A IDADE DELA NÃO ESTÁ MAIS POR PERTO conto de luis felipe leprevost

“Joguei-me na cama e rasguei o travesseiro com as mãos.”
(John Fante)

Quando Huck ficou doente Consuela se viu obrigada a procurar ajuda médica em Gélida, já que o Hospital do Vilarejo de Fé sofria reformas há mais de quatro meses. Em verdade para o bem do Vilarejo, diga-se, o que outrora fora um sanatório, com mínima ala destinada à problemas gerais da população que não houvessem relação direta com a loucura, acolhendo-se em tal ala improvisada clínica veterinária, inclusive.
Inconsolável a minha amiga. Huck fora seu mais íntimo companheiro. E agora estava no porta-malas do carro que meu irmão Sussí havia me emprestado para levarmos Huck à algum lugar que merecesse que ali o enterrássemos, segundo palavras da própria Consuela.  
Veja, o trânsito vai como um afluente, às vezes quase seco, em outras trasbordando ferocidade, disse-me ela durante esta única e última vez em que esteve em Gélida.
Porém naquele dia o trânsito estancara. Talvez por culpa da massa pesada de calor que o sol derrubava sobre nós. No rádio do carro tocava uma melodia que hoje traduzo por água mansa raspando pedra de fogo. Ao longe uma ambulância desesperava músculos e gargantas, vinha cortando as águas daquele rio caudaloso de lata e asfalto. Os carros assustados feito cardumes de peixes abriam espaço. Quando se pensa em sangue e morte as pessoas respeitam respirando para dentro, disse-me e sorriu manso a anciã Consuela. Olhei para ela, que contemplava o ir das pessoas na calçada, e lamentei: Sirene sempre me comove.
Jamais haveria sirenes ao socorro de tipos como Huck, retribui-me Consuela.
Anos depois, no dia em que Consuela faleceu a ambulância demorou demasiado para vir socorrer sua despedida. Seria ela da mesma estirpe que Huck? Era madrugada e quase não havia trânsito de vivos. O telefone tocou lá em casa, intrometendo-se no sonho de toda a família. Larissa era quem trazia até mim a notícia. Consuela do alto de seus 78 anos estava passando mal, alarmava-me sua neta.
Em mim um oceano se atormentou. Minhas roupas correram ao socorro da amiga velha antes de eu me dar conta completamente. Peguei mais outra vez emprestado o carro de meu irmão Sussí e acelerei em direção ao Vilarejo de Fé, foram duas horas de viagem angustiada, minhas mãos suavam segurando a direção, pois me assombrava a idéia de que seria a última vez que veria Consuela, autora de tantas alegrias que colecionei durante a vida desde que havia, à revelia da família, começado a freqüentar o Vilarejo de Fé e a cidade vizinha Ondestou blues.
Cheguei em Fé e a pensão de Consuela respirava com dificuldade. Peguei suas mãos apoiando sua morte e chorei, nada mais poderia fazer contra aquilo que não se explica.
Estranho como as coisas são. O resgate não acompanha o tempo do desespero. Os médicos chegam com a sirene das pálpebras ligadas, porém cansadas. Parece que vêm buscar alguém para um passeio. Parecem não querer despertar o sono derradeiro e infinito a que se encaminha o que precisa de socorro. 
Quando conheci Consuela ela já tinha cabelos brancos, e os raspava. Por isso eu pensava que os anciãos quando nasciam já nasciam daquele jeito, com rugas e encurvados. Nunca vi ninguém desrespeitá-la. Meu pai Bento Brennelli diz que ela esteve à passeio no mundo. Por conta disso não encarei como erro grave o atraso dos médicos, os mesmos médicos que ela hospedou e alimentou durante anos, desde quando o hospital instalado em Fé era ainda um manicômio, em sua pensão.
Ali ia embora depois de ter olhado este mundo como quem vai ao circo a minha amiga. Como quem senta em uma varanda e contempla o enorme lago sitiado no coração do Vilarejo de Fé partia Consuela, sem que jamais houvesse reclamado das picadas dos mosquitos que, talvez, tenham sido seus mais fiéis companheiros após a morte de Huck e a partida de Larissa para a Cidade Maravilhosa.
Quem sabe ela tenha vivido por aqui apenas como quem patina sobre o gelo e ri depois com a perna engessada. Era como se a neve aparada de seus cabelos tivesse mantido por toda vida sua cabeça fresca.
Daquela vez comigo no carro, quando procurávamos a cama de descanso eterno para Huck, quando coincidentemente por nós passaram os escândalos apressados de uma equipe de salvamento, Consuela disse sem indiferença: Como dirigem mal estes motoristas de ambulância, um dia ainda matam alguém de tanto que correm.
A velha Consuela era esperta. Tricotou direitinho toda sua vida em um pano branco e limpo. Pressentiu sua despedida. Foi embora como quem pressente o odor da chuva se armando no céu claro. Fez-se a neblina em seus cabelos perfumados pelo orvalho das manhãs de Fé.
Fizeram-se molengas seus tríceps, abraços de água-viva, sem correnteza. Trazia sempre para a mesa o almoço feito um discreto e alegre pingüim. Personagem de fábulas que se apagam em um dia intacto. Agora está lá a velha, retida no coração fosfóreo da terra, habitando o escuro. E aqui vamos nós iludindo a idade dela não estar mais por perto.

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