Arquivos Diários: 8 abril, 2008

CINCO TANGOS DE CORTÁZAR por frederico fullgraf

 

Entre divertido e fossento (melancolia resultante da intuição de jamais retornar à sua Argentina e da aproximação do último, irreversível inverno de sua vida) Julio Cortázar começa a escrever (escrever é recordar!) no final dos anos 70 em Nairobi / Quênia, onde exercia funções de tradutor e editor da UNESCO, seu último livro, Salvo el Crepúsculo; várias vezes reeditado na Argentina, mas ainda inédito no Brasil.

 

Virtuoso painel bric-à-brac, feito de “remendos” (poemas, breves prosas, epígrafes e comentários jocosos) que Cortázar parece colher em empoeiradas caixas de sapatos e agendas rabiscadas, Salve el Crepúsculo revela-se caixinha de jóias, ostentando experimentalismos que vão da ode magistral CE GRE CIA 59 ECE,  escrita alternadamente em francês, inglês e espanhol ao contristado repertório CON TANGOS, de letras todas “imusicáveis”, como se auto-ironiza.

 

Sobre o gênero diz Cortázar:

 

“Não sei em que medida as letras do Jazz influenciam os poetas norte-americanos, mas sei, sim, que a nós os tangos devolvem certa recorrência sardônica; cada vez que escrevemos tristeza, que estamos chuvisco, que nos entope a bombilha na metade do chimarrão”.

 

(…)“Um pouco isso, claro, tangos como re-contos de amores humilhados e recapitulações da desgraça, povo de larvas na memória, mostrando no perfil das melodias e nas quase sempre sórdidas crônicas das letras, as moedas usadas e repetidas, a obstinada numismática da lembrança (…)

 

Mais adiante irrompe então o contexto histórico: como no longa-metragem Exílios de Gardel (1984), de Pino Solanas, o Tango vibra como esperança e exercício de resistência à sangrenta ditadura militar de 1976, que Cortázar sobreviveria por apenas um ano, ao falecer em 1984, em Paris:

 

“E chegando nunca desacompanhados: madalenas de Gardel ou de Laurenz, jogando na cara os cheiros e as luzes do bairro (o meu, Banfield, com ruas de terra, na minha infância, com paredões que escondiam os motivos possíveis do medo). Nunca chegando a sós, e nesses últimos anos tão colados ao nosso exílio, que não é o do Lejano Buenos Aires de uma clássica, portenha boemia, mas sim do desterro em massa, furacão do ódio, e o medo. Escutar hoje, aqui, os velhos tangos, já não é uma cerimônia da nostalgia; esse tempo, esta história carregaram-nos de horror e de pranto, foram transformados em máquinas mnemônicas, emblema de tudo o que se vinha preparando desde lá atrás e tão entranhado na Argentina. E então, claro.”

           

Eis, pois, aqui traduzidos, alguns Tangos de Cortázar, exercício poético que pede melodias. É recomendável ouvi-los. O truque? Um bandoneão imaginário marcando o compasso.

 

 

Ar do sul

 

 

 

Ar do sul, flagelação que leva areia

Com pedaços de pássaros e formigas,

Dente do furacão estendido sobre a planície:

Onde homens cara ao chão sentem passar a morte.

 

Máquina da pampa, quê engrenagem de cardos

Contra a pele da pálpebra, ó tranças de alhos ébrios,

De ásperas chicórias trituradas.

A debandada furtiva cessa o vento

E o perfil do moinho

Abre entre dois olvidos do horizonte

Uma risada de enforcado. Empina o álamo

Sua coluna dourada, mas o salgueiro

Sabe mais do país, seus cinerários verdes

Retornam silenciosos a beijar as margens da sombra.

 

Aqui o homem agachado sobre o oco do dia

Bebe seu mate de profundas serpentes e atribui

Os presságios do dia à escondida sorte.

Sua parda residência está no latejar

Que abre ao potro os charcos da baba e a cólera;

Vai retalhando os signos com um facão de prontidão

E sabe da estrela pelo reflexo na poça.

 

 

 

           

 

Malevolência 76

 

 

 

Como um câncer que avança

Abrindo caminho entre as flores

Do sangue, seccionando os nervos do desejo,

A relojoaria azul das veias,

 

Granizo de sutil mal-entendido

Avalanche de choros a des-tempo.

 

Para quê desandar a inútil rota

Que nos levou a esta cega

Contemplação de um cenário oco:

 

Não me deixaste

Nem o pito atrás da orelha

Já mais não sirvo que

Para escutar Carole Baker

Entre dois tragos de genebra,

,

E ver cair o tempo

como uma chuva de traças

sobre estas calças enrugadas.

 

Nairobi, 1976

 

 

Quiçá a mais querida

 

 

 

Deste-me a intempérie,

A leve sombra da tua mão

Passando por meu rosto.

Deste-me o frio, a distância,

O amargo café da meia-noite

Entre mesas vazias.

 

Sempre começou a chover

Na metade do filme,

A flor que para ti levei tinha

Uma aranha esperando entre as pétalas

 

Creio que sabias

E que favoreceste a desgraça.

Sempre esqueci o guarda-chuva

Antes de ir buscar-te,

O restaurante estava lotado

E vozeavam a guerra nas esquinas.

 

Foi uma letra de tango

Para tua indiferente melodia.

 

 

Milonga

 

 

 

Faz-me falta a Cruz do Sul

Quando a sede me força para cima a cabeça

Para beber teu vinho negro à meia-noite.

E sinto falta das esquinas com armazéns

dorminhocos

Onde treme o perfume do mate na

Pele do ar.

 

Compreender que isto está sempre lá

Como um bolso onde a cada tanto

A mão busca uma moeda o pente

o canivete

A mão incansável de uma obscura memória

Que reconta os seus mortos.

 

Cruzeiro do sul mate amargo

E as vozes de amigos

Usando-se com outros.

 

 

Bolero

 

 

 

Que vaidade imaginar

Que posso dar-te tudo, o amor e a sorte

Caminhos, música e brinquedo.

É verdade que é assim:

É certo que tudo o que é meu te dou,

É certo,

Mas não te basta todo meu

Como não me basta que me dês

Todo teu.

 

Por isso não seremos nunca

O casal perfeito, cartão postal,

Se somos incapazes de aceitar

Que só na aritmética

O dois nasce do um mais um.

 

 

Extraviado (por aí) diz um bilhetinho:

 

Foste sempre meu espelho

Quero dizer que para me enxergar,

tinha que te olhar.

 

 

tradução de frederico fullgraf.

BOCAGE, O POETA pela editoria

Manuel Maria de Barbosa l´Hedois Du Bocage (Setúbal, 1765 – Lisboa, 1805), poeta português e, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano. Embora ícone deste movimento literário, é uma figura inserida num período de transição do estilo clássico para o estilo romântico que terá forte presença na literatura portuguesa do século XIX.

Nascido em Setúbal a 15 de Setembro de 1765, falecido em Lisboa a 21 de Dezembro de 1805. Era filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa, que foi juiz de fora, ouvidor, e depois advogado, e de D. Mariana Joaquina Xavier l’Hedois Lustoff du Bocage, cujo pai era francês.

Sua mãe era segunda sobrinha da célebre poetisa francesa, madame Marie Anne Le Page du Bocage, tradutora do Paraíso de Milton, imitadora da Morte de Abel, de Gessner, e autora da tragédia As Amazonas e do poema épico em dez cantos A Columbiada, que lhe mereceu a coroa de louros de Voltaire e o primeiro premio da academia de Rouen.

Apesar das inúmeras biografias publicadas após a sua morte, uma boa parte da sua vida permanece um mistério. Não sabemos que estudos fez, embora se deduza da sua obra que estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, que estudou francês e também latim. A identificação das mulheres que amou é muito duvidosa e discutível.

A sua infância foi infeliz. O seu pai foi preso por dívidas ao Estado quando ele tinha 6 anos de idade e permaneceu na cadeia seis anos. A sua mãe faleceu quando ele tinha dez anos. Possivelmente ferido por um amor não correspondido, assentou praça como voluntário em 22 de Setembro de 1781 e permaneceu no Exército até 15 de Setembro de 1783. Nessa data, foi admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares para guarda-marinha. No final do curso desertou, mas, ainda assim, aparece nomeado guarda-marinha por D. Maria I. Nessa altura, já a sua fama de poeta e versejador corria por Lisboa.

Em 14 de Abril de 1786, embarcou como oficial de marinha para a Índia, na nau “Nossa Senhora da Vida, Santo Antonio e Madalena”, que fez escala no Rio de Janeiro (finais de Junho) e na Ilha de Moçambique (início de Setembro) e chegou à Índia em 28 de Outubro de 1786. Em Pangim, frequentou de novo estudos regulares de oficial de marinha. Foi depois colocado em Damão, mas desertou, embarcando para Macau. Estranhamente, não foi punido e deverá ter regressado a Lisboa em meados de 1790.

A década seguinte é a da sua maior produção literária e também o período de maior boemia e vida de aventuras. Ainda em 1790 foi convidado e aderiu à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Mas passado pouco tempo, escrevia já ferozes sátiras contra os confrades. Em 1791, foi publicada a 1.ª edição das “Rimas”. Dominava então Lisboa o Intendente da Polícia Pina Manique que decidiu pôr ordem na cidade, tendo em 7 de Agosto de 1797, dado ordem de prisão a Bocage por ser “desordenado nos costumes”. Ficou preso no Limoeiro até 14 de Novembro de 1797, tendo depois dado entrada no calabouço da Inquisição, no Rossio. Aí ficou até 17 de Fevereiro de 1798, tendo ido depois para o Real Hospício das Necessidades, dirigido pelos Padres Oratorianos de São Filipe Néry, depois de uma breve passagem pelo Convento dos Beneditinos. Durante este longo período de detenção, Bocage mudou o seu comportamento e começou a trabalhar seriamente como redactor e tradutor. Só saiu em liberdade no último dia de 1798.

De 1799 a 1801 trabalhou sobretudo com Frei José Mariano da Conceição Veloso, um frade brasileiro, politicamente bem situado e nas boas graças de Pina Manique, que lhe deu muitos trabalhos para traduzir. A partir de 1801 até à morte viveu em casa por ele arrendada no Bairro Alto.
À Camões, comparava com os dele os seus próprios infortúnios:
  
O poeta asseteado por amor
  
Invocação à Noite
  
A lamentável catástrofe de D. Inês de Castro
  
Retrato próprio
  
Em louvor do grande Camões
  
O autor aos seus versos
  
Visão Realizada
  
Proposição das rimas do poeta
  
Já Bocage não sou!… À cova escura
  
O Ciúme
  
Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas
  
Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
  
Desejo Amante
  
Esperança Amorosa
  
Sonho
  
Ó tu, consolador dos malfadados
  
O Suspiro
  

 

1964 A SAÍDA DE JANGO DA PRESIDÊNCIA

Uma saída às pressas

O Presidente deixou o poder da mesma forma como chegou a ele: assediado, aplaudido e acuado
N aquela tarde de 1.º de abril de 1964 em Brasília, o presidente João Goulart deixou a cidade e o poder tal qual havia chegado dois anos e sete meses antes: voando, às pressas, assediado, aplaudido e acuado.
Em 1961, quando Jânio Quadros renunciou, o vice-presidente Jango chegava a Cingapura, vindo da China, e ao saber que os três ministros militares vetavam sua posse e o prenderiam, voou rápido para o Brasil numa volta ao mundo via Paris, Nova York, Buenos Aires e Montevidéu, sem passar pelo Rio ou  por Brasília. Por fim, desceu em Porto Alegre, com civis e militares mobilizados e armados para que se cumprisse a Constituição e ele assumisse a Presidência, derrotando um golpe branco. 
Assisti em 1961 à sua chegada ao Sul e, depois, à posse em Brasília. A 1.º de abril de 1964 testemunhei os seus derradeiros momentos no Palácio do Planalto, aquelas horas finais em que o poder lhe fugia das mãos a cada instante, e toda tentativa de ir adiante o fazia retroceder ainda mais. 
 
Sem telefones interurbanos nem telex, os vôos comerciais suspensos, Brasília estava isolada nessa tarde, 30 horas após o início da sublevação militar em Minas. Só os boatos, carregados de invencionices de lado a lado, alimentavam o Congresso, os quartéis e a população. De pronto, soubemos que Jango viera do Rio (onde estava, ainda, a maioria dos ministérios) e fomos até o palácio – Fernando Pedreira, de O Estado de S.Paulo, Maria da Graça Dutra, do Correio Braziliense, e eu, do Última Hora. Ao entrarmos no gabinete presidencial, de pé junto aos ajudantes-de-ordens, Jango nos disse no seu estilo lacônico, mas de forma tão tranqüila que nos confundiu ainda mais naquela confusão:
– Vou instalar o governo no Rio Grande do Sul. Acabo de falar com o comandante do III Exército e viajo hoje para Porto Alegre!
E, sem pedir que saíssemos, começou a arrumar papéis e telefonar. Na sua mesa havia o único telefone da capital com linha direta ao Rio, e de lá o informaram que o general Moraes Âncora (chefe do I Exército e seu apoio) estava “sem fala, numa crise de asma”. Logo, desceu à Casa Militar, para novamente falar com o Sul pelo rádio, pois não havia comunicação telefônica.
– Temos algumas dificuldades, mas venha, presidente, pois o III Exército resistirá a seu lado! –, disse-lhe o general Ladário Telles, que um dia antes assumira o comando, mas se dispunha a garanti-lo, com todo o ministério, na capital gaúcha. Logo, falou Leonel Brizola, que já não era governador como em 1961, mas frisava que “resistiremos e venceremos como em 61”. No QG em Porto Alegre, o chefe do serviço de rádio, major Álcio, gravava os diálogos. Mas não por zelo: em seguida, informava tudo ao seu pai, o general Costa e Silva, no Rio, que horas depois se instalou no prédio vazio do Ministério da Guerra e assumiu o comando do Exército.
João Goulart era ainda presidente da República, mas só quando o vimos arrumando papéis percebemos que ele viera do Rio em retirada. Não sabíamos que, lá, seu ex-ministro San Tiago Dantas e Juscelino Kubitschek o haviam informado que os Estados Unidos se dispunham a reconhecer o governo paralelo que os sublevados de Minas iam formar e, até, interviriam militarmente, se necessário. Antes, Jango havia rejeitado a proposta do general Amaury Kruel, chefe do Exército em São Paulo, de “romper publicamente” com o movimento sindical e fazer “uma declaração anticomunista”, além de punir os marinheiros revoltosos, como lhe sugeriu também Juscelino.
– Se fizer isto demonstro medo e, com medo, não se governa o País!” –, respondeu Jango, sublinhando ainda a Kruel, seu compadre: “Tu sabes muito bem que eu não sou comunista!”
Não era o momento, porém, para exibir curriculum político. Naqueles tempos de guerra fria, em que comunismo e anticomunismo dividiam o mundo e separavam amizades ou amores, para os conservadores e anticomunistas Jango era um “pró-comunista” por pregar a reforma agrária, ou pelo apoio “à autodeterminação” de Cuba. Para os comunistas, por tudo isso, o latifundiário Jango tornara-se “um aliado”. Outro pretexto ou motivo somava-se, ainda, à sublevação iniciada pelo general Mourão Filho e o governador mineiro Magalhães Pinto, a 31 de março: Jango “subvertera a hierarquia militar”, ao não punir os marinheiros amotinados dias antes, na Sexta-Feira Santa, e depois, ao se solidarizar com os sargentos numa assembléia pública no Rio.
Nada disso, porém, teria mobilizado os conservadores da classe média em apoio aberto ao golpe de Estado, se a 13 de março Jango não houvesse anunciado a nacionalização das refinarias privadas de petróleo e a desapropriação de terras para reforma agrária, no “comício da Central”, no Rio. Nesse dia, o cauteloso Jango girou à esquerda para sobrepor-se, nessa área, a Brizola e Miguel Arraes (que o criticavam como “conciliador”), mas com isso aglutinou contra si a direita, os conservadores, os tementes e os indecisos.
As horas finais de Jango foram tão rápidas que ele nem viu a mulher e os filhos em Brasília. Do palácio, telefonou a dona Maria Thereza avisando que se preparasse para viajar com as crianças a Porto Alegre “esta noite”, pois havia “problemas sérios”. Seis dias antes, o casal interrompera o feriado de Páscoa e viera urgente, do Sul a Brasília, também por “uma crise séria” – o motim dos marinheiros –, e Maria Thereza não se preocupou com a breve informação do marido. Arrumou uma malinha pequena, com pouca roupa, e avisou às crianças que iriam à fazenda, no Sul. “Oôpa, leva então o caniço pra pescar”, pediu João Vicente, de 7 anos. Denize, de 6, quis “a boneca que fala”.
O avião ia decolar da Granja do Torto (onde morava Jango) quando chegou o cabeleireiro para pentear a primeira-dama: viajou também, sem bagagem e sem saber que a carona era só de ida.
Quando Jango saiu de Brasília para Porto Alegre, à noite, noutro vôo, os comandos do Exército em São Paulo e Recife tinham aderido ao golpe, mas tudo seguia indefinido. O embaixador Lincoln Gordon, que pedira a força naval dos EUA, avisou aos sublevados que o reconhecimento de um novo governo exigia “algum tipo de legitimidade formal”, se Jango não renunciasse. E aí, o senador Auro Moura Andrade, presidente do Congresso, deu o “golpe de mão”: às 2h40 da madrugada de 2 de abril, abriu a sessão do Congresso e leu o ofício em que o chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro, comunicava que o presidente João Goulart, “para preservar de esbulho criminoso o mandato que o povo lhe conferiu, viajou para o Rio Grande do Sul, onde está à frente das tropas militares legalistas e no pleno exercício dos poderes constitucionais, com o seu ministério”. Em seguida, Auro acrescentou:
– Já que o presidente da República deixou a sede do governo, deixou a Nação acéfala numa hora grave e abandonou o governo, o Congresso deve tomar a atitude que lhe cabe. Assim sendo, declaro vaga a Presidência da República e, nos termos da Constituição, invisto no cargo o presidente da Câmara dos Deputados, sr. Ranieri Mazzilli. Está encerrada a sessão!
Sem debate ou votação, desligou os microfones e saiu para levar Mazzilli ao Palácio do Planalto. Era a vingança de Auro: em 1962 Jango o escolhera como primeiro-ministro e o Parlamento aprovou a indicação, mas no dia seguinte, ao compor o ministério, soube pelo rádio que havia “renunciado”. Ao divergir sobre os ministros, Jango divulgou a “carta-renúncia”, sem data, por ele assinada para a eventualidade de “atrito insanável” entre ambos, no futuro. Agora, 18 meses depois, Auro demitia Jango, como Jango o demitira: numa manobra perfeita. No Planalto, Mazzilli esperou quase uma hora até que, na madrugada, encontrassem um general para testemunhar a posse. Os generais da capital eram janguistas e se negavam. Por fim, apareceu o apolítico general André Fernandes, que se espantou ao ser nomeado, ali mesmo, chefe da Casa Militar.
Pouco antes, Jango chegara a Porto Alegre. No Rio, tinha se negado a ordenar o bombardeio das “posições” das tropas de Mourão na estrada, como sugeria o coronel Moreira Lima, chefe da Base Aérea de Santa Cruz. No Sul, na tarde de 2 de abril, disse que não queria “sangue nem sacrifício” e pediu que o general Ladário e Brizola desistissem de “resistência armada”. Rumou para sua fazenda em São Borja e, dia 4, chegou a Montevidéu e se asilou no Uruguai.
A queda foi rápida, mas a conspiração foi longa e começou na renúncia de Jânio Quadros, antes mesmo de Jango chegar à Presidência. O marechal Odylio Denys que, como ministro da Guerra, em 1961 tinha vetado a posse de Jango por considerá-lo “pró-comunista”, engoliu a derrota, mas a vomitou pouco a pouco: em 1963, foi o “avalista moral” dentro do Exército, do general Olympio Mourão Filho, que começou a conspirar em São Paulo, como comandante da 2.ª Região Militar.
De Mourão só se conta que iniciou a sublevação em Minas Gerais a 31 de março de 1964, mas em verdade foi muito além: foi o primeiro conspirador militar, como Júlio de Mesquita Filho e Carlos Lacerda foram os primeiros conspiradores civis. Vitoriosos, ao transformar-se a conspiração em governo, os três acabaram por desiludir-se e se opor ao rumo autoritário que desembocou no militarismo da ditadura.
Mourão tinha fama de fanfarrão e audaz. Capitão, em 1937 forjou o “Plano Cohen”, pretexto para o Estado Novo. Em 1961, já general, apoiou a posse de Goulart, “por ser constitucional”, mas em seguida passou a conspirar. No início de 1963, formou em São Paulo “um Estado-Maior civil”, dando a chefia ao general reformado Dalysio Menna Barreto, um dos chefes de operações da Revolução de 32. A tarefa principal: agitação e propaganda, por um lado, organização de grupos combatentes, por outro. Os futuros “soldados civis”, em boa parte estudantes de Direito do Mackenzie, se exercitavam nos stands de tiro do Paulistano, Pinheiros, Harmonia e outros clubes. O próprio Mourão, à paisana, uma vez por semana metia-se no meio do povo na Praça da Sé e, em grupos de 15, começava “a agitar e falar mal do governo”, como relatou em seu “diário”.
Nas comemorações do 9 de julho, em 1963, porém, os conspiradores acharam que ele enlouquecera: numa sessão solene da Assembléia Legislativa, quando um dos líderes civis de 1932, o ex-secretário de Justiça Waldemar Ferreira, disse em discurso que “se prepara um movimento comunista chefiado do palácio pelo próprio presidente da República”, o general Mourão levantou-se e berrou para os demais oficiais presentes:
– Vamos nos retirar. Não admito insultos contra o chefe das Forças Armadas, presidente João Goulart!
Pondo-se o quepe, ele e os oficiais se retiraram e se formou o tumulto. O governador Adhemar de Barros pediu que voltasse e prometeu discursar defendendo o presidente:
– Só volto depois que o governador falar! –, respondeu Mourão. E assim foi.
Adhemar fez, então, mil rapapés a Jango e Mourão voltou à mesa, mas sisudo. Ele tinha conseguido desmoralizar, de público, o demagogo e corrupto Adhemar, que estava em oposição a Jango, mas só aos muito íntimos pôde explicar a verdade do seu gesto. Tudo era farsa ou encenação. Dias antes, o secretário de Imprensa de Jango, Raul Riff, ao encontrar-se com Laurita Mourão, no Rio, tinha desabafado:
– Vamos tirar o teu pai de São Paulo, ele está em franca conspiração contra o governo!
Nesse dia, Mourão escreveu no diário, onde anotava tudo: “Fiquei bambo. Não dormi a noite toda. Isto é obra do general Zerbini, que me espiona. Tenho que me limpar com o governo.”
E “limpou-se” no 9 de Julho. O próprio Jango mandou agradecer o “gesto de lealdade”, mas ele continuou a conspirar, mesmo perdendo alguns conspiradores, aos quais não pôde explicar “a farsa da adesão”. Já não podia, porém, permanecer em São Paulo e, dois meses após, foi removido sem problemas para o comando da 4.ª Região Militar, em Juiz de Fora, o estratégico nó operacional entre Minas e o Rio.
Lá, ele estava como queria: um mineiro em Minas, próximo do Rio, governado por Lacerda. Em São Paulo, o coronel Rubens Resstel fazia a ponte com os conspiradores civis, já que os generais da ativa (a começar por Amaury Kruel, chefe do II Exército) eram ligados a Jango, enquanto Mourão se aproximava de Magalhães Pinto, governador de Minas, que até meados de 63 apoiava Jango, mas mudou de lado.
A 31 de março, Mourão sublevou-se em Juiz de Fora e marchou em direção ao Rio. No dia anterior, em Belo Horizonte, Magalhães formou um secretariado de nível ministerial na área conservadora, e pediu ao cônsul dos Estados Unidos, Herbert Okun, o apoio de Washington para o governo paralelo que “fatalmente” surgiria da rebelião. Não sabia que, desde 20 de março, a Casa Branca tinha preparado o plano “Contingency 2-61”, para deslocar a esquadra ao Brasil, no caso de “algum movimento militar contra a influência comunista no governo”. Horas depois, uma força aeronaval, capitaneada pelo porta-aviões Forrestal, navegou pelo Atlântico rumo a Santos. Era a operação “Brother Sam”.
Washington não conhecia os planos de Magalhães e Mourão, mas sabia de outros, urdidos na Escola Superior de Guerra (ESG) pelos generais Cordeiro de Farias e Castello Branco, e que o Ipes do general Golbery Couto e Silva propagava no empresariado. O “contato” era o adido militar dos EUA, coronel Vernon Walters, que no Rio teve ainda outro trabalho: impedir, meses antes, que um grupo “militar radical” matasse Jango. “Isso ia contra a lei de Deus e dos homens e, ademais, transformaria Goulart num mártir”, contou Walters em Silent Missions, suas memórias.
O golpe da ESG estava planejado para maio e, quando Mourão se sublevou, Castello pediu que desistisse “pois Jango irá esmagá-los”, contou-me Magalhães em 1967, quando chanceler no governo Costa e Silva. Mais audazes que os intelectuais da ESG, Magalhães e Mourão aproveitaram o clima criado a 25 de março com o motim dos marinheiros e decidiram agir.
– Eu tinha preparado tudo, mas a rebelião dos marinheiros me facilitou, pois convenceu os indecisos –, disse-me Mourão em 1968, já general “de pijama”, no posto consolo de presidente do Superior Tribunal Militar, e frisando sempre: “O movimento desviou-se, foi traído!”
Ele havia “intuído tudo” já na noite de 2 de abril de 1964, ao entrar ao Rio com suas tropas e acampar no Maracanã, pois Arthur da Costa e Silva – como general “mais antigo” – ocupara o Ministério da Guerra e se proclamara “comandante do Exército”.
E ao recordar-se que, meses antes, Costa e Silva tentara que Jango o nomeasse embaixador, Mourão soltou, então, a frase famosa:
– Sou uma vaca fardada!
Ainda sugeriu a Juscelino Kubitschek, de Diamantina como ele, que não votasse em Castello como presidente indicado pelo Congresso e escreveu no “diário”: “Ele vai virar ditador!”
Pouco depois, Mourão passou à reserva.

 

FLÁVIO TAVARES *
* Flávio Tavares, autor de Memórias do Esquecimento, foi o último jornalista a estar com Goulart em Brasília, na queda em 1964
 

O SONHO DE CHUANG CHOU por zuleika dos reis

 Para Francieli da Cunha
        
  Há cerca de 2300 anos, a sociedade chinesa vivia um tempo de imensa desordem política, social, econômica, moral. Nessa época e não por acaso, viveram grandes Mestres cujas obras discorriam sobre o Conhecimento e a Iluminação, com o objetivo de tornar as pessoas melhores. Um desses Mestres nos conta, entre muitas outras, a primeira parte da história de Chuang Chou. Quanto à segunda parte, contra face profana, tomei seu relato a meu encargo, a partir das informações do sobrinho coreano de Chuang, o Kim, meu amigo fiel, de alma, apesar de ou por causa das nossas insuperáveis diferenças lingüísticas.
  Chuang Chou, chinês, não aparece descrito como alto nem baixo, magro nem gordo, pobre nem rico, feio nem bonito, apenas Chuang Chou. No entanto, possuía algo que o diferenciava dos demais: vivia sonhando que era borboleta.
  Todas as noites, até o momento do nascer do Sol, ele amava como as borboletas, voava como as borboletas, comia como as borboletas e, nas horas vagas, filosofava com elas sobre o bem, o mal, a vida, a morte, Deus. Não com todas, é claro, porque a maior parte daqueles lepidópteros não se envolvia com tais questões: durante a semana trabalhava duro e a partir de sexta à noite, saía borboleteando por aí.
  Chuang Chou dormia e sonhava os sonhos de borboleta. Sonhava tanto e tanto e tanto, que já não sabia se era um chinês sonhando que era borboleta, ou uma borboleta sonhando que era chinês, dúvida que não causava sofrimento a nenhum dos dois, porque partilhavam do mesmo Conhecimento Essencial: Tudo e todos somos, todo o tempo, apenas o mesmo sonho.
  Na China contemporânea tornou-se, há cinco anos, funcionário de uma das maiores Empresas de Exportação de Pequim, no setor de Contabilidade. Cultivou, a tal ponto, a imagem de profissional assíduo, competente, criativo, que já obteve várias medalhas de Honra ao Mérito e em agosto de 2007 d.C. foi promovido a Chefe de Secção.
  Assim, Chuang Chou tem todos os motivos para se sentir perfeitamente feliz: chefe de secção em Pequim, num mundo com tantos desempregados. Ele se considera feliz embora experimentando, já ao acordar, a permanência de certos desejos esquisitos, que sempre haviam sido saciados nos recessos da noite e da madrugada. Racionalizou tais desejos, isto é, os manteve sob controle (exemplo a ser seguido por todos os homens de negócios) a fim de preservar as qualidades diurnas do funcionário-modelo, para tranqüilidade geral.
  Bem, essa tranqüilidade acabou. Na semana passada, recebi e-mail de Kim, no qual informa que a família do nosso chinês não dera, a princípio, nenhuma importância à sua síndrome de inseto voador, atribuindo-a a excesso de trabalho. Receitaram-lhe complexo vitamínico; todavia, após enorme susto, agora há grades de segurança em todas as janelas do apartamento no sexto andar. O problema é que a Empresa na qual Chuang Chou trabalha de segunda a sábado, está localizada no vigésimo – nono andar.