Arquivos Diários: 13 abril, 2008

MADRUGADA poema de manoel de andrade

Vens dos baluartes do silêncio

e de silêncio em silêncio tu caminhas

apalpando as horas

como uma esfinge acuada pela noite.

 

Véspera de todos os destinos

chegas vestida pela aragem e a penumbra

pelo farol das constelações e a figuração dos signos

pois só  os astros conhecem teus segredos

e eis porque são inconfessáveis os teus vultos

gestos sem ribalta num teatro de amantes

e de conspiradores.

 

És o remanso da criatura

o  repouso das palavras

o murmúrio dos elementos

um felino que caminha sobre a relva

um pio solitário

um latido na distância. 

 

Marchas pelo ventre da noite

na cadência inexorável do tempo

passo a passo rumo ao alvorecer

e é tão sutil tua chegada

porque caminhas na melodia mágica do silêncio

no rastro e no sigilo dos teus passos…

Uma telúrica canção és tu

um surdo cantochão

uma elegia que a luz ofuscará.

 

Teu corpo de orvalho e de enigmas

é uma vestal sagrada

aceso santuário

ungindo a luz e o movimento.

Negros são teus olhos

clareando lentamente sobre a relva

e sobre as águas.

                                                                

Colhida no noturno imenso

és imensa ao ressurgir raiada

das abissais aldeias da sombra e do mistério.

Chegas enfim para morrer na aurora palpitante

taça de luz

cântaro de fogo

arquétipo planetário da esperança

no esplendor de todo amanhecer.

 

                                                          Curitiba, abril de 2004

 

 

Extraído do  livro “Cantares”, editado por Escrituras.

 

FUGA PICTÓRICA OPUS 2002-3 poema de tonicato miranda

 

 

 

                                                         

para Luiz Alceu Beltrão Molento (Lulo)

17 de Março de 2002

 

 

 

 

Monet e Debussy se encontram no pontilhismo parisiense

Utrillo também está presente em uma sacada de Montmartre

La Mer vai se derramando em notas musicais e sais

violinos sobem e descem em vagas e vagalhões colosssais

o mar percebido é longe de Paris e também longe está destarte

dos acordes espraiando-se nesta luminosa manhã Curitibana

 

 

há uma falsa quietude no ar excessivamente quente

passa uma sirene louca agitando o ar, os ouvidos e a arte

La Mer prossegue em meio à paisagem Ondina de Monet

as vitórias régias inabaláveis colocam flores no centro, de pé

no meio de um manso lago de pinceladas à parte

onde o perfil de Debussy parece exigir ao cabelo um pente

 

 

seu ar irreverente, a postura às vezes um tanto displicente

revelam um compositor descontente com o seu tempo

igualmente como nós aqui, descontentes com o nosso tempo

La Mer, Debussy e Curitiba seguem seus ciclos lunares

fluxo e refluxo de Sol e vento elevando as ondas aos ares

à música, à cidade e até a Monet que nos dá última pincelada

 

 

La Mer, o vento e as ondas são arautos repentinos

nos trinos, nos fraseados, vão todos enovelando o ar

Monet parece não pintar tudo de uma só vez

capta do rosto apenas a luz e não o todo da tez

na construção de Debussy, a força de um mar, devagar

chega a praia com conchas e ansiedades ultramarinas.

ADEUS LÊNIN! poema de deborah o. lins de barros

 

A minha geração idolatra o Che Guevara

E depois acende outro Marlboro

Enquanto calça o All Star,

Ouvindo, triste e pacivamente, um pop-rock farofa.

 

Para a gente, Cavaleiro é coisa de Idade Média

E o Cavaleiro da Esperança, coitado,

Cheira a “Senhor dos Anéis”.

 

Católicos fazem procissão, enriquecendo – sem saber – ao Rei da Vela.

Para a gente, Clint Eastwood só é caubói no “De volta para o futuro”

E o Morgan Freemann é o eterno presidente da América.

 

Cada um tem o John Lennon que merece.

E eu vou ter que me contentar com o suicida de Seattle.

Vida longa ao ídolo morto.

 

Lênin morreu. Viva Lênin!

Agora me dá mais uma Coca-Cola.

Sou punk, viva o anarquismo. Sou comunista, estou na moda.

 

Mas que bela porcaria de geração que me foi dada…

Que acha que a Olga é a Camila Morgado

E que o Thiago Lacerda é o Garibaldi…

 

– Me dá um trago dessa pôrra,

– Não prende muito, que dá aneurisma!

Mas não vou tragar essa geração medíocre.

 

Gostaria de me revoltar, mas não tenho objetivos.

Não há mais barreiras, não há mais muros…

Tomo um gole de vodka e assisto ao Big Brother.

Lênin morreu. Adeus, Lênin!

 

JULIANA PAES E A CERVEJA por josé zokner (juca)

RUMOREJANDO

Constatação I

Quando o obcecado leu na mídia quenos primórdios da vida, havia muito sexo e nada de predadores” comentou: “Hoje em dia é completamente o revés. Ainda bem que pessoas como eu, que não são predadores, se ocupam da manutenção de que a outra parte continue em diligente vigência”.

Constatação II

Deu na mídia: “Yahoo! diz que oferta da Microsoft de US$ 44,6 bilhões subestima a empresa”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que os valores em discussão subestimam a América Latina, o Caribe, a Asia e a África pelo número de pobres que os povos desses países possuem. É muito dinheiro na mão de poucos…Como sempre…

Constatação III (Teoria da Relatividade para principiantes),

É muito melhor tomar uma cerveja gelada, oferecida pela Juliana Paes, do que, na Inglaterra, uma quente, ofertada por rainhas, princesas, príncipes ou alguém de sangue vermelho mesmo.

Constatação IV

É um pesadelo escutar, todos os dias, em muitos decibéis o carro apregoando seus sonhos…

Constatação V

Em certos setores de certos países, a corrupção é endêmica.

Constatação VI

Rico compila; pobre, copia.

Constatação VII

Jurista rico usa a expressão “Data vênia”; jurista pobre, “Salvo melhor juízo”.

Constatação VIII (Dúvida crucial).

Jurista pobre?

Constatação IX

Rico toma champanhe; pobre, escuta da polícia: “Me acompanhe”.

Constatação X

Rico ultrapassa. Apenas, ultrapassa; pobre ultrapassa dos limites.

Constatação XI

Deu na mídia: “Políticos japoneses fazem dieta para conscientizar população”. Será que os políticos brasileiros não poderiam, pelo menos, deixar de dar maus exemplos? Quem souber a resposta, por favor, cartas à redação. Obrigado.

Constatação XII

Cachorro. Além de se comunicar latindo, também o faz no idioma rabês, isto é, se expressando com o rabo.

Constatação XIII Colaboração do Amigo Alcy Xavier).

Ouvi de um cliente de um bar na Chinatown curitibana: “rico é deficiente químico, pobre é pinguço”.

Constatação XIV

Quando o convencido leu na revista Isto É as declarações da atriz Thaila Ayalla: “Eu sou viciada em sexo, e se fico uma semana sem, viro mulher-aranha. Seria bom se eu tivesse sete namorados à minha disposição”, estufou o peito, cuspiu para o lado e, do alto da sua empáfia, proferiu grndiloqüente: “Se ela me tivesse como seu namorado, ela dispensaria os outros seis almejados. Não é à-toa que eu sou como certas hipotecas: única – no caso, único –, intransferível e especial”.

Constatação XV

Quem vai pagar os prejuízos dos passageiros, do caos aéreo, com táxi, refeições, hospedagem, etc. sem falar nas perdas por não chegar a tempo para fechar negócios e coisas desse jaez? Não seria o caso, para evitar muita burocracia, que os prejuízos sejam abatidos do imposto de renda? Fica aqui a sugestão de Rumorejando.

Constatação XVI

Ganhei uma medalha de ouro

Quando a gatona me disse:

“Você é meu maior tesouro”.

Eu, modesto: “Não diga asnice”.

 

“Não é tolice o que eu falei

Tampouco é sandice

Eu sempre te amei

Mesmo com a tua estultice”.

 

Diante de tanta convicção

Mesmo sem saber o significado

Daquela nova expressão

Eu fiquei lisonjeado.

 

Quando olhei no dicionário

Que pode ser estupidez

Não achei nada extraordinário

E não foi a primeira vez…

Constatação XVII

E como poetava o obcecado, nada a ver com o outro da outra constatação acima:

“Resisto a um assédio

Quando ela não me interessa

Mas aceito quando é remédio

Na base do que vá, vamos nessa

Pra melhorar o meu já alto promédio

Mesmo que a gata não seja uma peça.

Constatação XVIII

Acho muita graça

Quando, ela, toda rebolativa,

Toda empafiada

Por mim passa

Com um ar de altiva,

Recitando Cora Coralina

A poetisa goiana tão viva,

Tão doce e tão prendada

E tão ferina,

Querendo a atenção chamar

Talvez, quem sabe, me impressionar

Sem conta se dar

Que a simplicidade

Da grande autora

Tava distante da vaidade

E sem dúvida em versejar

Uma senhora doutora.

Malemolente menina

Não esqueça

Que a arrogância,

O pedantismo,

A jactância,

O pernosticismo

Não levam a nada.

E para que ninguém te abomine

Não faça que este, digamos, assim

Escriba termine,

Como costuma sempre no fim,

Empregando a palavra “Coitada!”

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br