Arquivos Diários: 28 março, 2008

XICO LÔRO e o DELEGADO poema de cordel de manoel antonio bonfim

Káro Jb Vidal,

Uma piquena istóra verdadêra
Feita in forma de cordé
Parece que é brincadêra
Mas, cum certeza num é
Acunteceu dessa manêra
iscrita purêsse Mané
Veja-a. Se gostá pode pubricá…

Xico Lôro e o Delegado

Essa istóra é verdadêra
Que conto cum munto aprêço
Aconteceu na Gamilêra
Falo sem nium tropêço
Terra de Xico Perêra
Um lugá que bem cunheço

Fica na minha cidade
No estado do Ceará
Uma bela localidade
Pra quem quisé visitá
Foi em Iguatu, na realidade
O fato que vou narrá

Terra de gente de brio
Que vive do seu trabaio
Fica às margens do rio
Jaguaribe e seus atáios
Um clima de pôco frio
Nem precisa de agasaio

Lá vive-se da agricultura
E também da pecuária
Produz munta rapadura
Verdura, queijo de coaio
Na roça munta fartura
Arroz, cebolinha e aio

Lugá de povo singelo
Sem pompa e sem vaidade
Nos pés, um simples chinelo
Ao viajá rumo a cidade
Admiradô do que é belo
E de munta simpricidade

Um hômi bem cunhicido
Era o “seu” Xico Perêra
Prestativo e divertido
“Cabra” de boas manêras
“Xico Lôro” era apilido
Devido sua cabelêra

Lá, a gente cunhecia
Xico Lôro, o leitêro
Que ao amanhicê o dia
Já tava no seu terrêro
Cum toda sua alegria
Aboiando no bezerrêro

Ela tinha trêis vaquinhas
Que dava gosto de oiá
As tratava de amiguinhas
Bastava ele chamá
Mimosa, Lua e Neguinha
Elas vinha lhe encontrá

Ele, além de agricultô
Era um valente vaquêro
Pois, lidava sem temô
Correndo o dia intêro
Também era o vendedô
Do seu leite e verdurêro

Antís do sol sair
Todo dia bem cedin
Sua muié dona Nair
Passava um cafezin
Ele bebia antes de ir
Vendê aquele leitin

Xico Lôro era sincero
Incapaz de uma mintira
Não aceitava despaupéro
E nem gostava de intriga
Era limpo, sem mistério
Longe dele, qualquer briga

Só vindia leite puro
E verdura bem “fresquinha”
Era um hômi maduro
Pra mais dos “50” tinha
Na palavra era seguro
Não era pessoa mesquinha

Mas, aconteceu que um dia
Passaram-lhe uma rastêra
Coisa que ele não fazia
Na sua vida intêra
Participar de zombaria
Nem mêrmo de brincadêra

Alguém de má consciência
Cum inveja e sem coração
Sem pensá nas conseqüências
Pôis água no seu latão
E avisô a diligência
Lá da fiscalização

Xico Lôro foi detido
Por adulterá o leite
Que já ia sê vindido
Sendo ali um suspeito
Ficou muito entristicido
Não aguentou essa desfeita

Disse lá pro delegado:
– Sou um hômi de bem
Se eu ficá aqui trancado
Prefiro morrê, tombém
Num vorto pro meu roçado
Num quero mais vê ninguém

Foi uma peleja danada
Dentro da delegacia
Ele cum voz alterada
O delegado às vezes ria
Era uma coisa engraçada
Tudo que ele dizia

Ele num mais suportando
Toda aquela humilhação
Xico estava se zangando
Com tanta interrogação
Foi logo derramando
Todo leite ali no chão

– Olhe aqui seu doutô
Pode se acabá o mundo
Vou falá para o sinhô:
– É um desgosto profundo
A gente sê trabaiadô
E tá preso que nem gatuno…

Quando eu daqui saí
Se Deus quisé, sairei
Logo, logo… vou partí
Nunca mais eu vortarei
E nesse lugá… aqui
Leite num mais venderei

Essa foi a última vez
Que Xico foi a cidade
Logo, no mêmo mêis
Dispôis dessa mardade
Vendeu as terras e rezes
Foi pr’outra localidade

Num deu adeus a ninguém
Deixou tudo e foi s’imbora
Nem ao dono do armazém
Onde ele passava horas
Num se dispidiu, tombém
Num se sabe onde ele mora

Essa é uma pequena istóra
Dum hômi trabaiadô
Que perdeu toda sua glória
Por causa de um fraudadô
Hoje eu guardo na memória
Sua honestidade e sua dor

PARA MINHA LÁPIDE poema de sérgio bitencourt

” O caso é que,
  Independente do acaso,
  O tempo é ultrapassado.
 
  Então daqui,
  Aparentemente estacionado,
  Participo com vocês.
 
  Não se aflijam,
  Grande é a fila,
  Mas certamente,
  Chegará a tua vez”
 

1968/ANOS DE CHUMBO, É PERMITIDO PROIBIR! pela editoria

É permitido proibir

A liberdade de imprensa sumiu, entre 68 e 75, e os jornais reagiram com receitas, poesia e outros truques.
N o dia 12 de dezembro de 1968, após tomar conhecimento do resultado da votação em que o Congresso negou à ditadura licença para processar o deputado Márcio Moreira Alves, acusado de ofender as Forças Armadas, o diretor de redação do Estado, Julio de Mesquita Filho, começou a redigir a Nota Um – o primeiro editorial da seção Notas e Informações. Com o título Instituições em Frangalhos, procurava descrever a crise política e a falta de visão do general Costa e Silva, que pensava poder governar o País como se fosse uma caserna, além de vaticinar dias mais difíceis.
Saiu um texto indignado, que a maioria dos leitores do Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde, onde também seria publicado, nunca chegou a ler. Às três horas da madrugada, o general Sílvio Correia de Andrade, chefe do Departamento de Polícia Federal em São Paulo, chegou ao jornal e foi para a oficina, onde pegou um exemplar na boca da impressora. Depois de ler o editorial, mandou parar a impressão e ainda confiscou todos os exemplares que já estavam nos caminhões, prontos para serem despachados. Numa conversa com Julio de Mesquita Filho, diretor-responsável do jornal, o general chegou a propor a liberação do jornal desde que o editorial fosse substituído por outro que não fizesse referência à derrota do governo. Mas a proposta não foi aceita.
Estava em marcha um dos piores períodos de censura à imprensa no País. Durante o governo Castello Branco, ocorreram pressões contra alguns empresários da área de comunicações e jornalistas. Jornais de tendência política mais à esquerda foram fechados, mas prevaleceu uma relativa liberdade. Na oficina do Estado, naquela madrugada, até ela começava a desmoronar.
O episódio ocorreu horas antes da assinatura do Ato Institucional n.º 5. Ainda no dia 13, Julio Mesquita Filho compareceu a uma reunião com o governador Abreu Sodré e o general Andrade, no Palácio dos Bandeirantes, onde foi informado que a partir dali o jornal deveria ser mais cauteloso nas críticas ao regime. Ele respondeu que a censura era uma tarefa da Polícia Federal e que o Estado não praticaria a autocensura.
“Se vocês quiserem, censurem”, disse. E foi o que fizeram.
Inconformado com a falta de liberdade, o diretor-responsável do jornal, que morreu em 1969, não escreveu mais editoriais. Ainda em sinal de protesto, o espaço nobre da página 3 deixou de ser utilizado. “Não comentamos mais matéria política por não dispormos de liberdade para dizer o que pensamos”, explicou Julio de Mesquita Neto, que substituiu o pai na direção do jornal, durante um debate na ECA/USP, em 1970.
A censura aos dois jornais persistiu de forma irregular durante quase seis anos, entre 1968 e 1975. O rigor dos censores foi maior ou menor de acordo com as necessidades do regime. A pior fase aconteceu a partir de 1972, com a instalação definitiva de censores na redação. Era um momento de instabilidade para o regime, às voltas com uma disputa interna em torno da sucessão do general Garrastazu Médici.
No dia 15 de setembro daquele ano, o ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, proibiu a publicação de notícias sobre redemocratização, anistia e sucessão presidencial. Passados 4 dias, ele recebeu uma carta indignada de Ruy Mesquita, diretor do JT. Começava assim: “Ao tomar conhecimento dessas ordens emanadas de V.Sa., o meu sentimento foi de profunda humilhação e vergonha. Senti vergonha, senhor ministro, pelo Brasil, degradado à condição de uma republiqueta de banana ou de uma Uganda qualquer por um governo que acaba de perder a compostura.”
A maioria das publicações preenchia o espaço censurado com outras notícias, mas alguns editores se recusavam a fazê-lo. O semanário Movimento, que nasceu censurado em 1975, substituía os textos vetados com retângulos com fundo branco ou negro, com a inscrição Leia Movimento. A revista Veja denunciava o rastro do censor com figuras de demônios.
Os Lusíadas – No Estado e no JT a orientação era mostrar o resultado da censura aos leitores da forma mais clara possível. A primeira tentativa, logo proibida, foi deixar os espaços em branco. Então, por sugestão de Ruy Mesquita, o JT começou a publicar receitas culinárias nos espaços censurados. Muitos leitores demoraram a compreender a razão daquelas receitas de empadões e tortas no meio do noticiário político.
O Estado decidiu inicialmente publicar cartas de leitores no lugar do que fora proibido. Em julho de 1973, por sugestão de Julio de Mesquita Neto, os buracos começaram a ser preenchidos com poemas – de Gonçalves Dias, Cecília Meireles, Olavo Bilac, Manuel Bandeira. No dia 2 de agosto saiu um trecho do épico Os Lusíadas, de Luís de Camões. Chamou tanto a atenção que se decidiu manter a receita.
Entre 1973 e 1975, Os Lusíadas apareceram no jornal outras 660 vezes. Alguns leitores não entenderam e um deles chegou a escrever à redação pedindo mais cuidado na publicação do poema, pois na forma como era feita não conseguia colecioná-lo.
O efeito global, no entanto, foi positivo: Camões acabou virando sinônimo de censura, como observou a historiadora paulista Maria Aparecida d’ Aquino, na tese de mestrado Censura, Imprensa, Estado Autoritário (1968-78): “O poema de Camões ficou no imaginário coletivo como lembrança de um tempo em que os cortes dos censores promoveram sua publicação. Restou como símbolo de resistência.” Certa vez, irritado com a proibição de suas entrevistas no Estado, o deputado Ulysses Guimarães desabafou: “Quem mais atrapalha o MDB é Luís de Camões. Este poeta tem-me perseguido desde os bancos escolares, quando eu o achava incompreensível.”
O censor vetou a frase.
Em 1973, foi proibida a divulgação da notícia de que um ministro (Cirne Lima, da Agricultura) renunciou, e liberada a notícia da nomeação de seu sucessor. O espaço da matéria sobre a demissão foi substituído com um anúncio da Rádio Eldorado, onde se lia: “Agora é samba.”
No dia 3 de janeiro de 1975, véspera do centenário do Estado, foram publicados os últimos trechos de Os Lusíadas e as receitas do JT. No dia seguinte os censores deixaram a redação.
ROLDÃO ARRUDA

“Instituições em frangalhos”

Este foi o último editorial escrito por Júlio de Mesquita Filho e que resultou na apreensão de O Estado de S.Paulo e do Jornal da Tarde do dia 13 de dezembro de 1968 e desencadeou a censura aos órgãos de imprensa independentes do País. Nele são apontados os desvios a que a Revolução de 64 estava sendo levada, numa previsão do que viria a acontecer na noite daquele mesmo dia. Este editorial marcou o início da luta de ambos os jornais contra o regime de arbítrio que se instalou no País.

Eis o editorial: “Instituições em frangalhos”
Das palavras ultimamente pronunciadas pelo sr. presidente da República, infere-se não ser o seu estado de espírito aquele que até há pouco sistematicamente definia a confiança que depositava em si e na sua gestão. O otimismo, de resto inconsistente, que transpirava de todas as suas atitudes, acabou por ceder lugar a uma inquietação crescente, na qual são evidentes os sinais de que admite S. Exa. que as coisas venham a piorar – não porque elas se tenham em si mesmas deteriorado, mas em conseqüência dos erros praticados por S. Exa. É que, com o correr do tempo e o contacto com a realidade, vai S. Exa. percebendo que governar uma nação de mais de 80 milhões de habitantes e que acaba de dar, com a vitória de 64 – que, embora S. Exa. a considere como obra das Forças Armadas, se deve ao próprio esforço da coletividade –, uma demonstração viva de fé democrática, é coisa muito diferente do comando de uma divisão ou de um exército.
Ao assumir as funções de presidente da República, imaginou o sr. marechal Costa e Silva que para essa dificílima missão estava perfeitamente capacitado, tanto mais que na profissão que adotara havia galgado com facilidade toda a escala hierárquica, dando sempre provas de aptidão e de descortino. Ao deixar os quartéis para bruscamente se investir das responsabilidades de supremo mandatário do Estado brasileiro – e isso nas condições que ele e seu antecessor estabeleceram, de comum acordo e prescindindo das advertências que lhes dirigiam cotidianamente os que haviam encanecido na vida pública – fê-lo S. Exa. de ânimo leve, na convicção de que, no novo terreno que pisava, bastar-lhe-ia empregar a experiência adquirida na carreira militar e devotar aquele mesmo respeito que sempre demonstrara pelos regulamentos disciplinares ao sistema legal que juntamente com o sr. marechal Castelo Branco tinha encomendado ao sr. Carlos Medeiros da Silva e aos autores de seus complementos naturais, as leis de Imprensa e de Segurança Nacional.
No decorrer das primeiras etapas do seu governo tudo parecia sorrir-lhe, pois que, além de saber contar discricionariamente com a força dos regimentos, das brigadas e das divisões, dava ainda por certa a passividade da Câmara e do Senado, ambos constituídos pelos dois conglomerados que ele, como o seu antecessor, acreditava representarem a substância popular. Já nessa altura, para aqueles que através dos tempos afinaram aquela sensibilidade sem a qual ninguém será capaz de perceber os sinais precursores dos grandes terremotos, se mantinha S. Exa. acima dos acontecimentos, na ilusória suposição de que tudo ia pelo melhor e que, se algumas vozes se levantavam em dissonância, não correspondiam ao sentir das camadas profundas da nacionalidade. Pouco tempo durou, porém, a euforia presidencial. Umas após as outras, começaram a manifestar-se as contradições do artificialismo institucional que, pela pressão das armas, foi o País obrigado a aceitar. A desordem passou a campear nos arraiais estudantis, ao mesmo tempo em que, ante o mal-estar geral, o clero revoltoso fazia sentir a sua presença até mesmo nas praças públicas. Dentro dos próprios limites do feudo aparentemente submisso à vontade do Palácio da Alvorada, não se passava dia sem que se manifestassem sintomas da insurreição latente. A Arena aderia à rebeldia geral com tamanha evidência que o próprio MDB sentiu que era chegado o momento da desforra. Resolveu então, com uma ousadia que a todos espantou, enfrentar a ditadura militar em que vivemos desde 1964 ferindo na sua suscetibilidade as Forças Armadas brasileiras.
Já agora, a ordem que julgava S. Exa. o sr. presidente da República dever a Nação às instituições que ele lhe impôs revela-se uma vã aparência, pois que, ao apelar para os que considerava correligionários seguros das acutiladas da oposição contra os seus companheiros de armas, se vê S. Exa. totalmente desamparado. Sob o cansaço das humilhações sofridas, aquilo que S. Exa. supunha ser a maioria parlamentar, lembra-se enfim de que, pela própria Constituição que passivamente aceitara, lhe assistia o direito de afirmar as suas prerrogativas, como lhe assistia a autoridade moral suficiente para discutir as razões com que tanto as Classes Armadas como o Executivo Nacional pretendiam ditar-lhe a pena a aplicar a um deputado faltoso. É então que o ex-general de exército, habituado a não admitir que lhe discutam as ordens, se viu na pouco edificante posição de deixar de lado aqueles escrúpulos que o tinham levado a afirmar que jamais transgrediria um milímetro sequer as linhas da legislação que ele mesmo traçou para cometer uma série de desmandos contra a Lei e o regulamento interno do Congresso, tentando arrancar da Comissão de Justiça da Câmara, sob o protesto do seu digno presidente e o sentimento de nojo do País, a licença para processar o autor das injúrias aos militares.
Conforme o havia decidido, a sua vontade foi obedecida naquela Comissão, mas à custa da confiança que S. Exa. depositava em si mesmo e da excelência das instituições vigentes. E é diante desse quadro, todo ele feito de tonalidades sombrias, que nos achamos. Até aqui as coisas pareciam suscetíveis de uma recomposição. Apesar de tudo, a passividade do Congresso Nacional, aliada à disciplina militar, poderia ainda fazer as vezes do apoio da opinião pública. Agora, porém, que são claros os sinais da desagregação irredutível da maioria parlamentar, como o comprova a estrondosa derrota sofrida ontem pelo governo, quando mais de 70 deputados da Arena votaram contra a concessão de licença para processar o deputado Marcio Moreira Alves, pergunta-se: que é que poderá resultar de um estado de coisas que tanto se assemelha ao desmantelamento total do regime que o sr. presidente da República julgava fosse o mais conveniente àquele delicadíssimo e frágil arquipélago de grupos sociais a que se referia ainda ontem, cuja integridade, é S. Exa. o primeiro a reconhecê-lo, está por um fio?