Arquivos Diários: 11 abril, 2008

A BELA VISTA prosa de raíssa machado

É no pôr do sol que amanheço!

Essa parte do dia que me choca, lembro que eu sou mulher, filha de meus pais e que tenho chão. É nesse meio tempo que eu fico sabendo se tenho medo, fala ou coragem para mirar aquilo que vem de dentro, de presente, e se é do inimigo. Mas abro com cuidado.

Nunca se sabe o que vem depois, tudo parece com morte, e eu peço a ele para quando eu tiver que ir, que eu pelo menos os perdoe, pois o perdão dói assim como essa palavra é para quem a gente ama. E se a gente ama muito?

Essas noites que nos fazem lembrar que seremos sozinhos no mundo. E que não existe sentimentos para escrever, a emoção é desafiadora, até no ponto da escolha autocrítica.

Aproveito para escrever nas linhas tortas, tortas porque nós nos amamos, e eu sempre espio essa palavra. Por isto a repito desesperadamente com os seus desejos.

Mas você precisa ter calma Raíssa, disse o analista; você tem que ser escritora na vida também, eu pensei; não guarde tanta raiva na vergonha de um olhar ou por um choro, nem as guarde na escrita, pois alguém pode ler isto.

Não guarde nada Raíssa, e o padre disse que você precisava se abandonar nas mãos de Deus, e isso transfigura a razão divina.

Tudo deve ser feito uma criança mesmo, com o poder de ouvir e sacar as pessoas, como a gente foi quando bem pequenos. Onde só podemos apertar os olhos e lembrar da mãe:

Parece com carro de som por causa do aniversário; mas no vazio, encontramos a felicidade também, se acontecer, eu deixo tanto de ser.

 

 

ESTUDO DO AMOR DOS BOBOS poema de jasmin druffner

no início,

com mil palavras mudas,

foi amor platôNICo.

e aos poucos,

indpendente se delas ou meu,

tornou-se INCondicional.

por letras, palavras e sussurros,

e até alguns habituais desINContros,

logo vi,

que em meio a tanta burocracia pessoal,

o amor havia se tornado INConstitucional.

e até eu, que sou quadrada,

joguei tudo para o alto

e sou feliz porque te INContrei.

mas não diga nada.

já te conheço até o último fio da alma.

diga apenas, por favor,

CIN ao meu amor!

A MALDIÇÃO conto de bárbara lia

  

 

Os versos de Alan Poe combinavam com a casa escura.

Casa de vovó. Vovó de negro. Leque de seda, as roupas impecáveis, salto alto e os cabelos de prata presos em um penteado do século XIX. A cadeira de balanço. O relógio de madeira. A estante com os livros de vovô. Uma coleção de livros de José de Alencar, Machado de Assis, o Tesouro da Juventude. Ali estava a última defensora de um país sem defensores.

Nunca mais vi alguém com a voz firme e o peito inflado se proclamando – Brasileiro!

As palavras de Camões escorriam por paredes negras e ancoravam na brasa ardente do fogão de lenha.

A Europa era a grande meretriz. Inês, a que depois de morta foi rainha… As palavras de Castro Alves, Camões, me encantavam.

Os poemas que eu ouvia na voz octogenária de vovó.

Aquela casa escura onde vivi por dois anos e assisti ao ritual das manhãs: A bacia e o jarro de louça, de um azul esmaecido, adornado de flores brancas singelas. Ela lavava o rosto com sabonete Phebo, depois passava Leite de Colônia e se vestia como para um encontro com algum poeta. Ela tinha um imenso orgulho de, na juventude, ter dançado com o príncipe dos poetas do Paraná – Emiliano Perneta.

Depois do ritual das manhãs, vovó sentava-se na mesa imensa. Na cabeceira, como uma matriarca que sempre viveu cercada de serviçais, babás e peões. Minha avó, uma lenda. Narrando lendas.

Na platéia os netos ouvindo, abismados, versos épicos ao som do relógio tétrico.

As poesias encontravam eco em minha alma. Eu via a areia do deserto, bebendo o pranto dos escravos, toda vez que ela recitava Vozes d’África. Todos debandavam. Minha mãe, irmãos. E eu queria, queria ouvir aquela estrofe, eu queria saber quem era Eloá.

Nome tão lindo Eloá…

 

Foi depois do dilúvio… Um viandante,

Negro, sombrio, pálido, arquejante,

Descia do Ararat…

E eu disse ao peregrino fulminado:

“Cam!… serás meu esposo bem-amado….

_Serei tua Eloá…”

Desde este dia o vento da desgraça

Por meus cabelos, ululando passa

O anátema cruel.

 

Aquilo me sacudia como um vento de tempestade do deserto, abalava minha alma de menina – Ser tua Eloá!

Nada soava mais lírico.

Aqueles saraus eram meus. Parte de meu segredo, pólen que caiu nas flores vivas da minha alma e germinaram depois, tão depois, que não pude premiar minha avó e meu pai com meus poemas. A minha estranha avó que era capaz de horripilar os netos com a lenda, a lenda que era nosso trauma.

 

Nosso primeiro antepassado chegou ao Brasil na caravela de Martin Afonso de Souza. Veio na comitiva de um Príncipe Mouro, procurar ouro na região central do país. Embrenharam na mata. Em uma manhã depararam com uma pequena aldeia de índios. Dizimaram a aldeia. Nosso antepassado precipitou-se em direção à índia mais velha da tribo, matou-a. Antes da morte, ela teve tempo ainda de amaldiçoá-lo.

 

A sala de paredes negras, a voz da avó, a cena diante de nós, seus netos, corações em ritmo de corcel selvagem.

 

A índia velha amaldiçoou nosso antepassado até à décima geração…

 

A voz cansada desfiava um rosário de tragédias. Irmãos mortos tão jovens. Um engenheiro na construção da estrada de ferro, o outro, assassinado. Atribuía tudo à maldição da índia.

Meus primos e eu na varanda, noites sem fim, calculando gerações. Descobrimos, para alívio geral da meninada que a maldição terminara na geração de nossos pais.

Naquela noite as estrelas de Peabiru brilharam uníssonas com a descoberta, e conseguimos adormecer em paz.

 

 

1. O conto A Maldição está no livro de relatos da infância  (inédito) “As sete casas de Mira Morena”.

2. O fragmento citado é de Castro Alves – Vozes d’África”