SOBRE A (IN)UTILIDADE do POETRIX por marilda confortin

 
Um dos principais atributos da poesia, é a inutilidade. Não fosse isso, ela já estaria extinta por obsolescência. Tudo já foi escrito e cantado em verso e prosa de todas as maneiras possíveis.  Mas, a revelia dos tempos, da evolução tecnológica e da opinião dos críticos literários que execram os textos ingênuos, todo dia, em algum lugar dessa terra, alguém se depara pela primeira vez com uma lua cheia e solta um “putaqueospariu que coisa mais linda!”  ou enche o peito e sem vergonha declama o primeiro versinho que lhe vem a cabeça “não há, ó xente, ó não, luar como este do sertão”[1].  E começa tudo outra vez: nasce um novo poeta rimando amor com dor, criança com esperança, lua com nua, Brasil com anil. É muito confortante saber que o ciclo da poesia se repete inútil e eternamente.
 
Então porque escrevo um ensaio sobre a utilidade de uma poesia jovem e breve como o Poetrix[2]? 
 
Porque esse tipo de terceto me caiu do céu. Despencou de uma nuvem de informação chamada internet, empurrado por um diabinho baiano chamado Goulart Gomes, no momento em que eu não escrevia nem lia mais poesia, exatamente por acreditar que era algo inútil. E eu lá tinha tempo pra essas coisas? Precisava trabalhar, dominar as novas tecnologias,  ganhar dinheiro para sustentar a família, me afirmar como profissional, “ser alguém” na vida. Eu estava me tornando alguém, sim. Alguém mesquinho que sabia tudo sobre os máquinas e nada sobre as pessoas que os utilizavam ou eram substituídas por elas. Alguém que procurava palavras nos dicionários só para escrever relatórios, projetos, orçamentos e manuais técnicos.  Alguém tão estúpido que achava incompatível um analista de sistemas, médico ou engenheiro nuclear dedicar parte de seu tempo para a arte, música e poesia. Alguém como muitos que vocês conhecem e estão sentados ao seu lado nesse momento.
Mas a verdade é que eu continuava sem tempo para leituras longas. As editoras só publicavam livros de auto-ajuda e eu estava mais para auto-destruição. Os haicais que eu tanto amava, começaram a me soar tão óbvios e puros com seus kigos, que destoavam com o ar condicionado, urbano e poluído do meu apartamento. Pari alguns tercetos irônicos e chame-os de haicai. Horrível! Me senti como quem estupra flores. As pessoas que me cercavam, não tinham saco para ler meus textos meticulosamente explicados nem para ouvir meus discursos saudosistas entrecortados por sonetos do século passado. Eu precisava de algo rápido, sintético, exato, criativo, surpreendente, amplo, imagético, mágico. Eu precisava de um susto, um “projétil que atingisse minha alma e detonasse minhas emoções”  [3].
Eu precisava que me “devolvessem
as
   as
      as”[4]
 
Bum! Aconteceu. Tropecei num Poetrix de Goulart Gomes:
 
A$$ALARIADO
 
Vende a vida inteira
 Pelo pão de cada dia
A liberdade bóia, fria
 
E vieram outros e mais outros e o poetrix se espalhava feito vírus pela internet. A partir daí, voltei a escrever, ler e trabalhar harmonicamente. De cada relatório técnico ou projeto que escrevo, extraio um poetrix. É meu jeito de exercitar a síntese, a exatidão, a multiplicidade, a consistência e descobrir em mim e nos colegas de trabalho algum resquício de emoção. De cada poesia, crônica ou conto que leio ou escrevo, procuro extrair um poetrix. É a minha maneira de valorizar as palavras, revistá-las, revisitá-las, revitalizá-las, homenageá-las ou torturá-las. 
 
Voltei a ler os clássicos com mais paciência e os contemporâneos com mais complacência. Fiz as pazes com os dicionários. Procuro palavras na fala cotidiana das pessoas e no “silêncio das línguas cansadas”.  A poesia enfim, me foi útil.
 
Não pretendo ensinar ninguém a escrever nem (de)gustar do poetrix.  Quero mais é que você “morda, mastigue, engula e faça a digestão. Que se vire!”  [5]
 
Poeta
 
Tortura as palavras
Até que digam
O que não querem dizer
 
(Gr)ávida
 
Pensa que tem
O rei na barriga
… e tem!
 
Pré Natal
 
Dilato, contraio, ardo
Estou prestes a parir
Mais um ano bastardo
 
Marilda Confortin
Coordenadora do MIP – Movimento Internacional Poetrix – Paraná.
________________________________________
[1] Luar do Sertão – Catullo da Paixão Cearense
[2] Poetrix: Poe=poesia; trix=três. Terceto contemporâneo de temática livre, com título, ritmo e um máximo de trinta sílabas. Possui figuras de linguagem, de pensamento,  tropos ou teor satírico. Foi assim batizado em 1999 e difundiu-se num movimento internacional totalmente virtual. Atualmente possui milhares de adeptos que gostam da idéia de escrever tercetos contemporâneos de temática livre sem ferir as regras do haicai. 
[3] Sara Fazib em “como fazer poetrix”
[4] Devolva-me – de Sonia Godoy
[5] Trecho do II Manifesto Poetrix

 

COMENTÁRIO:

marilda, este teu texto está provocando algo que, como muitas outras, eu ando refletindo há tempos e não ando disposto a deixar passar em branco. o HAIKU/HAIKAI, como afirmam os próprios mestres japoneses, no Brasil e no Japão, NÃO PODE ser tradusidzo para lingua estrangeira, a não ser que o poeta “haicaísta” domine as duas línguas PERFEITAMENTE, mesmo assim encontrará grandes dificuldades.
com a valorosa imigração japonesa, início do século 20,vieram também alguns estudiosos e mestres do poema japones e que por divulgarem entre seus compatriotas, afim de manter a cultura viva, terminou por influenciar os brasileiros, fundamentalmente, aqueles que conviviam junto ou próximos as áreas rurais, onde se deu a maior parte da fixação dos imigrantes. mas, como devo escrever sobre isto, mais aprofundaddamente, por estes dias, quero apenas te dizer que desde então inaugurou-se um grande EQUÍVOCO, quando os poetas brasileiros ao comporem um TERCETO (poema curto de tres linhas/versos) passaram a chamá-los de HAIKAI. o HAIKAI, diga-se, muito mais complexo para “senti-lo” e “sintetiza-lo” na escrita (ideograma) aos próprios poetas japoneses, no Brasil ou no Japão. ora, esta iniciativa, agradou, e com toda razão, à colonia japonesa pois que estavam eles, os poetas brasileiros, a divulgarem a sua cultura. quero te dizer, ainda, que o termo POETRIX (poe= poema/ trix=tres) irá sem dúvida ajudar a “restabelecer a nacionalidade” do terceto em português. podemos “batisar” o terceto de POETRIX, porque não? estamos em pleno século XXl! menos chama-lo de HAIKAI. até porque, o que estamos lendo de “haikai” por aí é uma ofensa à cultura da grande familia japonesa, hoje brasileira.
abraço,

jb vidal

 

 

COMENTÁRIO:

Deborah

Olha, sei lá… minha opinião pode até parecer meio sem embasamento, mas pq não chamar o terceto de Hai Kai? é como se comparassem um soneto de Camões a um meu e concluir que, obviamente, o meu não poderia ser um soneto.
Leminski e Millôr, não fizeram Hai Kai, então?

“o que é um nome? aquilo que chamamos de rosa, se chamássemos por qualquer outro nome, ainda teria o mesmo cheiro suave…” (Shakespeare)

Sejamos autênticos, porém livres!! -)

 

 

COMENTÁRIO:

Leonardo Meimes

 

Quero dizer já que não concordo com nenhuma das opiniões, deixo bem claro e exposto, não é uma discussão?

– Primeiro, a poesia é inútil? Não é claro que não! Uma das características principais da poesia é que ela não pode ter um propósito fora do estético, não disse um tema. A poesia é uma arte e como todas as outras elas surgem por uma necessidade de expressão e de uma busca pelo belo (seja este “belo” no sentido de um ideal estético), sua preocupação tem de vir primeiramente na estética. Um poeta que faz um poema pensando em agredir alguém, não está fazendo poesia, mas um texto outro em forma de verso, a intenção estética é que faz a poesia aparecer no poema, o trabalho estético. Portanto a poesia não é inútil, ela somente não procura ser informativa, ou utilitária. E como dizer isto? (que é inútil) todos nós sabemos que a leitura e reflexão sobre poemas causa uma construção de sensibilidade nas pessoas, se eles fossem inúteis não estaríamos na luta para que todos tenham acesso a eles. Outro fato que discordo, quem disse já foram usadas todas as formas? É verdade que os temas são sempre os mesmos, porém acredito que o poeta é aquele que fala sobre algo de uma forma que ninguém havia dito. (Em vez de “Eu te amo” o poeta diz “De tudo ao meu amor serei atento”)Se todas as formas já tivessem sido usadas, nunca mais se criaria estilos novos e a literatura pós-moderna não existiria., sabemos até que a própria história pode ser recontada de outros pontos de vista, de outras maneiras.

– Segundo, quanto à questão de estarmos fazendo haiku/haikai eu levanto uma outra pergunta: Quem faz a nacionalidade do poema é o autor ou a forma??? Podemos dizer que porque Vinícius de Morais escrevia sonetos (que não são uma forma Brasileira de poema) ele estava agredindo o sicilliano Giacomo da Lentini, que no século XII criou esta forma? Sabemos que o que faz o poema ter uma nacionalidade são um conjunto de fatores (autor, estilo, língua, intensão), Iracema de José de Alencar é o livro mais brasileiro da nossa literatura junto com o poema Canção do Exílio de Gonçalvez Dias, porque eles souberam colocar nossa cultura em seus textos. Os brasileiros, têm uma facilidade grande em se expressar nas mais diversas formas de texto poético, nós temos poetas que publicaram tanto sonetos como outros tipos de forma. Agora dizer que nossos Haikais são uma afronta à cultura japonesa é que nem dizer que a música clássica brasileira é uma afronta ao resto da música clássica. Temos que entender que nenhuma forma é por si estática, nós importamos o Soneto e o adequamos a nossa língua, fizemos grandes sonetos e mesmo assim ninguém diz que deve se chamar de outra forma. Existem variações nas formas, o Haikai Brasileiro é uma variação da forma de Haikai Japonês, não é uma tentativa de tradução de uma cultura estrangeira (tradução que sempre acaba perdendo significado e contexto), porque os temas são brasileiros, as palavras são em português, ou autor é brasileiro e a intenção é fazer Haikai. O que os Japoneses têm que entender é que nos estamos utilizando uma forma efetiva de poema deles para fazer um trabalho estético brasileiro, sem a intenção de agredi-los, pelo contrário isso mostra que nós admiramos a poesia Japonesa. Mudar o nome para Poetrix, não vai mudar nada, continuaremos a fazer o Haikai, com outro nome, a intenção é a mesma. O que agride qualquer tipo de poesia é o poema mal construído, que se pretende poesia, o poema não trabalhado, o poema sem qualidade estética, utilitário e insosso, que não provoca catarze nenhuma em quem quer que seja, caso tenhamos produzido Haikais deste tipo ai sim eu peço desculpas aos Japoneses, quanto aos bons sugiro que leiam.

P.S: Proponho a subcategoria “Haikai Brasileiro”

 

COMENTÁRIO:

Bárbara Lia

O hai kai é expressão poética zen de monges em viagem… Surgiu em forma de diários de viagem, para captar o belo, por isto esta associação com o momento e com as estações do ano. Os grandes poetas também relacionam poesia com metafísica. Borges, Fernando Pessoa, e tantos, ou quase todos. Na verdade só se torna grande poeta quem interroga sem cessar o Universo e a si mesmo. A poesia é anterior à palavra, é um rito xamânico e para mim, ainda, mistério. Se – Satori – é iluminação mística, o deslumbramento… era isto, agregado à paisagem, que estes poetas buscavam narrar, mais que neve, ou flor, ou insetos e luas e estações… Esta poesia mínima só em sua forma acabou sendo inscrita na Literatura como Hai Kai… Quando descobri Bashô, Li Po, e os hai kais de Leminski que escritos em português guardam as características dos ocidentais – zenleminskigenial – eu fiquei fascinada… Na verdade eu tenho este carinho por ancestralidades e penso que por uma diferença de tempo e território e até estado de espírito, neste mundo nada zen é um tanto complexo escrever um hai kai, é um exercício supremo o da iluminação… os tercetos seguirão, narrando seu tempo e estações, alguns o chamarão poetrix, outros hai kai…

 

COMENTÁRIO:

silas correa leite

Olá amigos, bem, en passant, é como querer dizer que não tem blues que não seja apenas em inglês, coisa e tal, quando eu chamo meus poemas (de uma série) de intimos blues. Arrisquei alguns haikais, arrisquei um e outro poetrix, como arrisquei tercetos; como o haikai tende a ser rígido (só oriental?), como o poetrix é uma re-invenção brasileirinha do terceto com outro nome, ora chamo de haikai, ora chamo de terceto (uso pouco poetrix), mas acho que a discussão entre uma coisa e outra para mim tanto faz, como compor meus banzo-blues em português, porque o que fica, o que vale mesmo, é a qualidade de um ou de outro, e, confesso, o que mais vi de bobo-ruim foi mesmo haikais abrasileirados, e, claro, como não estamos no oriente e nem sou zen-corinthiano, prefiro ficar com terceto, por aí. E salve-se quem puder. Aliás, tive uns haikais (Poemetos) premiados. Era isso. FUI.

 

 

COMENTÁRIO:

Marilda

Pois então… como eu escrive no final do meu ensaio, “Não pretendo ensinar ninguém a escrever nem (de)gustar de poetrix”. E muito menos propor a mudança do nome do haicai para poetrix. São estilos diferentes. Regras diferentes. Poesias diferentes. Conteúdos diferentes. Para o leitor de poesia, não importa a regra ou o nome acadêmico que se dê. Ele quer saber se gosta ou não gosta. (O poetrix só tem 10 anos com esse nome, ainda está sendo construído mas já tem adeptos em muitos paises)
Já para o escritor, espera-se que minimamente ele saiba a diferença entre um soneto e um haicai, por exemplo. Mesmo que ele não dê a mínima para as regras e para os nomes, acho que ele não tem o direito de ferir toda uma história construída ao longo dos séculos, denominando qualquer verso curto de haicai ou categorizar qualquer terceto escrito em português de poetrix. Se ele não souber como classificar sua poesia, tudo bem… não classifique, chame simplesmente de poesia. Fica tudo bem. Como disse a Bárbara Lia, “os tercetos seguirão, narrando seu tempo e estações, alguns o chamarão poetrix, outros hai kai…”. Os meus, eu chamo de poetrix. Não porque eu não goste de haicai, mas porque definitivamente meu estilo se encaixa perfeitamente nas características do poetrix.
A discussão é válida, desde que seja para incentivar a leitura e a escrita poética, seja lá qual for a preferência do leitor deste site.
Se alguém quiser conhecer melhor as características do poetrix, pode consultar a página oficial do MIP: http://www.movimentopoetrix.com/
Um grande abraço
Marilda

 

COMENTÁRIO:

ZULEICA DOS REIS

TERCETOS E HAICAIS

 

 

Pelo fato de não crer em conceitos universais, tento sempre ser fiel ao princípio de que qualquer ponto de vista, estabelecido a partir de determinadas premissas, é necessariamente parcial, logo sujeito a contestações. De todo modo, esse é um jogo paradoxal: mesmo não crendo que tenha A RESPOSTA para a questão proposta no título preciso admitir, antes de tudo diante de mim mesma, que minha resposta seja suficientemente boa, para enunciá-la em um debate aberto a múltiplas opiniões e tendências.

                Os conceitos que tentarei colocar aqui sobre o que possa ser considerado haicai, sobre se é possível haver um haicai brasileiro e sobre a identificação, muitas vezes automática e acrítica entre terceto e haicai, são conceitos do Grêmio Haicai Ipê, o qual freqüento desde 1990, embora com não muita assiduidade.Sendo assunto vasto e polêmico, só me cabe enunciar alguns princípios gerais que norteiam os participantes  do referido Grêmio, princípios que buscam manter fidelidade àqueles estabelecidos a partir do trabalho de Matsuo Bashô (1644-1694), o grande poeta clássico do haicai.Ei-los:

1. O haicai deve transcrever, o mais fielmente possível, uma cena da natureza, natureza cujos aspectos mudam o tempo todo obedecendo, não obstante, ao ciclo das estações.

2. Todo haicai deve conter um “kigo”, como é chamado o termo de estação. Exemplo: Paineira, “kigo” de outono, porque as paineiras florescem no outono; chuva de granizo, “kigo” de verão, porque é quando tais chuvas costumam ocorrer, (abstraindo-se a questão das mudanças climáticas, originadas pela ação do homem); cartão de Natal, também de verão, este fazendo parte dos chamados “kigos” vivenciais, que se referem a eventos específicos da realidade social.

3. O haicai deve, preferencialmente, ater-se à tradição métrica 5/7/5

4. O haicai deve ater-se ao momento presente, evitando considerações explícitas de natureza emocional, filosófica (quando abstratas, isto é, sem referência direta ao objeto observado)… etcetera.

            É possível um haicai brasileiro? A partir do uso do chamado “kigo”, o Grêmio Haicai Ipê considera que sim, é possível um haicai brasileiro. O “kigo” é elemento bastante específico e seu uso estabelece a identidade tanto quanto a legitimidade do haicai, onde quer que se o escreva, seja no Japão, no Brasil, nos Estados Unidos, na França…, que cada país, a partir das características peculiares de sua natureza e de seus eventos sociais, pode construir legítimos haicais, com seus “kigos” específicos. Assim, peixe-boi, essencialmente “kigo” brasileiro. Não corresponderia a nada, em outro país.

            Quanto à questão terceto versus haicai, tomo a liberdade de citar dois poemas meus, apenas a título de ilustração, que a problemática é complexa, tem muitas variantes e apenas pode ser esboçada aqui:

 

                           PAPAGAIO

 

                            Ninguém compreende

                           como é original

                           o meu silêncio.

                           Do livro ESPELHOS EM FUGA, Editora Objetiva, 1989.                                 

 

                           O asilo em silêncio.

                           Encolhido no poleiro

                           velho papagaio.

 

            Segundo os princípios do Grêmio Haicai Ipê, o primeiro poema é um terceto, que alguns chamariam poetrix, enquanto o segundo poema constitui, efetivamente, um haicai.

 

COMENTÁRIO:

GOULART GOMES

Olá, amigos. Eu sou Goulart Gomes, o criador do termo “poetrix”. Passei por aqui por indicação de Marilda. Queria contribuir para a discussão e acho que a melhor forma de fazê-lo é falando sobre a origem do poetrix. Eu sempre escrevi tercetos achando que eram haikais. Um belo dia, Aníbal Beça me fez conhecer o que é verdadeiramente o haikai, conforme concebido em sua forma “abrasileirada” para o português (ver a mensagem de Zuleica). O haikai escrito no Brasil já é um abrasileiramento do haikai escrito no Japão, por isso o poetrix não é um abrasileiramento do haikai. Poetrix é um nome que eu propus para um determinado gênero de tercetos (ver http://www.movimentopoetrix.com). Respeito tanto o haikai que não quis “contaminá-lo” com o que eu e tantos outros autores escrevem, hoje e sempre, desde Dante Alighieri, passando por Leminski, Millôr, Drummond, Graciliano, etc. Eu sabia que iria “jogar lenha” nessa fogueira de vaidades que é a Literatura. Mas, que fazer? Era isso ou jogar fora todos os meus tercetos. (rs) Enfim, fico feliz por ter criado uma “saída de emergência” que tantos autores adotaram, livrando seus textos do limbo canônico. Que cada um os chame do modo que preferir. Na Literatura, como na vida, só Tempo diz quem tem razão. Abraço a todos.
COMENTÁRIO:
MARILDA CONFORTIN
 Vejam só: meu texto pretendia uma reflexão sobre a utilidade/inutilidade da poesia e acabou provocando uma discussão sobre haicai e poetrix. O Leonardo Meimes, mesmo não concordando comigo, foi o único que atentou para esse detalhe. Valeu Leonardo.Muito esclarecedores os comentários da hacaísta Zuleika e do poetrixta Goulart Gomes.
Ficou claro para os leitores do Palavras, que se trata de dois estilos diferentes de tercetos?
E aí, Vidal, satisfeito?
       

     

 

 

COMENTÁRIO:

 

JB VIDAL

 

não, minha nobre amiga marilda, nem os leitores deste site, porque imagino-os inteligentes estão satisfeitos e muito menos eu, antes, pelo contrário, aprofunda-se a minha certeza no sentido de NUNCA foi escrito um HAICAI por poetas brasileiros a começar por nosso grande poeta Guilherme de Almeida até os nossos dias. devo ressalvar, óbvio, os poetas da escola do HAICAI descendentes de japoneses e residentes no Brasil, porque passaram a conhecer as duas línguas e a pensar em duas linguas, PERFEITAMENTE, como ensina o mestre NEMPUKU, esses sim, escreveram HAICAIS belíssimos. por ora é só.
abraço,

jb vidal

 

 

COMENTÁRIO:

JB VIDAL

Do HAICAI e do TERCETO

 

Pois bem, a partir do texto da poeta Marilda Confortin, é que propus aos poetas, escritores e leitores interessados, no tema, uma “discussão,” pacífica, ordeira, afim de abordarmos a questão, seriamente, se no Brasil faz-se HAICAI ou não.

 

Se o que andamos lendo em livros impressos e em muito mais quantidade no mundo virtual, em sites de poesia, seja haicai.

 

Como a grande maioria não obedece nenhuma regra, são livres de qualquer técnica, obviamente, não são haicais.Não deixam certamente de ser poemas. Sem analisar o mérito do conteúdo poético, enquadram-se perfeitamente como tercetos, poemetos, poetrix ou outros termos que os definam, mas continuam insistentemente “chamados” de haicai.

 

Quero crer que esses autores o fazem levados única e exclusivamente pela vaidade de poder afirmar “eu faço” haicai. Ou,sem considerar a distorção de conteúdo, exigido, segue na sua determinação, talvez até, intencionalmente de divulgar seu “anti-haicai” como se o fosse, para estabelecer a confusão.Diversão comum no mundo virtual exercida pelos mulos. Lamentável.

 

 

Nasce assim, esta tentativa de se retomar a história, não tão longínqua, da chegada do haicai ao Brasil.

 

Que fique claro, aqui não se propõe discutir o HAICAI nem a sua presença na nossa cultura, não, e sim uma originalidade percebida, entre outros, pelo grande poeta brasileiro Guilherme de Almeida, que apesar de criterioso, acabou colaborando para essa euforia de “abrasileirar-se, reinventar, liberar” sem critérios o haicai, que acabou redundando nessa parafernália que, tenho certeza, não era sua intenção.

 

Se for para escrevermos versinhos sem consistência ou riminhas de mau gosto, vamos assumir nossa própria identidade e não defini-los como HAICAI.

 

Devo afirmar, também, que há tercetos e não são poucos em português de poetas brasileiros muito bem compostos. Fantásticos.

 

Vamos respeitar o HAICAI.

Se for o caso, vamos errar em português.  

 

Isto posto vamos ao tema propriamente dito.  

 

Quando queremos falar sobre HAIKU/HAICAI, no Brasil, necessariamente temos de passar pelo mestre NEMPUKU SATO, imigrante japonês do início do século passado, que tinha consciência da sua tarefa em manter a arte da poesia, do seu país, no seio das colônias bem como divulgá-la na nova terra, juntamente com seus discípulos e entre eles o mestre MASUDA GOGA.

Discípulo de TAKAHAMA KIOSHI o mestre mais iluminado do haiku que presidia, do Japão, a divulgação dessa cultura para outros paises, a essa época, Nempuku era um assumido tradicionalista da cultura japonesa.

 

O mestre Nempuku -1898/1979- pelo trabalho desenvolvido junto às colônias , nos encontros com poetas brasileiros e encontros sociais firmou-se como um poeta brasileiro sem, entretanto, nunca ter escrito um poema em português.

Fez, e com muita competência, uma longa pesquisa para identificar os kigos brasileiros, que a final resultou em haicais maravilhosos e em um dicionário.

 

Este, talvez, o mais conhecido haiku do mestre:

Kaminari ya yomo no jukai no kogaminari

Um trovão estronda
E os trovõezinhos ecoam
Na selva em redor.

 

O HAIKU/HAIKAI chegou ao Brasil com os primeiros grupos de imigrantes japoneses a partir de 1908.

O haicai é um poema curto que se refere a um instante de interação do poeta com a natureza e o tempo (estação do ano) referindo-se, sempre, ao presente e não ao passado. A substância do haicai é o kigo que é uma palavra, termo, “constante da estação”. Ex.: geada é um kigo do inverno.

O haicai, portanto, é um poema, na sua origem, de 17 sons (em ideogramas) ou alfabéticas que no Brasil foram transformados em 17 sílabas com ênfase para a tônica.

Divididas da seguinte forma:

O primeiro verso tem 5 sílabas, o segundo tem 7 e o terceiro tem 5, não exigindo a presença de título ou rima.

Também teremos de passar, necessariamente, pela informação mínima de que o haicai chegou ao meio dos poetas brasileiros via autores franceses como Jules Supervielle, Tristan Derime, Paul-Louis Couchoud, que escreveu “Sages et poètes d´Asie”, em 1918, entre outros.  

O que já nos dá a idéia de que o haicai, com toda a sua complexidade, nos chega com “sotaque” francês.

Afirma o mestre MASUDA GOGA em “O Haicai no Brasil”:

 

O haiku introduzido por Afrânio Peixoto chamou a atenção de poetas brasileiros e evoluiu para a composição de haicai em português. Todavia, o haiku apresentado por Afrânio não constituía a introdução direta do haiku do Japão e sim uma retradução da versão feita para a língua francesa”.

 

Observem o labirinto que começam a entrar os poetas nativos. Se é necessário considerar os kigos e a “alma” japonesa, Afrânio e outros tradutores estariam pensando e sentindo em japonês, francês e português simultaneamente? 

 

Não se trata aqui, reafirmo, de discutir o haicai. O haicai não se discute, ele existe, ele é; o que podemos fazer é estudá-lo com quem está apto para ensinar.    

 

Os textos dos autores aqui transcritos são para ilustrar o que se pretende, ou seja, fazer com que poetas que contumazmente escrevem tercetos em português e publicam como haicai, percebam a complexidade que é traduzir ou compor um deles.

 

É no mínimo uma falta de respeito para com tal cultura que não nos apercebamos disto.

 

A vontade irrefreada, moderna, de “abrasileirar-se” o haicai tem duas vertentes:

 

Uma, a incontestável beleza da síntese harmônica do poema.

 

A outra o labirinto em que se embrenharam os poetas brasileiros, alguns consagrados por suas belíssimas obras em português, e que, apressadamente, diante da novidade atraente, passaram a escrever tercetos em português e chama-los de haicai. Seria um fato inusitado e desabonador para um já famoso poeta retroceder em seu feito.

 

Tal foi essa pressa que o nosso poeta Guilherme de Almeida “criou,” “inventou” um formato de haicai que ele próprio chama de “meu haicai” por admitir que não era um original como veremos mais a frente.  

 

  Assim temos, na edição de TOKASUI  MAJIMA com tradução de AKEMI  MAJIMA, com clareza:

 

Diferente da pintura, o haiku precisa ser traduzido para ser apreciado por quem não conhece o idioma japonês. No entanto, é de opinião generalizada que essa forma poética não pode ser traduzida para o idioma estrangeiro. Mas, se alguém perguntar se a tradução do haiku é impossível por motivos técnicos ou se se trata de uma impossibilidade intrínseca, a resposta seria: existe possibilidade, caso seja feita por um poeta (haicaísta), conhecedor perfeito das duas línguas (original e traduzida). Contudo, é um trabalho muito difícil “superar” as diferenças entre a cultura japonesa e a estrangeira. Não só é quase impossível trasladar os dezessete sons do haiku para dezessete sílabas do português , como são praticamente intraduzíveis os significados de termos como wabi (sentimento de profunda solidão, mistério da solidão) ou sabi (pátina do tempo, mistério da transformação, desolação e beleza da solidão).”

 

Nota do Tradutor: – Estas “traduções” dos termos wabi e sabi não passam de aproximações que não exprirnem toda a singularidade e profundidade dessas palavras, produtos puros, digamos assim, da multimilenar cultura japonesa.

 

Como vimos TOKASUI é contundente.

 

Veja o que diz Benedicto Ferri de Barros no prefácio de “O Hai Cai no Brasil” de Masuda Goga:

 

Na dimensão de uma miniatura, tão ao gosto do cânon estético nipônico, o Haicai no Brasil, de Hidekazu Masuda surge como um marco literário clássico deste gênero de poemas entre nós. Marco, porque assinala um ponto de referência que, daqui para frente, ao falar de haicai no Brasil, ninguém poderá ignorar.”

 

E acrescenta:

 

Bem creio jamais se alcançará reproduzir em português a força original de uma gema nipônica nem creio que as gemas brasileiras de haicai, vertidas, traduzam para o japonês sua rutilância própria.”

 

 

Cláudio Justiniano de Souza

, escritor e poeta afirma em sua obra “Impressões do Japão” (1940):
 
 
 
 

 

“Penso que uma forma poética como o haiku não poderá ser, absolutamente, traduzida para idioma estrangeiro. Pois com algum exagero pode-se dizer que mostra a atitude peculiar dos japoneses em relação à vida e ao mundo” (Obras Completas de Ikutarô Nishida, vol. XIII, Pensamento e Experiência, segunda parte).

“São (os haiku) como perfumes concentrados: se passam de um a outro vaso, evaporam-se em caminho.”

 

 

 

No texto: NEMPUKU SATO o poeta brasileiro:

 

Hoje, a comunidade de haicaístas japoneses no Brasil se organiza em diversos grêmios e publica haicais em revistas, jornais e antologias. Mas ela sente os efeitos da idade. Os filhos e netos dos imigrantes, cada vez mais integrados à comunidade brasileira, perdem a intimidade com a língua de seus ancestrais. Sendo assim, não ocorre renovação no quadro dos haicaístas.”

 

Apesar de o haicai ter-se expandido no meio dos poetas brasileiros a preocupação dos mestres volta-se para a comunidade japonesa que, em estudando, colaboraria mais originalmente com a sua essência e expansão.

Percebe-se, então, que por educação ou pela oportunidade de divulgação do termo (haicai) os mestres e discípulos não entram no mérito dos tercetos, sem regra alguma, que avançam aos milhares nominando-se de haicais.

 

E assim cresce o desvirtuamento do haicai e condena-se o terceto a um termo desvalorizado. Pena.

 

Se já sabemos como se compõe o haicai, essência e forma, vamos ver a seguir o que o poeta Guilherme de Almeida “criou” para dar um formato ao “seu” haicai: 

Eis o meu haikai. Dentro da regra de 5-7-5 sílabas, o primeiro verso rima com o terceiro. Na segunda linha rimam a segunda sílaba e a última.”

– – – – X
– O – – – – O
– – – – X

 

Caridade

Desfolha-se a rosa.
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa

Infância

Um gosto de amora
Comida com sol. A vida
Chamava-se “Agora“.

História de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação. E o trem
Passa sem parar.

O Haikai

Lava, escorre, agita
A areia. E enfim, na batéia,
Fica uma pepita.

Observe-se que Guilherme “organizou a sua criação” com título e rima regra que o haicai original dispensa.

        Velhice

Uma folha morta
Um galho, no céu grisalho.
Fecho a minha porta

Contando as sílabas:

 

U-ma fo-lha mor-ta.
1   2   3   4   5

Um ga-lho, no céu gri-sa-lho.
  1  2    3   4    5    6   7

Fe-cho a mi-nha por-ta.
  1    2    3        4         5

 

 

Podemos já vislumbrar o que começou a ocorrer diante de tais construções “liberais” para ir-se ao encontro da atração poética exercida pelo haicai.

Veja o que diz o poeta  Waldomiro Siqueira Júnior:

“manifesto respeito à tradição do Japão, mas faço meus versos, interpretando à minha maneira, como um ocidental”.

Waldomiro se liberou total. Seriam seus versos haicais? Ou tercetos em português bem compostos?

 

Jorge Fonseca Júnior afirma:

Assim… quanto ao haiku deve indicar ou refletir a estação do ano (ao menos indiretamente) em que é elaborado; e caracterizado, portanto, por sua extrema concisão, devendo, ao mesmo tempo, através desta, fluir com naturalidade o conteúdo poético” (Jorge Fonseca Júnior, Wenceslau de Morais e Outras Evocações, 1980, pp. 120-121 ).

Acrescenta ser “desnecessário colocar título em cada poema de haicai, nem observar rima”.

A divergência entre personalidades intelectuais que conviveram ou convivem no meio haicaiano, nos dá a dimensão da complexidade que é tratar-se do tema e como muito mais é escrevê-lo.  

Hoje, como já foi dito, os mestres e discípulos reúnem-se em grêmios para o estudo, tendo entre seus membros não só os descendentes da comunidade nipônica como, também, a presença de poetas nativos interessados em compreender a dinâmica do poema.

Os mestres e seus discípulos continuam e continuarão a escrever o HAIKU/HAIKAI tão belos quanto os que viajaram pelo mundo de seu mais famoso poeta e mestre MATSUO BASHÔ; aqui um dos mais famosos poemas do mestre:

                                          O velho tanque
                                                              Uma rã mergulha,
                                                              Barulho de água.

Em japonês, pronuncia-se aproximadamente da seguinte forma:

furú iquê iá
cauázu tobicômu
mizú no otô

Tradução de Paulo Franchetti e Elza Doi.

 

Acredito que com esta rápida exposição possa ter contribuído para a manutenção deste “diálogo” entre os interessados, que já sabiam e os  que não tinham conhecimento e quem sabe provocado algum tipo de reflexão naqueles que insistem em rejeitar o terceto, que é o que escrevem, e eleger o haicai como sua “forma”, e que assim, terminam por estabelecer uma anarquia poética em prejuízo da arte e da cultura milenar do povo do sol nascente.  

HAIKU do mestre MASUDA GOGA:

Cai, riscando um leve
traço dourado no azul,
uma flor de ipê !

Aozora ni
kin no sen hiku
ipê rakka!

 

Dois tercetos de épocas diferentes:

 

Destarte me afigura a fantasia

a vida com que vivo, desterrado

do bem que noutro tempo possuía

de Camões

 

 

da palavra o sal,
o grão
terceto -minha paixão

de Elpoeta

 

 

Não publiquei exemplos de “antihaicais” ou não “haicais” ou tercetos em português que são chamados de “haicais,” porque teria que citar o autor, e, não se trata aqui, também, de expor ou ridiculizar alguém. Quem quiser encontra-los que entre na rede e navegue. Não terá dificuldades.

Finalizo afirmando que jamais escrevi um haicai, justamente porque não o estudei com a profundidade necessária e porque defendo, com meu escasso conhecimento, o HAIKU na sua integridade dado a sua beleza, força e grandeza. Abrasileire-se o haicai a partir dos ensinamentos dos mestres nipônicos, que pensam, sentem e escrevem nas duas línguas. Os demais são tercetos,poetrix sem nenhum demérito porque podem ser, e muitos o são, lindos como o haicai.

Agradeço a colaboração divulgada ou não (email) em especial a poeta Marilda Confortin que com seu ensaio sobre o POETRIX acabou por me dar essa deixa.

À poeta Zuleika dos Reis com sua intervenção oportuna, como estudiosa do haicai, a qual desejamos e esperamos que se transforme numa grande haicaísta.

À Deborah O. Lins de Barros com a sua disposição ao terminar esta leitura entenderá, com certeza, o que eu quis dizer.

Ao Leonardo Meimes, amigo e palavreiro que com seu texto demonstrou que não está “gazeando” as aulas. Mas preciso retificá-lo no que diz respeito a substituir o termo haicai por poetrix:

peloamordedeuseujamaiscometeriataldisparateeagressãoemnenhummomentoeuafirmeiistovoltenostextosacimaeirásverificarafirmeisimporquenãobatizarotercetodepoetrix?porquehaicuiéhaicainãoésimplesmenteumtercetoemjaponês!foiisto.

Quanto a sua proposta de criar a subcategoria:Haicai Brasileiro, do ponto de vista do ensino, do organograma que os acadêmicos montam para transmitir suas aulas, não discuto, mas acho que irá levar ao encontro de um excessivo número de subpoetas.

À poeta, escritora, palavreira e amiga Bárbara Lia poderá, também compreender melhor a minha posição, após esta leitura, porquanto não era nem é de discutir o haicai e sim de demonstrar a complexidade e as divergências que estariam proporcionando esse altíssimo número de “antihaicais”  disponíveis para leitura, principalmente no mundo virtual, levando os leitores a uma falsa compreensão.

Ao poeta e escritor Silas Correa Leite que com sua experiência e muitos quilômetros percorridos vem em meu socorro com “…e, confesso, o que mais vi de bobo-ruim foi mesmo haikais abrasileirados.”

Ao poeta Goulart Gomes  criador do termo POETRIX  que afirma: “… sempre escrevi tercetos achando que eram haikais. Um belo dia, Aníbal Beça me fez conhecer o que é verdadeiramente o haikai, conforme concebido em sua forma “abrasileirada” para o português (ver a mensagem de Zuleica)”  e mais “Respeito tanto o haikai que não quis “contaminá-lo” com o que eu e tantos outros autores escrevem…” ufa! Já tenho companhia.

Obrigado Goulart pela colaboração e cumprimento-o pela sua posição e pela criação do POETRIX.

Desta forma, com estes objetivos, continuarei aguardando novas contribuições sobre o tema de quem já se manifestou ou não; porquanto o assunto está na rede mundial e seguidamente será encontrado.

Jb Vidal

 

 

COMENTÁRIO:

 

 

COMENTÁRIO:

 

JB VIDAL

 

não, minha nobre amiga marilda, nem os leitores deste site, porque imagino-os inteligentes estão satisfeitos e muito menos eu, antes, pelo contrário, aprofunda-se a minha certeza no sentido de NUNCA foi escrito um HAICAI por poetas brasileiros a começar por nosso grande poeta Guilherme de Almeida até os nossos dias. devo ressalvar, óbvio, os poetas da escola do HAICAI descendentes de japoneses e residentes no Brasil, porque passaram a conhecer as duas línguas e a pensar em duas linguas, PERFEITAMENTE, como ensina o mestre NEMPUKU, esses sim, escreveram HAICAIS belíssimos. por ora é só.
abraço,

jb vidal

 

 

COMENTÁRIO:

JB VIDAL

Do HAICAI e do TERCETO

 

Pois bem, a partir do texto da poeta Marilda Confortin, é que propus aos poetas, escritores e leitores interessados, no tema, uma “discussão,” pacífica, ordeira, afim de abordarmos a questão, seriamente, se no Brasil faz-se HAICAI ou não.

 

Se o que andamos lendo em livros impressos e em muito mais quantidade no mundo virtual, em sites de poesia, seja haicai.

 

Como a grande maioria não obedece nenhuma regra, são livres de qualquer técnica, obviamente, não são haicais.Não deixam certamente de ser poemas. Sem analisar o mérito do conteúdo poético, enquadram-se perfeitamente como tercetos, poemetos, poetrix ou outros termos que os definam, mas continuam insistentemente “chamados” de haicai.

 

Quero crer que esses autores o fazem levados única e exclusivamente pela vaidade de poder afirmar “eu faço” haicai. Ou,sem considerar a distorção de conteúdo, exigido, segue na sua determinação, talvez até, intencionalmente de divulgar seu “anti-haicai” como se o fosse, para estabelecer a confusão.Diversão comum no mundo virtual exercida pelos mulos. Lamentável.

 

 

Nasce assim, esta tentativa de se retomar a história, não tão longínqua, da chegada do haicai ao Brasil.

 

Que fique claro, aqui não se propõe discutir o HAICAI nem a sua presença na nossa cultura, não, e sim uma originalidade percebida, entre outros, pelo grande poeta brasileiro Guilherme de Almeida, que apesar de criterioso, acabou colaborando para essa euforia de “abrasileirar-se, reinventar, liberar” sem critérios o haicai, que acabou redundando nessa parafernália que, tenho certeza, não era sua intenção.

 

Se for para escrevermos versinhos sem consistência ou riminhas de mau gosto, vamos assumir nossa própria identidade e não defini-los como HAICAI.

 

Devo afirmar, também, que há tercetos e não são poucos em português de poetas brasileiros muito bem compostos. Fantásticos.

 

Vamos respeitar o HAICAI.

Se for o caso, vamos errar em português.  

 

Isto posto vamos ao tema propriamente dito.  

 

Quando queremos falar sobre HAIKU/HAICAI, no Brasil, necessariamente temos de passar pelo mestre NEMPUKU SATO, imigrante japonês do início do século passado, que tinha consciência da sua tarefa em manter a arte da poesia, do seu país, no seio das colônias bem como divulgá-la na nova terra, juntamente com seus discípulos e entre eles o mestre MASUDA GOGA.

Discípulo de TAKAHAMA KIOSHI o mestre mais iluminado do haiku que presidia, do Japão, a divulgação dessa cultura para outros paises, a essa época, Nempuku era um assumido tradicionalista da cultura japonesa.

 

O mestre Nempuku -1898/1979- pelo trabalho desenvolvido junto às colônias , nos encontros com poetas brasileiros e encontros sociais firmou-se como um poeta brasileiro sem, entretanto, nunca ter escrito um poema em português.

Fez, e com muita competência, uma longa pesquisa para identificar os kigos brasileiros, que a final resultou em haicais maravilhosos e em um dicionário.

 

Este, talvez, o mais conhecido haiku do mestre:

Kaminari ya yomo no jukai no kogaminari

Um trovão estronda
E os trovõezinhos ecoam
Na selva em redor.

 

O HAIKU/HAIKAI chegou ao Brasil com os primeiros grupos de imigrantes japoneses a partir de 1908.

O haicai é um poema curto que se refere a um instante de interação do poeta com a natureza e o tempo (estação do ano) referindo-se, sempre, ao presente e não ao passado. A substância do haicai é o kigo que é uma palavra, termo, “constante da estação”. Ex.: geada é um kigo do inverno.

O haicai, portanto, é um poema, na sua origem, de 17 sons (em ideogramas) ou alfabéticas que no Brasil foram transformados em 17 sílabas com ênfase para a tônica.

Divididas da seguinte forma:

O primeiro verso tem 5 sílabas, o segundo tem 7 e o terceiro tem 5, não exigindo a presença de título ou rima.

Também teremos de passar, necessariamente, pela informação mínima de que o haicai chegou ao meio dos poetas brasileiros via autores franceses como Jules Supervielle, Tristan Derime, Paul-Louis Couchoud, que escreveu “Sages et poètes d´Asie”, em 1918, entre outros.  

O que já nos dá a idéia de que o haicai, com toda a sua complexidade, nos chega com “sotaque” francês.

Afirma o mestre MASUDA GOGA em “O Haicai no Brasil”:

 

O haiku introduzido por Afrânio Peixoto chamou a atenção de poetas brasileiros e evoluiu para a composição de haicai em português. Todavia, o haiku apresentado por Afrânio não constituía a introdução direta do haiku do Japão e sim uma retradução da versão feita para a língua francesa”.

 

Observem o labirinto que começam a entrar os poetas nativos. Se é necessário considerar os kigos e a “alma” japonesa, Afrânio e outros tradutores estariam pensando e sentindo em japonês, francês e português simultaneamente? 

 

Não se trata aqui, reafirmo, de discutir o haicai. O haicai não se discute, ele existe, ele é; o que podemos fazer é estudá-lo com quem está apto para ensinar.    

 

Os textos dos autores aqui transcritos são para ilustrar o que se pretende, ou seja, fazer com que poetas que contumazmente escrevem tercetos em português e publicam como haicai, percebam a complexidade que é traduzir ou compor um deles.

 

É no mínimo uma falta de respeito para com tal cultura que não nos apercebamos disto.

 

A vontade irrefreada, moderna, de “abrasileirar-se” o haicai tem duas vertentes:

 

Uma, a incontestável beleza da síntese harmônica do poema.

 

A outra o labirinto em que se embrenharam os poetas brasileiros, alguns consagrados por suas belíssimas obras em português, e que, apressadamente, diante da novidade atraente, passaram a escrever tercetos em português e chama-los de haicai. Seria um fato inusitado e desabonador para um já famoso poeta retroceder em seu feito.

 

Tal foi essa pressa que o nosso poeta Guilherme de Almeida “criou,” “inventou” um formato de haicai que ele próprio chama de “meu haicai” por admitir que não era um original como veremos mais a frente.  

 

  Assim temos, na edição de TOKASUI  MAJIMA com tradução de AKEMI  MAJIMA, com clareza:

 

Diferente da pintura, o haiku precisa ser traduzido para ser apreciado por quem não conhece o idioma japonês. No entanto, é de opinião generalizada que essa forma poética não pode ser traduzida para o idioma estrangeiro. Mas, se alguém perguntar se a tradução do haiku é impossível por motivos técnicos ou se se trata de uma impossibilidade intrínseca, a resposta seria: existe possibilidade, caso seja feita por um poeta (haicaísta), conhecedor perfeito das duas línguas (original e traduzida). Contudo, é um trabalho muito difícil “superar” as diferenças entre a cultura japonesa e a estrangeira. Não só é quase impossível trasladar os dezessete sons do haiku para dezessete sílabas do português , como são praticamente intraduzíveis os significados de termos como wabi (sentimento de profunda solidão, mistério da solidão) ou sabi (pátina do tempo, mistério da transformação, desolação e beleza da solidão).”

 

Nota do Tradutor: – Estas “traduções” dos termos wabi e sabi não passam de aproximações que não exprirnem toda a singularidade e profundidade dessas palavras, produtos puros, digamos assim, da multimilenar cultura japonesa.

 

Como vimos TOKASUI é contundente.

 

Veja o que diz Benedicto Ferri de Barros no prefácio de “O Hai Cai no Brasil” de Masuda Goga:

 

Na dimensão de uma miniatura, tão ao gosto do cânon estético nipônico, o Haicai no Brasil, de Hidekazu Masuda surge como um marco literário clássico deste gênero de poemas entre nós. Marco, porque assinala um ponto de referência que, daqui para frente, ao falar de haicai no Brasil, ninguém poderá ignorar.”

 

E acrescenta:

 

Bem creio jamais se alcançará reproduzir em português a força original de uma gema nipônica nem creio que as gemas brasileiras de haicai, vertidas, traduzam para o japonês sua rutilância própria.”

 

 

Cláudio Justiniano de Souza

, escritor e poeta afirma em sua obra “Impressões do Japão” (1940):
 
 
 
 

 

“Penso que uma forma poética como o haiku não poderá ser, absolutamente, traduzida para idioma estrangeiro. Pois com algum exagero pode-se dizer que mostra a atitude peculiar dos japoneses em relação à vida e ao mundo” (Obras Completas de Ikutarô Nishida, vol. XIII, Pensamento e Experiência, segunda parte).

“São (os haiku) como perfumes concentrados: se passam de um a outro vaso, evaporam-se em caminho.”

 

 

 

No texto: NEMPUKU SATO o poeta brasileiro:

 

Hoje, a comunidade de haicaístas japoneses no Brasil se organiza em diversos grêmios e publica haicais em revistas, jornais e antologias. Mas ela sente os efeitos da idade. Os filhos e netos dos imigrantes, cada vez mais integrados à comunidade brasileira, perdem a intimidade com a língua de seus ancestrais. Sendo assim, não ocorre renovação no quadro dos haicaístas.”

 

Apesar de o haicai ter-se expandido no meio dos poetas brasileiros a preocupação dos mestres volta-se para a comunidade japonesa que, em estudando, colaboraria mais originalmente com a sua essência e expansão.

Percebe-se, então, que por educação ou pela oportunidade de divulgação do termo (haicai) os mestres e discípulos não entram no mérito dos tercetos, sem regra alguma, que avançam aos milhares nominando-se de haicais.

 

E assim cresce o desvirtuamento do haicai e condena-se o terceto a um termo desvalorizado. Pena.

 

Se já sabemos como se compõe o haicai, essência e forma, vamos ver a seguir o que o poeta Guilherme de Almeida “criou” para dar um formato ao “seu” haicai: 

Eis o meu haikai. Dentro da regra de 5-7-5 sílabas, o primeiro verso rima com o terceiro. Na segunda linha rimam a segunda sílaba e a última.”

– – – – X
– O – – – – O
– – – – X

 

Caridade

Desfolha-se a rosa.
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa

Infância

Um gosto de amora
Comida com sol. A vida
Chamava-se “Agora“.

História de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação. E o trem
Passa sem parar.

O Haikai

Lava, escorre, agita
A areia. E enfim, na batéia,
Fica uma pepita.

Observe-se que Guilherme “organizou a sua criação” com título e rima regra que o haicai original dispensa.

        Velhice

Uma folha morta
Um galho, no céu grisalho.
Fecho a minha porta

Contando as sílabas:

 

U-ma fo-lha mor-ta.
1   2   3   4   5

Um ga-lho, no céu gri-sa-lho.
  1  2    3   4    5    6   7

Fe-cho a mi-nha por-ta.
  1    2    3        4         5

 

 

Podemos já vislumbrar o que começou a ocorrer diante de tais construções “liberais” para ir-se ao encontro da atração poética exercida pelo haicai.

Veja o que diz o poeta  Waldomiro Siqueira Júnior:

“manifesto respeito à tradição do Japão, mas faço meus versos, interpretando à minha maneira, como um ocidental”.

Waldomiro se liberou total. Seriam seus versos haicais? Ou tercetos em português bem compostos?

 

Jorge Fonseca Júnior afirma:

Assim… quanto ao haiku deve indicar ou refletir a estação do ano (ao menos indiretamente) em que é elaborado; e caracterizado, portanto, por sua extrema concisão, devendo, ao mesmo tempo, através desta, fluir com naturalidade o conteúdo poético” (Jorge Fonseca Júnior, Wenceslau de Morais e Outras Evocações, 1980, pp. 120-121 ).

Acrescenta ser “desnecessário colocar título em cada poema de haicai, nem observar rima”.

A divergência entre personalidades intelectuais que conviveram ou convivem no meio haicaiano, nos dá a dimensão da complexidade que é tratar-se do tema e como muito mais é escrevê-lo.  

Hoje, como já foi dito, os mestres e discípulos reúnem-se em grêmios para o estudo, tendo entre seus membros não só os descendentes da comunidade nipônica como, também, a presença de poetas nativos interessados em compreender a dinâmica do poema.

Os mestres e seus discípulos continuam e continuarão a escrever o HAIKU/HAIKAI tão belos quanto os que viajaram pelo mundo de seu mais famoso poeta e mestre MATSUO BASHÔ; aqui um dos mais famosos poemas do mestre:

                                          O velho tanque
                                                              Uma rã mergulha,
                                                              Barulho de água.

Em japonês, pronuncia-se aproximadamente da seguinte forma:

furú iquê iá
cauázu tobicômu
mizú no otô

Tradução de Paulo Franchetti e Elza Doi.

 

Acredito que com esta rápida exposição possa ter contribuído para a manutenção deste “diálogo” entre os interessados, que já sabiam e os  que não tinham conhecimento e quem sabe provocado algum tipo de reflexão naqueles que insistem em rejeitar o terceto, que é o que escrevem, e eleger o haicai como sua “forma”, e que assim, terminam por estabelecer uma anarquia poética em prejuízo da arte e da cultura milenar do povo do sol nascente.  

HAIKU do mestre MASUDA GOGA:

Cai, riscando um leve
traço dourado no azul,
uma flor de ipê !

Aozora ni
kin no sen hiku
ipê rakka!

 

Dois tercetos de épocas diferentes:

 

Destarte me afigura a fantasia

a vida com que vivo, desterrado

do bem que noutro tempo possuía

de Camões

 

 

da palavra o sal,
o grão
terceto -minha paixão

de Elpoeta

 

 

Não publiquei exemplos de “antihaicais” ou não “haicais” ou tercetos em português que são chamados de “haicais,” porque teria que citar o autor, e, não se trata aqui, também, de expor ou ridiculizar alguém. Quem quiser encontra-los que entre na rede e navegue. Não terá dificuldades.

Finalizo afirmando que jamais escrevi um haicai, justamente porque não o estudei com a profundidade necessária e porque defendo, com meu escasso conhecimento, o HAIKU na sua integridade dado a sua beleza, força e grandeza. Abrasileire-se o haicai a partir dos ensinamentos dos mestres nipônicos, que pensam, sentem e escrevem nas duas línguas. Os demais são tercetos,poetrix sem nenhum demérito porque podem ser, e muitos o são, lindos como o haicai.

Agradeço a colaboração divulgada ou não (email) em especial a poeta Marilda Confortin que com seu ensaio sobre o POETRIX acabou por me dar essa deixa.

À poeta Zuleika dos Reis com sua intervenção oportuna, como estudiosa do haicai, a qual desejamos e esperamos que se transforme numa grande haicaísta.

À Deborah O. Lins de Barros com a sua disposição ao terminar esta leitura entenderá, com certeza, o que eu quis dizer.

Ao Leonardo Meimes, amigo e palavreiro que com seu texto demonstrou que não está “gazeando” as aulas. Mas preciso retificá-lo no que diz respeito a substituir o termo haicai por poetrix:

peloamordedeuseujamaiscometeriataldisparateeagressãoemnenhummomentoeuafirmeiistovoltenostextosacimaeirásverificarafirmeisimporquenãobatizarotercetodepoetrix?porquehaicuiéhaicainãoésimplesmenteumtercetoemjaponês!foiisto.

Quanto a sua proposta de criar a subcategoria:Haicai Brasileiro, do ponto de vista do ensino, do organograma que os acadêmicos montam para transmitir suas aulas, não discuto, mas acho que irá levar ao encontro de um excessivo número de subpoetas.

À poeta, escritora, palavreira e amiga Bárbara Lia poderá, também compreender melhor a minha posição, após esta leitura, porquanto não era nem é de discutir o haicai e sim de demonstrar a complexidade e as divergências que estariam proporcionando esse altíssimo número de “antihaicais”  disponíveis para leitura, principalmente no mundo virtual, levando os leitores a uma falsa compreensão.

Ao poeta e escritor Silas Correa Leite que com sua experiência e muitos quilômetros percorridos vem em meu socorro com “…e, confesso, o que mais vi de bobo-ruim foi mesmo haikais abrasileirados.”

Ao poeta Goulart Gomes  criador do termo POETRIX  que afirma: “… sempre escrevi tercetos achando que eram haikais. Um belo dia, Aníbal Beça me fez conhecer o que é verdadeiramente o haikai, conforme concebido em sua forma “abrasileirada” para o português (ver a mensagem de Zuleica)”  e mais “Respeito tanto o haikai que não quis “contaminá-lo” com o que eu e tantos outros autores escrevem…” ufa! Já tenho companhia.

Obrigado Goulart pela colaboração e cumprimento-o pela sua posição e pela criação do POETRIX.

Desta forma, com estes objetivos, continuarei aguardando novas contribuições sobre o tema de quem já se manifestou ou não; porquanto o assunto está na rede mundial e seguidamente será encontrado.

Jb Vidal

 

 

COMENTÁRIO:

 João Batista do Lago

TERCETOS, NADA MAIS QUE TERCETOS

 

Aviso aos “haicaístas” de plantão: os versos abaixo não são, em hipóteses quaisquer, Haicai. Segundo a minha concepção são (e nada mais do que isso são) tercetos que fazem parte de um estudo poético que desenvolvo. Nestes tercetos introduzo práxis técnica e metodológica “metricamente” diferentes e contrários àqueles que são utilizados pelo haicai, ou seja, a construção do haicai compõe-se de três versos de dezessete sílabas: o primeiro e o terceiro versos são de cinco sílabas; o segundo de sete. Já nos tercetos que componho o primeiro e o terceiro versos são de sete sílabas e o segundo de cinco sílabas.

Outro aspecto que considero relevante destacar, para delimitar definitivamente a diferença dos tercetos que construo, reside no seguinte fato: o haicai, genericamente, deve concentrar pensamento poético e/ou filosófico inspirado nas mudanças que o ciclo das estações provoca no mundo concreto. Já os “meus” tercetos concentram pensamentos variados (p. ex.: filosofia, economia, sociologia, sociedade e comportamento social, religião, etc.) oriundos da concretitude do concreto da realidade, do real, da infra-estrutura (a partir de conceito filosófico marxista oriundo do “new criticism” da Escola de Frankfurt).

Para, além disso, devo destacar outro ponto que me distancia definitivamente da corrente haicaísta vernacular (até porque só entendo o haicai estruturado a partir da essencialidade vernáculo-epigramático japonês): cada vez mais a minha poética torna-se ôntico-ontológica e caminha no, assim, sentido de se amalgamar no conceito do Surracionalismo bachelardiano, sobretudo quando infere: “O exterior e o interior formam uma dialética de esquartejamento, e a geometria evidente dessa dialética nos cega tão logo a introduzimos em âmbitos metafóricos. Ela tem a nitidez crucial do ‘sim’ e do ‘não’, que tudo decide. Fazemos dela, sem o percebermos, uma base de imagem que comandam todos os pensamentos do positivo e do negativo. Os lógicos traçam círculos que se superpõem ou se excluem, e logo todas as suas regras se tornam claras. O filósofo, com o interior e o exterior, pensa o ser e o não-ser (o caso da ”minha” poética, especificamente). A metafísica mais profunda está assim enraizada numa geometria implícita, numa geometria que – queiram ou não – especializa o pensamento; se o metafísico não desenhasse, seria capaz de pensar? O aberto e o fechado são metáforas que se liga a tudo, até aos sistemas” – Gaston Bachelard in A Poética do Espaço, pp. 215 e 216.

 

* * * * *

 

I

 

Como macho repetem

Elas são assim:

Feministas, competem.

 

II

 

O capital confesso:

Homem é peça.

O mercado professa.

 

III

 

Amor só é ilusão

Reduz todo ser

À miserável prisão

 

IV

 

O cigarro vem antes

O uísque depois

Amor de um não é dois

 

V

 

A vida: só um sonho

Simples ilusão

Espera nela ponho

 

VI

 

No amor a dominação

Plena sujeição!

No processo: produção

 

VII

 

Cantai à felicidade

Diz o profeta

Imita assim ao poeta

 

VIII

 

A palavra na arte

Lavra amor e dor

Colhe o fruto sofredor

 

IX

 

Fé remove montanha

Demove do homem

Fortaleza tamanha

 

X

 

Quem canta, males espanta!

Cantai aos prantos

Desespero vos encanta

 

XI

 

A paz da guerra salva

A guerra acalma

Todo poder sem alma

 

XII

 

Visitai sempre a alma

Ela é só calma

Na diversa confusão

 

XII

 

Corpo reflexo: tempo.

Mente reflete

Toda morte presente

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

15 Respostas

  1. João Batista do Lago

    TERCETOS, NADA MAIS QUE TERCETOS

    Aviso aos “haicaístas” de plantão: os versos abaixo não são, em hipóteses quaisquer, Haicai. Segundo a minha concepção são (e nada mais do que isso são) tercetos que fazem parte de um estudo poético que desenvolvo. Nestes tercetos introduzo práxis técnica e metodológica “metricamente” diferentes e contrários àqueles que são utilizados pelo haicai, ou seja, a construção do haicai compõe-se de três versos de dezessete sílabas: o primeiro e o terceiro versos são de cinco sílabas; o segundo de sete. Já nos tercetos que componho o primeiro e o terceiro versos são de sete sílabas e o segundo de cinco sílabas.
    Outro aspecto que considero relevante destacar, para delimitar definitivamente a diferença dos tercetos que construo, reside no seguinte fato: o haicai, genericamente, deve concentrar pensamento poético e/ou filosófico inspirado nas mudanças que o ciclo das estações provoca no mundo concreto. Já os “meus” tercetos concentram pensamentos variados (p. ex.: filosofia, economia, sociologia, sociedade e comportamento social, religião, etc.) oriundos da concretitude do concreto da realidade, do real, da infra-estrutura (a partir de conceito filosófico marxista oriundo do “new criticism” da Escola de Frankfurt).
    Para, além disso, devo destacar outro ponto que me distancia definitivamente da corrente haicaísta vernacular (até porque só entendo o haicai estruturado a partir da essencialidade vernáculo-epigramático japonês): cada vez mais a minha poética torna-se ôntico-ontológica e caminha no, assim, sentido de se amalgamar no conceito do Surracionalismo bachelardiano, sobretudo quando infere: “O exterior e o interior formam uma dialética de esquartejamento, e a geometria evidente dessa dialética nos cega tão logo a introduzimos em âmbitos metafóricos. Ela tem a nitidez crucial do ‘sim’ e do ‘não’, que tudo decide. Fazemos dela, sem o percebermos, uma base de imagem que comandam todos os pensamentos do positivo e do negativo. Os lógicos traçam círculos que se superpõem ou se excluem, e logo todas as suas regras se tornam claras. O filósofo, com o interior e o exterior, pensa o ser e o não-ser (o caso da ”minha” poética, especificamente). A metafísica mais profunda está assim enraizada numa geometria implícita, numa geometria que – queiram ou não – especializa o pensamento; se o metafísico não desenhasse, seria capaz de pensar? O aberto e o fechado são metáforas que se liga a tudo, até aos sistemas” – Gaston Bachelard in A Poética do Espaço, pp. 215 e 216.

    * * * * *

    I

    Como macho repetem
    Elas são assim:
    Feministas, competem.

    II

    O capital confesso:
    Homem é peça.
    O mercado professa.

    III

    Amor só é ilusão
    Reduz todo ser
    À miserável prisão

    IV

    O cigarro vem antes
    O uísque depois
    Amor de um não é dois

    V

    A vida: só um sonho
    Simples ilusão
    Espera nela ponho

    VI

    No amor a dominação
    Plena sujeição!
    No processo: produção

    VII

    Cantai à felicidade
    Diz o profeta
    Imita assim ao poeta

    VIII

    A palavra na arte
    Lavra amor e dor
    Colhe o fruto sofredor

    IX

    Fé remove montanha
    Demove do homem
    Fortaleza tamanha

    X

    Quem canta, males espanta!
    Cantai aos prantos
    Desespero vos encanta

    XI

    A paz da guerra salva
    A guerra acalma
    Todo poder sem alma

    XII

    Visitai sempre a alma
    Ela é só calma
    Na diversa confusão

    XII

    Corpo reflexo: tempo.
    Mente reflete
    Toda morte presente

  2. Do haicai e do Terceto

    Tenho lido os comentários sobre haicai e tercetos, mas ainda não me convencem as opiniões que dizem que não fazemos haicais ou que os haicais que fizemos foram feitos pelos descendentes de japoneses. Sabemos que o haicai obedece a uma regra de construção, 5-7-5 e que há um temática recorrente que são as estações do ano, usando um kigo. O uso da forma é uma técnica usada para que seu poema cause mais impacto ou tenha mais sucesso no que quer causar. Mas, temos que pensar também que nenhuma forma é por si duradoura. Existem muitas formas de se fazer poemas, uma delas é o haicai, que está em princípio ligado à cultura japonesa. Cultura essa que podemos dizer única em sua totalidade, sendo muito diferente das outras ocidentais e até mesmo da maioria das culturas orientais. Esse poema era uma forma dos poetas eternizarem uma paisagem ou falarem de uma estação do ano (tema necessário ao haicai japonês). Porém como vimos e estamos discutindo, poetas brasileiros usaram esta forma para fazer suas poesias. Leminski e Millôr são exemplos de uso brasileiro desta forma de poema. Outros poetas usaram o idioma japonês, mas conseguiram identificar kigos brasileiros como Nempuku. A diferença é que dois deles usaram o português e temas brasileiros, fugindo muitas vezes da métrica, e o último foi mais fiel ao haicai japonês, respeitando a métrica o tema, os kigos e a língua. Porém todos os três fizeram poemas que ultrapassam as linhas e viram poesia. Existe sim meu caro amigo Vidal “versinhos sem consistência ou riminhas de mau gosto” e como já lhe disse estes e estas não caracterizam o poema como tal, não tem poesia. No Brasil os temas ambientais, como as estações, paisagens é algo recorrente da poesia romântica, indianista, por exemplo de Gonçalves Dias, só que estamos em uma época que estes temas não são mais tão usuais. Poderíamos dizer que os kigos brasileiros listados por Nempuku não cabem a poesia atual e não fazem parte do pensamento poético de nossos escritores. Porém nós temos outros assuntos recorrentes em nossa literatura, tanto quando falamos da natureza, quanto quando falamos da cidade. Alice e Leminski, por exemplo, falam da natureza, do tempo, da vida, de alegria, de tristeza, eles apenas aumentaram as possibilidades de um poema expressar outros assuntos. Estes são usados a todo o momento por poetas, bons ou não. Esses seriam os “kigos” brasileiros (não no sentido de palavra da estação, mas no sentido de uma palavra-tema de situações), e o uso do haicai seria uma necessidade de utilizar uma forma que fosse efetiva juntamente com uma necessidade poética brasileira. Talvez se nós produzíssemos a risca o que se fazia no Japão com os haicais, não se fizesse um poema brasileiro, seria apenas uma tentativa de poema japonês, inútil, pois não conhecemos esta cultura. O que estou querendo dizer que o que fazemos pode não ser haicai aos olhos dos japoneses, mas é sim uma forma poética efetiva a qual nós derivamos do haicai para expressar nossa poesia. Um Haicai Brasileiro (não sendo esse um simples nome para fins acadêmicos ^^) e sim uma categoria que os próprios Poetrix entrariam).
    O fato de estarmos usando uma língua diferente e usarmos outros temas não desmerece nossos haicais. Até porque do ponto de vista lingüístico todas as línguas partem do mesmo ponto em que o ser humano precisa passar o texto do sistema fonológico para o escrito, além disso, existem teorias que explicam uma gramática universal (Ver Chomski), algo como um ponto de partida único para todas as línguas. Porque o português não é parecido ortográficamente com o japonês, não muda o fato de que os sentimentos do ser humano podem sim ser expressos em todas as línguas, com toda sua capacidade de expressão. Quanto ao fato desta forma poética encontrar problemas para ser traduzido para o português, esse é um problema dos tradutores e não da língua, há sim uma dificuldade de manter significado e forma quando se traduz qualquer tipo de poesia, pelo simples fato dela trabalhar com símbolos, esses que não funcionam muitas vezes da mesma forma em outra língua (cabe ao tradutor procurar na língua algo equivalente, que existe). O que eu repreendo é a tentativa de um brasileiro de fazer um haicai “japonês” (ele nunca será japonês), porque, como citado por Matsuda Goda, “…jamais se alcançará reproduzir em português a forma original…”, na minha opinião, não pelo fato da língua ser diferente, mas porque não é uma poesia brasileira, um sentimento brasileiro, um leitor não se identificará. O que devemos sim fazer é haicai Brasileiro, com temas e forma que seja adequada a passagem da poesia para nossos leitores brasileiros.
    Outra coisa a se respeitar é a vontade do poeta, Mario de Andrade quis chamar seu livro Macunaíma de rapsódia (que não é um termo literário, mas sim uma forma musical) e se respeitou isso. Um poeta usa um modelo ou uma forma que mais lhe apetece para produzir sua poesia, aquela que tem as características necessárias para que sua poesia seja mais forte. Ele pode chamar de haicai, outros de tercetos, mas ainda o que prevalece é que esta forma é derivada do haicai, pois foi no que ele se baseou. Além do mais, se nós formos querer recusar a produção de poemas com formas estrangeiras, nós precisaríamos recusar tudo que já foi escrito, pois são em maioria formas estrangeiras adotadas.
    Respeitemos nossos poetas, nossa língua, nossa gente e nossos temas, “anarquizar” a poesia é sim uma forma de deixar que as pessoas a usem da forma como quiserem o texto e as palavras procurando sempre melhorar o entendimento de sua poesia. Aliás, não é para isso que existe a licença poética? Para que nós abusemos e modifiquemos nossos textos em busca da arte? Portanto sou “partidário” do Haicai Brasileiro, representado pelo humor simples de Leminski, pelos versinhos de Ruiz e pela produção poética em tercetos que se pretenda Haicai, que tenha em si poesia, não desvirtuando uma forma tão bonita.

    Leonardo Meimes

  3. Do HAICAI e do TERCETO

    Pois bem, a partir do texto da poeta Marilda Confortin, é que propus aos poetas, escritores e leitores interessados, no tema, uma “discussão,” pacífica, ordeira, afim de abordarmos a questão, seriamente, se no Brasil faz-se HAICAI ou não.

    Se o que andamos lendo em livros impressos e em muito mais quantidade no mundo virtual, em sites de poesia, seja haicai.

    Como a grande maioria não obedece nenhuma regra, são livres de qualquer técnica, obviamente, não são haicais.Não deixam certamente de ser poemas. Sem analisar o mérito do conteúdo poético que contenham, enquadram-se perfeitamente como tercetos, poemetos, poetrix ou outros termos que os definam, mas continuam insistentemente “chamados” de haicai.

    Quero crer que esses autores o fazem levados única e exclusivamente pela vaidade de poder afirmar “eu faço” haicai. Ou,sem considerar a distorção de conteúdo, exigido, segue na sua determinação, talvez até, intencionalmente de divulgar seu “anti-haicai” como se o fosse, para estabelecer a confusão.Diversão comum no mundo virtual exercida pelos mulos. Lamentável.

    Nasce assim, esta tentativa de se retomar a história, não tão longínqua, da chegada do haicai ao Brasil.

    Que fique claro, aqui não se propõe discutir o HAICAI nem a sua presença na nossa cultura, não, e sim uma originalidade percebida, entre outros, pelo grande poeta brasileiro Guilherme de Almeida, que apesar de criterioso, acabou colaborando para essa euforia de “abrasileirar-se, reinventar, liberar” sem critérios o haicai, que acabou redundando nessa parafernália que, tenho certeza, não era sua intenção.

    Se for para escrevermos versinhos sem consistência ou riminhas de mau gosto, vamos assumir nossa própria identidade e não defini-los como HAICAI.

    Devo afirmar, também, que há tercetos e não são poucos em português de poetas brasileiros muito bem compostos. Fantásticos.

    Vamos respeitar o HAICAI.
    Se for o caso, vamos errar em português.

    Isto posto vamos ao tema propriamente dito.

    Quando queremos falar sobre HAIKU/HAICAI, no Brasil, necessariamente temos de passar pelo mestre NEMPUKU SATO, imigrante japonês do início do século passado, que tinha consciência da sua tarefa em manter a arte da poesia, do seu país, no seio das colônias bem como divulgá-la na nova terra, juntamente com seus discípulos e entre eles o mestre MASUDA GOGA.
    Discípulo de TAKAHAMA KIOSHI o mestre mais iluminado do haiku que presidia, do Japão, a divulgação dessa cultura para outros paises, a essa época, Nempuku era um assumido tradicionalista da cultura japonesa.

    O mestre Nempuku -1898/1979- pelo trabalho desenvolvido junto às colônias , nos encontros com poetas brasileiros e encontros sociais firmou-se como um poeta brasileiro sem, entretanto, nunca ter escrito um poema em português.
    Fez, e com muita competência, uma longa pesquisa para identificar os kigos brasileiros, que a final resultou em haicais maravilhosos e em um dicionário.

    Este, talvez, o mais conhecido haiku do mestre:

    Kaminari ya yomo no jukai no kogaminari

    Um trovão estronda
    E os trovõezinhos ecoam
    Na selva em redor.

    O HAIKU/HAIKAI chegou ao Brasil com os primeiros grupos de imigrantes japoneses a partir de 1908.
    O haicai é um poema curto que se refere a um instante de interação do poeta com a natureza e o tempo (estação do ano) referindo-se, sempre, ao presente e não ao passado. A substância do haicai é o kigo que é uma palavra, termo, “constante da estação”. Ex.: geada é um kigo do inverno.
    O haicai, portanto, é um poema, na sua origem, de 17 sons (em ideogramas) ou alfabéticas que no Brasil foram transformados em 17 sílabas com ênfase para a tônica.
    Divididas da seguinte forma:
    O primeiro verso tem 5 sílabas, o segundo tem 7 e o terceiro tem 5, não exigindo a presença de título ou rima.
    Também teremos de passar, necessariamente, pela informação mínima de que o haicai chegou ao meio dos poetas brasileiros via autores franceses como Jules Supervielle, Tristan Derime, Paul-Louis Couchoud, que escreveu “Sages et poètes d´Asie”, em 1918, entre outros.
    O que já nos dá a idéia de que o haicai, com toda a sua complexidade, nos chega com “sotaque” francês.
    Afirma o mestre MASUDA GOGA em “O Haicai no Brasil”:

    “O haiku introduzido por Afrânio Peixoto chamou a atenção de poetas brasileiros e evoluiu para a composição de haicai em português. Todavia, o haiku apresentado por Afrânio não constituía a introdução direta do haiku do Japão e sim uma retradução da versão feita para a língua francesa”.

    Observem o labirinto que começam a entrar os poetas nativos. Se é necessário considerar os kigos e a “alma” japonesa, Afrânio e outros tradutores estariam pensando e sentindo em japonês, francês e português simultaneamente?

    Não se trata aqui, reafirmo, de discutir o haicai. O haicai não se discute, ele existe, ele é; o que podemos fazer é estudá-lo com quem está apto para ensinar.

    Os textos dos autores aqui transcritos são para ilustrar o que se pretende, ou seja, fazer com que poetas que contumazmente escrevem tercetos em português e publicam como haicai, percebam a complexidade que é traduzir ou compor um deles.

    É no mínimo uma falta de respeito para com tal cultura que não nos apercebamos disto.

    A vontade irrefreada, moderna, de “abrasileirar-se” o haicai tem duas vertentes:

    Uma, a incontestável beleza da síntese harmônica do poema.

    A outra o labirinto em que se embrenharam os poetas brasileiros, alguns consagrados por suas belíssimas obras em português, e que, apressadamente, diante da novidade atraente, passaram a escrever tercetos em português e chama-los de haicai. Seria um fato inusitado e desabonador para um já famoso poeta retroceder em seu feito.

    Tal foi essa pressa que o nosso poeta Guilherme de Almeida “criou,” “inventou” um formato de haicai que ele próprio chama de “meu haicai” por admitir que não era um original como veremos mais a frente.

    Assim temos, na edição de TOKASUI MAJIMA com tradução de AKEMI MAJIMA, com clareza:

    “Diferente da pintura, o haiku precisa ser traduzido para ser apreciado por quem não conhece o idioma japonês. No entanto, é de opinião generalizada que essa forma poética não pode ser traduzida para o idioma estrangeiro. Mas, se alguém perguntar se a tradução do haiku é impossível por motivos técnicos ou se se trata de uma impossibilidade intrínseca, a resposta seria: existe possibilidade, caso seja feita por um poeta (haicaísta), conhecedor perfeito das duas línguas (original e traduzida). Contudo, é um trabalho muito difícil “superar” as diferenças entre a cultura japonesa e a estrangeira. Não só é quase impossível trasladar os dezessete sons do haiku para dezessete sílabas do português , como são praticamente intraduzíveis os significados de termos como wabi (sentimento de profunda solidão, mistério da solidão) ou sabi (pátina do tempo, mistério da transformação, desolação e beleza da solidão).”

    Nota do Tradutor: – Estas “traduções” dos termos wabi e sabi não passam de aproximações que não exprirnem toda a singularidade e profundidade dessas palavras, produtos puros, digamos assim, da multimilenar cultura japonesa.

    Como vimos TOKASUI é contundente.

    Veja o que diz Benedicto Ferri de Barros no prefácio de “O Hai Cai no Brasil” de Masuda Goga:

    “Na dimensão de uma miniatura, tão ao gosto do cânon estético nipônico, o Haicai no Brasil, de Hidekazu Masuda surge como um marco literário clássico deste gênero de poemas entre nós. Marco, porque assinala um ponto de referência que, daqui para frente, ao falar de haicai no Brasil, ninguém poderá ignorar.”

    E acrescenta:

    “Bem creio jamais se alcançará reproduzir em português a força original de uma gema nipônica nem creio que as gemas brasileiras de haicai, vertidas, traduzam para o japonês sua rutilância própria.”

    Cláudio Justiniano de Souza, escritor e poeta afirma em sua obra “Impressões do Japão” (1940):

    “Penso que uma forma poética como o haiku não poderá ser, absolutamente, traduzida para idioma estrangeiro. Pois com algum exagero pode-se dizer que mostra a atitude peculiar dos japoneses em relação à vida e ao mundo” (Obras Completas de Ikutarô Nishida, vol. XIII, Pensamento e Experiência, segunda parte).
    “São (os haiku) como perfumes concentrados: se passam de um a outro vaso, evaporam-se em caminho.”

    No texto: NEMPUKU SATO o poeta brasileiro:

    “Hoje, a comunidade de haicaístas japoneses no Brasil se organiza em diversos grêmios e publica haicais em revistas, jornais e antologias. Mas ela sente os efeitos da idade. Os filhos e netos dos imigrantes, cada vez mais integrados à comunidade brasileira, perdem a intimidade com a língua de seus ancestrais. Sendo assim, não ocorre renovação no quadro dos haicaístas.”

    Apesar de o haicai ter-se expandido no meio dos poetas brasileiros a preocupação dos mestres volta-se para a comunidade japonesa que, em estudando, colaboraria mais originalmente com a sua essência e expansão.
    Percebe-se, então, que por educação ou pela oportunidade de divulgação do termo (haicai) os mestres e discípulos não entram no mérito dos tercetos, sem regra alguma, que avançam aos milhares nominando-se de haicais.

    E assim cresce o desvirtuamento do haicai e condena-se o terceto a um termo desvalorizado. Pena.

    Se já sabemos como se compõe o haicai, essência e forma, vamos ver a seguir o que o poeta Guilherme de Almeida “criou” para dar um formato ao “seu” haicai:
    “Eis o meu haikai. Dentro da regra de 5-7-5 sílabas, o primeiro verso rima com o terceiro. Na segunda linha rimam a segunda sílaba e a última.”

    – – – – X
    – O – – – – O
    – – – – X

    Caridade

    Desfolha-se a rosa.
    Parece até que floresce
    O chão cor-de-rosa

    Infância

    Um gosto de amora
    Comida com sol. A vida
    Chamava-se “Agora”.

    O Haikai

    Lava, escorre, agita
    A areia. E enfim, na batéia,
    Fica uma pepita.

    Observe-se que Guilherme “organizou a sua criação” com título e rima regra que o haicai original dispensa.

    Velhice

    Uma folha morta
    Um galho, no céu grisalho.
    Fecho a minha porta

    Contando as sílabas:

    U-ma fo-lha mor-ta.
    1 2 3 4 5
    Um ga-lho, no céu gri-sa-lho.
    1 2 3 4 5 6 7
    Fe-cho a mi-nha por-ta.
    1 2 3 4 5

    Podemos já vislumbrar o que começou a ocorrer diante de tais construções “liberais” para ir-se ao encontro da atração poética exercida pelo haicai.
    Veja o que diz o poeta Waldomiro Siqueira Júnior:
    “manifesto respeito à tradição do Japão, mas faço meus versos, interpretando à minha maneira, como um ocidental”.
    Waldomiro se liberou total. Seriam seus versos haicais? Ou tercetos em português bem compostos?

    Jorge Fonseca Júnior afirma:
    “Assim (…) quanto ao haiku (…) deve indicar ou refletir a estação do ano (ao menos indiretamente) em que é elaborado; e caracterizado, portanto, por sua extrema concisão, devendo, ao mesmo tempo, através desta, fluir com naturalidade o conteúdo poético” (Jorge Fonseca Júnior, Wenceslau de Morais e Outras Evocações, 1980, pp. 120-121 ).
    Acrescenta ser “desnecessário colocar título em cada poema de haicai, nem observar rima”.
    A divergência entre personalidades intelectuais que conviveram ou convivem no meio haicaiano, nos dá a dimensão da complexidade que é tratar-se do tema e como muito mais é escrevê-lo.
    Hoje, como já foi dito, os mestres e discípulos reúnem-se em grêmios para o estudo, tendo entre seus membros não só os descendentes da comunidade nipônica como, também, a presença de poetas nativos interessados em compreender a dinâmica do poema.
    Os mestres e seus discípulos continuam e continuarão a escrever o HAIKU/HAIKAI tão belos quanto os que viajaram pelo mundo de seu mais famoso poeta e mestre MATSUO BASHÔ; aqui um dos mais famosos poemas do mestre:

    O velho tanque
    Uma rã mergulha,
    Barulho de água.

    Em japonês, pronuncia-se aproximadamente da seguinte forma:

    furú iquê iá
    cauázu tobicômu
    mizú no otô

    Tradução de Paulo Franchetti e Elza Doi.

    Acredito que com esta rápida exposição possa ter contribuído para a manutenção deste “diálogo” entre os interessados, que já sabiam e os que não tinham conhecimento e quem sabe provocado algum tipo de reflexão naqueles que insistem em rejeitar o terceto, que é o que escrevem, e eleger o haicai como sua “forma”, e que assim, terminam por estabelecer uma anarquia poética em prejuízo da arte e da cultura milenar do povo do sol nascente.
    HAIKU do mestre MASUDA GOGA:

    Cai, riscando um leve
    traço dourado no azul,
    uma flor de ipê !

    Aozora ni
    kin no sen hiku
    ipê rakka!

    Dois tercetos de épocas diferentes:

    Destarte me afigura a fantasia
    a vida com que vivo, desterrado
    do bem que noutro tempo possuía

    de Camões

    da palavra o sal,
    o grão
    terceto -minha paixão

    de Elpoeta

    Não publiquei exemplos de “antihaicais” ou não “haicais” ou tercetos em português que são chamados de “haicais,” porque teria que citar o autor, e, não se trata aqui, também, de expor ou ridiculizar alguém. Quem quiser encontra-los que entre na rede e navegue. Não terá dificuldades.
    Finalizo afirmando que jamais escrevi um haicai, justamente porque não o estudei com a profundidade necessária e porque defendo, com meu escasso conhecimento, o HAIKU na sua integridade dado a sua beleza, força e grandeza. Abrasileire-se o haicai a partir dos ensinamentos dos mestres nipônicos, que pensam, sentem e escrevem nas duas línguas. Os demais são tercetos,poetrix sem nenhum demérito porque podem ser, e muitos o são, lindos como o haicai.

    Agradeço a colaboração divulgada ou não (email) em especial a poeta Marilda Confortin que com seu ensaio sobre o POETRIX acabou por me dar essa deixa.

    À poeta Zuleika dos Reis com sua intervenção oportuna, como estudiosa do haicai, a qual desejamos e esperamos que se transforme numa grande haicaísta.

    À Deborah O. Lins de Barros com a sua disposição ao terminar esta leitura entenderá, com certeza, o que eu quis dizer.

    Ao Leonardo Meimes, amigo e palavreiro que com seu texto demonstrou que não está “gazeando” as aulas. Mas preciso retificá-lo no que diz respeito a substituir o termo haicai por poetrix:

    peloamordedeuseujamaiscometeriataldisparateeagressãoemnenhummomentoeuafirmeiistovoltenostextosacimaeirásverificarafirmeisimporquenãobatizarotercetodepoetrix?porquehaicuiéhaicainãoésimplesmenteumtercetoemjaponês!foiisto.

    Quanto a sua proposta de criar a subcategoria:Haicai Brasileiro, do ponto de vista do ensino, do organograma que os acadêmicos montam para transmitir suas aulas, não discuto, mas acho que irá levar ao encontro de um excessivo número de subpoetas.

    À poeta, escritora, palavreira e amiga Bárbara Lia poderá, também compreender melhor a minha posição, após esta leitura, porquanto não era nem é de discutir o haicai e sim de demonstrar a complexidade e as divergências que estariam proporcionando esse altíssimo número de “antihaicais” disponíveis para leitura, principalmente no mundo virtual, levando os leitores a uma falsa compreensão.

    Ao poeta e escritor Silas Correa Leite que com sua experiência e muitos quilômetros percorridos vem em meu socorro com “…e, confesso, o que mais vi de bobo-ruim foi mesmo haikais abrasileirados.”

    Ao poeta Goulart Gomes criador do termo POETRIX que afirma: “… sempre escrevi tercetos achando que eram haikais. Um belo dia, Aníbal Beça me fez conhecer o que é verdadeiramente o haikai, conforme concebido em sua forma “abrasileirada” para o português (ver a mensagem de Zuleica)” e mais “Respeito tanto o haikai que não quis “contaminá-lo” com o que eu e tantos outros autores escrevem…” ufa! Já tenho companhia.
    Obrigado Goulart pela colaboração e cumprimento-o pela sua posição e pela criação do POETRIX.

    Desta forma, com estes objetivos, continuarei aguardando novas contribuições sobre o tema de quem já se manifestou ou não; porquanto o assunto está na rede mundial e seguidamente será encontrado.

    Jb Vidal

  4. Olá Leonardo, não tenho seu email (não é divulgado aqui),
    mas se quiser ler outras coisas minhas, acesse meus sites(www.iscapoetica.blogspot.com e http://www.marildaconfortin.prosaeverso.net).
    Bom fim de semana e obrigada pela participação (ainda continuo achando a poesia algoa prazeirosamente inútil…rs)

  5. Parece que chegou-se a um certo consenso de que o Poetrix e o Haikai são duas coisas distintas (e que ambos são úteis poeticamente falando hehehe). Mas quanto as dúvidas sobre a existência do Haikai Brasileiro, continuo a fazer a pergunta, o que faz um texto ter nacionalidade? Não creio que usar a forma Haikai e a idéia de tomar como kigo um tema brasieliro seja uma “corrupção” tão grande de uma cultura que não possa mais ser concebido como Haikai. Me parece uma forma de super proteção a cultura, que é bem característica de alguns povos dizer que só eles fazer Haikai. Nunca se discutiu isso com outras formas de texto, Os Lusíadas não usava uma forma portuguesa de poema (no caso a Epopéia), nem mesmo usou Machado de Assis que se beseou na prosa inglesa de Swift e Sterne! E são considerados exemplos preciosos de seus gêneros, pertencem sem dúvida a forma que usam, e a usam adequadamente. E ainda falo que o único grande equívoco que pode se cometer ao criar um poema e dar a ele uma poesia medíocre. Marilda, obrigada pela oportunidade de discução e acredito que foi importante, gostaria que você mandasse para meu e-mail alguns poemas seus, para que eu conheça mais do que está no PALAVRAS, junto com nome de livros e coisas assim.

    Leonardo.

  6. não, minha nobre amiga marilda, nem os leitores deste site, porque imagino-os inteligentes estão satisfeitos e muito menos eu, antes, pelo contrário, aprofunda-se a minha certeza no sentido de que NUNCA foi escrito um HAICAI por poetas brasileiros a começar por nosso grande poeta Guilherme de Almeida até os nossos dias. devo ressalvar, óbvio, os poetas da escola do HAICAI descendentes de japoneses e residentes no Brasil, porque passaram a conhecer as duas línguas e a pensar em duas linguas, PERFEITAMENTE, como ensina o mestre NEMPUKU, esses sim, escreveram HAICAIS belíssimos. por ora é só.
    abraço,

    jb vidal

  7. Vejam só: meu texto pretendia uma reflexão sobre a utilidade/inutilidade da poesia e acabou provocando uma discussão sobre haicai e poetrix. O Leonardo Meimes, mesmo não concordando comigo, foi o único que atentou para esse detalhe. Valeu Leonardo.

    Muito esclarecedores os comentários da hacaísta Zuleika e do poetrixta Goulart Gomes.
    Ficou claro para os leitores do Palavras, que se trata de dois estilos diferentes de tercetos?
    E aí, Vidal, satisfeito?

  8. Olá, amigos. Eu sou Goulart Gomes, o criador do termo “poetrix”. Passei por aqui por indicação de Marilda. Queria contribuir para a discussão e acho que a melhor forma de fazê-lo é falando sobre a origem do poetrix. Eu sempre escrevi tercetos achando que eram haikais. Um belo dia, Aníbal Beça me fez conhecer o que é verdadeiramente o haikai, conforme concebido em sua forma “abrasileirada” para o português (ver a mensagem de Zuleica). O haikai escrito no Brasil já é um abrasileiramento do haikai escrito no Japão, por isso o poetrix não é um abrasileiramento do haikai. Poetrix é um nome que eu propus para um determinado gênero de tercetos (ver http://www.movimentopoetrix.com). Respeito tanto o haikai que não quis “contaminá-lo” com o que eu e tantos outros autores escrevem, hoje e sempre, desde Dante Alighieri, passando por Leminski, Millôr, Drummond, Graciliano, etc. Eu sabia que iria “jogar lenha” nessa fogueira de vaidades que é a Literatura. Mas, que fazer? Era isso ou jogar fora todos os meus tercetos. (rs) Enfim, fico feliz por ter criado uma “saída de emergência” que tantos autores adotaram, livrando seus textos do limbo canônico. Que cada um os chame do modo que preferir. Na Literatura, como na vida, só Tempo diz quem tem razão. Abraço a todos.

  9. TERCETOS E HAICAIS

    Pelo fato de não crer em conceitos universais, tento sempre ser fiel ao princípio de que qualquer ponto de vista, estabelecido a partir de determinadas premissas, é necessariamente parcial, logo sujeito a contestações. De todo modo, esse é um jogo paradoxal: mesmo não crendo que tenha A RESPOSTA para a questão proposta no título preciso admitir, antes de tudo diante de mim mesma, que minha resposta seja suficientemente boa, para enunciá-la em um debate aberto a múltiplas opiniões e tendências.
    Os conceitos que tentarei colocar aqui sobre o que possa ser considerado haicai, sobre se é possível haver um haicai brasileiro e sobre a identificação, muitas vezes automática e acrítica entre terceto e haicai, são conceitos do Grêmio Haicai Ipê, o qual freqüento desde 1990, embora com não muita assiduidade.Sendo assunto vasto e polêmico, só me cabe enunciar alguns princípios gerais que norteiam os participantes do referido Grêmio, princípios que buscam manter fidelidade àqueles estabelecidos a partir do trabalho de Matsuo Bashô (1644-1694), o grande poeta clássico do haicai.Ei-los:
    1. O haicai deve transcrever, o mais fielmente possível, uma cena da natureza, natureza cujos aspectos mudam o tempo todo obedecendo, não obstante, ao ciclo das estações.
    2. Todo haicai deve conter um “kigo”, como é chamado o termo de estação. Exemplo: Paineira, “kigo” de outono, porque as paineiras florescem no outono; chuva de granizo, “kigo” de verão, porque é quando tais chuvas costumam ocorrer, (abstraindo-se a questão das mudanças climáticas, originadas pela ação do homem); cartão de Natal, também de verão, este fazendo parte dos chamados “kigos” vivenciais, que se referem a eventos específicos da realidade social.
    3. O haicai deve, preferencialmente, ater-se à tradição métrica 5/7/5
    4. O haicai deve ater-se ao momento presente, evitando considerações explícitas de natureza emocional, filosófica (quando abstratas, isto é, sem referência direta ao objeto observado)… etcetera.
    É possível um haicai brasileiro? A partir do uso do chamado “kigo”, o Grêmio Haicai Ipê considera que sim, é possível um haicai brasileiro. O “kigo” é elemento bastante específico e seu uso estabelece a identidade tanto quanto a legitimidade do haicai, onde quer que se o escreva, seja no Japão, no Brasil, nos Estados Unidos, na França…, que cada país, a partir das características peculiares de sua natureza e de seus eventos sociais, pode construir legítimos haicais, com seus “kigos” específicos. Assim, peixe-boi, essencialmente “kigo” brasileiro. Não corresponderia a nada, em outro país.
    Quanto à questão terceto versus haicai, tomo a liberdade de citar dois poemas meus, apenas a título de ilustração, que a problemática é complexa, tem muitas variantes e apenas pode ser esboçada aqui:

    PAPAGAIO

    Ninguém compreende
    como é original
    o meu silêncio.

    Do livro ESPELHOS EM FUGA, Editora Objetiva, 1989.

    O asilo em silêncio.
    Encolhido no poleiro
    velho papagaio.

    Segundo os princípios do Grêmio Haicai Ipê, o primeiro poema é um terceto, que alguns chamariam poetrix, enquanto o segundo poema constitui, efetivamente, um haicai.

  10. Pois então… como eu escrive no final do meu ensaio, “Não pretendo ensinar ninguém a escrever nem (de)gustar de poetrix”. E muito menos propor a mudança do nome do haicai para poetrix. São estilos diferentes. Regras diferentes. Poesias diferentes. Conteúdos diferentes. Para o leitor de poesia, não importa a regra ou o nome acadêmico que se dê. Ele quer saber se gosta ou não gosta. (O poetrix só tem 10 anos com esse nome, ainda está sendo construído mas já tem adeptos em muitos paises)
    Já para o escritor, espera-se que minimamente ele saiba a diferença entre um soneto e um haicai, por exemplo. Mesmo que ele não dê a mínima para as regras e para os nomes, acho que ele não tem o direito de ferir toda uma história construída ao longo dos séculos, denominando qualquer verso curto de haicai ou categorizar qualquer terceto escrito em português de poetrix. Se ele não souber como classificar sua poesia, tudo bem… não classifique, chame simplesmente de poesia. Fica tudo bem. Como disse a Bárbara Lia, “os tercetos seguirão, narrando seu tempo e estações, alguns o chamarão poetrix, outros hai kai…”. Os meus, eu chamo de poetrix. Não porque eu não goste de haicai, mas porque definitivamente meu estilo se encaixa perfeitamente nas características do poetrix.
    A discussão é válida, desde que seja para incentivar a leitura e a escrita poética, seja lá qual for a preferência do leitor deste site.
    Se alguém quiser conhecer melhor as características do poetrix, pode consultar a página oficial do MIP: http://www.movimentopoetrix.com/
    Um grande abraço
    Marilda

  11. Olá amigos, bem, en passant, é como querer dizer que não tem blues que não seja apenas em inglês, coisa e tal, quando eu chamo meus poemas (de uma série) de intimos blues. Arrisquei alguns haikais, arrisquei um e outro poetrix, como arrisquei tercetos; como o haikai tende a ser rígido (só oriental?), como o poetrix é uma re-invenção brasileirinha do terceto com outro nome, ora chamo de haikai, ora chamo de terceto (uso pouco poetrix), mas acho que a discussão entre uma coisa e outra para mim tanto faz, como compor meus banzo-blues em português, porque o que fica, o que vale mesmo, é a qualidade de um ou de outro, e, confesso, o que mais vi de bobo-ruim foi mesmo haikais abrasileirados, e, claro, como não estamos no oriente e nem sou zen-corinthiano, prefiro ficar com terceto, por aí. E salve-se quem puder. Aliás, tive uns haikais (Poemetos) premiados. Era isso. FUI.

  12. O hai kai é expressão poética zen de monges em viagem… Surgiu em forma de diários de viagem, para captar o belo, por isto esta associação com o momento e com as estações do ano. Os grandes poetas também relacionam poesia com metafísica. Borges, Fernando Pessoa, e tantos, ou quase todos. Na verdade só se torna grande poeta quem interroga sem cessar o Universo e a si mesmo. A poesia é anterior à palavra, é um rito xamânico e para mim, ainda, mistério. Se – Satori – é iluminação mística, o deslumbramento… era isto, agregado à paisagem, que estes poetas buscavam narrar, mais que neve, ou flor, ou insetos e luas e estações… Esta poesia mínima só em sua forma acabou sendo inscrita na Literatura como Hai Kai… Quando descobri Bashô, Li Po, e os hai kais de Leminski que escritos em português guardam as características dos ocidentais – zenleminskigenial – eu fiquei fascinada… Na verdade eu tenho este carinho por ancestralidades e penso que por uma diferença de tempo e território e até estado de espírito, neste mundo nada zen é um tanto complexo escrever um hai kai, é um exercício supremo o da iluminação… os tercetos seguirão, narrando seu tempo e estações, alguns o chamarão poetrix, outros hai kai…

  13. Comentário.

    Quero dizer já que não concordo com nenhuma das opiniões, deixo bem claro e exposto, não é uma discussão?

    – Primeiro, a poesia é inútil? Não é claro que não! Uma das características principais da poesia é que ela não pode ter um propósito fora do estético, não disse um tema. A poesia é uma arte e como todas as outras elas surgem por uma necessidade de expressão e de uma busca pelo belo (seja este “belo” no sentido de um ideal estético), sua preocupação tem de vir primeiramente na estética. Um poeta que faz um poema pensando em agredir alguém, não está fazendo poesia, mas um texto outro em forma de verso, a intenção estética é que faz a poesia aparecer no poema, o trabalho estético. Portanto a poesia não é inútil, ela somente não procura ser informativa, ou utilitária. E como dizer isto? (que é inútil) todos nós sabemos que a leitura e reflexão sobre poemas causa uma construção de sensibilidade nas pessoas, se eles fossem inúteis não estaríamos na luta para que todos tenham acesso a eles. Outro fato que discordo, quem disse já foram usadas todas as formas? É verdade que os temas são sempre os mesmos, porém acredito que o poeta é aquele que fala sobre algo de uma forma que ninguém havia dito. (Em vez de “Eu te amo” o poeta diz “De tudo ao meu amor serei atento”)Se todas as formas já tivessem sido usadas, nunca mais se criaria estilos novos e a literatura pós-moderna não existiria., sabemos até que a própria história pode ser recontada de outros pontos de vista, de outras maneiras.

    – Segundo, quanto à questão de estarmos fazendo haiku/haikai eu levanto uma outra pergunta: Quem faz a nacionalidade do poema é o autor ou a forma??? Podemos dizer que porque Vinícius de Morais escrevia sonetos (que não são uma forma Brasileira de poema) ele estava agredindo o sicilliano Giacomo da Lentini, que no século XII criou esta forma? Sabemos que o que faz o poema ter uma nacionalidade são um conjunto de fatores (autor, estilo, língua, intensão), Iracema de José de Alencar é o livro mais brasileiro da nossa literatura junto com o poema Canção do Exílio de Gonçalvez Dias, porque eles souberam colocar nossa cultura em seus textos. Os brasileiros, têm uma facilidade grande em se expressar nas mais diversas formas de texto poético, nós temos poetas que publicaram tanto sonetos como outros tipos de forma. Agora dizer que nossos Haikais são uma afronta à cultura japonesa é que nem dizer que a música clássica brasileira é uma afronta ao resto da música clássica. Temos que entender que nenhuma forma é por si estática, nós importamos o Soneto e o adequamos a nossa língua, fizemos grandes sonetos e mesmo assim ninguém diz que deve se chamar de outra forma. Existem variações nas formas, o Haikai Brasileiro é uma variação da forma de Haikai Japonês, não é uma tentativa de tradução de uma cultura estrangeira (tradução que sempre acaba perdendo significado e contexto), porque os temas são brasileiros, as palavras são em português, ou autor é brasileiro e a intenção é fazer Haikai. O que os Japoneses têm que entender é que nos estamos utilizando uma forma efetiva de poema deles para fazer um trabalho estético brasileiro, sem a intenção de agredi-los, pelo contrário isso mostra que nós admiramos a poesia Japonesa. Mudar o nome para Poetrix, não vai mudar nada, continuaremos a fazer o Haikai, com outro nome, a intenção é a mesma. O que agride qualquer tipo de poesia é o poema mal construído, que se pretende poesia, o poema não trabalhado, o poema sem qualidade estética, utilitário e insosso, que não provoca catarze nenhuma em quem quer que seja, caso tenhamos produzido Haikais deste tipo ai sim eu peço desculpas aos Japoneses, quanto aos bons sugiro que leiam.

    P.S: Proponho a subcategoria “Haikai Brasileiro”

  14. Olha, sei lá… minha opinião pode até parecer meio sem embasamento, mas pq não chamar o terceto de Hai Kai? é como se comparassem um soneto de Camões a um meu e concluir que, obviamente, o meu não poderia ser um soneto.
    Leminski e Millôr, não fizeram Hai Kai, então?

    “o que é um nome? aquilo que chamamos de rosa, se chamássemos por qualquer outro nome, ainda teria o mesmo cheiro suave…” (Shakespeare)

    Sejamos autênticos, porém livres!! 🙂

  15. marilda, este teu texto está provocando algo que, como muitas outras, eu ando refletindo há tempos e não ando disposto a deixar passar em branco. o HAIKU/HAIKAI, como afirmam os próprios mestres japoneses, no Brasil e no Japão, NÃO PODE ser tradusidzo para lingua estrangeira, a não ser que o poeta “haicaísta” domine as duas línguas PERFEITAMENTE, mesmo assim encontrará grandes dificuldades.
    com a valorosa imigração japonesa, início do século 20,vieram também alguns estudiosos e mestres do poema japones e que por divulgarem entre seus compatriotas, afim de manter a cultura viva, terminou por influenciar os brasileiros, fundamentalmente, aqueles que conviviam junto ou próximos as áreas rurais, onde se deu a maior parte da fixação dos imigrantes. mas, como devo escrever sobre isto, mais aprofundaddamente, por estes dias, quero apenas te dizer que desde então inaugurou-se um grande EQUÍVOCO, quando os poetas brasileiros ao comporem um TERCETO (poema curto de tres linhas/versos) passaram a chamá-los de HAIKAI. o HAIKAI, diga-se, muito mais complexo para “senti-lo” e “sintetiza-lo” na escrita (ideograma) aos próprios poetas japoneses, no Brasil ou no Japão. ora, esta iniciativa, agradou, e com toda razão, à colonia japonesa pois que estavam eles, os poetas brasileiros, a divulgarem a sua cultura. quero te dizer, ainda, que o termo POETRIX (poe= poema/ trix=tres) irá sem dúvida ajudar a “restabelecer a nacionalidade” do terceto em português. podemos “batisar” o terceto de POETRIX, porque não? estamos em pleno século XXl! menos chama-lo de HAIKAI. até porque o que estamos lendo de “haikai” por aí é uma ofensa à cultura da grande familia japonesa, hoje brasileira.
    abraço,

    jb vidal

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