CORTANDO A PRÓPRIA CABEÇA poema de tonicato miranda

Sentei-me para conversar com o Sr. das Vergonhas Baças
fui a ele me queixar de um partido que se acreditava puro
e ele passou uma tarefa de terror, dura pra caraças

Pediu-me para enviar cartas aos cemitérios
convocando todos a uma reunião em Curitiba
tarefa a cumprir sem medos ou mistérios

Pediu-me para enviar cartas a Marx, a Rosa de Luxemburgo,
a Gramsci, Sartre, Maiacovski, a Lênin, a todos depois do muro
que as enviasse a todos os campos santos, em todos os burgos

“Fale do que acontece por aqui, diga: se levantem os mortos ”
fale “dos malas ” e ” das malas”, dos corrompidos, dos desgovernos
diga tudo, não esqueça um traço ou vírgula, mostre todos os tortos

Num boteco, na esquina da Brigadeiro com a Saldanha Marinho
sentei-me com o Sr. das Vergonhas Baças e montamos uma lista
lista para cortar cabeças, deixar o que está muito gordo bem fininho

Cortamos os juros extorsivos e as propinas dos apaniguados
fomos cortando tudo, mas principalmente cortando cabeças
cortamos até os que se associam para conquistar cargos

De uns cortamos as orelhas, para que não ouçam mais as palavras
de outros cortamos as pernas, para não irem além de um quarteirão
de alguns cortamos o olhar para somente verem a escuridão e suas larvas

E fomos cortando narizes, cabelos, braços, línguas e membros
mas está tudo corrompido, ou segundo os “hapers” “está tudo dominado”
É preciso sanear a sociedade, as comunicações e até os mamulengos

Então o Sr. das Vergonhas Baças disse ser preciso
muito mais sacrifícios, para poder sanear a moral e as lutas
era preciso morrer tudo e todos, sem espelho a qualquer narciso

Propôs que cortasse minha própria cabeça e a depusesse na mesa
foi assim que com pavor e solidariedade cortei-a com faca afiada
meu corpo assistiu a última lágrima descendo na face, quanta tristeza

Ainda ficamos ali, eu – meu corpo, o Sr. das Vergonhas Baças e a cabeça
os três a conversar, a organizar a grande conferência das mortandades
quem sabe poderei ter, numa outra maioridade, de volta minha cabeça?

Será que não escreverei mais?
são tantas as amarguras e tristezas, ai dos meus ais
ai das lutas brigadas, minhas vitórias corrompidas

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