioca Márcio Malta, também conhecido como Nico, vai ser publicado pela editora Expressão Popular.
 
A obra vai integrar a coleção “Viva o Povo Brasileiro”, voltada a biografias de personalidades brasileiras.
 
A coleção é destinada ao público mais jovem. Por isso, o livro sobre o criador da Graúna e dos Fradins terá uma linguagem mais acessível e preço mais em conta.
 
Assim como os outros títulos da série, foi planejado para custar R$ 3. A obra deve ter em torno de 80 páginas. Todos os volumes da coleção são produzidos em formato de bolso.
Segundo Malta, a publicação vai mostrar a biografia de Henfil. Mas esse não será o mote principal da obra. O enfoque será na atuação política dele.
 
“É impossível dissociar o Henfil da obra política [dele]”, diz Malta, por telefone. “A geração de Henfil foi muito marcada pela ditadura militar.”
 
Para o pesquisador carioca, a atuação política de Henfil teve muita influência dos frades dominicanos -que inspiraram os fradins- e do irmão, Herbert José de Souza, o Betinho, morto em 1997.
 
Esse lado político, no entender dele, é deixado um pouco de lado nas antologias mais recentes de obras de Henfil.
Malta, hoje com 25 anos, diz que se interessa pela obra do desenhista há quase uma década.

A presença de Henfil influenciou, inclusive, em sua escolha profissional.
 
O interesse se converteu também num acervo de revistas, desenhos, estudos e entrevistas dele, base da pesquisa para o livro.
 
“Teve uma fase da minha vida que eu entrava em sebos e perguntava se tinha Henfil”, diz ele, que defendeu no ano passado mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre charges de Jeca Tatu.
 
Henfil começou a publicar os primeiros trabalhos na revista “Alterosa”, de Minas Gerais, no começo da década de 1960. Em 1967, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fez cartuns esportivos para o “Jornal dos Sports”.
 
Dois anos depois, ainda no Rio, foi convidado a integrar a equipe do jornal alternativo “Pasquim”, que se tornou a principal janela de suas críticas ao regime militar.
 
Nessa fase, também publicou revistas em quadrinhos com seus personagens.
 
“Ele abordava temas atuais e conjunturais nos quadrinhos que fazia”, diz.
 
“Essa linguagem do Henfil, mesmo com a censura do regime militar, conseguiu dar voz a uma geração.”
 
Um caso emblemático é Ubaldo, o Paranóico. O personagem vivia com medo de ser pego pelos militares e os via em qualquer situação. Juntava humor e crítica na mesma história.
Um dos pontos que chamava a atenção era seu traço, sintético e extremamente expressivo.
 
Segundo Malta, a velocidade no desenho -chamado de “caligráfico” por Millor Fernandes- era conseqüência de dores no joelho, que o impediam de ficar sentado por muito tempo.
 
O problema seria causado por problemas de coagulação. O desenhista e os dois irmãos eram hemofílicos, doença genética que causa hemorragias. Os três contraíram Aids em transfusões de sangue.
 
Foram complicações causadas pelo vírus HIV que causaram a morte de Henfil, em 4 de janeiro de 1988, no Rio de Janeiro.
Márcio Malta pretende ampliar a homenagem ao desenhista com uma exposição chamada
“20 Anos sem Henfil”. Ele já começou a contatar um grupo de desenhistas para fazer uma
releitura da obra de Henfil.
 
A primeira idéia é inagurar a mostra em agosto, mês em que Henfil completaria 64 anos.
O pesquisador planeja lançar o livro na mesma ocasião.
 

FEZES e poiésis – a antipoesia de joão cabral de melo neto – por osmar soares

Em homenagem a Cecília Meireles, abrimos este artigo com o desenho feito pela poetisa em Canção excêntrica:

Ando a procura de espaço,
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.
(MEIRELES, C. Vaga música. Rio de Janeiro: Record, (s.d), p. 153)

A fixação ceciliana no desenho e na construção lírica do desenho poderia se assemelhar à consciência antilírica da construção poemática em João Cabral de Melo Neto. Em vez de simplesmente procurar e contemplar a poesia e desgastar-se numa atividade ideal-joao-cabral-de-melo-neto-foto-de-01.jpgabstrata de fazer poético, Cabral se lança à nova concepção de poiesis. Cabral não crê na inspiração das musas, não crê na atividade poética como expressão fluida dos sentimentos humanos – ele não advoga o discurso do eu. Sua posição, na procura do desenho da vida, e do espaço para o desenho, é uma posição de trabalho e ação. A poesia dele se inscreve na categoria de poesia-ação: “Nenhum poema meu acontece, baixa. Essa excitação, que faz certos poetas registrarem ocorrências poéticas em determinadas circunstâncias, é, para mim, completamente inexistente ou tão fraca que nem me anima a pegar no lápis. Outra coisa: escrever para mim é trabalho braçal, e se eu não tiver um estímulo exterior qualquer, não levo o meu trabalho ao fim” (19). Assim, o que Cecília parecia buscar é justificado no que Cabral chamou de trabalho braçal. O teórico Roland Barthes diz que a maior quimera da literatura como obra de arte é o alcance do real:

a segunda força da literatura é a sua força de representação. Desde os tempos antigos até as tentativas das vanguardas, a literatura se afaina na representação de alguma coisa: o real. O real que não é representável, somente demonstrável. (…) Real e linguagem sem paralelismo produzem no homem afã de representação pela linguagem: a literatura produto/processo desse delírio constante
(BARTHES, Roland. Aula. (s.l.), 1994)

A literatura, na concepção barthesiana, tem a força de jogar com a linguagem, desestabilizando as forças da trivialização e do senso comum, do código utilizado pelo senso comum. O jogo em que se engaja a literatura é o de envolver-se com o código e seus signos sem destruí-los. Nesse jogo, a literatura assume o poder de tirar o poder da língua, tirando a vida da vida. A literatura reconhece o poder que está nos mecanismos de intercâmbio social que se encontram no Estado, nas opiniões correntes, nos espetáculos, nos jogos, esportes, informações e relações familiares privadas, e, por sua força desrealizadora, logra alcançar o status de construtora de um outro sistema que diferentemente do senso comum não oprime nem prende a todos numa rede de regras a serem obedecidas. A literatura para Barthes é por essência uma trapaça salutar das regras viabilizadoras da compreensão do real em que a evolução da linguagem que desvela o mundo está em constante reflexão. Assim, o texto literário dota-se da característica principal do aflorar da linguagem contra as forças de representação que constituem o jogo de regras sociais intercambiadas que se entende por simulacro. A língua na comunidade que a executa e, consequentemente, obedece a suas regras é nada mais que um teatro em que as máscaras escondem significados, estabelecendo-se como significantes arbitrários do que não é. Assim, a literatura, como prática de desrealização do real, tem por empresa libertar e desinstituir o mecanismo do simulacro. Nessa função utópica e contraditória de alcance e desrealização do real, a literatura inscreve-se como faculdade humana de re-criação.

Assim como Barthes, Benjamin (1986) confere à literatura o status de trabalho manual, árduo, como o de um artífice que, ao moldar a argila, deixa a marca de sua compreensão da vida, sua experiência. O narrador/poeta assemelha-se àquele que visa muito mais ao trabalho exigente de experimentação e criação laboral que à mecanização da escrita e à automatização das técnicas. O que se aponta como uma das causas da decadência do texto literário é exatamente o esquecimento da etimologia da palavra texto: tecer (o que é trabalho do artesão).

Artesão, tecelão e trabalhador, João Cabral de Melo Neto não foge à procura da perfeição do desenho – sem justificar o lirismo, obviamente; lembremos a antipoesia cabralina – tentando se desvencilhar dos “embaraços” dos números, da dificuldade da coisa poética, sem gerar, por fim, a despedida enfadonha (e por enfado) apontada por Cecília:
“Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
• saudosa do que não faço,
• do que faço, arrependida.”
(MEIRELES: 153)

Para ele, no entanto, O engenheiro, a poesia, comparada a uma flor, revelaria uma falsidade velada. Cabral admite que escreveu que a poesia é flor, mesmo que soubesse, estranhamente, que ela não passava de fezes:

Poesia, te escrevia:
flor! Conhecendo
que é fezes. Fezes
como qualquer,
gerando cogumelos
(raros, frágeis cogu-
melos) no úmido
calor de nossa boca.

Delicado, escrevia:
flor! (Cogumelos
serão flor? Espécie
estranha, espécie

extinta de flor, flor
não de todo flor,
mas flor, bolha,
aberta no maduro.)

Delicado, evitava
o estrume do poema,
seu caule, seu ovário,
suas intestinações.

Esperava as puras,
transparentes florações
nascidas do ar, do ar,
como as brisas.

(MELO NETO, J. C. João Cabral de Melo Neto, (s.l), (s.d), 225)

A experiência da construção ou (des) construção do poema é feita por Cabral no texto em apreço na comparação nada habitual da poesia às fezes, fezes geradoras de cogumelo. Nada desenhada, nem necessitada de espaço para o desenho da vida, a poesia para Cabral não é canção, mas é, como, para Cecília, excêntrica. Essa excentricidade é aquela que gera o estranhamento que causa o conhecimento da arte da palavra, que gera, como qualquer outra os fungos, os cogumelos, parasitas alocados em lugares úmidos, vidas em meio à putrefação do meio, sinais da putrefação. A putrefação de uma verdade sempre falseada em favor do simulacro gera cogumelos então. Talvez estivesse na busca de um desenho perfeito e espaçoso a causa do cansaço ceciliano e a condição agressiva cabralina que constata a não-poesia como única maneira de construir um objeto poético, como confirma Benedito Nunes: “João Cabral fez uma escolha oposta à que levou os seus coetâneos (os da geração de 45) a se fixarem numa poesia, que se tornou representativa da geração de 45, de refinamento formal e de aprofundamento interior”. Ele escolheu o antilirismo, a reação ao Modernismo, a negação da introspecção ingênua como forma de expressão de um mundo cindido. Seu fazer poético é, em A psicologia da composição, por exemplo, um trabalho de poética negativa que visa a trabalhar a palavra como unidade impossível de se decompor e “vencer” com a simples transformação de expressões e impressões subjetiva e sujeitas em poesia. Como diz Benedito Nunes, Cabral lançou-se na busca responsável dos “poemas que esperam ser escritos” (de Drummond) e encara essa procura de forma tão retilínea que não se pode temer dizer que o poeta é vanguardista na geração de 45. Assim, não cabe a ele Heidegher nem Hegel. Em Cabral, não se exalta menos que a mortificação cotidiana da verdade falseada. E Laocoonte e seus filhos, com sua dor falseada para sempre e celebração do grotesco para sempre, tomam novo sentido como premissa do fazer artístico:

A poesia é uma fez! Gera uma subvida, uma microvida de cogumelos raros, frágeis, mas nada delicados como flores. Cogumelos não são flores porque flores não passam de órgãos sexuais de plantas; cogumelos são eles todos: “espécie estranha”, não-flor, “estrume do poema”, “intestinações”. O poema-flor não era nada menos que aquela, símbolo de combate e indignação social. Se a literatura realmente agrega saberes, como admitia Barthes, o poema é e se afirma flor. Mas se é uma experiência que determina um falseamento da verdade e revelação da verdade, como recomendava – por ser vanguardista – Pablo Picasso é fezes geradoras de parasitismos: emoções extintas, obras-registro da emoção.

O poema é construção, da salvação contínua dos monstros que são as palavras, como em A lição de poesia:

“A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.”
(MELO NETO, J. C., 240)

Como não ver a produtividade da poesia negativa e a destreza do período da construção como interligadas e como a mesma coisa na poesia cabralina? Cecília dizia que andava à procura de espaço para desenhar a própria vida, Cabral faz o desenho a carvão. Em “A lição da poesia”, poema de O engenheiro (que, segundo Benedito Nunes é livro pertencente à sua fase de “poesia negativa”), vemos o prestígio cabralino ao fazer literário segundo uma constatação de desenho, uma consciência de desenho, que aparece mais explicita no poema 1: “Já não podias desenhar/ sequer uma linha;/ um nome, sequer uma flor/ desabrochava no verão da mesa:”. A consciência de desenho é uma mistura, a nosso ver, das experiências do antilirismo bem como a canônica teoria do período da construção, que apontou Nunes como sendo presentes em “O cão sem plumas” (1966), “O Rio” (1953), “Morte e Vida Severina” (1954-1955), “Paisagens com Figuras” (1954-1955), “Uma Faca só Lâmina” (1955), entre outros. Nunes diz que a poesia negativa em Psicologia da composição são alas que se abrem para a experiência construtiva na explicação do belo em Morte e vida Severina :

• “- Belo por que tem do novo
a surpresa e a alegria
• Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
• Como qualquer coisa nova
Inaugurando o seu dia.
• Ou como caderno novo
Quando a gente o principia.
• E belo porque com o novo
todo o velho contagia
• Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
• Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
• Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.”
(MELO NETO, J. C. 101)

Referências Bibliográficas:
BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1994.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I. São Paulo, 1986.
MEIRELES, Cecília. “Canção Excêntrica”. In: —-. Vaga música. Rio de Janeiro, Editora Record, (s.d)
MELO NETO, João Cabral. João Cabral de Melo Neto. (s.l) (s.d)
NUNES, Benedito. Poetas modernos no Brasil: João Cabral de Melo Neto. Petrópolis: Vozes, (s.d)

João Cabral de Melo Neto
Nascimento: 9 de janeiro de 1920, Recife
Morte: 9 de outubro de 1999, Rio de Janeiro
Atividades: poeta, diplomata, membro da Academia Brasileira de Letras
Prêmios: Prêmio Camões em 1990; Prêmio Neustadt em 1992; Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 1994.
Bibliografia:
Pedra do Sono (1942)
Os Três Mal-Amados (1943)
O Engenheiro (1945)
Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947)
O Cão Sem Plumas (1950)
O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife (1954)
Dois Parlamentos (1960)
Quaderna (1960)
A Educação pela Pedra (1966)
Museu de Tudo (1975)
A Escola das Facas (1980)
Auto do Frade (1984)
Agrestes (1985)
Crime na Calle Relator (1987)
Primeiros Poemas (1990)
Sevilha Andando (1990)

Livros de João Cabral de Melo Neto selecionados:
Morte e Vida Severina e Outros Poemas para Vozes – JOÃO CABRAL DE MELO
João Cabral de Melo Neto: Poemas Sevilhanos – JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Sibila: Revista de Poesia e Cultura 03/2002 – JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Museu de Tudo e Depois (1967-1987) – JOÃO CABRAL DE MELO NETO
A Educação pela Pedra e Depois – JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Auto de Frade – JOÃO CABRAL DE MELO NETO

ALEXANDRE FRANÇA – sábado (hoje) e domingo – leituras dramáticas

 alexandre-franca-foto.jpg

LEITURAS DRAMÁTICAS: textos de alexandre frança  com márcio mattana, michelle pucci, helena portela, claudete pereira jorge, paulo ugolini e marcos damaceno.

quando: dias 14, 15 e 16 de março as 21:00 e 20:00 no domingo.

onde: CASA do DAMACENO, rua 13 de maio 991, (em frente ao colégio anjo da guarda)

quanto: vá sem medo. você terá o valor.