Arquivos Diários: 2 abril, 2008

QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU? por vicente martins

Há dias, o massacre em Erfurt me incomoda insistentemente no final da tarde. Refiro-me ao massacre escolar no Instituto Johannes Gutenberg, em Erfurt, ao leste da Alemanha, no dia 26 de abril de 2002, que trouxe um saldo macabro para a história da violência escolar no mundo: 18 mortos. Como ficou a educação escolar, na Alemanha e no mundo, após o incidente em Erfurt? Como em educação, não temos medo do lobo mau?

O presente artigo objetiva retomar uma questão, por mim, colocada, há mais de quatro anos, para nós educadores. Gostaria de levantar e obter, também, respostas para algumas das questões que me incomodam e sei que inquietam educadores de todos os países: qual a explicação da explosão de violência no meio escolar? Que está passando em nossa sociedade, especialmente nas escolas de educação básica, para que ocorra um desastre dessa proporção? O que levou Robert Steinhaeuser, de 19 anos, a abrir fogo contra seus companheiros e professores?

Levantamos, aqui, a hipótese de que o mau professor tem sido um dos patrocinadores da barbárie em Erfurt, Freising, Brandenburgo, Meissen, Colorado, Jonesboro, Kentucky, Mississipi, Iêmen, Reino Unido e América Latina.

A sociedade prefere, porém, encarar a problemática da violência escolar, envolvendo armas e jovens, como uma questão meramente jurídica ou de controle social: o porte ou não de armas. A intolerância escolar é a mais poderosa arma mortífera que uma sociedade pode produzir.

A educação escolar, em qualquer parte do mundo, após o crime em Erfurt, não pode continuar a mesma: indiferente às vítimas e à fúria assassina de um Robert Steinhaeuser. As universidades e as escolas, nessa sociedade capitalista, têm produzido e reproduzido, em larga escala, muitos Robert Steinhaeuser. Eles se manifestam nos maus professores ou em suas vítimas, os maus alunos, na verdade, ambos, também vítimas de uma pedagogia da intolerância que os lançam numa voluntária e iníqua disposição para a perversidade.

Alunos ferozes são o produto mais apurado da intolerância e da felonia, dois males das escolas pós-modernas no seio da sociedade globalizada. Nós, educadores, não podemos esperar mais pelo pior em se tratando de horror escolar. O crime em Erfurt é reincidência da fúria escolar. O massacre, no Colégio Gutenberg, é endemia multinacional. Erfurt deve ser sinônimo de intolerância escolar.

Em crimes dessa proporção, os governantes, se pudessem, voltariam no tempo. São eles, também, que encontram, de imediato, explicação simplista para a violência escolar: mais rigor no porte de armas. Os políticos legislam sobre educação, mas muitos deles não sabem o real significado da escola em suas vidas.

Nós, educadores, ao contrário dos políticos, devemos encarar, de frente e com o olhar mais demorado, a violência escolar, pois sabemos que suas causas não vêm apenas do afrouxamento das leis ou ausência do controle social por parte dos aparelhos do Estado. Não se trata de a criança ou jovem ou adulto ser controlado quanto ao porte ou não de armas, mas, de a criança, desde a educação infantil, aprender a respeitar à vida como o bem mais precioso da humanidade.

Por trás de todo crime escolar, há um mau professor que o justifica na boca do aluno delinqüente. Não são poucos os maus professores que, no cenário do crime, à guisa de Robert Steinhaeuser, vestem-se de cores escuras para não dissimular seu comportamento radicalmente sóbrio e seu olhar sombrio sobre a tarefa de instruir. Desde cedo, alunos, candidatos ao fracasso escolar, descobrem nos professores amargos o primeiro sinal de uma pedagogia da intolerância.

Quase sempre, quando os maus professores embargam a voz, não é sinal de emoção, mas de repressão que logo se lançará, como flecha, num alvo certo: os perdedores, os que fracassam nas avaliações escolares.

O mau professor, em geral, é inflexível, e suas palavras são as mais duras que os alunos escutarão no decorrer de suas vidas. Suas aulas não são ministradas, mas executadas, com pontualidade e exatidão alemã que lembram mais máquinas, tiranas ou servas do tempo, não levando em conta que todo magistério tem por fim a formação de seres vivos e humanos e que o tempo de aula é tempo de se olhar feliz e contemplativamente sobre o tempo de viver.

O mau professor, quando severo, pode ser elegante, mas sua presença não traz prazer, e sim, medo. O professor severo é bem definido e acentua sua ideologia de ser. Por isso, os professores intolerantes, em sala, são as maiores vítimas da cola e dos desvios morais e éticos dos alunos. Nos massacres, sempre são os primeiros a serem mortos, vítimas daqueles que eles mesmo batizaram de “perdedores” ou “fracassados”.

O mais grave é que muitos professores e diretores de escolas, públicas e privadas, ainda não tomaram consciência de que a sociedade escolheu a escola para ministrar o ensino com base nos princípio de uma pedagogia do amor, do pluralismo de idéias, de concepções pedagógicas e de respeito à liberdade.

Com o horrível crime em Erfurt, nós, educadores, aprenderemos a lição do apreço à tolerância?

A IMPRENSA BRASILEIRA EMPASTELADA, ONTEM (1930) COMO HOJE (2008)! pela editoria

 ontem como hoje, os mesmos interesses. os herdeiros políticos e econômicos do presidente deposto washington luiz.

a-revista-o-cruzeiro-capa-de-8-de-novembro-de-1930-081130ca.jpgcapa da REVISTA ” O CRUZEIRO” DE 8 DE NOVEMBRO DE 1930, onde foram publicadas as fotos abaixo.

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memória viva.

NO ESCURO, A DITADURA EM MARCHA! (ll)

Momentos antes do Golpe e da vitória das “Forças Ocultas”
Parte 2: semeando a revolução

por Paulo Alexandre Filho
Deu no New York Times: “Os componentes de uma situação de revolução tornam-se cada vez mais visíveis na vastidão de um Nordeste brasileiro assolado pela pobreza e perseguido pela praga da seca”. Era final de outubro de 1960 quando o correspondente norte-americano Tad Szulc percorreu Pernambuco tomando notas da situação, entrevistando pessoas e colhendo dados a respeito de uma presumível “revolução” que pudesse estar em marcha no Nordeste. Sua investigação resultou em reportagens que foram publicadas no mais conhecido e influente jornal dos EUA e a repercussão destas matérias deixaram Washington em alerta – o governo estadunidense não queria ver uma nova revolução na América Latina, temia que uma nova e gigantesca Cuba acabasse por desmoralizar sua influência no continente.

As Ligas Camponesas que, segundo a matéria, eram “infiltradas por comunistas”, espalharam o temor de que uma mudança drástica nas relações de trabalho no campo viesse a ocorrer e que a perigosa e indesejável reforma agrária viesse a ser uma conquista inevitável. Pânico entre os proprietários de terras. Desespero entre os políticos conservadores, reacionários e prepostos do regime da grande propriedade rural. Enfim, o alarde era perfeitamente justificável.

As mobilizações no campo efetivamente se avolumaram desde a crescente ação das Ligas Camponesas a partir da desapropriação do Engenho Galiléia, no município pernambucano de Vitória de Santo Antão em 1955. Daí em diante, os conflitos entre os trabalhadores rurais e os grandes proprietários recrudesceram e o estado de violência passou a imperar como rotina ainda mais evidente no meio rural nordestino (o movimento irradiou e as Ligas chegaram a atuar por praticamente toda a região). A radicalização reivindicatória e política do movimento camponês passou a enfrentar uma radicalização acentuada também da repressão oferecida pelos proprietários e pela polícia. A guerra foi deflagrada. “Reforma agrária na lei ou na marra” passou a ser o mote da ação das Ligas, que orquestraram greves, comícios, ocupações de terras e pregações abertamente contra o latifúndio, a exploração dos trabalhadores rurais e, claro, contra o imperialismo norte-americano. Mas era notório que entre os articuladores e líderes das Ligas havia comunistas “fichados” e também figuras demagógicas dispostas a promover suas “agitações” políticas que serviam até para desestabilizar o movimento, afinal, coesão política não era uma característica fundamental das Ligas Camponesas. A possibilidade de sindicalização dos trabalhadores rurais somente passou a ser viável com o decreto do Estatuto dos Trabalhadores Rurais (ETR) realizado pelo Governo Jango em março de 1963 e a luta pelo controle das entidades sindicais dividiu o movimento camponês, fracionado pela disputa entre Ligas, grupos ligados a setores da Igreja Católica, o PCB, grupos políticos radicais independentes e até por grupos beneficiados pela distribuição de verbas empregadas exatamente para aplacar qualquer indício de “ação revolucionária” no campo.

O ETR possibilitou ainda que direitos trabalhistas que já eram assegurados aos trabalhadores urbanos chegassem, finalmente, a contemplar os trabalhadores rurais. Sendo assim, 13º salário, férias, carteira assinada e salário-mínimo passaram a ser pontos de reivindicação constante do movimento camponês. Os proprietários, habituados a ignorar qualquer possibilidade de amparo ou benefício trabalhista aos camponeses, não se mostraram satisfeitos com tais medidas. Na Zona da Mata nordestina ainda era comum a prática do cambão (espécie de obrigação feudal, caracterizada pelo trabalho forçado nas terras do senhor, sem a devida contrapartida, durante determinado período de tempo), do pagamento de metade da produção pelos pequenos proprietários e posseiros aos seus suseranos modernos e também a submissão por dívidas de empréstimos abusivos, além do infalível barracão que mantinha o trabalhador preso a impagáveis débitos. A miséria que recaía sobre os trabalhadores rurais, portanto, estava estreitamente ligada ao grau de exploração e degradação ao qual estavam submetidos e a ação do movimento camponês tentava exatamente fazer com que esta realidade pudesse ser percebida, corroborando-se assim o que havia alertado o jornalista norte-americano ao afirmar que “a deflagração de uma revolução de grandes dimensões poderá se tornar inevitável dentro de poucos anos”.

Fazer reforma agrária, contudo, implicaria em confronto com vigorosos interesses contrários e na necessidade imperiosa de promover uma reforma constitucional. O artigo 141 da Constituição Federal de 1946, em seu 16º parágrafo, determinava que uma “indenização prévia, justa e em dinheiro” deveria ser paga ao proprietário das terra desapropriada para fins de reforma agrária. Dentre as medidas apontadas pela Declaração do I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas sobre o Caráter da Reforma Agrária, realizado em Belo Horizonte em novembro 1961, estava exatamente a proposta de modificação deste dispositivo constitucional, apontando que a indenização pronta haveria de ser substituída pelo pagamento das terras desapropriadas através de títulos públicos de longo prazo a juros baixos. Esta, dentre outras propostas que visavam disponibilizar terras para a promoção da reforma agrária, foram rechaçadas pelos grupos anti-progressistas e pela oposição ao Governo João Goulart. Se a campanha pela reforma agrária já era intensa entre os trabalhadores rurais e progressistas, a campanha anti-reformista também estava em atividade. Panfletos de grupos ligados aos proprietários disseminavam-se amplamente a exemplo de um determinado panfleto chamado Fronteira Democrática que circulou em 1963 e que conclamava a sociedade a pressionar os congressistas para que estes não cedessem aos apelos que tentavam promover a reforma constitucional que viabilizaria a reforma agrária no Brasil. Afirmando que esta oposição às reformas era “uma reivindicação de toda nação” e que a democracia estava em risco graças aos avanços dos reformistas, a Fronteira Democrática tentava convocar a opinião pública para que esta não permitisse que “pequeninas divergências sirvam de escada aos propósitos subversivos”. Diferente da Fronteira Democrática, que era anônima, o grupo dos autores responsáveis pelo livro e pelo panfleto Reforma Agrária – Questão de Consciência possuía os seus quadros políticos bem identificados (entre eles o Arcebispo de Diamantina e o Bispo de Campos) e invocavam a “consciência cristã dos brasileiros” contra as intenções de João Goulart de por em prática o desenvolvimento da reforma agrária e contra sus determinação de afetar uma Constituição em que “contêm os princípios básicos da doutrina e civilização cristãs que a nenhum poder humano é lícito revogar”. Os dispositivos constitucionais que mantinham intocadas as estruturas agrárias brasileiras eram, portanto, encarados como dispositivos divinos, que emanavam o máximo grau de civilidade cristã – de um cristianismo defendido por quem achava justa a miséria dos trabalhadores rurais, pelo menos.

O processo “revolucionário” nordestino, principalmente em Pernambuco, teve inúmeros líderes, personagens decisivos para a fomentação de um clima que preocupou senhores de terras, afortunados de direita, setores de uma classe média conservadora e temerosa de que uma suposta revolução colocasse o país de pernas para o ar e, evidentemente, incomodou militares que não poderiam se acomodar diante tamanha sublevação da “ordem”, quando “agitadores” pregavam idéias perigosas e dissolventes. Dois destes tantos agitadores, certamente os mais perigosos, foram Francisco Julião e Miguel Arraes.

Francisco Julião foi um advogado que fez história em atuação no movimento camponês. Prestou suporte gratuito a trabalhadores rurais em causas judiciais contra seus patrões e foi fazendo fama como grande defensor dos homens do campo. Elegeu-se deputado estadual e federal, pelo Partido Socialista Brasileiro, com os votos dos trabalhadores rurais e era reconhecido como o grande líder das Ligas Camponesas. Pregava como plataforma a ampliação do movimento, ressaltando que o exemplo de Cuba estaria sendo revivido e reinventado no Nordeste. Dizia ele, “os grandes latifundiários apoiados pelo imperialismo dos EUA estão sugando nosso sangue”. Eram freqüentes as suas idas à Cuba e através de sua influência e trânsito político na ilha governada por Fidel Castro muitas outras lideranças camponesas viajaram ao país para conhecer de perto uma experiência revolucionária. Pouco freqüentava o Congresso, mas estava em Brasília no dia 31 de março de 1964. Naquele dia discursou a respeito das inquietações que tomavam conta do país e do estado de alienação e descompromisso do Congresso diante das grandes questões que afligiam o povo. Advertiu que a questão agrária era o “fator de toda essa inquietação” e que a libertação das massas trabalhadoras seria “conquistada pacificamente ou por meio da revolução, da rebelião das massas inconformadas do Brasil”. Horas depois Julião estava em fuga. O Golpe Militar o transformou em presa das mais valiosas.

Miguel Arraes elegeu-se governador de Pernambuco contrariando fortes interesses. Venceu o seu adversário direto, o senhor de engenho João Cleofas, derrotou ainda os altos investimentos do IBAD e a campanha difamatória feita pela imprensa. Advogado, ex-deputado estadual, ex-secretário estadual da fazenda e ex-prefeito do Recife, Arraes foi impondo um estilo que se mostrou altamente perigoso. O método do professor Paulo Freire, secretário estadual da Educação, alfabetizava a população pobre em tempo reduzido enquanto trazia para o convívio destes novos letrados temas relativos ao universo cotidiano de exploração e submissão ao qual estavam ligados. O “Acordo do Campo”, assinado por proprietários, fornecedores e entidades representativas dos trabalhadores rurais (incluindo as Ligas Camponesas) foi conduzido pelo governo como tentativa de estabelecer entendimentos que redundassem na diminuição dos conflitos no campo, contudo, a insistência dos proprietários em descumprir dispositivos do ETR e a radicalização do movimento camponês pela reforma agrária não efetivaram os efeitos planejados ao acordo. A estratégia de ação do Governo Arraes preconizava o emprego dos dispositivos legais imparcialmente, sem dispor, deste modo, a capacidade coercitiva do poder governamental em serviço da classe dominante, o que implicou certamente numa iniciativa que por si já era “revolucionária”, considerando a forma como eram anteriormente conduzidos os conflitos entre senhores e trabalhadores rurais. Arraes e seu Governo de “comunistas” caíram com a deflagração do Golpe e o ex-governador foi preso e posteriormente exilado do país.

Com o decorrer dos Anos de Chumbo, os movimentos sociais foram reprimidos. Seus líderes foram presos, torturados, expulsos, assassinados. Sindicatos foram invadidos e as intervenções trataram de debelar os focos de resistência. As Ligas Camponesas foram eliminadas e, como poderia ser inferido com frustração, terminava do mesmo modo que as anteriores mais uma etapa da luta de classes no Brasil.

O combate a todo o estado de insubordinação e subversão que se atribuía ao legado dos governos destituídos não implicou no combate aos elementos que causavam as agitações, isto é, persistiram a miséria e a precarização nas relações de produção e trabalho e continuava a imperar o latifúndio. A este respeito observou Joseph Page, um observador norte-americano que esteve no Brasil para acompanhar o “processo revolucionário”, que “desde que o seu controle sobre o país era absoluto, não havia nada que impedisse os generais de decretarem as reformas básicas. Era esta a sua oportunidade, mas eles se esquivaram dela”.

O testemunho fundador de Pero Vaz de Caminha já havia dado conta de que a terra brasileira, “querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. Os trabalhadores rurais na década de 1960 acreditavam que poderiam colher uma revolução através de suas lutas, mas as pragas que assolam o campo e atormentam as plantações são insistentes.

Este artigo é dedicado ao amigo Oscar Cruz, que influenciou decisivamente minha atenção a respeito do período em que o Brasil se viu atormentado pela Ditadura Militar e que também tem me inspirado a conhecer analiticamente um tempo que ele conheceu efetivamante.