AMAZÔNIA poema de manoel de andrade

Antes da pátria, eras úmida promessa…
semente primordial
árvore mãe
planta continental
arvoredo, floresta, selva palpitante.
Hoje canto tua  vertical beleza
o mogno gigantesco,  sua estatura secular
seu colossal diâmetro
canto essa caudalosa geografia
essa multidão de vidas que sustentas
canto o itinerário sazonal da seiva
e  essa infinita linfa…
parto de infinitas criaturas.
Canto teu verde planetário
e no teu imenso respirar,
canto o nosso pão de oxigênio…
Canto a ti… Amazônia
bosque inquietante da esperança…
e  eis porque denuncio esse machado cruel sobre  teu peito…
essa fruta milenar, dia a dia devorada.

Antes da grande nação…já eras tu…
a nação primogênita
filha dos filhos da mata.
A infância da pátria foste tu,
sílaba aborígine, idioma tupi
cerâmica, canoa e tacape
ritual, dança e canção.
Foste tu a raiz,  sangue ameríndio
o parto da nacionalidade.
Hoje canto os povos da floresta
e o desencanto dessa memória esquecida.
Falo de sobreviventes
de tribos desgarradas
de aldeias tristes
de sonhos desmatados
de segredos e tradições pirateadas
das águas lavadas na bateia do mercúrio.

Amazônia….Amazônia…
quem deterá o teu martírio
uma vida tão diversa num  adverso viver…
Falo dos teus hectares de sangue
da lâmina cruel, da pira ardente
dessa cartilha de serras, rifles e archotes
dessa morte plural
na diversidade de aves e primatas
roedores, felinos e serpentes.
Falo de uma terra de cepos
de raízes degoladas
de caules retalhados
de castanheiras preservadas… a morrer de solidão.
Falo da linha negra do fogo
e desse cemitério de troncos defumados.

Falo da floresta sitiada
por uma legião de máquinas assassinas
falo de estradas e picadas clandestinas
de súbitas clareiras
desse assalto interminável… lento e invisível.
Falo de grileiros, posseiros, garimpeiros, bandoleiros
e de terras demarcadas sob a mira das pistolas.
Falo de dragas e crateras
das águas manchadas e dos rios estropiados.
Falo da vida degradada pelas pastagens da ambição.

Amazônia…Amazônia…
com que verde vestiremos nosso mapa
acuados pelo apetite voraz das motosserras,
por uma fronteira incinerante que avança insaciável.
Acuados pelo gatilho mercenário da violência
e pelo estigma oficial da impunidade.

Passo a passo e esse avizinhar-se do colapso…
quantos fóruns se abrirão para “resolver” essa tragédia!?
Crimes silenciados na cumplicidade regional dos gabinetes…
gritos sem eco nas vozes da omissão…
acenos sem resposta nos protocolos renegados…
e o poder dos maiorais contra tudo o que respira.

………………………………………………………………………………….

Deixaste ali teu heróico testemunho
teu seringal sagrado
teu rosto  solidário.
Contigo… caiu o tronco ensangüentado…
Tua alma…teu nome…Chico Mendes,
sobrevivem  em deslumbrante  hiléia,
na invisível bandeira das espécies
e na memória da pátria agradecida.

Depois chegaste tu…Dorothy  Stang…
estrangeira,  franzina e destemida
desafiando   víboras e chacais
e defendendo a floresta com a paz do nazareno.
Em  Anapu  ergueram teu calvário
mas  hoje  ergo aqui,  no jardim humilde da poesia,
a tua estátua de missionária imperecível.

……………………………………………………………………………………….

Amazônia… Amazônia…
Quantos ainda cairão para que sobrevivas?
Com que vozes  cantaremos a esperança
enlutados  pela ausência dos que ousaram manter suas denúncias?
quem te fará justiça?
quem suspenderá esse cerco que te aperta lentamente?
como conter teu holocausto
e a agonia silenciosa das espécies?

E eis porque canto o desencanto da árvore secular que tomba
e essa sinistra paisagem de troncos decepados…
E falo da imensa copa baqueada…
seus frutos, seus aromas
remédios e resinas,
seus colares e adereços…
Falo de samambaias e orquídeas
de cipós e de bromélias agonizantes.
De garras, patas e plumagens…
de berços destroçados, de ninhos mortos
e dessa maternidade em lágrimas.

Falo do patrimônio ambiental da pátria
da grilagem descarada
de negociatas e falsos documentos.
Falo da destruição diária e sorrateira
de pastagens criminosas
e de uma ingrata agricultura.
Falo da natureza usada e abandonada
de uma terra arrasada
e de um deserto verde que cresce…dia a dia.

Eis tu…e eu te chamo legião…
o mundo te observa e nos pergunta: por quê???
e todos nos perguntamos: até quando???
os que irão nascer perguntarão quem foste tu e por que tanto desamor…
os céus vigiam teus passos,
rastreiam teus crimes
e a tua sombra imensa que avança para o norte…
Sabem de ti o rei e os seus vassalos…
conhecem  teus látegos de aço
tua tocha incendiária
teus cúmplices e tuas vítimas
tuas mãos manchadas com o sangue da floresta…
Somos os que te acusamos
nessas sementes queimando
nessas pétalas feridas
nesses pássaros sem ninho…
Somos os que assistimos, impotentes, esse indigesto banquete,
tua dieta vegetariana
e a euforia com que brindas o lucro e o  bom negócio
nessa taça transbordante de cinzas, de sangue e de lágrimas…

Amazônia… Amazônia… sem lei, sem testemunhas…
e essa  oficial improvidência…
Nada que te ampare…
nada..
Talvez um vento reverso
uma chuva perene que apague essa queimada.
Talvez um decreto impossível
uma lei implacável
a mão de Deus, quem sabe…
a espada da justiça pra sangrar os que te sangram…
algo que feche essa ferida
algo que estanque essa agonia.
Quem sabe, o refluxo imperdoável do teu próprio martírio…
uma malária cruel…
algo que empeste essa ganância…
antes… bem antes
que essa segunda geração de abutres choque também os seus filhotes.

 poema do livro CANTARES editado pela Escrituras.
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52 Respostas

  1. Todos os 3 poemas são de Manoel de Andrade? Ou somente o primeiro?

    1. Todas as partes integram um único poema.

  2. Estão abertas as inscrições para o 25º Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos.

    ​Inscreva-se no 25º Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos:
    ​https://goo.gl/forms/4VEVrfCf0bhhtFPl2

  3. Pode sim, Isadora. Se quizer, entre em contato comigo para uma autorização formal :manoelandrade2004@hotmail.com

    Manoel de Andrade

  4. eu posso usar esse poema em espetáculo teatral ?

  5. ameiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii concordo plenamenteeeeeeeee!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  6. PERFEITO PARA MEU TRABALHO

  7. Nossa ate me emocionei…..
    Lindo..
    Maravilhoso…

  8. o poema e lindo vou escrever para ser o meu trabalho.

  9. muito lindooooooooooo

  10. Concordo com você Adriana esse povo que desmata não tem noção de que o que eles estão desmantando é o pulmão do Brasil.Povinho sem noção.

  11. danniel silva de oliveira | Resposta

    nas aguás claras o sol nasce
    com ele toda uma classe
    com tudo reluzindo ao seu redor
    todos sentem teu amor

  12. nunca vi um poema tão lindo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  13. vou escrever um poema que eu criei.
    Amazonas,Amazonas meu
    tu es belo,tu es forte
    tu es rio,tu es floresta
    tu es fauna e flora .
    tenho orgulho de ter,de viver,de ser esse grande Amazonas.
    teus rios são cheios de peixes
    tuas matas tão cheias de animais
    tuas terras tão cheias de histórias .
    como podes,como podes tu seres tão belo
    como podes,como podes tu seres tão vivo
    como podes como podes tu seres tão
    AMAZONAS….

      1. Olha vc tem criatividade!Já eu não sirvo pra fazer isso.
        kk

        1. mavitta waguel foncesa de paula roxa | Resposta

          se vc só vc! tudo bem mas duas já é muito ruim!

    1. Aguida Yunna dearaujo campaio dos santos e santos | Resposta

      parabéns você é muito boa. espero que vc seja uma poeta incrivelmente maravilhosa!
      bjs!

  14. os poemas são muito bons, parabéns poeta valente, seja mais uma voz na defesa desta nobre região que é amazônia. Você faz belas poesias para falar da mais linda região do mundo, gostaria de saber mais de você.

  15. olha eu adorei o seu poema é lindo vc poderia escrever um texto faz mais poemas que o povo vai adora vou compartilha com meus amigos pode deichar. amei.

  16. Crime, violência e crueldade é isso que se comete contra a flora e a fauna amazônica. Este poema retrata, com beleza e amargura, toda essa perplexidade.
    Num mundo onde pouco importância se dá à poesia, até pelos temas irrevantes de trata, é gratificante vê-la engajada numa causa tão nobre.
    Parabéns ao poeta Manoel de Andrade.
    Júlio

  17. Que belos versos para testemunhar esse crime tão inominável. Este poema é um manifesto, uma denuncia perfeita, porque escrita com a beleza, a magia e o poder de síntese da poesia. É gratificante, mas tão raro, ver um poeta comprometido com com uma causa tão emergente e tão fundamental para a sobrevivência do planeta e de cada um de nós.
    Parabéns Manoel e obrigado por este presente.

  18. Querido amigo

    Que muitas mais vozes se erguessem como a sua, para condenar o que se está a fazer, um verdadeiro crime, contra uma das poucas maravilhas que ainda sobrevivem nestes tempos de destruição que estamos vivendo na terra. Se algo não for feito, que nos restará para deixarmos às gerações que vierem depois de nós, nós, que nos achamos senhores do mundo, sentindo-nos no direito de tudo fazermos, sem o mínimo respeito pelas dádivas que recebemos e que encontrámos quando aqui chegámos?
    O seu combate à destruição é desenvolvido magistralmente, com uma das armas mais poderosas de sempre: a palavra.
    Parabéns.
    Vera Lucia

  19. Manoel,

    Maravilhoso seu poema.
    Precisamos mesmo sensibilizar a população com relação à degradação ambiental.

    Meus parabéns!!

  20. Manoel,

    Sou admiradora de seus poemas. E agora esse despertar da consciência ecológica.
    Parabéns!

  21. Todo este poema é um hino de amor e de trágico pressentimento, retratando a beleza da floresta e o desencanto da sua lenta destruição.

    “Antes da pátria, eras úmida promessa…
    semente primordial
    árvore mãe
    planta continental
    arvoredo, floresta, selva palpitante.
    Hoje canto tua vertical beleza
    o mogno gigantesco, sua estatura secular
    seu colossal diâmetro
    canto essa caudalosa geografia
    essa multidão de vidas que sustentas
    canto o itinerário sazonal da seiva
    e essa infinita linfa…
    parto de infinitas criaturas.
    Canto teu verde planetário
    e no teu imenso respirar,
    canto o nosso pão de oxigênio…
    Canto a ti… Amazônia
    bosque inquietante da esperança…
    e eis porque denuncio esse machado cruel sobre teu peito…
    essa fruta milenar, dia a dia devorada.”

    …………………………………………..

    “Amazônia….Amazônia…
    quem deterá o teu martírio
    uma vida tão diversa num adverso viver…
    Falo dos teus hectares de sangue
    da lâmina cruel, da pira ardente
    dessa cartilha de serras, rifles e archotes
    dessa morte plural
    na diversidade de aves e primatas
    roedores, felinos e serpentes.
    Falo de uma terra de cepos
    de raízes degoladas
    de caules retalhados
    de castanheiras preservadas… a morrer de solidão.
    Falo da linha negra do fogo
    e desse cemitério de troncos defumados.”

    Quem dera que os artistas e os poetas pudessem ser levados mais a sério pelos homens. Quem sabe tivéssemos um mundo mais belo e mais justo

  22. Esta deve ser também a função da poesia, acusar os homens dos seus crimes. A sobrevivência da Amazônia passa por essa condenação e pela punição dos que a devastam.

  23. Caro Manoel,

    Quem dera tivéssemos nesse tempo poetas tão bons e com a consciência ambiental que você tem.
    Obrigada, foi um presente para mim ter lido esse poema.

  24. Je suis resté quelques instants le souffle coupé d’émotion !
    Ce poème ‘’florestal’’ possède des racines ancestrales,
    un tronc gigantesque, des branches majestueuses
    portant les feuilles de chlorophylle vitales pour l’existence.
    Depuis des millénaires il s’est toujours trouvé un homme
    de part le monde pour exprimer un refus d’une situation,
    aussi cette tragédie de l’abandon de l’AMAZONIE,
    peut être stoppée grâce à l’action conjuguée du poids des mots
    d’un poème associé au choc de la prise de conscience des politiques.
    Que tous les dévastateurs rejoignent leur destinée en enfer,
    Pour qu’enfin l’AMAZONIE sorte de son purgatoire,
    Et puisse reprendre toute sa légitimité comme poumon de la planète.
    Manoël, votre poème est un hommage à cette vieille dame AMAZONIE.

  25. Lindo poema de Manoel de Andrade. Acho que as pessoas deveriam ler mais poemas como esse para se conscientizarem de que pouco à pouco estamos acabando com nossa AMAZÔNIA, que é o símbolo do nosso querido Brasil.
    Bjssss….. MANU.

  26. Lindo poema,quem dera eu soubesse escrever uma linha.beijoss com carinho.Lia…

  27. Cara Cássia, obrigado pelo comentário. No final do poema está a indicação, que reitero aqui. O livro chama-se “CANTARES” e foi publicado pela editora paulista “ESCRITURAS”, em 2007. Está a venda nas grandes livrarias do país, mas a edição está quase esgotada.
    Um fraterno abraço…,Manoel

  28. Lindo poema! Parabéns!
    Trabalho com produção de material didático e gostaria de saber sse esse poema está publicado em algum livro para que eu possa indicá-lo.

    Um abraço,

    Cássia.

  29. lindo,lindo,lindo
    amei
    adorei
    ………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
    muito lindo de muita imaginação

  30. e muito bom essas poesias
    gostei myito

  31. PARABÉNS,, É MUITO INTERESSANTE

  32. Eu sinto grande gratificação. Uma honra poder fazer contato com tão brilhante escritor e poeta.
    Vou, certamente ler o poema. E editor, agradeço a atenção.
    Beijo a todos!

  33. daisy, não precisa ir no google onde a busca trará todos os manoeis. vá na parte superior desta página em BUSCAR e digite o nome da matéria ou nome do AUTOR que vc quer encontrar e… zastrás o resultado estará à sua frente.
    obrigado pela visita,

    jb vidal
    editor

  34. E que boa a volta de Manoel de Andrade. Vou ler mais ele.
    Beijos

    1. Cara Daisy…, é gratificante sentir que alguém partilha do nosso testemunho e da nossa legítima acusação. Creio que é para isso que nasce um poema. Para chegar ao coração humano e repartir algum encanto ou convocar mais um punho para a luta. Para semear uma inquietude e anunciar a esperança.Para provocar um suspiro ou desfraldar uma bandeira. Obrigado pela pertinência do teu comentário. Tenho, neste site, um outro poema neste linha de denúncia. Chama-se “Distopia” e você poderá achá-lo mais fácil no Google com: “Distopia poema”
      Um fraterno abraço…, Manoel

  35. Muito lindo. É mais que poema, e não é longo, é perfeito como um suspiro, um desabar de dor, uma tristeza pela impotência que nos reveste. Há estrofes geniais:

    “Talvez um vento reverso
    uma chuva perene que apague essa queimada.
    Talvez um decreto impossível
    uma lei implacável
    a mão de Deus, quem sabe…
    a espada da justiça pra sangrar os que te sangram…
    algo que feche essa ferida
    algo que estanque essa agonia”

    Precisamos ter esperança e, de alguma forma, iniciarmos uma luta séria, inusitada contra esses demônios destruidores. Os ganaciosos e perversos seres que se dizem humanos.

    Parabéns!

  36. muito lindu mais num podia ser menor naum tipo uma linha

  37. Bela poesia!
    Mas não fiquei com vontade de chorar.
    E, ervilhas não pensam em dinheiro!

  38. otimo;;;;;;;;;

    mada umas poesia mais piquena ai….?

  39. Acho que é uma falta de respeito imensa ,uma coisa tão linda ser desmatada,dá vontade de chorar o cerebro de uma pessoa que faz isso deve ser do tamanho de uma ervilha,que só pensa em dinheiro.
    Fico muito triste ao saber disso.

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