Arquivos Diários: 1 abril, 2008

AOS PICARETAS da LITERATURA por jb vidal

não tenho nenhum compromisso com o que essas canetas (ou teclados?) de aluguel chamam de lindo, belo, bonito, riqueza, esperança, conforto, segurança, politicamente correto.
e não me interessam, absolutamente, porquanto as razões que dão origem a esses conceitos não são naturalmente legítimas, ou seja, razões originadas em uma moral que a vida não contempla, não reconhece. são conceitos que diante dela, viram mijo de rato.

leptospirose no cérebro, portanto.

só os defendem, esses conceitos, quem deles vivem e seus batalhões de seguidores idiotas que terminam por se acharem, piedosos, bonitos, agradáveis, esperançosos, seguros e politicamente corretos.

gente fraca, inútil. ninguém sentiria sua falta caso não existissem. o mundo está cheio disso. uns merdas.

mas eles continuam aí, escrevendo, conceituando, renovando conceitos, iludindo, renovando ilusões, aplaudidos e venerados por esses milhões de inúteis.

vendem esperanças. vendem o futuro. e o futuro, que vendem é belo, rico, bonito, agradável, seguro e politicamente correto. a esperança que vendem é a felicidade e o tesão inesgotáveis. lixo.

induzem-os, a exercícios mentais sobre como se autoafirmarem diante dessas necessidades, justamente porque por aí serão dominados, pelo mercado (consumismo), pela religião (fé no dízimo) e pelo o Estado (impostos aviltantes sobre a mão de obra).

o dinheiro, primeiro.

gostaria de vê-los defendendo seus escritos nos acampamentos da fome na Etiópia, no meio das palafitas da Bahia, no centro do tiroteio no morro do Alemão no Rio, junto aos moradores do Minhocão em S. Paulo, nos subúrbios miseráveis de Nova Iorque.
gostaria de vê-los.

gostaria de vê-los vendendo suas “obras” e dando conferências sobre “Como Ter Sucesso” em Serra Leoa, convencendo o Osama Bin Laden a ler “Como fazer Amigos;” gostaria de vê-los, entre árabes e judeus, no meio da intifada, pregando “amai-vos uns aos outros”. ah! como gostaria!

não, jamais fariam isto, pois sabem que enganam, ludibriam, mentem e sorriem com escárnio sentados em suas poltronas de veludo contando os cheques milionários ganhos com o bestesseler comprado em até três prestações por milhões de desesperados procurando uma saída para seus grandes problemas como “preciso ter sucesso”  “necessito fazer amigos” “sinto falta de um mago”. puta que pariu.

estelionatários dos fracos de espírito. gigolôs de almas. profissionais da palavra vazia. estrume é o que são.

mas, tudo bem, a humanidade abre espaço para esse tipo de picaretagem. tudo bem. que pague o preço.
a raça humana carrega desde os primórdios o sentimento de que é prisioneira, na essência, e, sente-se segura quando ele aflora, eu chamo essa merda de o prazer do não poder, o prazer do mínimo.

ela constrói suas prisões.
diversos são os níveis de celas que cria: os conceitos de família, os conceitos sobre sociedade, mercado e Estado, há séculos propostos e aprovados por reis, príncipes, igrejas, barões, parlamentares e governantes corruptos, aéticos, marginais e hipócritas;
constrói a cela urbana, sente-se segura nela em detrimento do convívio com a natureza; é prisioneira do Estado, e por último, não sei até quando, sente-se encarcerada no planeta.

estas as razões que levam esses milhões de idiotas serem prisioneiros daquelas leituras que nada mais são, que lixo literário, ratificando, a engordar a conta do “mercado editorial” que com raríssima exceção, é formado por um clube de picaretas.

liberdade plena só dentro de si mesmo, e quando praticada paga-se caro. eu sei. já paguei muitas vezes. mas reajo, tentando cerrar as grades com o verbo.

outras vezes com um porre. funciona.

na primavera darei morangos aos meus morcegos.

CAI A TARDE poema de tonicato miranda

para Moana

estranho dizer este: cai a tarde!
mas são os sonhos que estão a cair

o último pio da ave avisa: cai a tarde!
mas ninguém percebe o olfato a se perder

somos todos estranhos nesta tarde
e ela se vai porque não nos quer mais ver

não nos querem mais os jasmins, as glicínias
os amores perfeitos, os beijos e as margaridas

estranho, mas é verdade: cai a tarde
vai decompondo suas pétalas feridas

onde foi parar o grande pé de pitanga
vizinho da janela e do meu sorriso vespertino?

em qual fogueira foi arder a jabuticabeira
pretos frutos na palavra molhada do meu filho?

cai a tarde, como é estranho dizer
mal-me-queres, onze horas e orquídeas, onde estão?

cai a tarde e em profunda solidão caio em mim
já vou tarde com lembranças encontrar a noite

estranha tarde esta, parceira da imprudência
tijolada sem aviso fabricando prisioneiro grito

estranho dizer este: cai a tarde!
tristeza transatlântica a me levar a um mar escuro

cai a tarde e tudo parece estar no limite do fim
até parece que estou despedindo-me de mim

MADE IN USA poema visual – de antero de alda/portugal

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ETANOL adesivo para carros – de geraldo magela

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OS PARES DE SAPATOS de MARLENE conto de otaciel o. melo

 Estava eu sentado num bar/restaurante chamado Carneiro do Ordones, aqui em Fortaleza, que, concorrendo com todos os bares das cercanias e com as barracas da Praia do Futuro, passou a servir também, às quintas-feiras, o tradicional caranguejo cozido. Num caranguejo você quase não encontra nada o que comer, de tal maneira que a relação custo/benefício é altíssima, principalmente se considerarmos o trabalho empregado para quebrar as patas desse crustáceo para se obter filamentos milimétricos do que as mulheres chamam de “carne”. Dito de outra maneira, o preço desta iguaria é tão salgado (em torno de R$ 2.50, a unidade) que ela é desaconselhada para hiper-tensos. Porém a moda pegou, e na noite do quinto dia da semana as mulheres se produzem, põem as suas melhores roupas e jóias, e se dirigem aos bares da cidade, sozinhas ou acompanhadas de seus homens, com o objetivo de comer “carne de caranguejo”.
 Pois bem. Estava eu no Carneiro do Ordones quando me apareceu o Antônio, moço bem apessoado, porte atlético, rosto de boneca da estrela, o tipo de homem que as mulheres chamam de ‘gatão’. O cara realmente chama a atenção do mulherio que acintosamente o come com os olhos. O rosto do Antônio, para dar uma melhor idéia de sua fisionomia, parece com o do garoto que trabalhou no filme de Visconti, Morte em Veneza, lembram? Admito que é um prazer sentar ao lado dele, porque de vez em quando tenho a impressão de que as mulheres olham também para mim. Sozinho, naquele tipo de ambiente, elas me olhariam como se eu fosse um espantalho, ou seja, com muito mais susto do que admiração, compreendem?
 Mal se acomodou na cadeira de plástico, Antônio foi logo me dizendo: “me separei da Marlene, você soube?”.
– Não –  respondi-lhe com sinceridade. – O que aconteceu?
Ele passou então a narrar detalhes de sua relação com a Marlene e o episódio que motivou a separação.
Antônio – Juntei-me com a Marlene há cinco anos. Você a conheceu e há de concordar que ela é bastante apetrechada e reboculosa (entenda-se, bonita e rabuda), não é verdade?
Eu – Ninguém melhor do que você para qualificá-la.
Antônio – Pois é… Com a morte do pai, a Marlene herdou uma pequena fortuna: dois apartamentos e uma casa, um carro quase zero quilômetros, isto para não falar em jóias, dinheiro em poupança e outros bens de importância. Quando do inventário, eu já a namorava, embora não dividíssemos ainda o mesmo teto. Quando fomos morar juntos, a família me deu um emprego de “relações públicas” em uma fábrica de doces em calda, herança que o pai deixou para o Clóvis, irmão dela. Nesse cargo eu ganhava mais do que merecia, com certeza. Eu passava o tempo todo telefonando para as namoradas que sempre tive, e a única coisa que eu fazia com os doces era experimentá-los de sobremesa. Na verdade, o que eu fazia no meu emprego de “relações públicas” era manter relações privadas com o público feminino.
Durante os cinco anos de existência em comum, a nossa vida financeira foi sempre um mar de rosas. Não faltava dinheiro para absolutamente nada. Basta dizer que nos três primeiros anos fizemos algumas viagens à Europa e aos States. No começo do quarto ano nasceram os gêmeos, Mário e Hilário, que passaram a receber os cuidados de duas empregadas. Todavia, a nossa vida sentimental era algumas vezes perturbada por alguns telefonemas que as minhas eventuais namoradas davam para o nosso apartamento. Aparentemente, a Marlene aceitava as minhas traições numa nice. Afinal, ela sabia que mulher que casa com homem bonito dificilmente escapa de um chifre.
Agora, o motivo da separação. A Marlene é proprietária de 85 pares de sapatos. Isso mesmo, oitenta e cinco pares de sapatos. Eu sempre achei isso um absurdo; eu sempre achei que todo o colecionador tem um parafuso frouxo na cabeça.
Eu – Não resta dúvida que 85 pares de sapatos é um exagero. Mas me diga uma coisa: se ela tinha dinheiro e gostava de colecionar sapatos, qual era o problema? Mais caro sairia se ela gostasse de colecionar carros, como fazia o Elvis Presley. Por outro lado, você é também o que podemos chamar de colecionador, um colecionador de mulheres.
Antônio – Olha, a diferença é que mulher agente não guarda dentro de um armário. E, para ser franco, o problema não era exatamente o preço de cada par de sapatos que, diga-se de passagem, era engraxado mensalmente pela módica quantia de cinqüenta centavos. O problema estava no tempo que ela gastava, quando resolvíamos dar uma saída, para escolher o par de sapatos que melhor se ajustasse ao vestido, ao penteado, ao seu humor, etc., compreendeu? Essa escolha levava geralmente mais de uma hora, o que me deixava extremamente estressado. Eu procurava então relaxar assistindo televisão, tomando umas doses de uísque 12 anos, ouvindo Frank Sinatra, ou telefonando para algumas garotas, quando possível. Até que, numa noite, eu perdi o equilíbrio: numa fatídica quinta-feira, já fazia  duas horas que ela escolhia o maldito par de sapatos quando eu fui acometido de uma explosão irracional de ira que me levou à atitude que motivou a separação. Eu gritei da sala, em direção ao quarto onde ela se embonecava: “Marlene, eu não te suporto mais. Eu não quero mais viver com uma louca, proprietária de 85 pares de sapatos”. Ato contínuo sai do apartamento com a roupa do couro, peguei um táxi, e fui me hospedar num hotel à beira mar. Durante o trajeto o meu ódio era infinito e esse descontrole me provocou uma crise temporária de dislexia: eu não conseguia ler sequer uma frase num outdoor iluminado. O motorista do táxi, percebendo o meu estado de furor, aconselhou que eu medisse a pressão arterial numa farmácia: 17 x 07. Ele sugeriu então que fossemos a um hospital, sugestão não acatada.
Cheguei ao hotel com uma baita dor de cabeça, consegui na portaria um analgésico e por volta das 21 horas eu já dormia pesadamente. As quatro da manhã acordei assustado e comecei a refletir sobre a besteira que tinha feito. Marlene era um porto seguro pelo que tinha e viria a ter. Eu tinha que me desculpar pelo mal-entendido e, pedindo perdão, voltar à alcova do concubinato.
Peguei o telefone e na décima tentativa uma voz masculina me atendeu. Para alívio geral, era o Clóvis, irmão da Marlene. Ele não queria acordá-la, porque nas suas palavras “ela dormia o sono dos justos”. E encerrou a ligação dizendo que eu telefonasse, se quisesse, depois das 10 horas. Esse “se quisesse” me tirou do sério: senti o chão desaparecer sob as minhas pernas que começavam a tremer.
 O Clóvis era um empresário sério, monógamo convicto, que administrava a fábrica de doces com punhos de ferro. Ele nunca engoliu o meu emprego de “relações públicas” e desconfiava, pela conta telefônica, que eu passava o tempo todo traindo a irmã.
 Pois bem. Por volta das 8:30 da sexta-feira volto a telefonar para Marlene que me atende. Mal disse alô e foi logo me comunicando que os meus pertences tinham sido colocados em algumas bolsas e caixas que se encontravam na portaria do prédio onde morávamos; ela não queria mais papo comigo, nem mesmo me ver. Eu questionei então àquela atitude inusitada e ela soltou o verbo pela primeira vez em cinco anos:
“Antônio, meu belo, o que você pensa que é? Se você não sabe, eu mesmo lhe direi: Você é um gigolô Antônio; isso mesmo, um explorador de mulheres. Eu conheço o seu passado e sei que você nunca pregou um prego numa barra de sabão. É incrível: você tem 34 anos e nunca trabalhou na vida! E saiba, meu tesouro, que na qualidade de amante você é um zero à esquerda; você tem ejaculação precoce e, a despeito das minhas reiteradas reclamações, nunca procurou um médico para tratar dessa disfunção sexual. Você é de um egoísmo infantil, de um cinismo atroz, e age como se a vagina das mulheres fosse um depósito de esperma. Sabe quantas vezes eu senti prazer com você numa cama, meu tesão? Seis ou sete vezes em cinco longos anos de relacionamento. Outra coisa, meu bem: eu sei que você me traiu todo esse tempo com um exército de putas desqualificadas que ficavam encantadas com a sua beleza física. Mas você não é homem pra dar conta de nenhuma delas, sabia? Além disso, você é burro. Você ridicularizou o apoio que teve da minha família, ao levar para cama a Gorete, aquela vagabunda que trabalhava na fábrica de doces do Clóvis. E veja a precariedade de sua situação: como passamos a viver juntos depois que eu recebi a herança do meu pai, é como se tivéssemos “casados” com separação de bens: ou seja, você não tem direito a absolutamente nada, meu liso. E pode entrar na justiça que nós sabemos contratar bons advogados que conhecem bons juízes.
Em suma, Antônio, você é mau caráter. E, pra encerrar esse papo, eu vou lhe dizer somente mais uma coisinha: quando minhas amigas me perguntarem sobre o que motivou a nossa separação, eu vou dizer para elas que cansei de viver com um homem que fazia amor mais rápido do que um galo; e olha, Antônio, que o sexo praticado por um galo é tão rápido quanto um relâmpago, segundo piada que ouvi dos seus amigos. E não me venha com essa estória de dizer que os meus 85 pares de sapatos tiveram a ver com todo o seu egoísmo e estupidez. Seja feliz, meu garanhão!”
Eu – Rapaz, a mulher botou pra quebrar; que vingança maligna! Agora, pra encerrar também o nosso papo que ficou muito pesado, me responde uma coisa: é verdade que você tem ejaculação precoce?
Antônio – Que nada cara; esse papo é pura agressão. Um amigo meu, que é médico, me disse que a medicina só considera ejaculação precoce quando o homem atinge o clímax em menos de 15 segundos. Eu vou além desse tempo. Uma outra coisa que eu quero que você saiba: eu vou destruir a Marlene.
Eu – Homem, pelo amor de Deus, acaba com essa história.Vocês têm filhos; deixa passar esse momento de ódio recíproco e tenta levar um relacionamento civilizado com a tua ex-mulher. Contrata um bom advogado, questiona na justiça a divisão dos bens, mas nada de violência.
Antônio – Nada disso. Eu vou destruí-la e vou lhe contar como vai ser a coisa.
Eu – Para com essa loucura, Antônio, por favor; eu não quero ser acusado de cumplicidade num crime premeditado.
Antônio -Vou contar, sim. Eu vou enviar à Marlene, fingindo-me de admirador anônimo, mais 15 pares de sapatos. Eu duvido que o próximo macho agüente esperar uma eternidade para que ela se apronte pra comer “carne de caranguejo” numa noite de quinta-feira.

TEREZINHA DE JESUS prosa poética de marilda confortin

 
 
O primeiro, foi seu pai.
Terezinha nasceu sem berço, sem abraços, sem festa. Nasceu de parto natural, se é que se pode chamar de natural qualquer parto. Nasceu porque todo santo ano sua mãe paria um filho e ter um filho por ano era natural. E seu pai foi o primeiro porque em sua casa só tinha uma cama e Terezinha dormia com os pais, entre os pais, com os pés no saco deles e a boca no seio seco da mãe. Ela teve tantos pais quantos foram os homens que se deitaram na cama quente de sua mãe.       
 
O segundo, seu irmão.
Ela teve tantos irmãos que no los puede contar. Ela não sabe o sobrenome deles, porque ninguém tinha registro de nascimento, porque nem todos eram filhos de sua mãe, porque cada um era filho de um pai, porque sua mãe chamava todos de filho então todos se chamavam de irmão e dormiam juntos e se amavam muito naquela casa que só tinha uma cama.
 
O terceiro, foi aquele a quem Tereza deu a mão.
Ela deu a mão e ele deu no pé. Mas antes de partir ele deu um tiro na boca de Terezinha, porque ela era uma moça muito boazinha e numa noite fria ela deixou seu irmão Jesus dormir na sua cama, porque nas noites frias quando ela morava com sua mãe, seus irmãos sempre dormiam juntos, porque na casa da sua mãe só tinha uma cama onde dormiam os pais, as mães e os irmãos, porque todos se amavam muito naquela casa.
 
 

SAMBA poema de jorge barbosa filho

golfadas de fantasia despindo a lucidez…
escolas-de-samba percorrendo as minhas veias,
a chuva de prazer…
e a certeza de um céu constelado de bucetas.
mulatas rebolando úmidas em minhas línguas,
seios em sensual desespero escorrendo
em meu peito como morros e favelas.
piratas saqueando o ouro de minhas palavras
e as enterrando sem mapas
em algum canto de tantos carnavais.

sons e visões da negritude…

um pierrot decreta cambaleante
a eterna Quarta-feira de Cinzas…
e um ser…
um ser fantasiado de cachorro,
lambe a minha cara:
não foi cultura e nem raça,
foi coca-cola com cachaça.

ALGODÃO poema de jasmin druffner

Algodão
Isto não é amor
Isto é necessidade
Alguém para degustar
Talvez seja a idade
É duro
Talvez seja a sociedade
Amor puro
De qualquer modo, a verdade
Talvez não por ora
Não é como algodão
Talvez amanhã na orla
Em branco, e em vão
Amor é um composto
É um
Às vezes um desgosto
Tum-tum
E novamente
Já são dois
Abarrotados
Preenchidos
Saturados
Os
Cheios
De nada
Algodão

TABUS por helena sut

Apesar de todas as rupturas e certezas, sobrevivem as palpitações. O compartilhado durante a história do casal é exposto numa alegria nostálgica e numa expectativa tardia. Será? Os dois envelheceram, miram-se em busca das antigas projeções e se embaralham nas recém-rasgadas rugas. Confusão. Continentes tão conhecidos e o embaraço na abordagem. O corpo presente em fantasia e tão distante do contato da realidade. Como?

A afinidade no olhar para a vida, o estranhamento com o breu de algumas mortes e a forte atração sexual não são suficientes para recompor os corpos vergados com as esperanças do outro. Tantas vezes buscaram a íntima trilha do companheiro e se perderam nas próprias relvas desconhecidas. Tentaram compartir as bagagens, mas o excesso de sonhos os submetia à exaustão dos projetos. Procuraram os atalhos, os mapas, a intensidade das terapias, os silêncios continuados, mas perdiam-se absortos nos ecos do outro, gritos abandonados na íntima caverna do medo.

Quantas retomadas. O olhar do primeiro encontro, a carne trêmula agarrando-se aos gestos enraizados na inquietação. O cenário do encantamento tantas vezes reconstituído. O corpo arraigado ao corpo de nós sem definir os tempos conjugados, como se o encontro fosse simplesmente uma projeção do gerúndio. Quantas despedidas. As palavras ressecadas na pretérita ferida ressuscitada. O corpo agarrado a plural identidade de ser o outro na percepção da plenitude de um eu amante.

Lúcidos, os apaixonados reconhecem suas fragilidades na entrega impetuosa e inundam os turbados discursos amorosos com o córrego erótico que não respeita margens. Desesperados de dor e encantamento tentam subestimar o culto orgástico. Privados do furor são corpos rotineiros que já não sentem palpitações, não sonham, já não se bastam…

As carnes cansadas se rendem à ternura. Encolhem-se na tentativa de dar espaço à luz da alma e adormecem recortadas no outro num fraternal abraço… Emoções à flor da pele, os amantes velam o corpóreo desejo exaurido entre o sagrado e o impuro, a estrutura sensual que não poderá ser restaurada e que permanecerá como um totem a sombrear os rituais religados à saudade de ser no outro a consagração do eu.

DANCEM, RINDO, CHORANDO, DANEM-SE por darlan cunha

Quem primeiro dançou foi um homem, algum mais desatinado do que o normal; sim, os primeiros a dançar foram os homens, porque as mulheres não tinham peito, vaza, permissão para isso, para tão natural clamor genético, psíquico.

Digo isso enquanto ouço uma seleção aleatória que vai da moderna música portuguesa a solos de violão tocados por australiano; da mais refinada música brasileira, passando por milongas argentinas e música folclórica chilena, a algo da palidez musical anglo-saxônica. Pois bem.

É de onde a cidade se transforma num xadrez de campos agrícolas, de bases militares, em presídios ou terrenos reservados a laboratórios onde a Suspeita é porteira, guarda e presidenta, é de lá que falo, sim, é onde a cidade estanca na beira do mar que me repito como eixo de mim mesma, mulher ou abantesma, fluindo para fora da melancolia geral desde eras desmemoriadas, e de antes; mas voltemos à dança, aos primeiros passos de dança

Nalgum areal, ravina ou na orla de um paúl onde caveiras espetadas eram copo e conta de batalha (o termo butim de guerra não existia, prova de que palavras valem pouco ou nada), o breu minando de poças fedorentas que um relâmpago acendeu, cefaléia geral, até que o bicho-homem aprendeu a inventar, casando-se e tendo filhos com ela – a dor de cabeça.

E ainda hoje dança sobre e sob indizíveis crueldades, tudo pela algazarra de um dom misterioso, pulsão de morte cada vez maior. Talvez a Música seja uma anomalia, sim, é de se verificar isso. Sejam comedidos ao estudar aberrações de seus pais ou ancestrais ou que nome lhes dêem. Dancem diferente.