PERMUTA DE HÁBITO e AJUDA DE SANTO dois contos de raymundo rolim

Permuta de hábito 

Recebeu o salário magro e entrou no ônibus que passava a umas seis quadras da casa velha e mista – madeira e alvenaria – a qual chamava “seu lar”. Desceu no feio e carcomido ponto, passou no bar costumeiro, pagou um trago aos amigos mais chegados. Falaram sobre futebol, o último jogo da seleção que havia empolgado todo o país. Mastigou qualquer coisa que lhe oferecera um outro e fez uma cara esquisita, pois não havia gostado nada das propriedades impalatáveis daquele diabo daquele negócio. Achou que fosse um rolmops semiconservado Mais por delicadeza que por fome, engoliu, tudo de uma vez, com uma talagada da também intragável cachaça com mentruz, servida contumazmente ao pé do balcão. A ‘branquinha’ funcionou como veículo para que ‘aquilo’ descesse melhor. Sentiu aquele arrepio feio, pensou que fosse adoecer ali mesmo. Pagou ao dono do botequim, despediu-se dos que se achavam mais perto. Aos outros, mais ao fundo, os que jogavam um baralhinho, saudou à distância com a mão agitando o ar e saiu. Um ancião da vizinhança passou cantarolando uma modinha antiga. Animou-se um pouquinho mais com a vida.  Lembrou-se de remoto baile à fantasia e daquela moça de tranças loiras que dançava incrementando o frevo. Somava-se ao fato a graciosidade em que ela se transformava com aquela sombrinha colorida. Um sorriso bobo franziu-lhe os lábios. Rodou a chave no ferrolho da porta. Havia esquecido o rádio ligado desde a manhã quando saíra. “A voz do Brasil” andava a meio caminho. Ouviu ainda o locutor anunciar que no senado da república, um parlamentar do estado de Alagoas acabara de atirar num colega, por engano. Engano! Oras! Como aquela gente podia se enganar tanto se viviam atirando! Gente ruim de mira! Sentou-se à mesa, olhou o jornal do dia anterior que não conseguira ler ainda. Na primeira página estampada estavam os números da mega-qualquer-coisa-lotérica que havia saído para uma única pessoa, e o prêmio era um dos maiores da história, acumulado há várias semanas. Dizia a matéria, que com o dinheiro, daria para comprar apartamentos, um não sei quantos exemplares de aviões, milhares de bicicletas, centenas de carros novos, milhões de vasos sanitários, uma ilha que estava à venda em terras distantes e que sobraria o bastante para não se ter de trabalhar mais em vida. Colocou a mão no bolso interno do paletó. Tirou um papelzinho que guardava já meio amassado, recheado de números e conferiu. Um sorriso grávido afunilou-lhe dessa vez os lábios pensos. Levantou-se da cadeira, foi até o quarto, jogou-se na cama do jeito que estava. Sapatos empoeirados, mãos e dentes por lavar. Fechou os olhos, e antes de adormecer, lembrou-se da primeira coisa que faria pela manhã ao despertar. Iria sim até o velho e insuficiente emprego de contador “do lojinha de Sr. Simon”, o judeu que escapara miraculosamente de um campo de concentração e pediria finalmente a sonhada demissão daquela vida de fastio e ralos prazeres. Começaria por comprar a ilha, e depois um avião, e os apartamentos. Daria de presente para o dono do botequim sujo da esquina e de aluguel escaldante (afeito a baratas que voavam sobre panelas e clientes), aquele prediozinho em que o mesmo morava anos a fio e que nunca lograra êxito como comerciante por estar sempre a beber acompanhando os outros. Aos amigos, permitiria que tomassem lá toda aguardente que pudessem, e também não deixaria que lhes faltasse muita cerveja gelada. E ainda, compraria baralhos novos e os deixaria por debaixo da antiga e pesada porta de aço cheia de dobras e tintas superposta. Desligaria o rádio sobre a pia da cozinha (na eterna ‘Voz do Brasil’ )que já andava a misturar-se com louças empilhadas e talheres por lavar. Logo pela manhã, daria uma grande, grata e justificada banana a Sr. Simon e o mandaria plantar muitas e longas favas na Alsácia! Bocejou e acordou com o sol batendo na vidraça. Ficara-lhe a impressão de um sonho singular, que não sabia mais o que era, e um amargor de algo estragado na boca. E tinha gosto de rolmops mal conservado!   

A ajuda do santo  

Rezou ao padroeiro de devoção uma reza das mais fervorosas desde a primeira e última comunhão. Pediu numa prece sincera que ela voltasse. Afinal, a saudade era já comprida e doída por demais. Jurou várias juras, acendeu velas, curvou-se mais uma vez humilhado ante os pés imóveis da imagem de gesso já meio feiinha e desbotada. Levantou-se meio atordoado. Buscou recuperar-se encostando-se à parede da antiga igrejinha construída por escravos. Assoou o nariz no lenço amarrotado, que já o havia auxiliado no enxugamento de tantas e tão sofridas lágrimas. Prometeu a si mesmo que não mais chegaria tarde e nem se deixaria enredar pelos amores fortuitos das putas de fim de noite, mesmo porque, não havia dinheiro que bastasse. Jurou também que uma vez sanados os problemas mais próximos, desencadearia uma corrente de orações por todos que sofriam de mal de amor. Suas pernas ainda tremiam pelo esforço da genuflexão prolongada em horas contritas. Por fim, se recompôs. Sentiu o coração irrequieto, cheio de nós, de embaraços, de lembranças antigas e sujas. Saiu de perto da pequena capela com uma certeza, um pressentimento de que o seu santo lhe responderia qualquer coisa. Uma sombra de dúvida ainda pairava sobre os seus queixumes interiores e já não sabia ao certo se entendera o recado que lhe fora soprado pela voz tênue e fugidia vinda de dentro do nicho. Talvez proviesse do fundo dos seus pensamentos turvos, embaralhados, confusos, que buscavam a todo e qualquer custo uma solução mágica e adequada para aquele caso que lhe angustiava e trazia inquietações constantes, desmesuradas e que lhe desarrumava eternamente o juízo. Deu alguns passos. Não, não tinha confiança quanto ao rumo a seguir e qualquer um seria bem-vindo. Atravessou a rua, olhou para um e outro lado e já alcançava o meio da pista de rolamento quando pressentiu a frenada forte. Os pneus guincharam; um barulho feio e seco, como de quando um carro bate em algo compacto e mole. A sirene de uma ambulância foi a última coisa que ouviu, bem ao longe, longe, muito longe, cada vez mais distante.  

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