Arquivos Diários: 10 abril, 2008

AMANTE VIRTUAL poema de deodato menezes

 

Permita meu senhor, que me apresente:

Sou o Amante Virtual de sua esposa.

E se assim à sua caixa

venho postar esta mensagem,

não se espante que sei que

se você a teve antes,

sou eu agora que habito a sua mente

na hora em que ela vive pela rede

e você vê tv,  indiferente.

***

Mas calma!!!

Não se irrite deste jeito

porque o respeito sempre

é bom pros dentes.

Nem pense em mandar

um bomb-mail ou encerrar,

no provedor, a conta…

que eu desse iceberg sou só a ponta

de tudo o que ela sonha e não tem feito,

na hora em que ela brinca na rede

e você ronca alto, no seu leito.

***

Mas não estou aqui para humilhá-lo

nem criticar você de forma alguma.

Desejo só pedir, caro parceiro

que saia um pouco mais de casa

e leve os filhos sob sua asa.

E não fique a jogar campo minado

na hora em que ela quer entrar na rede…

eu espero ansioso, do outro lado!

***

E não me julgue assim, um salafrário.

No fim sou eu que te invejo, amigo .

Na soma dos esforços e dos ganhos,

perceba o quanto é lucrativo

se eu mantenho o fogo dela vivo,

você depois recebe o seu salário

na hora em que ela mata sua sede

e eu me recolho ao leito, solitário.

PEDESTAL por edu hoffmann

 

 

 

 

     Meu pé-de-anjo, quis orar aos pés-da-santa, fazendo um lava-pés em homenagem à sua beleza, digna de uma Cinderela procurando seu sapatinho.

    

Não quero meter os pés pelas mãos, mas por você vou até onde Judas perdeu as botas, mesmo que fosse castigado no Pé-Lourinho, por ser um pé-de-chumbo, ou por agir feito um pé-de-cana.

   

Mas a inspiração veio num pé-de-vento; quero convidá-la a dançar comigo, já que sou um pé-de-valsa. Que tal irmos num forró Pé-de-Serra? Imagino nós dançando coladinhos, ouvindo “quando eu piso em folhas secas, caídas de uma mangueira…” ou então “porquê me arrasto a seus pés.  .. do Roberto Carlos? Seria lindo !

   

Pra mim, seria como acertar na loteria do amor, me acharia um verdadeiro pé-quente.

Seja sincera, você me acha pedante? Ou um pé-de-chinelo? 

Sou um pedinte do seu carinho. Isso tem cura?  É pior que bicho-de-pé? Terei que procurar uma pédicure?

    Apenas quero tirar o pé-da-lama, entrar com o pé-direito na sua vida.

  

Amaria você, mesmo quando você for velhinha, cheia de pé-de-galinha. Imagino os dois juntinhos, na varanda, comendo pé-de-moleque.

 Quero ser moderno, não um pé-de-boi, como alguns imaginam. Trabalharei bastante, farei um pé-de-meia pra podermos curtir bem a vida.

 Não, não faço prosopopéia. Igual à uma centopéias, vou pé-ante-pé percorrer o caminho que leva ao seu coração, nem que tenha que abri-lo com um pé-de-cabra.

   

Você se apaixonaria ou me daria um pé-no-ouvido?  Se você me quiser, vestirei meu pé-de-pato e mergulharei na lagoa da sua alma, mesmo em dia de garoa, ou se caísse um pé-d’água. Faria isso, mesmo que pegasse um pé-de-atleta.

 Se você não me quiser, fique tranqüila, não partirei para pedofilia, muito menos pra pederastia.

 

Me queres? Acha que dá pé?   

 

 

 

 

 

 

HABITAR é SABER PARTIR! por danielle morreale

Me deixa oculta? Só preciso limitar a circunferência. Dá licença? Sei que posso aumentar meu raio da sua distância, só isso! Não quero ramos verdes, flores brancas nem um poema cuspido e declarado.

 

Não quero nossa insistência de um instante paladar. Preciso devorar comover e confessar as insatisfações por ouvido abaixo. Que o percurso leve até os brônquios, braços e coxas a exultação de leveza e bem-estar.

 

Que me invada os nervos, não preocupo, porque estou armada até os dentes contra todos os desamores.

 

Aprendi a ter paciência quando meus ouvidos não agüentaram esperar a chatice da febre no cérebro e no mundo passar.

 

Queria ouvir os barulhinhos bons e ruins. Agora não, fico amiúde com meus ruídos e rumores, sem querer ouvir nem admitir nada. Acolhida pela transição de tempo em era. Vivo a olhar longevo, como se minhas escolhas não fossem nada além dum único horizonte.

 

Sem apelos!

 

Esperar não é diminuir a inconseqüência, mas uma felicidade para cultivo da calma. O que espero não vai além de mim. Engrandeço o estado do espírito e sinto o sorriso despertar como fazem as pestanas pelas manhãs.

 

Aguardo mas caminho, com ou sem atos. A noite passa num toque de sino embaralhando as brisas e sonhos, soando a chegada da nova hora.  Uma noite vale o sentimento por toda história.

 

Habitar é saber partir. Em todo tempo o tempo todo. Partimos num susto, que desenvolve entre soluços, e desmembra-se numa invenção. Inventam-se mundos e fundos. Receitas e desenganos. E a gente se ajeita sem fronteira, sem medo de cair da cama.

 

É assim que vou…

 

Engaveto o passado nas estantes de labirinto, deixo perder.

 

Abro também as portas, para novas e futuras memórias apresentar-me. Acordar é bocejar o mundo, invadir a presença onde ela deve realmente estar.

 

Empurrar a sorte para os cata-ventos, isso sim é um exercício equivalente para quem se permite aventurar.

 

TRIPÉ poema de darlan cunha

 

Mera partilha de abusos e ranços,
o dia desencaminha ardores maiores
do que o salto da pulga
atrás da orelha, hoje
e a partir de hoje, só mesmo a cal
como pertinaz tempero, sim, de enterrar
amores viver.

HAICAI, algum poeta brasileiro escreveu um? pela editoria

se você tiver interesse em saber do que se trata tal indagação ou desejar acompanhar e/ou participar das opiniões de poetas, escritores e leitores, clique no link abaixo:

 

 

 

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/04/07/sobre-a-inutilidade-do-poetrix-por-marilda-confortin/

CÂNTICO NEGRO poema de josé régio/portugal

 

 

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

 

 

AVE-PALAVRA poema de altair oliveira

 
A palavra quase falava
Furtava cores da vida
Se lida, sinalizava
Asas que usava escondida
Se escrita, se descompunha
E se punha toda ostensiva
Flertando desinibida,
Expondo os vários sentidos
Somente para despertar
A voz que quer ser servida
E voar na vez de ser vida
Rindo e mostrando as vergonhas
Vibrando em festa no ouvido!!!