Arquivos Diários: 12 abril, 2008

De LABYATHA a LAGOA da CANOA passando por TACARATU – crônica de josé alexandre saraiva

                                               -uma geografia cultural do Nordeste-

 

Era para ser só uma brincadeira. Mas o “era” fez jus ao significado e ficou para trás!

 

A idéia inicial se resumia tão-somente a despretensiosa gravação de duas músicas. Homenagem surpresa a Hermeto Pascoal e a Sebastião Tapajós, amigos de casa.

 

Artur Cigano e seu filho Marcelinho do Acordeon – este de vertiginosa habilidade no dedilhar –, excepcionais músicos e parceiros desde o impulso primeiro, deram o melhor de si na concepção de arranjos para ambas as composições. Exemplificando, na música De Labyatha a Lagoa da Canoa, passando por Tacaratu, Arthur, em vôo livre, faz o ouvinte-viajante repousar em surpreendente oásis no deserto. Marcelinho, além de admirável performance nessas duas faixas, dá vigor coreográfico de acordes ciganos nas músicas Preito a Beslan – Colos Desertos (1ª versão) e na sua tradução de Olhos Negros.

 

Mais tocante ainda: o amiguinho Winícius, filho do Marcelinho, com apenas cinco anos, foi marcante incentivo à parte. Nos intervalos das gravações, e até por telefone, ele cantarolava para mim as músicas compostas para o Hermeto e o Tião.

 

Outros músicos de nomeada aderiram ao projeto embrionário da produção e, como não poderia ser diferente, surgiram novas faixas no cd. Novos amigos, novos acordes: Derinho Santos, Cesar Matoso, Fábio Hess, Vinícius Chamorro, Raymundo Rolim, Eliane Bastos, Gedaias Rangel, Maurílio Ribeiro, Marcinho Cavaco, Ricardo Cabral, Raule, Belém, Selpa, Tarzan, Tampinha, Alê Maceió, Gerson Bientinez, Zezinho do Pandeiro, Chiquinho do Nordeste, Cícero José e até o canto do uirapuru para o mais conhecido dos amazônicos, Sebastião Tapajós.

 

 

Assim, rascunhos melódicos ganharam adornos e o resultado foi gratificante.

 

Amigo, como diz o Áureo, a gente não classifica. É milagre apócrifo comprovado em vida pelo Criador. Isso, todavia, não tira a tristeza de não poder ressaltar aqui, em tão breve espaço, os valores desses músicos talentosos, alguns com experiência além-mar. O mesmo se diga da frustração por não poder contar a história de cada música do cd. Nenhuma nasceu do acaso.

 

Uma dessas histórias inspiradoras, todavia, impõe-se ser contada desde logo. A motivação, como as coisas mais tocantes da vida, foi casual. Partiu de genuínas dicas rodoviárias por mim obtidas. Poderão, quiçá, servir de explicação para o título da composição De Labyatha a Lagoa da Canoa, passando por Tacaratu (faixa 01).

 

À história.

 

Em tarde de confraternização com amigos na minha casa em Curitiba, quando tive a honra de receber a primeira visita de Hermeto Pascoal, alagoano de Lagoa da Canoa, fiz consulta, movido por curiosidade, ao bem andado acordeonista Derinho Santos, meu conterrâneo.

 

Perguntei se seria possível chegar à terra natal de Hermeto, partindo de Labyatha (o nome oficial é Panelas, mas há controvérsias), no agreste pernambucano, com escala em Tacaratu, no vale de Itaparica. Ali próximo está Jatobá, reduto de João Pernambuco.

 

Em Tacaratu nasceu Derinho, sanfoneiro arretado de bom e dado às letras, com destacada presença nos melhores estúdios de São Paulo e no meio artístico do Paraná. Reparem na faixa 2 do cd Veredas Musicais a tamanha criatividade dele ao imitar na sanfona os pulos do tamanduá. A perfeição é digna de nota.

exemplificar

Disse-lhe ter saído de Labyahta muito cedo, na adolescência, sem noção da malha rodoviária de Pernambuco.

 

Sem titubear, ele soltou esta:

 

–– Oxente, e não é não? Simples demais, homem!

 

De plano, detalhou o roteiro da viagem, em minúcias cartográficas, geográficas, históricas e culturais. E haja sanfoneiros, poetas, cantadores, literatos, riachos, sítios e estórias, inclusive do cangaço!

 

Antes, avisou: o mapa seria traçado de forma objetiva, porém sem preocupação com a lonjura do itinerário e sem deixar de apontar importantes opções no roteiro. Afinal, já tinha puxado o fole em quase todas as cidades do agreste e do sertão, conhecendo pessoalmente seus atalhos.

 

                                                           MAPA 01

 

–– Você está mais ou menos no km 115 da BR-104 – disse ele –, em pleno sopé das serras da Bica, dos Timóteos e do Boqueirão. É a fronteira da zona da mata com o agreste. Saia pela direita, sentido norte. Logo cruzará o rio Feijão correndo para a direita da rodovia. À frente, está o rio Panelas, já irmanado com o Feijão. Ele segue sedento para a esquerda, em inquietante ziguezague, tragando riachos e córregos.

 

Adiante, no Patrimônio, retiro do seu tio Izi, passará pela segunda vez o Panelas, agora serpenteando para a direita. Na seqüência, deixará, à esquerda, o povoado de Pau Ferro e, mais ao fundo, o riacho do Mel e o riachão do Sambaqüin. Em seguida, pela terceira vez, cruzará o rio da sua terra, agora passando para o lado esquerdo.

 

Ao descer a serra da Viúva, estará em Cupira – onde poderá comprar frutas-de-conde com o Zé da Pinha para comer na viagem. Não é tão longa. Prossiga. Cruzará pela quarta vez, em apenas dez quilômetros, o rio Panelas. Desta feita, ele vai caudaloso para a direita, pros lados de Catende. Naquelas bandas, alia-se ao Pirangi, depois ao Una. Juntos, vão repousar na praia de São José da Coroa Grande.

 

Em seguida – continuou –, cruzará o riachão do Veríssimo, subirá a serra Verde, descerá a serra do Saquinho e passará pelo distrito de Santa Tereza (capital do chocalho). Por aí, à  direita, está Gravatá-açu, do polêmico “padre” Coco. Cruzará, então, o rio Chata, depois o Una, futuro parceiro do Panelas, e o riacho Cantinho.

 

MAPA 02

 

Um pouco mais e deixará à direita o caminho das praias, via Palmares, onde morou o cantador cearense Santanna. Essa cidade localiza-se nas proximidades de Escada, torrão natal de Samuel Campelo, de Severino Borges e do internacionalmente festejado pintor Cícero Dias. Por ali estão também o Cabo de Manezinho Araújo (Cuma é o nome dele?É Mané Fuloriano…) e a Ipojuca do Nando Cordel (Estou de volta pro meu aconchego, trazendo na mala bastante saudade…), com sua encantadora praia do Porto de Galinhas. Em Palmares, terra de poetas, nasceram Hermilo Borba Filho (Eu não concilio. Estou em guerra.), Aníbal Bruno (Os últimos lampejos vitais de um moribundo devem ser respeitados), Claudionor e Ascenso Ferreira (Hora de comer – comer! Hora de dormir – dormir! Hora de vadiar – vadiar! Hora de trabalhar? – Pernas pro ar!  Ninguém é de ferro…).

 

MAPA 03      

 

 

Depois dessa entrada para o litoral, você já estará sob os embalos da mazurca de Agrestina, antiga Bebedouro. No passado, os almocreves ali faziam parada para comer baião-de-dois e saciar a sede em famoso barreiro.

 

Na saída de Agrestina, deixará à esquerda o acesso para Altinho e Ibirajuba. Continue na 104, agora ladeada de bonitas chácaras. Subirá a serra da Quitéria, passará por Maria Preta, sítio Macambira e Terra Vermelha. Depois da serra dos Mendes, logo chegará a um viaduto. Nesse momento, estará na entrada da cidade do maior e melhor São João do Mundo e da maior e mais famosa feira: Caruaru.

 

E foi falando: Caruaru, buliçosa Capital do Agreste, é o santuário do Mestre Vitalino, da Banda de Pífano, do Coronel Ludugero e Otrope. Esse vibrante caldeirão poético e musical é berço igualmente do maestro Rildo Hora, de Camarão, de Azulão, de Bau dos Oito Baixos, Beninho do Acordeon, de Clóvis Pereira dos Santos, de Austregésilo de Athayde, dos irmãos Condé, embaixadores do “país de Caruaru”, de Álvaro Lins, Lourival Vilanova, Aurélio de Limeira, Nelson Barbalho, dos bairros Vassoral e Petrópolis, do Alto do Moura, do morro Bom Jesus, do Mestre Osvaldo da Madeira e de Newton Thaumathurgo.

 

A Princesa do Agreste é cenário ainda dos alagoanos Ivan Bulhões, Jacinto Silva e Eliezer Setton. Nas páginas douradas de sua história, também se vê o nome do poeta Diniz Vitorino, nascido na inesgotável Paraíba de Zé do Norte, Canhoto, Zé Katimba, Sivuca, Glorinha (Fumo de rolo arreio de cangalha eu tenho pra vender, quem quer comprar….), Luiz Ramalho (Foi Deus quem fez o céu, o rancho das estrelas, fez também o seresteiro para conversar com elas…), Porfírio Costa, Zé Laurentino, Chico César, Geraldo Vandré (Caminhando e cantando e seguindo a canção…), Severo, Vó Mera e de Sua Majestade Jackson do Pandeiro, o Rei do Ritmo (Eu fui dançar um baile na casa da Gabriela. Nunca vi coisa tão boa, foi na base da chinela. O sujeito ia chegando, tirava logo o sapato, se tivesse de botina, sola grossa, bico chato, entrava pra dançar no baile da Gabriela, tirando meia e sapato calçando um par de chinela…). Estamos falando da mesma Paraíba de Zito Borborema, Flávio José, Gustavo Rabay, Marinês, Abdias, Roberta Miranda, Zé Paraíba, Vital Farias (Não se admire se um dia um beija-flor invadir a porta da sua casa, lhe der um beijo e partir…), Herbet Vianna, Elba e Zé Ramalho (Lá fora faz um tempo confortável, a vigilância cuida do normal… ).

 

Caruaru, da pensão da dona Alice, onde Hermeto Pascoal se hospedava no início da carreira, do Petrúcio Amorim (… Minha morena me beijando feito abelha e a lua, malandrinha,  pela brechinha da telha, fotografando meu cenário de amor….), de Zé Bicudo, Juarez Santiago (Na emenda, amarre a corda direito… quero ver o povo brasileiro brincando de emendar…), de Ivanildo Vila Nova, do Luiz Vieira (… No calor do teu carinho, sou menino-passarinho…; Não demores muito, não demores nada, venhas ligeirinho, sejas camarada…) e Onildo Almeida ( A feira de Caruaru faz gosto a gente ver…).

 

MAPA 04

 

 

Derinho convidou-me a uma mesa de canto e continuou esmiuçando:

 

                                                          

–– Na entrada de Caruaru, no viaduto, saia da 104 e entre na Rodovia Luiz Gonzaga (BR-232), pela esquerda. Ao fazer isso, deixará para outra oportunidade a chance de conhecer a Campina Grande de Genival Lacerda, de Amazan, da Cátia de França, de Jessié Quirino, de Zé Calixto, de Bráulio Tavares, da Ceceu ( Bate, bate, bate coração dentro desse velho peito…) e do Forró de Zé Lagoa (…Às oito horas Zé do Beco, sanfoneiro, acende o candeeiro, dá as ordens a Juvenal…).

Adiante de Caruaru e Campina Grande, está a terra do sal, o Rio Grande do Norte do folclorista Câmara Cascudo, da Ademilde Fonseca, Rainha do Choro, de Zé Praxédi, K-Ximbinho, Terezinha de Jesus, de Elino Julião, de Enok Figueiredo, Kelvis Duran, de Geraldo do Norte, de Aldair Soares, Galvão Filho, de Gilliard, de Nazareno, de Reinaldo Bessa, das dunas e do maior cajueiro do mundo.

 

Se permanecesse mais um bocadinho na 104, teria acesso, logo após Caruaru, ao Brejo da Madre de Deus, com seu sítio arqueológico e o maior teatro ao ar livre – Nova Jerusalém – no distrito Fazenda Nova. Ali, todo ano, na Semana Santa, é encenado o mundialmente consagrado Drama da Paixão de Cristo.

 

                                                           MAPA 05

 

Como estava dizendo, em Caruaru pegue a rodovia Luiz Gonzaga pela esquerda do viaduto. Pela direita, você igualmente teria acesso à mesma BR-232 caso fosse para Olinda de Nassau, do Bacalhau do Batata, do Pitombeiras, do Homem da Meia-Noite, do Elefante, do Erasto Vasconcelos, de Clidio Nigro, João Câmara, Eduin, Edna Morais, Yara Nóbrega, da Bia da Tapioca e do Alto da Sé – onde repousa o cearense Dom Hélder Câmara (É graça divina começar bem. Graça  maior persistir na caminhada certa. Mas graça das graças é não desistir nunca).

 

Essa mesma rodovia, pela direita, levaria você ao Recife, Capital do Frevo, em cujo trajeto está a serra das Russas, repleta de túneis e barracas de frutas típicas. Você passaria por Bezerros, da xilogravura do J. Borges, do Givanildo e dos papangus. Adiante está Gravatá, dos morangos, do clima ameno e da arquitetura européia. Aqui, doando um pouquinho de seu tempo, poderia sair da 232 pela direita e, como não é tão longe, visitar Bonito, do Nelson Ferreira e de belas cachoeiras. Depois de Gravatá, vem Pombos, onde todo ano tem o concurso Garota Abacaxi. Logo em seguida, está Vitória de Santo Antão, da Selma do Coco, do monte das Tabocas, de Osman Lins, dos Nordestinos do Forró e da Pitu.  Depois, mais à direita, vêm Moreno, do Vavá, e Jaboatão – Berço da Pátria.

 

   Chegaria, então, à Veneza Brasileira, dos rios Capibaribe e Beberibe, de Olegário Mariano (Num recanto de parque onde a melancolia da tarde estende um véu de saudade e de dor, uma água morta jaz, na última luz do dia, imota e triste, em seu perpétuo dissabor…), de Carneiro Leão, de Manuel Bandeira (Entra, Irene. Você não precisa pedir licença…) e de Gilberto Freyre (… o costume nos engenhos foi fazerem os meninos os estudos em casa, com o capelão. As casas-grandes tiveram quase sempre salas de aula, e muitas até cafuas para o menino vadio…).

 

Recife do paraibano Suassuna (Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa.). O ilustre filho adotivo, autor do Auto da Compadecida e A Pedra do Reino, é conterrâneo de Zé Limeira, poeta do absurdo, de Inácio de Souza Rolim, de Ricardo Anísio, de José Nêumanne, de Pedro Américo, José Américo de Almeida, Augusto dos Anjos, José Lins do Rego, Chico Pedrosa, Celso Furtado, Paulo Benevides, Jordão, Chiquinho do Nordeste, Assis Chateaubriand, Pinto do Monteiro, Pinto do Acordeon e também de Aurélio Lira.

 

Recife de Robertinho, de Carlos Pena Filho, dos mercados São José e Madalena, de Beto Hortiz, do Naná Vasconcelos, João Santiago, de Guio de Morais (Quando eu vim do sertão, seu moço, do meu Bodocó, a malota era um saco e o cadeado era um nó…). Recife, dos papafigos, de Siba, de Edgar Ferreira (Eu fui pra Limoeiro e gostei do forró de lá…), da Diná de Oliveira, de Bezerra da Silva, Luís Bandeira, Beto Brito e de José Tobias, cantor cuja voz singularmente grave, potente e afinadíssima consagrou sucessos como Marina, Só Louco, Se Eu Soubesse, Acauã, Chora Carrinho, Boi-Bumbá, e A Uma Dama Transitória.

 

Recife das pontes perenes, de Claudionor Germano, José Meneses, Raul Morais, Valdemar de Oliveira, de Bruno Garcia,de Nelson Rodrigues (É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.).

 

Recife, do Galo da Madrugada, do cartunista Péricles (criador do Amigo da Onça),de Alfredo Gama, Artur Orlando, Janduhy Finizola, de Antonio Nóbrega, Guel Arraes, Marambá, Abreu de Lima, Dulcinéia de Oliveira, Marcelo Gomes, dos irmãos Valença (O teu cabelo não nega…), Mário Moraes, de Venâncio e Corumba (A vida aqui só é ruim quando não chove no chão, mas se chover dá de tudo, fartura tem de montão…), de Siba, de Sullivan, de Lenine, de Marco Nanini, Cristovam Buarque, Novelli, André Valli, de Chico Science, de Pedro Ernesto – primeiro prefeito eleito do Rio de Janeiro – e de Antonio Maria, autor de Ninguém me Ama.

 

Infelizmente – lamentou –, sua viagem também não irá nessa direção.

 

 De Caruaru, seguirá pela 232 até São Caetano, conhecida como São Caetano da Raposa, quando pegará a 423, na direção de Garanhuns. Antes, como fazia o saudoso Mersinho, coma uma boa carne-de-sol com macaxeira, feijão-de-corda verde e manteiga do sertão. Se preferir, relaxe um pouco, saboreando tradicional coxinha com suco de cajá.

 

                                                          

Em São Caetano, você deverá deixar à direita a Luiz Gonzaga, BR considerada espinha dorsal de Pernambuco. Ela levaria você a Serra Talhada, onde nasceu Lampião (Lá vem Sabino, mais Lampião, chapéu de couro, fuzil na mão…). O nome da cidade decorre de acentuados talhos esculpidos pela Natureza em serra ali existente.

 

MAPA 06

 

Um pulinho a mais, pela direita, chegaria à Carnaíba do médico Zédantas, criador de Acauã e Forró em Caruaru (No forró de sinhá Joaninha em Caruaru, cumpade Mané Bento, só faltava tu…). São ainda de sua autoria outros clássicos do repertório nordestino, quase sempre em parceria com Gonzagão, como Xote das Meninas (Ela só quer, só pensa em namorar…De manhã cedo, já tá pintada, só vive suspirando, sonhando acordada…), Riacho do Navio (… corre pro Pajeú, o rio Pajeú vai despejar no São Francisco, o rio São Francisco vai bater no meio do mar…), A Volta da Asa Branca, Vozes da Seca, Forró de Mané Vito (Seu delegado, digo a vossa senhoria…),  Sabiá (A todo mundo eu dou psiu, psiu, psiu, perguntando por meu bem…), além dos sucessos  São João na Roça, ABC do Sertão, Vem Morena e Cintura Fina (Minha morena, venha pra cá, pra dançar xote, se deite em meu cangote e pode cochilar…).

 

Serra Talhada, de Rui Grude, de Carlinhos Nogueira, sanfoneiro pai-d’égua, também foi morada do paraibano de Sumé, Zé Marcolino, autor de Serrote Agudo e Numa Sala de Reboco (Todo tempo quanto houver pra mim é pouco, pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco…).

 

 

 MAPA 07

 

Quando estivesse ali, no sertão do Pajeú, facilmente chegaria a Afogados da Ingazeira, do valente Antonio Silvino, da atleta Yanes Marques  e de Walter dos Afogados. Depois, a São José do Egito, dos irmãos Louro, Dimas e Otacílio Batista (Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor…).

 

Não irá seguir a Rodovia Luiz Gonzaga em virtude de a opção da viagem ser pelo agreste e não pelo sertão. Uma pena. Para seu conhecimento, antes de Serra Talhada, onde também nasceram o Adelmo Arcoverde e o Batoré, este neto de cangaceiro, passaria pela musical Belo Jardim, Sanharó – nome oriundo de um cortiço de abelha negra –, e pela doce Pesqueira, de Paulo Diniz e dos índios Xukurus. Ao lado, está Poção, da renda de renascença. Após Pesqueira, passaria por Arcoverde – do doido Catrevagem, do Alto do Cruzeiro, do Cordel do Fogo Encantado, de João Silva, de Cícero José, de Rivaldo Cabral e de Lua Calixto – por Cruzeiro do Nordeste, onde foi filmado Central do Brasil, e Custódia.

 

MAPA 08

 

Depois de Serra Talhada, à direita está o acesso para São José do Monte, com sua Pedra do Reino e, à esquerda, a entrada para Mirandiba, rainha do forró, onde nasceu o Miran. Depois,  vem Salgueiro, do craque de futsal Manoel Tobias, da Terezinha do Acordeon e do Targino Gondim (Por isso, eu vou na casa dela, falar do meu amor pra ela…). Em seguida, a cidade do Trio Virgulino, Parnamirim, onde termina a 232. A essas alturas, já teria cumprido obrigatória visita a Serrita, do eterno Raimundo Jacó e da Missa do Vaqueiro. Depois de Parnamirim vem Ouricuri, com seus bambas no coco e, mais na frente, Araripina, terra do gesso e do Cacá Lopes.

 

MAPA 09

 

Em Ouricuri, deixando à esquerda o caminho da Petrolina do Geraldo Azevedo e de outros frutos preciosos, pegaria à direita rodovia batizada com o nome do hino nordestino, Asa Branca.

 

A imortal música foi composta por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Aclamado o maior compositor nacional nos idos de 1950 a 1952, Humberto é conterrâneo de José de Alencar, da Iracema dos lábios de mel, de Clóvis Beviláqua, Gustavo Barroso, Araripe Júnior, Antonio Conselheiro, dos cegos Aderaldo e Oliveira, do Padre Cícero, Patativa do Assaré (…Sem chuva na terra, descamba janero, depois fevereo, e o mesmo verão. Entonce o nortista, pensando consigo, diz isso é castigo, não chove mais não…), de Catulo de Paiva, Heráclito Graça, Seu Lunga, Lauro Maia, Zé Menezes, Geraldo Mourão, Manassés, Ednardo, Fausto Nilo, José Wilker, Fagner, Evaldo Gouveia,  Chico Anísio, Tom Cavalcanti, Renato Aragão, Belchior, Rachel de Queiroz, Amelinha, Florinda Bolkan, Silvia Helena de Alencar Felismino, Jéter Abrantes, Falcão e do Waldonys.

 

No mesmo patamar de genialidade do pernambucano Zédantas, o advogado Humberto Teixeira, cearense de Iguatu, escreveu indeléveis páginas do vastíssimo universo musical nordestino em parceria com Gonzagão ( quando oiei a terra ardendo, qual fogueira de São João, eu preguntei a Deus do céu…). É ainda da lavra de ambos: Tudo em volta é só beleza, sol de abril e a mata em flor, mas assum preto, cego dois óio, num vendo a luz, ai, canta de dor…Assum preto veve solto, mas num pode avoar…; Juazeiro, juazeiro, me arresponda por favor, juazeiro, velho amigo, onde anda meu amor…Juazeiro, não te alembra, quando o nosso amor nasceu, toda tarde à tua sombra conversava ela e eu…; Quando a lama virou pedra e mandacaru secou, quando ribaçã de sede bateu asa e voou…;  Eu vou mostrar pra vocês como se dança o baião e quem quiser aprender é favor prestar atenção. Morena chegue pra cá, bem junto ao meu coração. Agora é só me seguir, pois eu vou dançar o baião…;  Quando eu voltei lá no sertão eu quis mangar de Januário…; Se a gente lembra só por lembrar…).

 

Se você seguisse a Rodovia Asa Branca, passaria por Bodocó, da mimada Pedra Claranã, onde cintilam os primeiros raios solares. É a cidade do Flávio Leandro, do Leninho e do Ademário.

 

Lá na frente, antes da serra do Araripe, está a decantada Exu do nosso Luiz Gonzaga, Rei do Baião, o maior de todos os intérpretes das belezas e das agruras do Nordeste. Cantou e exaltou nossas raízes, a esperança e a penação do sertanejo na estiagem, as léguas tiranas (…Quando o sol tostou as foia e bebeu o riachão, fui inté o Juazeiro pra fazê minha oração…), as vaquejadas, o gibão, o chapéu de couro, as brincadeiras de roda em volta à fogueira de São João, com balão multicor subindo para o céu, o balanço da peneira e das paia do coqueiro quando o vento dá, o resfulego da sanfona no arrastapé, a pontualidade suíça do jumento ao anunciar as horas, a saudade quando é doce ou amarga feito jiló, o caboclo andando a pé no sertão de Canindé ou viajando de pau-de-arara para o Sul, até os cafezais do Paraná, levando com o sonho apenas a coragem e a cara. Viajou por todo o país (…pra ver se um dia descanso feliz…).Fez confidências no acalento da sombra do Juazeiro, amigo silencioso e acolhedor (Juazeiro, meu destino, tá ligado junto ao teu, no teu tronco tem dois nomes, ela mesma é quem escreveu…). Criou e ensinou como se dança o baião (Morena, chegue pra cá, bem junto ao meu coração, agora é só me seguir, pois eu vou dançar o baião…). Denunciou o assistencialismo no sertão e o perigo da esmola para o homem são, capaz de matar de vergonha ou viciar o cidadão. Decifrou o canto dos pássaros, o aboio dos vaqueiros e o zoar das cachoeiras.  E não deixou de enaltecer a honra ferida do caboclo (Cumpade Ludugero o caso é muito sero, seu fio Delotero deu um cheiro em minha fia. Por esse atrevimento eu fiz um juramento: ou sai o casamento ou morre toda famia…) e divulgou o alfabeto matuto (O jota é ji, o ele é lê, o esse é si,mas o erre tem nome de rê…). Tudo isso e muito mais sem perder o respeito ao velho Januário, seu pai e mestre do fole:

Quando eu voltei lá no sertão

Eu quis mangar de Januário

Com meu fole prateado

Só de baixo, cento e vinte

Botão preto bem juntinho

Como nego empareado

Mas antes de fazê bonito

De passagem por Granito

Foram logo me dizendo:

De Itaboca à Rancharia

De Salgueiro a Bodocó

Januário é o maior…

                                  

                                  

                                  

 

MAPA 10

 

 

Contudo, seu trajeto, como já esclarecido, é outro. Se a primeira etapa da viagem, com parada em Tacaratu, fosse feita ao menos por um pedacinho do sertão – hipótese perfeitamente viável –, quando estivesse em Cruzeiro do Nordeste era só pegar a estrada à esquerda, passando por Ibimirim.

 

Aí, seguiria em frente, mantendo-se à esquerda. Floresta do Navio fica no lado direito. Chegaria a Inajá, deixando à sua frente a ponte sentido Mata Grande, Alagoas. Seguiria à direita, pela Ribeira do Moxotó, em terras pernambucanas. Passaria no sítio Traíra, do velho Henrique, depois Tiririca de Zé de Beija, onde é servida boa bicada, e Olho D’água do Bruni. Lá, na venda de Saturnino Basílio, não resistiria ao cheiro das rapaduras. Ao passar o Salgadinho de Tonheiro Brito e Laje, chegaria ao meu Pindobal, alcançando em seguida a Vila de Caraibeiras, município de Tacaratu.

 

Para não complicar, voltemos ao fio da meada, vamos deixar essas sugestões de lado. Irão aparecer outras.

 

MAPA 11

 

Continue na 423, a partir de São Caetano. Pela segunda vez, cruzará o rio Una, ao passar por Cachoeirinha – paraíso do queijo, do mel de uruçu e da manteiga de garrafa. É terra do couro e do aço. Possui forte mercado de celas e arreios para cavalos, exportando para os quatro cantos do mundo.

 

Em seguida, chegará a Lajedo, terra da legendária égua Dondoca. Nascida para vencer, nunca perdeu corrida e fez estremecer o propalado acavalo Pagão. Lajedo, dos Bárbaros da Bossa, do famoso vaqueiro Cordeiro Weloso, de Heleno dos 8 Baixos, do médico mais antigo de Pernambuco, o querido dr. Dourado, de Guilhermino Paulo, avô de Marco Vinícius Vilaça, nascido em Nazaré da Mata, Naldo Costa, Wilson Weloso e do Lajeforró.

 

À sua frente, à esquerda, verá frondoso tambor. À sombra dessa centenária e opulenta árvore, o devoto Sinézio descansava com romeiros a caminho dos milagres de Santa Quitéria.

 

Após a boa de festa Jupi e a charmosa Neves (Calçado, do boi preto e patas brancas, fica à direita), está – cercada de colinas –, a Cidade das Flores, a Garanhuns de Dominguinhos, de Zé da Onça, das vaquejadas, do frio, dos cafezais do padre, dos festivais de inverno e do Castelo de João Capão.

 

Mais adiante, passará por Iati – onde poderá comer um bode assado no Maria Piroca – e Águas Belas. Em Águas Belas, há muitos anos vivem os índios Funiôs, também conhecidos como Carnijós ou Carijós. Eles se comunicam bem no português, principalmente os mais jovens.

 

MAPA 12

 

Na seqüência, vem o Capiá, depois Ouro Branco, à esquerda, com seus currais de gado. Surgirão três entroncamentos. Fique atento nesse trecho das Alagoas de Zumbi (nascido na capitania de Pernambuco), dos marechais, de Corisco, Tenório Cavalcanti, da jogadora Marta, de Jararaca, de Zagalo, Djavan (Meu bem querer é segredo, é sagrado, está sacramentado em meu coração…), Pontes de Miranda, Guimarães Passos, Lêdo Ivo, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Xameguinho do Acordeon, do Mestre Benon e do Kara Veia (Eu sou um filho sem sorte…). Primeiro é o do Carié. À direita, encontra-se Canapi e à esquerda, Santana do Ipanema. Depois, vem o trevo Leobino, com Inhapi à direita. O terceiro entroncamento é o Maria Bode. Aqui, ao empardecer, todo cuidado é pouco.

 

No Maria Bode – atenção –, entre à direita. Em seguida, no primeiro trevo – chamado Marcação –, siga à esquerda, para Pariconha, do meu amigo e parceiro musical Moreno Souza. Antes de Pariconha, tem a Várzea do Pico – onde, acredite, é proibido assoviar – e o povoado Quixabeira. Água Branca você deixa à direita.Vão surgir os sítios Figueiredo e Ouricuri dos Caboclos, depois, um rio. Esse rio deverá ser vencido obrigatoriamente. É o Moxotó.

 

Ao atravessar o Moxotó, se aprochegue na Ilha Grande, procure meu amigo sanfoneiro Dário Joaquim e saboreie um bom sarapatel. A sobremesa será de doce de mamão com coco ralado e mel de cana, acompanhado de licor de jenipapo. Afinal, já estará de volta a Paranã-Puca, onde o mar se arrebenta nos paredões de recifes de coral. É o nosso Leão do Norte, solo sagrado de Frei Joaquim do Amor Divino, o Frei Caneca, de Felipe Camarão, do abolicionista Joaquim Nabuco, de Adolfo Lamenha Lins, Paulo Freire (O autoritarismo é uma das características centrais da educação no Brasil, do primeiro grau à universidade.), de Francisco Julião, do coroné Chico Heráclito, do cearense de Araripe Miguel Arraes de Alencar (Pela cidade, se conhece o homem que trabalha, a voz de Deus é a voz do Povo, Miguel Arraes vai governar de novo), de Capiba, Luperce Miranda, Moacir Santos, Mestre Salu, Mestre Ambrósio, Quinteto Violado, Maciel Melo, Gláucio Costa, Severino Araújo, criador do choro Espinha de Bacalhau, Zé Bodega, Arlindo dos 8 Baixos, Pinga, do Maracatu da Coroa Imperial, Barbosa Lima Sobrinho, Mauro Mota, João Cabral de Melo Neto (Ao redor da vida do homem, há certas caixas de vidro, dentro das quais, como em jaula, se houve palpitar um bicho…) e Rosil Cavalcanti (Convidei a comadre Sebastiana pra cantar e xaxar lá na Paraíba…Faz força, Zé, para melhorar, o homem não vai sem trabalhar…; Cabo Tenório é o maior inspetor de quarteirão. O cabo era bamba, disposto, o danado, bem considerado no seu batalhão. Amigo do praça, do subtenente, de toda patente…).

 

Pernambuco, das Batalhas dos Guararapes, único estado brasileiro cujas dez letras do nome não se repetem, é também o torrão sagrado de Frei Damião, nascido em Bozzano, de Medeiros e Albuquerque, Laurentino Vitorino, Dantas Barreto, Aguinaldo Silva, Evanildo Bechara, José Júlio da Silva Ramos, Oliveira Lima, José Souto Maior Borges, Mário Schenberg, Lia de Itamaracá (Essa ciranda quem me deu foi Lia…), de Zumba, Sebastião, Mario Melo, Pedro Salgado, Felinto, Fenelon, Raul de Morais, Formiga, Caju e Castanha, maestro Duda, Zabé da Loca, Sebastião do Rojão, Marlos Nobre, Medeiros e Albuquerque, Odacy de Brito Silva, Luiz Queiroz, Luiz Queiroga, Odorico Tavares, Demétrio Ferreira, Peregrino da Silva, João Limoeiro, Nadia Maria, Ivan Ferraz, Assisão, Gildo Moreno, de Levino Ferreira, Fernando Lobo, Evanildo Bechara, Anastácia, Severino Januário, de Zé Gonzaga (Tartaruga deu um baile, a bicharada toda foi, o leão se embriagou e todo mundo provocou…), Accioly Neto, Múcio Leão, Hilário Jovino, Demétrio Ferreira, Silvério Pessoa, Duda da Passira, de Galego Aboiador, de Vavá Peito de Aço, Ademir de Menezes, Bodinho, Manga, Orlando Pingo de Ouro, Givanildo, Ricardo Rocha, Rivaldo, Juninho, da Arlete Sales, Patrícia França, Pedro Malta, de Zé Rico, de Reginaldo Rossi, do Chacrinha e do Pedro de Lara.

 

MAPA 13

 

 

Agora, é só seguir até a vila Caraibeiras. Aí visite sua deslumbrante feira, toda sexta. Depois, à direita, chegará ao sítio onde eu nasci, Pindobal. Você ainda não está na cidade de Tacaratu, mas muito próximo. Para chegar lá, retorne a Caraibeiras – a vila mais importante de Tacaratu. É conhecida nacionalmente pela excelência na manufatura de redes de balanço e artesanatos em geral. Indo em frente, chegará à serra do Mata Burro. Na descida dessa serra, avistará, entre outras belezas da natureza, à direita, a esplendorosa serra do Giz. Em frente, está Tacaratu, com seus mangueirais, bananais, coqueirais e cajazeiras.

 

Ainda na descida da serra do Mata Burro, ficará maravilhado com as matas do Pai João e seus sagüis travessos. Seguindo em frente, passará por Lagoa e Fonte Grande, uma mina cobiçada por multinacionais. Jorra água mineral por entre as pedras da serra do Giz.

 

Apenas uma subidinha e verá a igreja Nossa Senhora da Saúde, nossa padroeira. A cidade respira não apenas esperança e fraternidade, mas também acordes indeléveis de João Pernambuco, compostos antes mesmo de sua partida, aos 19 anos, para o Rio de Janeiro, onde foi servente na prefeitura e ferreiro em fundição.

 

João Pernambuco é o criador de Sons de Carrilhões e da melodia de Luar do Sertão (Não há,oh gente, não, luar como este do sertão…), esta em parceria com Catulo da Paixão Cearense, nascido no Maranhão do Bumba-meu-boi, do João do Vale (Carcará pega, mata e come, carcará nunca vai morrer de fome…), do Gonçalves Dias, Coelho Neto, Raimundo Correia, Artur de Azevedo, José Pereira da Graça Aranha, Odilo Costa, Josué Montello, Viriato Correia, Cláudio Fontana, Raimundo Soldado, Turíbio Santos, Zeca Baleiro, Sarney, Alcione, Zé do Maranhão, Zé de Riba, José Ribamar Barros Penha e Ferreira Gullar (Sou um homem comum, de carne e de memória, de osso e esquecimento. Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião e a vida sopra dentro de mim, pânica, feito a chama de um maçarico,e pode subitamente cessar…).

 

João Pernambuco, amigo e companheiro de pensão de Donga e Pixinguinha,  nasceu por ali, em Jatobá, próximo a Tacaratu, reduto de outros músicos respeitados, como Antonio Rêgo e Armando Rodrigues.

 

Tacaratu realiza anualmente a maior festa do sertão do São Francisco. Os festejos, em homenagem à Nossa Senhora da Saúde, se estendem por nove noites, iniciando-se no final de janeiro e terminando no dia 2 de fevereiro. Vem gente de toda banda. É como na corrida de jericos de Panelas, no 1º de maio.

 

Caso eu não esteja lá, diga, seja na rua, seja na serra do Cruzeiro, o nome Mestre Lelé Batinga, apelido do meu pai Manoel Heleno dos Santos. Todo mundo conhece todo mundo. Pergunte ainda pelo Cosme Manga Rosa, do Olho-D’água do Bruni, pelo Amarelinho, fantástico imitador de pássaros, pelo cego João Piau – nascido no sítio Umidade –, maior tocador de pé-de-bode de Tacaratu e atirador de pedras certeiras com os dedos dos pés. Procure também pelo Anchieta Dali, pelo Juarez Major, remanescente dos Caçulas do Baião, e pelo Josildo Sá. Pronto. Você estará em casa. Acaba de completar a primeira etapa da viagem. Terá direito a soneca em rede de varanda, novinha em folha, bordada e tecida por dona Ilda, mainha.

 

E quando decidir ter chegado a hora de partir para Lagoa da Canoa (não vai ser fácil querer sair de Tacaratu), passe direto – mas com as cautelas necessárias – pelo Maria Bode.

 

MAPA 14

 

Ao cruzar o Maria Bode, praticamente estará na cidade de Delmiro Gouveia. Nessa hospitaleira cidade alagoana nasceu o Nouzinho do Xaxado. Lá moram dois sobrinhos de Lampião. Qualquer aperreio, fale com um deles. Tome um cafezinho com os sanfoneiros Zequinha do Estreito e Cícero Levino e aproveite para conhecer a fabulosa usina hidrelétrica de Xingó. Para tanto, basta ir em frente. Passe pelo bairro Pedra Velha, onde desde logo fica autorizado a fazer a barba com o Zinho Barbeiro. Fale de mim pra ele, não pagará nada.

 

Bom, agora é só cruzar o entroncamento Olho D’água do Casado até chegar a Piranhas, sertão do vale do São Francisco.

 

Nessa cidade, a polícia expôs publicamente as cabeças degoladas do casal Lampião e Maria Bonita e dos demais cangaceiros mortos na chacina de Angico. Após o acontecido, seu camarada Corisco, conhecido como Diabo Louro, degolou um punhado de desafetos às margens do São Francisco. Foram diversas e sucessivas ações de furiosa vingança.

 

Em Piranhas encontra-se importante museu com a história do cangaço.

 

–– O Cânion de Xingó é nessa região? – indaguei, interrompendo o Derinho.

 

–– Exatamente! – respondeu. Está em Canindé do São Francisco, Sergipe, divisa com Alagoas e é navegável. Trata-se de fabuloso cânion alagado, com aproximadamente 70 quilômetros de extensão. Em alguns trechos chega a 170 metros de profundidade. A largura varia entre 50 e 300 metros. Seus gigantescos paredões, envoltos a esverdeadas águas do Velho Chicão, datam de mais de 60 milhões de anos. O emocionante passeio de catamarã ou escuna é lembrança para o resto da vida.

 

Prosseguiu:

 

Na volta de Piranhas, antes do Olho D’água do Casado, pegue à esquerda, no sentido Canindé do São Francisco, fazendo obrigatória visita ao complexo de Xingó. Quando estiver retornando de Xingó, seguindo sua viagem a Lagoa da Canoa, pegue à esquerda, no sentido Olho D’água do Casado. Dobre à direita e siga em frente, por São José da Tapera, depois Pão de Açúcar, recanto do seu xará Saraiva do Sax Soprano, passe pelo Olho D’água das Flores, em seguida Batalha, Folha Miúda e chegue a Arapiraca – lugar de fumo roliço de primeira e onde poderá bater animado papo com o Marcos Góis, João do Pife, Afrísio Acácio – sanfoneiro fiel ao gibão e ao chapéu de couro – e Cecílio Barbeiro, afinador e tocador de sanfona.

 

 

MAPA 15

 

Aí, pegue à direita. Logo adiante, finalmente estará na Lagoa da Canoa do menino Sinhô, hoje Hermeto Pascoal, maior novidadeiro de sons do mundo, autor de Chorinho Pra Ele, Bebê e O ovo.

 

–– E – acrescentou Derinho – quem diria! Tudo começou quando, ainda criança, aquele galeguinho  distraía os aguçados ouvidos com batidas de panelas, bules, frigideiras e caçarolas na oficina do avô – o seu Sena da Bolacha, exímio ferreiro. Sinhô, o peraltinha albino, filho do respeitado sanfoneiro Pascoal dos 8 Baixos e da dona Divina,  não conseguia esconder a compulsão para música. Habitualmente, estendia pedaços de latas em um varal para captar sons. Diante dos parcos recursos da família, valia-se da criatividade e improvisava seus próprios instrumentos. Fazia flautinhas e pifes com canudo de carrapateira, mamoeiro e jerimum. Quando seguia as veredas do roçado, em cangalha presa com rabichola a jumento manso, geralmente recebia merecido privilégio por conta da sensibilidade aos raios solares. Ficava sob árvores, ouvindo e distinguindo cantos de pássaros. E se tivesse o infortúnio de levar topada na estrada, estando descalço ou de alpercata, reagia de forma singular. Voltava para casa não só com o dedo esfolado mas também com a pedra inimiga. Era a  recordação do último som encontrado no caminho…

 

Em outras palavras, Hermeto Pascoal é prova cabal de antigo ditado, consagrado pela sabedoria popular: todo gênio já nasce feito.

 

MAPA 16

 

Muito bem! Volte de Lagoa da Canoa pelo mesmo caminho. De lá a Arapiraca é só uma légua e meia. A partir de Arapiraca, você pode retornar a Labyatha por União dos Palmares. É bem pertinho, ali pelas direitas. Se seguir esse trajeto, mais adiante dê um jeito e vá até à Palmeiras dos Índios do prefeito Graciliano Ramos, nascido em Quebrangulo, autor de Vidas Secas e criador da mais famosa cadela nordestina – Baleia. Visite também Marimbondos, do sanfoneiro Genaro. Fica tudo por aí.

 

Mas, se a opção for regressar pelo caminho da ida, a fim de rever os Funiôs e Garanhuns ou dar uma esticadinha, a partir dessa cidade, até Caetés – terra do Lula –, nesse caso, evite o Maria Bode. É sempre bom evitar o Maria Bode. Saia, então, de Arapiraca pelo caminho de Major Isidoro, em direção à BR-423 ou, mais à esquerda, por Santana do Ipanema, de sua comadre Eliane, pegando a 423 pela direita do Carié, no sentido de Garanhuns.

 

Note – ponderou o Derinho –, se você vislumbrar a possibilidade de enjôos fazendo todo esse percurso, desde a partida da sua Labyatha, pátria amada da Zefa Bozó, do Chico Pão, Sapo Choco, do Zé Piúdo, do Zé Porquinho, do Pompéia, do Anacleto, do Mandiú, do Boi Tungão, do Letâncio, do Venta Curta, do Negozé, do Quinca, do Zé Loló, Zé Anão, Zé de Sula, Zé de Preta e da Maria Cachorro, tenho outro plano.

 

MAPA 17

 

O melhor é sair de Labyatha pela rua do Xêxo, onde você nasceu, pegando à esquerda a 104, sentido sul. Após vencer, com atenção redobrada, a perigosíssima serra do Criminoso – deixando, à direita, a entrada de São Lázaro, depois o brejo de João Alves, e, à esquerda, o Timbó e a destilaria Jundiá –, coloque no bagageiro mantimentos práticos para a viagem. Adquira umas cestas de rapaduras, batidas, mel de engenho e doces de cana no Engenho Amolar de Dede Vilar. O secular engenho está logo ali, à esquerda. Nas proximidades, encontra-se a serra da Mesa. Mais recuada, quase na divisa com Quipapá e São Benedito, fica a serra do Limão, onde poderá providenciar galões da água Santa Inês, pura como Deus mandou. Faça isso.

 

Ao retornar à BR-104, tenha o máximo cuidado com os cortadores de cana. Estão, aos montes, espalhados pelo acostamento, desde as 4 da madrugada. Esses trabalhadores ganham de acordo com a produção.

 

A viagem, então, não será por Caruaru, mas por Quipapá, do Benedito da Macuca, e União dos Palmares, onde está a histórica serra da Barriga, cenário do cerco final a Zumbi. Nessa cidade, nasceu o poeta Jorge de Lima (Verás várias constelações te enviarem seus raios e se extinguirem depois. Confrontarás tua infância com a dos filhos do sol…). Passará, então, por Branquinha, Murici e São José da Laje – em cuja paróquia, dizem, há muitos anos foliões pintaram o sete em plena quarta-feira de cinzas. Não tardou e a igreja foi destruída por fulminantes raios.

 

MAPA 18

 

Ali por Messias, você sai da 104 e entra na 101, por onde chegará a Arapiraca. Daí pra frente é muito fácil.

 

Nesse caso, o ideal é ir de Labyatha a Tacaratu, passando primeiro por Lagoa da Canoa e não de Labyatha a Lagoa da Canoa, passando primeiro por Tacaratu.

 

Você pode ainda se dar ao direito – preferencialmente no primeiro trajeto proposto para a viagem, ou seja, Labyatha-Tacaratu-Lagoa da Canoa, via Caruaru –, estando em Delmiro Gouveia, de atravessar o Chicão pela magnífica ponte de Paulo Afonso, mirando lá em baixo o rio São Francisco, bem estreito e silencioso. Após, vá conhecer as comportas do complexo da Cachoeira de Paulo Afonso.

 

MAPA 19

 

Rapaz! – exclamou Derinho. Estando ali, tão perto, vá à Usina de Paulo Afonso, na Bahia de Castro Alves, de Gregório de Matos, o Boca do Inferno, Junqueira Freire, Canudos, Rui, Teixeira de Freitas, Urbano Duarte e  Ernesto Carneiro.

 

Se você ainda não foi, vá correndo à Bahia de Todos os Santos, de Jorge Amado e de Caymmi (É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar…; Dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar. Eu quero ser o primeiro pra salvar iemanjá…; O mar quando quebra na praia é bonito…; A jangada voltou só…; Eu vou pra maragangalha, eu vou…; Samba da minha terra deixa a gente mole, quando se canta todo mundo bole…;Peguei um ita no norte, pra vim pro rio morar…; Marina, morena, Marina,você se pintou…; Só louco amou como eu amei… ).

 

Bahia de Itapoã, de Gordurinha, Moraes Moreira (Lá vem o Brasil, descendo a ladeira….) , Dodô e Osmar, Pepeu Gomes, Armandinho, de Maria Bonita (Acorda Maria Bonita, levanta vai fazer o café…) , Daniela, Ivete, Carlinhos Brown, Xangai, Batatinha, Tuzé de Abreu, Otávio Mangabeira, Constâncio Alves, de João Ubaldo, Adonias Filho, Afrânio Coutinho, Afrânio Peixoto, Walter Santos, Riachão, Hermes Lima, Dias Gomes, de Aliomar Baleeiro, de xavier Marques e de Pedro Calmon.

 

Bahia de Glauber Rocha, Capinan (Ó cirandeiro, cirandeiro, ó; Era um, era dois, era cem, era o mundo chegando e ninguém…; Soy loco por ti América…), Ciro Aguiar, do vatapá e do acarajé, de Noca do Acordeon, de Pedro Sertanejo, de Waldick Soriano (Amigo, por favor leve esta carta e diga àquela ingrata como está meu coração…), Cicinho Bonfim, Quinca dos 8 Baixos, Margareth Menezes, do Raul Seixas (Ói, ói o trem, vem surgindo detrás das montanhas azuis…), de Cravo Albin, Xisto Bahia, do argentino Carybé, Elomar Figueira, do Panela, do João Gilberto, Tom Zé, do Caetano (Alguma coisa acontece no meu coração…;Cada palmeira na estrada tem uma moça recostada, uma é minha namorada e essa estrada vai dar no mar…), Bethânia, dona Canô, Gal, Gil (Olha, lá vai passando a procissão…), do Assis Valente (Vestiu uma camisa amarela e saiu por aí… ) e do Trio Nordestino (Morena bela, onde tu tava, onde tu tava, onde tava tu?…).

 

Com notáveis filhos da Bahia de Mãe Menininha do Cantuá – é preciso registrar – o piauiense para sempre louvado Torquato Neto, parido nas plagas de Mestre Paquinha, Carlos Castelo Branco, Renato Piau, do deputado Frank Aguiar e do sempre lembrado Luís Carlos Boavista do Rêgo Monteiro, o “Piauí”, encontrou seus principais parceiros musicais. É dele esta sentença inapelável: Escuta, meu chapa! Um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo, sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Quem não se arrisca, não pode berrar.

 

Não deixe de ir à Paulo Afonso dos meus amigos Dario da Sanfona, Elias Nogueira e Enok do Acordeon. Desse encontro, no mínimo vai sair animado forrobodó, com Dedé de Colimério no triângulo e Guaxinim na zabumba. Sabe onde? No posto do Fernando, ali na saída para Salvador. Leve meu abraço a Luiz Tenório de Brito e à dona Magali, pais de Luciano Magno. A cidade e sua cachoeira, como você sabe, foram imortalizadas nos versos da música de Luiz Gonzaga. A letra, de Zédantas, diz: Delmiro deu a idéia, Apolônio aproveitou, Getúlio fez o decreto e Dutra realizou… o Brasil vai, o Brasil vai…

 

Dê o obrigatório pulinho até Canindé do São Francisco, Sergipe, passando em Malhada Grande. Corte aquelas matas baianas e passe pelas caatingas sergipanas de João Ribeiro, de Tobias Barreto, de Sílvio Romero, de Gilberto Amado, de seu irmão itaporanguense Genolino Amado, Joel Silveira, Caldas Júnior, Tia Neiva, do trombonista Zé da Velha, do clarinetista Luiz Americano, do vaqueiro Josa e do músico-cangaceiro Volta Seca..

 

Volte pelo mesmo caminho, saindo da Bahia para nossas terras pela magnífica ponte.

 

Venha, então, pela 423 – rodovia por onde você veio de São Caetano até o Maria Bode. No entroncamento do Jardim Cordeiro, quebre à esquerda, atravesse o Moxotó, beirando o São Francisco, e chegue à Jatobá do João Pernambuco, gênio da música, segundo Villa-Lobos.

 

MAPA 20 

 

Coma aí um saboroso pão doce com espinhaço de coco, regado a suco de imbu.

 

Depois, ao visitar a hidrelétrica Luiz Gonzaga (Itaparica), chegará ao destino final dessa excursão extra e inesquecível: a nova cidade de Petrolândia!

 

Passará primeiro pelos vestígios da Petrolândia velha, inundada pelo Chicão. Anote aí: Petrolândia já teve o melhor conjunto de choro da região, formado, entre outros, por Coco de Zé de Aninha e Zé Neguinho. Pronto. Agora, é seguir o caminho lá de casa.

 

Para chegar, suba a serra de Petrolândia. Passando pelo Barrocão, chegará a Espinheiro e Folha Branca. A seguir, já na igreja matriz de Tacaratu, reveja a imagem de Nossa Senhora da Saúde, agradecendo com oração a proteção recebida na viagem.

 

E como você gostou desse passeio especial, faça outro, antes de voltar a Labyatha.

 

Dê uma chegadinha até a cidade natal de mamãe, em Betânia. Não se arrependerá. É pertinho, daqui pra li. Saindo de Tacaratu, fica mais ou menos a 40 léguas de carro, ou 30, a cavalo.

 

MAPA 21

 

Faça o seguinte. Pegue a rodovia sentido Inajá, terra das melancias. Em Ibimirim, deixe o caminho de Arco Verde à frente, bem como o famoso açude Poço da Cruz. Entre à esquerda, pela central sentido Floresta do Navio. No km 28, terá acesso ao lugar chamado Negrinho das Porteiras. A partir daí, 6 quilômetros adiante, já tendo passado pelo riacho de São Braz – antes de ele se abraçar com o riacho do Navio –, estará em Cacimbinhas. Em seguida, à direita, chegará a serra Branca e, por fim, a Betânia.

 

Por essas quebradas Lampião costumava refugiar-se. Até hoje a região é repleta de carreiras de cruzes, vestígios de sepulturas, além de punhais e de muitas cabos de imbuá fincados no mato. Você vai ver a cruz do fazendeiro Antonio Venâncio. Ele era contra Lampião. Foi assassinado com um rifle surdo.

 

Lá em Betânia, dirija-se ao sítio Cacimba Velha, onde nasceu dona Ilda, minha sagrada mamãe. Para tanto, seguirá por estrada de catabil até o sítio Mandacaru, povoado com grande açude.Terá à frente o sítio Jurema e, por fim, Cacimba Velha, onde deverá banhar-se imediatamente com água fresca. Em seguida, arme uma rede debaixo do juazeiro e coma saborosa coalhada escorrida. Descanse, pois não irá faltar festança, em sala de reboco ou nos arraiá. Aproveite e dance agarradinho o forró de pé de serra, ao som da sanfona, da zabumba e do triângulo. Se preferir, poderá ainda ser convidado de honra nos desafios poéticos dos cantadores de viola ou nas rodas de coco.

 

No retorno de Cacimba Velha a Tacaratu, o melhor é trocar o carro por um bom cavalo manga-larga esquipador, recebendo a torna em bodes. Na negociação, além dos bodes, deverão entrar um cachorro caçador de preá, uma rede de Caraibeiras, um rolo de fumo de Arapiraca e uma peixeira cabo de imbuá – a preferida de Lampião.

 

Siga pelo Xiquexique, cortando caatingas enfeitadas de coroas-de-frade, velame, macambira e quipá – tudo sob os cantos do galo-de-campina, da asa branca, da acauã e da seriema.

 

Se o cavalo desembestar e você cair, não vai encontrar farmácia. Se ficar machucado, procure pé de quixabeira ou de bom-nome. Rape com a sua cabo de imbuá a casca do bom-nome ou da quixabeira, arranque uma cubaca do ouricurizeiro e beba esse santo remédio com água fresca dos riachos.

 

Ao empardecer, aviste no serrado um juazeiro e arme a rede. Faça uma fogueira com gravetos de jurema preta, para espantar cobra, muriçoca e as pintadas. Se aparecer titaca, fique quieto. Esse bicho abufelado deixa qualquer cristão tonto com simples bufa. Não esqueça de colocar pedaços do fumo de Arapiraca em cima de toco de cedro. Assim, a caipora deixará você dormir em paz.

 

Se levou algum talho no corpo, faça o seguinte: corte um pé de pinhão brabo ou pinhão roxo, lasque a canela dele, tire o miolo e bote em cima do ferimento. Para não inflamar o talho, rape uma arueira, coloque dentro da cubaca com água. Se não tiver água por perto, corte as folhas do gravatá e despeje o H2O na cubaca. Se não encontrar o gravatá, não se avexe: acorde a rola e mije na cubaca. Mexa até ficar tudo vermelho e lave o local. Pronto. No outro dia, vai estar enxuto, bem sequinho.

 

Vá indo.

 

Agora, encontrará o sítio Jacaré, depois Passagem Funda, em seguida Muquém, e Tabuleiro. Prossiga. Ao chegar a Realengo, cruze a pista Ibimirim-Floresta do Navio. Logo adiante, estará na fazenda Pipipan.

 

Nesse trecho, é preciso estar com os bornais cheios de imbu, araticum, araçá, rapadura, carne de bode seca e farinha de mandioca sertaneja. Na falta de palito de dente, arranque espinhos do mandacaru. Também é bom pegar no mato um facheiro seco. Acenda o facheiro, primo do mandacaru –, principalmente se for noite, para alumiar a estrada e espantar onça. Além dos vaga-lumes piscando nas arandelas do breu, tem muita onça vermelha e do lombo preto. De dia, quando você ainda pode ver o orvalho beijando a flor, essas veredas às vezes não são tão perigosas, mas, à noite, a coisa é preta mesmo. Tem até assombração, viu?

 

E se tiver necessidade de fazer urgente visitinha reservada no mato, cuidado para não pegar folhas de urtiga e cansanção. Do contrário, os calombos na bunda irão incomodá-lo. Procure ali folha de malva-branca. É mais confortável.

 

Antes de sair de Pipipan, dê água ao cavalo. Reforce com capricho os alforjes para não faltar mantimentos na estrada. Continue. Cuidado para não enfadar muito seu alazão nos bancos de areia da baixa da Faveleira. Se relampear, corra e se abrigue no primeiro rancho. Evite ficar debaixo de pé de pau grande. Essas árvores atraem os raios.

 

No antigo Poço de Afonso, hoje Terra Rica, desarreie o cavalo e se arranche. No romper da aurora, enquanto toma café torrado no caco e pisado no pilão, com cuscuz, leite e manteiga de garrafa, dê um bornal de milho para o seu amigo e companheiro de jornada. O outro amigo, o caçador de preá, se vira. Continue. Como poderá surgir todo tipo de imprevisto, antes dessa partida se garanta com rapa de juá – a melhor pasta de dente natural.

 

Na frente, passará a serra Negra e o sítio Juazeiro dos Cândidos. Atravesse a central. À esquerda, está o hotel do Peba. Em seguida, passará por Olho D’água do Coxo, pelo sítios Caldeirão, Araticum, serra da Prensa, Imbuzeirão, serra da Samambaia e Água Preta. Este local é o preferido das codornas, codornizes, rolinhas, juritis, bacuraus e gaviões. Também tem coruja, asa branca e assum preto.

 

Preciso agora – disse Derinho – lembrar curiosa estória contada por meu avô Abílio. Aconteceu nessa serra da Samambaia.

 

Foi no lugar chamado Apertar da Hora. Em caçada implacável a Lampião, rei do cangaço, um soldado deparou com esperto cangaceiro, muito criativo e adepto de orações fortes, fortíssimas. O cabra de Lampião tinha se disfarçado em tronco de baraúna, com cupim na parte superior. Ao lado do toco, estava seu vistoso cachimbo. Percebendo a inusitada “transformação”, o macaco da volante – também ligado às mesmas crendices do cangaceiro – apenas bateu com a boca do cachimbo no tronco da baraúna, espalhando as cinzas no camuflado cangaceiro. Sorrindo, disse: “Cabra, não vou matar você, não. Mas, na próxima, chego antes do cupim, visse?” Cumpriu a palavra e foi embora.

 

Quando tiver descido a serra da Samambaia, onde há fartura de maçaranduba, araçá, pitomba, araticum e ouricuri, avistará frotas de incansáveis e obedientes jumentos com cangalhas e caçuás. Carregam ouricuri. Outros, com cambitos, levam lenha para esquentar o forno de torrar farinha.

 

Daqui a pouco estará no sítio Água Preta. E a seguir, cuidando para não esbarrar em carrapichos e unhas-de-gato (doem feito a bubônica), chegará às queimadas do meu tio Manoel Francelino Rodrigues. Depois, baixa da Quixaba, do Craveiro do Velho Cajueiro, do Zé Manezinho e de Dudinha Basílio.

 

O próximo sítio é Laje, onde poderá repousar na casa do meu avô Abílio Pedrosa – mas isso se a estridente orquestra de tem-tens deixar você dormir. Cantam a noite inteira e se escondem de dia. A sinfonia das acauãs começa de tardezinha, antes do empardecer.

 

Refeito do cansaço, é só seguir a Tacaratu, tomando, de manhã, café com bolo de mandioca, queijo de coalho assado e tapioca na casa de minha avó Tonha Batinga, em Pindobal. O caminho você já conhece. Agora pode ir de carona com o Luizinho. Deixe o cachorro com Saturnino de Abílio e o cavalo, no cercado de Antonio Cabra, avô do Luizinho.

 

Se não conseguir comprar outro carro em Tacaratu, minha tia Alaíde dará um jeito – se preciso for, até de jegue – e deixará você em Caruaru, onde encontrará seus amigos de infância Zé de Arlindo, bom fazedor de negócios, e Gerson Galvão, advogado militante.

 

Esse trajeto eu fazia com a tia Alaíde, quando menino.

 

Seja como for – prosseguiu –, redobre sempre a atenção diante da possibilidade de cruzar com animais, principalmente raposa, veado, onça, gato-do-mato, gambá, mocó, tamanduá e guará – este é doidinho por melancia. Também fique atento nos entroncamentos. À noite, o Maria Bode, repito, é o mais perigoso. Você o encontrará no mínimo duas vezes, invariavelmente.

 

Em resumo, pelo plano “a” do seu passeio (De Labyatha a Lagoa da Canoa, passando primeiro por Tacaratu, via Caruaru), quando estiver no Maria Bode, já tendo passado por Lajedo, Garanhuns e Águas Belas, deve sair desse entroncamento pela direita para ter acesso à minha cidade. Ao retornar de Tacaratu, agora indo para Lagoa da Canoa, não entre nem à esquerda nem à direita do Maria Bode, vá em frente. Mas se você fizer aquela viagem especial – até Paulo Afonso – e já tendo passado por Lagoa da Canoa, ao voltar por Tacaratu pegue o Maria Bode à esquerda.

 

No roteiro “b” da viagem (De Labyatha a Tacaratu, passando por Lagoa da Canoa, via Quipapá, sem cruzar o Chicão até Paulo Afonso), quando estiver retornando da cidade de Hermeto, cruze o Maria Bode e siga direto a Tacaratu.

 

MAPA 22

 

No regresso de Tacaratu para Labyatha, conforme já explicado, é para entrar à esquerda desse entroncamento, se quiser voltar pela 423, passando de novo por Águas Belas e a Garanhuns do seu José Domingos de Moraes, filho do Mestre Chicão, onde também morou o sanfoneiro José Neto, irmão de Hermeto. Em Garanhuns, você faz opção: seguir à direita, pelos cajueiros de Canhotinho e dos engenhos de Quipapá, ou dar um pulinho até Caetés – à esquerda da rodovia. Depois, volte à 423 e chegue a Lajedo.

 

MAPA 23

 

Em Lajedo, deixe à esquerda a PE-180, no sentido de São Bento do Una – do Alceu Valença (Meu coração tá batendo, como quem diz não tem jeito…) e da corrida de galinhas – e de Belo Jardim, do rio Bituri, maior fabricante de jabá no passado, onde tem água boa e muita mariola. Entre à direita na PE-170 e vá até o entroncamento da PE-158.

 

Siga nela pela esquerda, em direção à Labyatha das professoras Dulce Barros, Dedé Almeida, Natércia, Ana e Inês, do Seu Louro, do Seu Chiquinho, do João de Juvêncio, do Alcebíades, do Sebastião Buchada, do Borrachinha, do FNM da Manuela, do Gonzaga Aboiador, do Cuscuz, do Alcebíades, do Genário, do Gordinho, do Marco de Antonino, do Farrista, do Luiz Manoel, do Leiteiro, do Zezito, do Côca, do Godofredo, do Zé do Ovo, do Etevaldo, do Beto, do Lula, do Naia, do Davi Alfaiate, do Moacir Tabaqueiro, do Reinaldo, do Zé e Luiz de Almeida, do Zé Maria, do Mané Sebastião e Mané Buchudo, do Dega, do Seu Outô, do Seu Martins, dos Miranda, dos Ávila, dos Vilar, do João de Ângela, da Dora, do Miguel, da Detinha, da Carma, do Cícero, da Fátima, da Risomar, do Geraldo, da Edileuza, dos Lucena, do Mané Fogueteiro e da Adalgiza.

 

Ao passar por Queimadas, o mais importante distrito da insinuante cidade de Jurema, logo ali projetada, os portais do reino encantado da centenária Banda de Música Mariano Assis, do maestro Luiz Galvão e dos acordes do Pedrinho Marcolino se abrirão, em meio a frondosos cajueiros, umbuzeiros e juazeiros.

 

O primeiro desses encantadores portais é a vila de Cruzes, da Quiterinha; depois, a serra D’ave, os sítios Gameleira e Farias; em seguida a Boca da Mata, de onde já poderá avistar inteirinha a serra da Bica, com a legendária casa de Antonio de Sibil logo abaixo de seu topo, no flanco esquerdo. À esquerda da Boca da Mata, terá o sítio Juá e os povoados dos Coelhos, Ema, Casados, Serpa e o Bola de Gregório Bezerra. Por ali, no povoado Girau Dantas, mate a curiosidade e visite a rua dos doidos. Mais ao fundo do Bola, à esquerda, corre o rio Chata, na divisa de Labyatha com Altinho, do olindense Jorge.

 

Nesse descortinar frenético de suas raízes, você cruzará o Contador, de Lula Mimim e Lena, e, à esquerda, a Pedra do Veado, serra da Caninana e o riacho do Mel. Cruzará, então, o rio Feijão. À frente, está o Recifinho – território dos Sinézio de Campos, do Zé Pidunga, da Ana Maria, do Paninha e do poeta Oliveira de Panelas, o Pavarotti dos Sertões (E a terra era criancinha ainda, quando eu comecei te amar…).

 

Encostadinhos ao Recifinho, estão os sítios Barroca, Sacada, Várzea do Ingá, Umbuzeiro, Feijão, Santa Luzia, Colônia e Sucavão – cercanias da Quitéria Alexandre de Souza, Levino Saraiva, Zuzu Saraiva, Neném Buia, do sanfoneiro Amâncio Saraiva e de Manoel Gonçalo Ferreira, saudoso sindicalista com nome assegurado na história das ligas camponesas. Esta região, acentuadamente íngreme, foi palco de sangrentas batalhas da Guerra dos Cabanos – liderada em Labyatha pelos irmãos Timóteos, homenageados com nome de serra. O comandante Barrinho também ficou na História da Guerra de Panelas. Heroicamente, sustentou o fogo cabano no sítio Cafundó.

 

Num tiquinho de tempo, ao passar o Caetaninho, o Lajedo de Sinhá e o Recanto de Augustuzinho, onde William comia imbu de vez, estará de volta ao Rancho Velho de Benedito Alexandre, com  cacimba de água cristalina, alimentada pelo riacho Caçula, discreto afluente do rio Feijão. Um sítio cuja doçura supera o de Raul Seixas no sertão de Piritiba. Ali seu Benedito e dona Eliza faziam o melhor queijo de manteiga do agreste. E da farofa da rapa do queijo, quem esquece!? Pense numa farofa boa! Pense!

 

Irá deleitar-se comendo pinha e jaca e chupando pitomba, imbu, cajá, caju, cambuí, cana-caiana e jabuticaba. Poderá assar no lajedo castanhas dos cajus Abelha e Durinho em banda de lata de querosene furada a prego, sobreposta a pedaços de pedra e aquecida com fogo dos gravetos de alecrim. Fará – depois de tanto viajar – a devida releitura analítica das obras de Oliveira de Panelas e de Rafael de Barros, além das memórias de Gregório Bezerra (Ouviu-se o assovio da chibata na carne de Gregório o sonhador. Ordens tiranas, capacete e cão pastor marcharam contra a enxada na saga do lavrador. Tentaram algemar o sonhos do homem de ferro e flor).

 

Poderá agora rememorar – sob as sombras dos pés de juá e de mulungu –  estórias contadas pelos antigos sobre Durino, o Justiceiro, e as façanhas de Zé Venâncio. Sozinho, Zé Venâncio enfrentou a bala toda a polícia militar do agreste pernambucano. Reagiu furiosamente a um tapa na cara desferida por policial.

 

Foi morto, segundo a boca do povo, de forma covarde nos arredores do Riacho do Mel e da Pedra do Veado – crivado de balas disparadas por todos os fuzis, por todas as metralhadoras e por todos os revólveres da armada. O corpo da indomável fera ferida virou fiapos.

 

Derinho sabia mesmo de cor a história de Zé Venâncio:

 

–– Ganhou fama ao inventar um revólver, o ZV, no tempo do Exército. Mas ficou meio desregulado da cuca, às vezes mais, às vezes menos, por não fazer girar o tambor da arma. Era arma de uma bala só – há muito por ele próprio entregue às autoridades. Brincando, Zé Venâncio costumava assustar pessoas na rua com abordagens abruptas, porém absolutamente inofensivas. Homem trabalhador e querido, mecânico excelente, pacato e ordeiro, onde estivesse recebia saudações amistosas dos populares.

 

Em tom de seriedade, com seus olhos verdes arregalados, a todos lançava  esta célebre pergunta, sempre de supetão: “RODA OU NÃO RODA?”

 

Certa feita, simplório morador, não assimilou a brincadeira. Assustadíssimo com a abordagem, apelou para inflexível soldado, com fama de durão. Naquele dia, o delegado civil Odorlito estava fora da cidade. Zé Venâncio foi preso e levou, pela primeira e última vez na vida, um tapa na venta.

 

Na mesma noite, não se sabe como, fugiu da cadeia de segurança máxima, construída no século XIX, durante a Guerra dos Cabanos.

 

 Zé Venâncio apoderou-se de várias armas e munição – inclusive do seu ZV, encontrado em baú de objetos imprestáveis. Ali mesmo, em explosivo estado de cólera, fez teste com moderno fuzil, matando o soldado plantonista. Ato contínuo, atirou no pé do preso Pedrosa, acusado de ter assassinado a machado o próprio filho. Depois, desfechou tiro certeiro no transformador geral da usina elétrica. A caixa de tensão e o poste de baraúna viraram cacos. A cidade ficou às escuras e os moradores se trancaram em suas casas.

 

Com outro disparo, acertou sem querer a queixada de inocente jumento, aniquilando-o inapelavelmente. Na escuridão, confundiu o trotar do santo animal com pisadas dos possíveis inimigos, cujo enfrentamento era inevitável a partir daquele momento.

 

Feito isso, embrenhou-se no mato.

 

A polícia militar do agreste, imediatamente mobilizada por ordem de Caruaru, assumiu o comando e iniciou a mais longa e alucinante caçada da região. Durou dias.

 

Logo ao amanhecer, no primeiro confronto, ocorrido na periferia da cidade, Zé Venâncio fuzilou a  testa de outro soldado.

 

–– A propósito – continuou Derinho –, li, no livro Diversos & Diluídos, como foram os instantes finais de Zé Venâncio, cujas pegadas teriam sido reveladas à polícia por um bodegueiro da Boca da Mata:

 

Antes do abate, o ex-armeiro do Exército ouviu repentino e uníssono engatilhar de armas de fogo.  De plano, deparou seus perseguidores refletidos na cristalina água do riacho, onde, de cócoras, matava a sede com as mãos enconchadas. Ele tinha acabado de colocar poderoso fuzil sobre uma pedra ao lado. A utilidade dessa arma, porém, agora dependia de  luta corpo-a-corpo, servindo de porrete, pois em seu pente havia apenas cápsulas deflagradas nos últimos disparos.Toda  munição fora consumida nos confrontos anteriores, ficando para trás belicoso arsenal, exceto o velho ZV.

 

Zé Venâncio encontrava-se de costas para o pelotão e assim momentaneamente permaneceu, calmo e frio.  À sua frente, a poucos metros, pequena casa de taipa com porta e janela fechadas. Ao lado, um pé de juá, em cuja copa abundante pôde ver rolinhas, galos-de-campina, casacas-de-couro baterem asas simultaneamente. Fugiram com o ruído metálico das armas dos caçadores fardados, deixando nos galhos da verdejante árvore solitário camaleão.

 

 Antes da delação, Deda Miranda, de notória reputação na cidade e única pessoa a quem Zé Venâncio talvez desse ouvidos naquele contexto, há muito procurava suas pegadas, em salvadora missão. Acompanhado de Manoel de Castro, cunhado de Zé Venâncio, Deda aventurou-se mato a fora, escalando serras e vencendo caatingas. Incumbira-se, aceitando solicitação verbal e sigilosa do delegado, de convencer o fugitivo a depor as armas e entregar-se. Todas as garantias foram asseguradas em caso de rendição.

 

Filho do juiz de Direito de Garanhuns, o delegado estava deveras sensibilizado com o crescente apelo popular em defesa de Zé Venâncio. Além disso, não escondia a insatisfação com o desenrolar dos acontecimentos. Mesmo sem o comando oficial da operação, planejou o fim da selvagem caçada. Queria a captura do foragido na forma da lei. Por outro lado, era preciso restabelecer sua autoridade.

 

 Saciada a sede, Zé Venâncio, gravemente ferido no antebraço direito, não se afobou. Levantou-se e virou-se para o pelotão, estrategicamente entrincheirado. Deu uns passos trôpegos e parou. Em pé, vestes esfrangalhadas, de peito aberto, lentamente levou a mão direita à cinta, onde estava a última arma. Era a última bala também. Claudicante, com muito esforço, sacou o seu ZV. Em seguida, sem titubear, foi mirando morosamente em região frontal do capacete de um único soldado! Fechou o olho esquerdo e ajustou com precisão os três pontos básicos da linha de mira: alça, massa e  alvo de visada. Com a mão esquerda apoiou firme o antebraço direito, obtendo sustentação e equilíbrio ao seu derradeiro contato com o gatilho do inesquecível invento.

 

Atônitos com a insólita valentia daquele cabano, já em seus últimos lampejos, os policiais se deram ao luxo de uns segundos a mais para o início da atrocidade.

 

À direita de Zé Venâncio, tremulando, tênue e distante sombra da serra da Bica, em cujo sopé morou por toda a vida, cercado de árvores, pássaros, lagartixas, roçado bem cuidado e modesto curral.

 

Nesse exato momento, menos de um quilômetro dali, o emissário Deda Miranda alcançava a coroa de uma serra, último paredão a separar eventual milagre.

 

Em outro ponto, aproximava-se discretamente uma caminhonete, com placas de Cupira. Há muito, esse veículo circulava sem rumo nas redondezas. Conduzido por amiga de Zé Venâncio, tinha seu interior tomado de capim pangola. A motorista, soube-se depois, pretendia encontrar o amigo e fugir com ele escondido no viçoso pasto.

 

A essas alturas, todos tinham feito sua parte. A armada, com a presa ferida e exausta a seus pés, apenas prolongava, por capricho, o fim sórdido e tripudiante da caçada. Afinal, a ordem era matar e não apenas prender!

 

Deda Miranda, após espinhosa jornada, trilhando rastros de loca em loca, lamentavelmente não teve um minuto a mais para acenar em direção aos contendores.

 

Pouco restava fazer. A Zé Venâncio, quase nada. Ele estava convicto disso. Exaurido e ofegante, embora furiosamente determinado, coube-lhe buscar e prender a respiração restante. Com isso, suas faces, antes de jambo, viraram colorau puro. Em seguida, valendo-se da última gota de vida, puxou com firmeza o gatilho do seu ZV. E nada mais viu…

 

Contudo, para sempre manterá os olhos cravados nos fragmentos de reluzente armadura de copa oval rodando nas profundezas de eterna escuridão; de outro ângulo, Zé Venâncio contempla, perplexo e impotente, brutal queda de agora indefeso bodegueiro, retirante da Boca da Mata. Foi fuzilado por assaltantes no Recife, para onde, dias depois, se mudaria em busca de outro ambiente…

 

Também se deliciará com as invencionices do Milton de Dudé, do Paturi e com os improvisos poéticos de Mané Bento e João de Dulce, tudo isso regado à sanfona do Zé Cassuano ou do Rafael, acompanhando Brito Lucena no forró.

 

Fiz a terceira e última pergunta ao Derinho. Quis saber sobre o destino dos bodes da torna envolvida na troca do carro em Betânia.

 

–– Esqueça, ficaram por lá mesmo – respondeu –, com meu primo Assis de Zé Rodrigues. O lucro foi garantido com a economia da quilometragem!

 

–– Agora – finalizou Derinho – me conte uma coisa. Qual o significado de Labyatha?

 

–– Significa lábio grande – respondi. Vem de uma famosa orquídea, comum nas veredas espinhosas dos brejos da minha região. Pela manhã, seu perfume, característico e raro, é irresistível. Está batizada como “Rainha do Nordeste”. Foi descoberta em 1821 pelo inglês John Lindler e catalogada por ele com o nome de um amigo, William Cattley. Usualmente, é escrita como se pronuncia (Labiata), com “i” no lugar do “y” e sem o “h” na última sílaba. Gosta muito de orvalho e altitude acima de 400m. Em Labyatha, a mais comum é a espécie alba. Tem pétalas brancas, labelo roxo e detalhes amarelos, inclusive o nectário. A Mohadja e o Lourinho dominam bem o assunto. Segundo eles, brotam naturalmente e repousam faceiras entre lajedos e cactos. O acesso é dificílimo. Mas nunca em vão.

 

–– E a serra da Bica, há alguma coisa por trás dessa venerada serra? Quais as suas lendas? – perguntou Derinho, mais curioso ainda.

 

–– Literalmente – respondi –, por detrás dela, logo à esquerda, está o sítio da tia Quinha; à direita, a serra da Boa Vista. Depois, sucessivamente, o sítio Cocão, as cidades de Lagoa dos Gatos, Catende e Rio Formoso, em cuja região localizam-se belas praias, como as de São José da Coroa Grande – parada final do rio Panelas – e Maragogi. A distância, em linha reta, é de pouco mais de 90 quilômetros.

 

Quanto às lendas, a mais corrente, segundo Brito Lucena, diz o seguinte: Quando dois guerreiros caetés se apaixonavam por uma mesma virgem, obrigavam-se a declarar esse amor abertamente. Havia uma luta de vida ou de morte e o sobrevivente viveria para todo o sempre com sua amada. Se a índia não gostasse do vencedor, atordoada, atirava-se do alto de enorme pedra. Certa vez, um covarde apaixonado, temendo a luta com um guerreiro, também enamorado da mesma virgem, não se declarou. O índio covarde tinha, porém, o poder da magia e vivia tocaiando o namoro da virgem com o guerreiro. Ao avistar o rival ajoelhado em juras de amor com a índia, transformou a virgem na exuberante serra, e o guerreiro, em um olho-d’água ajoelhado aos seus pés. 

 

E assim nasceu a música De Labyatha a Tacaratu, passando por Lagoa da Canoa, ou melhor, de Labyatha a Lagoa da Canoa, passando por Tacaratu.

 

Façamos essa viagem. Uma viagem conduzida pelos acordes da música instrumental, irrelevante se estamos na margem esquerda ou direita do caminho. Afinal, em qualquer viagem, existe um só caminho, com duas margens. Quando vamos, a da esquerda é a mesma da direita quando voltamos. A propósito, vejamos as folhas das árvores. Para elas, é indiferente o lado do vento.

 

O Beija-flor se vira…

 

 

 

 

 

 

 

Sobre a viagem De Labyatha a Lagoa da Canoa, passando por Tacaratu, Adélia Maria Wollner, da Academia Paranaense de Letras, e o maestro Waltel Branco escreveram:

 

“A forma com que os trajetos estão descritos é intensa e penetrante; faz com que o leitor viaje junto. Isso sem falar no conteúdo poético, histórico, geográfico e cultural da descrição. É um entremeado de informações que desperta a curiosidade e a vontade de conhecer a região. Parabéns Saraiva!”

 

Adélia Maria Wollner

 

“Valoriza o compositor brasileiro e resgata com muito estilo aspectos históricos da  cultura do agreste e do sertão de Pernambuco,  estado natal do amigo Saraiva. A narrativa da sua viagem a Lagoa da Canoa –  terra do meu mais que amigo e irmão Hermeto Pascoal –   constitui livro didático musical que estará sempre  em minha cabeceira…” 

 

Waltel Branco

 

                                            tela de fernando botero.

OS LIMITES DA EFICÁCIA por walmor marcellino

 

Grandeza de uns, vilipêndio de outros. Alguém se dispor a morrer por uma causa é um escândalo, especialmente pelos que nunca souberam o valor da vida (que não seja a sua) transcendida ao serviço da sociedade, na pessoa que com esta se identifica como razão última na parusia dos esperançados no sobrevém. Para tantos que não conhecem essa dimensão gloriosa, além de algum parche para atenuar sofrimento moral o gesto do bispo Cappio é uma provocação, mais do que uma instigação ética. Uma ética de compromisso.

Não sou religioso, porque a dimensão ética é conformada na sociedade humana.

Porém não só o alienado ou o pobre de espírito vitupera contra as práticas de que não é capaz, como contra os valores que não alcança; antepõe-se a estes como afronta. A sociedade é díspar, por isso dialética. E, podemos esperar, a presunção e arrogância apontando e escarnecendo a desconformidade aos seus padrões de valores de troca.

Costuma acontecer: o desencontro não das águas do Rio São Francisco na sua vazão de 3.850 m3 do pico para 1.850 m3 do fico, com alegado uso apenas de 63 m3 de “desperdício”, ou mais valia. O que está em jogo é a idéia das carências de 22 milhões de pessoas, contraposta às benevolências de um projeto de “integração e desenvolvimento do Nordeste por via franciscana”, sem tirar nem pôr, usando o Rio São Francisco como alavanca irrigadora de empresas rurais e com excedente para consumo humano. Passaram a chamar isso “projeto de redenção do semi-árido nordestino” e convocaram a esse pretexto as forças armadas para um exercício patriótico de engenharia e força.

É do sistema de poder; qualquer poder: os limites da eficácia são determinados pelas vantagens que “o conhecimento”, ou saber, dá (ou pauta!); e então os planos, projetos e programas se apresentam como falsa tautologia: vão produzir resultados (até mensuráveis ab ovo), Mas o que está submerso nessa perspectiva de agronegócios, de incremento empresarial, de “promoção humana” via negocial, de abastecimento d’ água como promoção “social” e política? O descaso a um projeto eminentemente social integrado, em que a posição e a situação dos milhões de nordestinos-brasileiros não dependeriam desses alinhamentos do capitalismo “social” do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Isso está verdadeiramente em causa e o “sapo barbudo” coaxa como príncipe encantado.

E a saparia toda fica debicando, deblaterando, enxovalhando a atitude e os gestos das lideranças sociais e dos cientistas e técnicos; e elege o bispo para objeto de ódio e remoelas, estendendo seus recalques para as pessoas de prestígio que se solidarizam com a causa e o prelado líder. Ora, Lula, deixe a demagogia, enganando seus eleitores e toda a nacionalidade com aquele cabedal que você trouxe do sindicato: um discurso operário “socializante” para as massas embevecidas em seu carisma.

O MERCADO É O NOSSO PASTOR E TUDO NOS FALTARÁ – por ramon torres

A crescente onda religiosa e mística da sociedade pós-moderna

 

Tenho tido muitas dificuldades em responder muitas perguntas ultimamente, não entendo muito bem o porquê de várias das situações vividas pela sociedade ultimamente. Uma delas é a respeito da crescente onda religiosa e mística que vem tomando conta da sociedade pós-moderna. Como isso não tem afetado a vida das pessoas e, diferente do que todas as correntes religiosas e místicas pregam, as vidas não tem sido transformadas – pelo menos a ponto de isso ser visível. Estamos cada vez mais longe uns dos outros com problemas e famílias destruídas.Vamos voltar no tempo e relembrar as profundas transformações que nos afetam hoje. Na época da renascença, descoberta das Américas, passagem da Era Medieval, feudal e entrada do capitalismo quem mandava é a Igreja. Tudo é Deus e isto é comprovadamente ruim para todos, inclusive para muitos estudiosos que chamam esse período de Idade das Trevas. Nesta época, os camponeses não compravam adubos e sim água benta para pedir que Deus abençoasse as suas terras. O místico estava presente em cada lugar, cada esquina.

As coisas começaram a mudar e de repente aparecem obras como “A criação de Adão” de Michelangelo, mostrando um homem forte e desnudo atraído a terra e um Deus velho e longe. As coisas estavam mudando.

Surgem pessoas como Halley, Copérnico, Galileu e Newton, que fazem cálculos e traçam rotas de cometas. Eles fazem proezas e descobrem que o mundo é redondo, que a Terra não é o centro do universo, que misturando certos elementos naturais se tem o adubo e que não é necessário comprar água benta e sim um adubo (o camponês continuava gastando seu dinheiro). Percebe-se que Deus não é tão fundamental. Afinal, veio a luz sobre o homem e ele não precisa de Deus. A ciência começava a avançar rapidamente, “Deus esta morto!”, “Penso logo existo”. Sim, o homem estava livre da perversa Igreja, entrou em cena o ateísmo e agnosticismo (já existiam, mas viram moda).

O que os renascentistas e iluministas não imaginavam é que o homem não conseguiria viver sem um deus. O tempo passa e mesmo na era das razões as guerras continuam, só que o homem vai se reduzindo cada vez mais. Estava lendo um livro recentemente onde o autor, Frei Beto, dá exemplos que valem a pena ser lidos:

“Hoje a palavra é Modernizar enquanto antigamente a palavra era desenvolver (alguém aí lembra de certo JK, que ia desenvolver 50 anos em cinco?), só que modernizar tira o homem do contexto. Essa palavra tem uma conotação tecnológica.”

Antigamente se falava em emprego ou vocação, agora é trabalho ou estar no mercado. Pois bem vamos entrar no objetivo do texto. Antigamente, na era das trevas, as regras eram ditadas pela Igreja e teoricamente por Deus. Fomos libertados e eis que temos um Deus ditando as coisas de novo.

O mercado é o deus moderno, sim, antigamente nosso avós liam a Bíblia para consultar as grandes crises, depois nossos pais, o serviço meteorológico e hoje somos obrigados a consultar o senhor Mercado, para saber se ele está calmo, alegre, eufórico, tenso, nervoso e por aí vai. Qualquer acontecimento somos obrigados a ouvir: “Vamos ver como o mercado reage”.

Olha só o que nosso amigo mercado nos faz hoje. Precisamos estar no mercado, tudo gira em torno dele. O mercado consumidor brasileiro é composto por uma minoria e a publicidade investe pesado em cima dessa minoria, causando o desejo da maioria e frustração por que não se pode entrar adquirir os produtos anunciados.

O mercado, o Deus da razão e do pós-modernismo, está parecendo ser muito pior do que o Deus da Idade Média porque é internacional, globalizado, move-se segundo suas próprias regras, e não segundo as necessidades humanas.

Isso gera uma tremenda crise nas pessoas. Afinal, a razão também não consegue suprir necessidade nenhuma e chegamos no nosso momento atual. Igrejas lotadas e isso prova que o ser humano não consegue viver sem algo para seguir.

Só que o que encontramos nas igrejas atualmente é uma mensagem formada para pessoas nos tempos modernos, e por incrível que pareça essa mensagem se torna idêntica ao do século XVI: pague que Deus o Abençoa…

O que será que veremos a seguir? Uma nova reforma nas igrejas em plena era da razão? Termino com uma frase do frei Beto:

“Não vivemos uma época de mudanças e sim uma mudança de época”