Arquivos Diários: 5 abril, 2008

PARA NASCER AMANHÃ foto/poema de mario pirata e dani morreale (modelo)

CARTA de uma CUBANA, em MIAMI, para os pais em CUBA – pela editoria

 

restaurante e bar LA FLORIDITA em Havana.

 

Assunto: Enterro da tia em Cuba

Toda a família em Cuba se surpreendeu quando chegou de Miami um ataúde com o cadáver de uma tia muito querida.  O corpo estava tão apertado no caixão que o rosto estava colado no visor de cristal….

Quando abriram o caixão encontraram uma carta, presa na roupa com um alfinete, que dizia assim: 

“Queridos Papai e Mamãe.  Estou lhes enviando os restos de tia Josefa para que façam seu enterro em Cuba, como ela queria.
Desculpem por não poder acompanhá-la, mas vocês compreenderão que tive
muitos gastos com todas as coisas que, aproveitando as circunstâncias, lhes
envio.

 

Vocês encontrarão, dentro do caixão, sob o corpo, o seguinte: 12 latas de atum Bumble Bee,  12 frascos de condicionador,  12 de xampu Paul Mitchell,  12 frascos de Vaselina Intensive Care (muito boa para a pele. Não serve para cozinhar!), 12 tubos de pasta de dente Crest, 12 escovas de dente, 12 latas de
Spam das boas (são espanholas),  4 latas de chouriço El Miño.
Repartam com a família, sem brigas!    Nos pés de titia estão um par de
tênis Reebok novos, tamanho 39, para o Joseíto (é para ele, pois com o
cadáver de titio não se mandou nada para ele, e ele ficou amuado).   Sob
a cabeça há 4 pares de “popis” novos para os filhos de Antônio, são de
cores diferentes (por favor, repito não briguem!).   A tia está vestida
com 15 pulôveres Ralph Lauren, um é para o Robertinho e os demais para seus filhos e netos.   Ela também usa uma dezena de sutians Wonder Bra (meu
favorito), dividam entre as mulheres;  Também os 20 esmaltes de unhas
Revlon que estão nos cantos do caixão. As três dezenas de calcinhas
Victoria’s Secret devem ser repartidas entre minhas sobrinhas e
primas.  A titia também está vestida com nove calças Docker’s e 3 jeans
Lee. Papai, fique com 3 e as outras são para os meninos.   O relógio
suíço que papai me pediu está no pulso esquerdo da titia.  Ela também
está usando o que mamãe pediu (pulseiras, anéis, etc).  A gargantilha
que titia está usando é para a prima Rebeca, e também os anéis que ela tem
nos pés. E os oito pares de meias Chanel que ela veste são para repartir
entre as conhecidas e amigas, ou, se quiserem, as vendam (por favor, não
briguem   por causa destas coisas, não briguem).   A dentadura que
pusemos na titia é para o vovô, que ainda que não tenha muito o que
mastigar, com ela se dará melhor (que ele a use, custou caro).  Os
óculos bifocais, são para o Alfredito, pois são do mesmo grau que ele usa,
e também o chapéu que a tia usa.  Os aparelhos para surdez que ela tem
nos ouvidos são para a Carola. Eles não são exatamente os que ela
necessita, mas que os use mesmo assim, porque são caríssimos.  Os olhos
da titia não são dela, são de vidro. Tirem-nos e nas órbitas vão encontrar
a corrente de ouro para o Gustavo e o anel de brilhantes para o casamento
da Katiuska.   A peruca platinada, com reflexos dourados, que a titia
usa também é para a Katiuska, que vai brilhar, linda, em seu casamento.

 

  Com amor, sua filha 

Carmencita.

 

  PS1: Por favor, arrumem uma roupa para vestir a tia para o enterro e mandem rezar uma missa pelo descanso de sua alma, pois realmente ela ajudou até depois de morta.  Como vocês repararam o caixão é de madeira boa (não dá cupim);   podem desmontá-lo e fazer os pés da cama de mamãe e outros
consertos em casa.   O vidro do caixão serve para fazer um porta-retrato
da fotografia da vovó, que está, há anos precisando de um novo. Com o forro
do caixão, que é de cetim branco (US$ 20,99 o metro) Katiuska pode fazer o
seu vestido de noiva.  Na alegria destes presentes, não esqueçam de
vestir a titia para o  enterro!!!

 

  Com amor, 

Carmencita.
PS2: Com a morte de tia Josefa, tia Blanca caiu doente.Façam os pedidos com
moderação. Bicicleta não cabe nem desmontada e carburador de Niva, modelo
1968, aqui ninguem ouviu falar.

RAYMUNDO ROLIM – A REUNIÃO e A VIAGEM – dois contos

A Reunião

De uma só tacada, ou melhor, com uma só palavra a reunião fora encerrada. Os presentes levantaram-se de seus lugares até então vaidosa e pomposamente ocupados. O dia prometia ser inteiro e farto em realizações. Nada poderia mesmo impedir aquele desfecho feliz. O presidente da companhia cumprimentava os assessores. A serviçal do cafezinho recolhia as inúmeras xícaras espalhadas por toda a mesa grande e oval, como também os muitos copos vazios nos quais foram servidos águas e sucos. As vozes misturavam-se em tons agudos e menos graves. Teciam muitos e variados comentários enquanto se despediam. Falavam sobre cargos e salários, e quais e tais postos seriam ocupados e por quem. Era o assunto da hora. Ajuntaram-se em torno daquele que parecia ser o mais feliz e afortunado pela promoção. Alguns afrouxaram a gravata.  O ambiente era alegre e descontraído. A situação desta vez era a da bola boa, a melhor possível em muitos e muitos anos de contenções e orçamentos férrea e arduamente contidos. Estavam assim, confortáveis. As ações subiam a cada minuto lá na bolsa de valores e do futuro. Os computadores via rede, não paravam de emitir relatórios favoráveis. A companhia multinacional do ramo siderúrgico prosperava a olhos vistos e o próximo lance estaria estampado na notícia do dia seguinte, em todas as primeiras páginas dos jornais no mundo inteiro. Já, do outro lado do planeta, com fuso horário de muitas horas adiante, um grupo de cientistas, reunidos em missão altamente secreta (num ocluso e bem disfarçado subterrâneo), despediam-se uns dos outros, em lágrimas. Só eles sabiam que a terra amanheceria diferente e para sempre, e que ninguém escreveria mais uma página sequer sobre bolsas e o futuro das bolsas e que promoção alguma valeria, nem remessas de lucro seriam jamais remetidas para a matriz no dia seguinte. E que o novo milênio já estava escrito há tempos, no livro do Apocalipse! Já num outro laboratório, distante muitas léguas dali, alguém acabara de descobrir uma função nova de certa enzima dentro de uma célula, e que salvaria vidas futuras da nova geração de clonadinhos. E estes, teriam a função de impedir futuros testes de cientistas em subterrâneos mal comportados.

A viagem

O velho acreditava que havia chegado sua hora. Perscrutou o tempo que havia tido sobre a terra. E achou que tinha sido muito. Mais que o suficiente. Começou a fazer as contas e encrencou-se com os anos bissextos. Refez as contas, colocou os anos em dias. Eram muitos. Desistiu de contar as horas; minutos e segundos não os contou mesmo! Sabia que a terra lhe fora boa e generosa (em alimentos e amores) e em prazeres que também não lhe foram poucos. Não teve todos os filhos que pretendia – por uma viuvez precoce – mas os que lhe vieram, se achavam espalhados aos quatro cantos do mundo. Bem, não quis levar adiante tais elucubrações. Muita coisa faltava ainda para que ele conseguisse fechar o círculo e compreendesse a totalidade das ações da vida através do raciocínio lógico. E logo agora, que a sua partida desta para a outra se achava no zênite! Ao menos resolveu que não se preocuparia, nem se permitiria choramingos ou milongas. As coisas são assim e está acabado! Nem mesmo sabia por que nascera e vivera tantos anos! E não conseguia entender, apesar dos esforços envidados, a finalidade da existência. Nem tudo tinha saído à perfeição, a contento, como as promessas do paraíso em vida! Riu-se ao lembrar de um dia, quando ao colher uma flor para uma namorada de suas pueris auroras e um espinho infeliz atrás de uma folha o machucara e fazendo sangrar a ponta de um dos dedos. Assim é – filosofou – às vezes os espinhos estão nos lugares que menos esperamos! Um esboço de sorriso sacudiu-lhe a lembrança por conta de uma outra tarde – quase pego em flagrante – e como eram roliças e fortes as coxas da outra namorada, a Glorinha! Ah, como a tinha amado! E a outra então, a ruiva! Que peitos róseos e cheiinhos de veiazinhass delicadas e azuizinhas que mais pareciam riozinhos vistos de cima, lá de marte! Ah, e por que é que os momentos mais sublimes, as horas mais sagradas, tinham vencimento tão precoce? Perguntava-se. Bem, de qualquer forma, havia tido muitos e muitos dias sobre a terra, não havia como negar e de nenhum poderia queixar-se exatamente ou arrepender-se. Nem ficara muito mais sábio com o passar das luas. Cultivava com certo esforço seus aprendizados. Gostava das ciências; dera-se bem, até certo ponto com pesquisas no campo dos métodos para-científicos e dedicara especial atenção às artes! Ah, as artes! Grande e paradoxal tábua de salvação! Rememorou. Sim! Elas valem à pena, pela medida exata da subjetividade estética. Filosofou novamente consigo mesmo. Então que coexistissem a cor lilás e a cor laranja, oras! Sim, pois havia uma diferença nas coisas e essa diferença era a chave reguladora ao que chamavam vulgarmente de bem e mal? No entanto e, contudo, seus dias haviam chegado a bons termos e agora, a tal viagem! Com quais recursos poderia contar em momento tão impar, tão significativo? De onde arranjaria a experiência necessária para a última jornada? Será que os céus se abririam e um coro de anjos precedidos pelo cravo de Bach se estenderia ao longo de um corredor iluminado. Onde as ruas eram talhadas em ouro e cristal e à sua passagem, agitariam as asas tal qual abelhas a refrescar o mel em seus favos, e lhe dariam as boas vindas? Deus com sua mão volumosa, antiga e em forma de concha galáctica, estaria esperando por ele para as alegorias de praxe? E Jesus Cristo, à direita do Pai, o acolheria no manto protetor e lhe dirigiria palavras ou parábolas? Não, por mais que quisesse ou se esforçasse, estava longe de decifrar este último enigma da existência ou não, sobre a vida além ou aquém da terra. Pensou tanto que achou que ainda não estava tão preparado assim como imaginava! Sentiu repentina e sublime felicidade a inundar-lhe as veias. Notou pelo vento que soprava através da janela, que se aproximava a primavera. Um pássaro cantou comprido e afinado. O velho recobrou os ânimos, abriu uma garrafa de cachaça, arranjou-se com uns tira-gostos e convidou o povo pra dançar.

 

A DITADURA DE 1964 e SEUS SINAIS

Momentos antes do Golpe e da vitória das “Forças Ocultas”
Parte 3: síndrome de Havana

por Paulo Alexandre Filho

 
Os ultra-conservadores brasileiros sempre temeram os comunistas, mas, por ocasião da quartelada de 31 de março, os bolcheviques russos já não povoavam os pesadelos exasperadores da direita tupiniquim. O mal estava perigosamente mais próximo de nós. O comunismo tropical de Cuba e a mística sedutora de seus barbudos revolucionários passaram a preocupar uma elite que percebeu que se um Fulgêncio Batista, apoiado pelas altas castas da sociedade cubana, pelo exército e pelas bênçãos dos EUA, podia simplesmente ser derrubado por um motim, então nada poderia lhes sugerir que o Brasil estaria livre deste tipo de incidente.

Fidel Castro e seus homens empreenderam dessas ações típicas de contos de heroísmo. Cerca de vinte guerrilheiros relativamente mal armados e escondidos na Sierra Maestra começaram a por em marcha um processo de tomada de poder impensável, que ganhou a simpatia dos camponeses pobres que iam aderindo ao movimento de insurreição. Entre 1956 e 1958 o movimento se espalhou e chegou à Havana até que, finalmente, no primeiro dia de 1959 conseguiu derrubar o ditador Batista. As condições da vitória de Fidel e de seus aliados, como o ícone pop-revolucionário Che Guevara, foram surpreendentes e Cuba caiu nos braços do socialismo para o descontentamento soberbo dos EUA.

A nacionalização de empreendimentos e companhias norte-americanas instaladas na ilha e a reforma agrária que tomou as terras dos latifundiários cubanos foram dois gestos que ajudaram a difundir o temor sobre os guerrilheiros que se apossaram do poder, contudo, a aliança à União Soviética selou a posição de Cuba no cenário internacional como um dos pontos nevrálgicos da Guerra Fria. Em 1961 os homens de Washington, resolvidos a impor um fim ao atrevimento socialista na América, recorreram ao apoio de “exilados” cubanos treinados pela CIA, que teriam como missão derrubar Fidel e recompor a ordem em Cuba. As marionetes foram derrotadas na Playa Girón e os soviéticos decidiram garantir o regime cubano ao instalar no país lançadores de mísseis apontados diretamente para os EUA. John Kennedy, que para o historiador Eric Hobsbawm foi o presidente mais superestimado da História norte-americana, depois de amargar o fracasso da iniciativa desastrosa da invasão à Cuba e escapar ileso da Crise dos Mísseis, resolveu impor um bloqueio econômico contra a ilha.

No Brasil, país onde Che Guevara foi condecorado pelo próprio presidente Jânio Quadros, o alarde de que os comunistas poderiam seguir o exemplo cubano era algo incômodo. Durante o Governo de João Goulart, a posição oficial era a da defesa à garantia de autodeterminação cubana, isto é, contra qualquer iniciativa militarmente ofensiva e mesmo anti a proposta de bloqueio ao país de Fidel Castro. Durante a Conferência de Punta del Este, em janeiro de 1962, o Brasil foi firme opositor à proposta, vinda pronta de Washington, que definia sansões a Cuba (incluindo ameaças de invasão sob o beneplácito da OEA), mas, apesar dos confrontos políticos, o Brasil se absteve das votações pela expulsão de Cuba e estabelecimento do bloqueio. Vitória dos EUA.

Mesmo não admitindo o bloqueio – e muito menos o ataque militar – contra Cuba, o governo brasileiro enviou o general Albino Silva, então Chefe da Casa Militar da Presidência, para Havana com o objetivo de esclarecer a Fidel Castro que, ainda que o Governo se opusesse aos desmandos norte-americanos, não apoiaria a instalação da base de lançamento de mísseis. O Brasil acabou assumindo um comportamento ambíguo, pois condenava o bloqueio e se abstinha da votação, enviava porta-voz à Cuba e não tomava partido claro e definitivo contra os EUA em relação aos mísseis. O estilo vacilante do Governo Jango manifestou-se também na condução de sua política internacional e num momento particularmente conturbado. A Crise dos Mísseis foi contornada, na verdade, por entendimentos entre os seus principais responsáveis, Kennedy e Krushov, e, no saldo final, Goulart conseguiu sair-se muito mal, desgastado entre a direita e a esquerda.

A desconfiança em relação ao governo brasileiro tomou novo fôlego nos corredores da Casa Branca, do Pentágono, da Secretaria de Estado norte-americana e também na sede da CIA. Nesta mesma ocasião, a imprensa estadunidense apontou sua “insuspeita” curiosidade sobre nós. O New York Times noticiava o estado de crise da economia brasileira, afugentando investidores e levando “autoridades” ianques a proferir severas críticas e acusações a respeito da condução administrativa do país. O próprio Kennedy declarou: “não há nada que os EUA possam fazer para beneficiar o povo brasileiro, enquanto a situação monetária e fiscal for tão instável”.

Kennedy já temia que o caos brasileiro servisse de trampolim para que se processasse uma tomada de poder por grupos esquerdistas. Temia que mais uma revolução na América significasse que os EUA estavam deixando a situação sair de seu controle. Nos EUA, o temor estava se difundindo nas principais esferas do poder e o Brasil estava sendo vigiado por espiões espalhados em consulados, em agências supostamente independentes e em multinacionais. O próprio embaixador Lincoln Gordon era uma espécie de espião-mor, ardiloso e articulado.

O alarde promovido pelas reportagens de Tad Szulc, do New York Times, feitas no Nordeste, traziam expressões atribuídas a autoridades brasileiras, que diziam que “o Nordeste se tornará comunista e teremos uma situação dez vezes pior do que Cuba, se algo não for feito”. Esta mesma fonte não revelada sentenciou que “se o Nordeste se perder para vocês, americanos, a revolução cubana será um piquenique em comparação”.

A deflagração do Golpe foi um alívio para todos aqueles que tremiam de medo da Síndrome de Havana. O Brasil estaria resguardado da moléstia comunista com o regime imposto pelos militares, pela direita e pela cooperação incansável do bom e velho Tio Sam.

A Síndrome de Havana se espalhou mais entre aqueles que a temiam do que, propriamente, entre os supostos revolucionários. Uma história que faz parte do anedotário político pernambucano relativo à ação da Ligas Camponesas e de suas imaginárias relações com o Governo Fidel Castro serve como interessante fato para encerrar esta série que já chega ao seu terceiro artigo.

O temível coronel Ibiapina, que chefiava o Serviço Secreto de Informação do Exército, interrogou um agitador subversivo chamado José Eduardo, que liderava o sindicato rural de Palmares. O agitador perigoso esteve em Cuba, fato que agravou seu grau de suspeição. Márcio Moreira Alves “transcreveu” o interrogatório entre o coronel e o agitador no livro “O Cristo do Povo”:

– “Por que você foi a Cuba”, perguntou o coronel.
– “Bem, seu coronel, fui porque o doutor Julião me convidou”.
– “E por que você aceitou o convite do deputado Francisco Julião?”
– “Por duas razões principais: primeiro porque nós somos muito pobres, vivíamos em questão com os donos da terra e o doutor Julião cuidava de nossos assuntos de graça. Eu achei que se recusasse um convite dele, ele poderia achar que nós estávamos desfeiteando e não iria mais querer resolver os nossos problemas de graça. Depois, cadê dinheiro para pagar advogado? Mais ainda fui por outra razão. Cada vez que eu estava no cabo da enxada e via passar um avião lá por cima, bonito, voando zum, zum, zum (e Zé Eduardo fazia o vôo com a mão, caprichando no zum-zum) me dava uma vontade danada de andar naquele bichão. Quando o doutor Julião me convidou achei que o dia chegara de eu também voar e não quis perder a oportunidade”.
– “E você gostou da viagem?”, indagou o coronel, meio sem jeito com aquela história de vontade de voar.
– “Bem, seu coronel, gostar, mesmo, não gostei não”.
– “Por quê?”
– “É que lá no alto, quando ele está zum, zum, zum, de repente dá uns trancos, desce nuns buracos. O estômago da gente fica embrulhado e dá um medo danado. Eu fiquei meio zonzo e com medo de melar do homem que estava do meu lado”. – “Seu burro, não estou perguntando se gostou de andar de avião, quero saber é se gostou de Cuba”.
– “Ah, seu coronal, gostar, também não gostei não”.
– “Por quê?”
– “Não é que aquela gente lá parece toda estrangeira? Eles falam tudo arrevezado, a gente não entende o que eles dizem, eles não entendem o que a gente diz, é uma confusão danada”.
– “E o que você viu por lá?”
– “Não vi nada, não senhor. Só uns engenhos de cana, umas usinas, um povo parecido com a gente aqui de Pernambuco, só que estrangeiro”.
– “Já sei que é estrangeiro, seu ignorante. Mas você não viu mais nada, preparativos de guerra, por exemplo?”
– “Ah, isso de guerra não vi não senhor, coronel”.
– “Você não viu soldados pela rua, de uniforme e metralhadoras?”
– “Ah, bom, soldados e metralhadoras vi muito, sim senhor. Igualzinho a aqui em Pernambuco”.
– “E não viu canhões antiaéreos, sacos de areia pelas ruas?”
– “Sacos de areia, vi, sim senhor. Até furei um deles para ver o que tinha dentro. Era uma areia fininha, branquinha, boa para caiar casa. Eles devem estar querendo caiar muita casa lá em Cuba”.
– “Seu burro! Seu imbecil! Ponha-se daqui para fora! Você não é comunista, não. Você é cretino, isto sim! Saia da minha frente!”

Esta história pitoresca ilustra muito bem nossa experiência revolucionária e tipifica ainda melhor o quão brilhante era a percepção de nossa direita conspiradora, que subiu ao poder montada em tanques de guerra, usando suas fardas e medalhas brilhantes, pisando no povo com seus lustrosos coturnos. 40 anos se passaram desde a vitória das “forças ocultas” e esta efeméride quase passa despercebida, como se o esquecimento notável de um país sem memória nos guardasse mais esta lacuna.

VOLTAIRE, furioso

sobre o idealismo:

 

usamos nossas idéias apenas para justificar nossa maldade, e as palavras para esconder nossas idéias.