Arquivos Diários: 4 abril, 2008

ESPOLIÁRIO poema de walmor marcellino

Vou só até a esquina,
compro fósforos;
meu aquecedor desaquece
sem fósforos acesos.
Compro pão
não logro comer sequilhos;
Compro leite
nem posso viver a pão e água.
A dignidade se compraz
no seu modo eternidade.
Posso comover-me, se
outrossim me convenço;
Posso masturbar-me
se tenho vontade absurda.
Posso revolver-me
porém não posso bastar
a mim mesmo. Como um eco.
Posso ajustar esta imagem
tão provocante quanto sua conveniência,
sobremodo detalhada.
Essa independência é um rasgo
no céu com fundo infinito.
Ignoro o que há no fim do túnel
e com certeza não é boa coisa

O CICLO DOS BINÓCULOS poema de sérgio bitencourt

 
 
Houve um tempo,
Em que os binóculos eram binóculos.
E assim sendo,
Eram considerados aparelhos óticos,
Simplesmente mecânicos,
Ótimos para aproximar distâncias,das paisagens ,das viagens,
Das corridas de cavalos.
 
Num estalo,
Num passe mágico,
De tanto olhar, passaram a ver,
 
E vendo,viram.
 
Todas as diversidades, as paisagens,
As viagens passaram a serem vistas pelos binóculos.
De perto,bem de perto,
Até os cavalos e as corridas,
O certo é que viam.
 
Mas não entendiam o que viam.
 
Até que noutro tempo,
Tomaram ciência e consciência
E aumentaram a ciência
E expandiram a consciência.
Assim além de olharem as diversidades de fora
Convergiram suas lentes para dentro.
 
E vendo, viram.
 
Um olhar a passar por eles.
“Opa,alguem nos olha ou melhor
 Vê através de nós.”
E aprofundando(diminuindo distâncias sem ânsias)
Entraram com suas ciências e consciências
Dentro do olhar que os transpassava.
 
Descobriram um mundo imenso,
Neste foco e focalizaram,
Uma consciência que não tinham ciência.
Na pureza de suas consciências,
Integraram-se a esta consciência.
 
E vendo,viram.
 
Que só com compreensão,despreendimento, paz, harmonia,
Poderiam ultrapassar esta passagem,
Até porque já sentiam a viagem.
 
Assim o que era para ser ultrapassado
Foi ultrapassado.
Nesta fase só sentiam,
não viam.
 
Sentiram então,
Turbulências de deuses e demônios
Sentiram também que estavam a atravessar
Uma inconsciência.
Mas como só sentiam,
E usando de novo da compreensão,do amor ,da paz e harmonia.
 
Ultrapassaram também esta inconsciência,
Deixando para traz a turbulência.
 
Sentiram então (se assim se pode expressar)
A iluminação toda
O caminho livre para a luz.
E foram,
Foram longe,longe,longe…
 
O que restou deles,
Nestes dias,
Foram aparelhos óticos,
Mecânicos,
Ótimos para…”