Arquivos Diários: 15 abril, 2008

LEMBRANÇAS poema de silvia schmidt

Quantos amores já por mim passaram!
Em quantas camas – Deus! – eu já dormi!
Em quantos braços não permaneci,
E quantos lábios (quantos!) me beijaram!

Quantas dezenas de homens conheci!
E quantos deles já por mim choraram!
De quantos braços eles se afastaram
Para viver comigo o que vivi!

 

Ando brincando com essas lembranças,
Brinco de roda como sãs crianças,
Como se nunca houvesse eu pecado.

Um dia, por certo, antes do esquecimento,
Livre de culpas, dor ou sofrimento,
Eu farei versos, rindo do passado.

SENHORES poema de sergio bitencourt

 

TOMEMOS FÔLEGO,

PARA ENCHERMOS NOSSOS CLARINS,

TUBAS,CLARINETES E TRUMPETES.

 

A VIDA É TAMBÉM,

UM “HOMEM”

EM QUE SINGULARES
SOMOS
CELULARES.

 

DELÍRIO poema de olavo bilac

Nua, mas para o amor
não cabe o pejo
Na minha a sua boca
eu comprimia.
E, em frêmitos
carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu
bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência
bruta do meu desejo
Fremente, a minha
boca obedecia,
E os seus seios,
tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar
em doce arpejo.

Em suspiros de
gozos infinitos
Disse-me ela, ainda
quase em grito:
– Mais abaixo, meu
bem! – num frenesi.

No seu ventre
pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu
bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci…

ADEUS AMOR poema de jorge barbosa filho

com uma mijada

escrevi seu nome

enquanto caminhava.

 

a lua tola lia

minha distante

caligrafia.

 

madrugada escorria

pela rua, nem lembrava

como mesmo se chamava?

O ANTICRISTO E O BRASIL por fabrício alves


“…eu sou, em grego, e não apenas em grego, o Anticristo…” – assim se autodefiniu Friedrich Nietzsche em Ecce Homo (De como a gente se torna o que a gente é), um dos mais conhecidos filósofos alemães da história, um crítico voraz de toda a espécie humana, da religião, da moral, e principalmente, dos alemães.Para Nietzsche, os Alemães arrancaram da Europa as conquistas e o sentido da última grande época, a época da Renascença, eram culpados da irracionalidade anticultural, do nacionalismo, da política caseira… criticou também Lutero por ter restabelecido a igreja, e assim, ter ajudado indiretamente a sucumbida Igreja Católica voltar com toda a força, trazendo de volta todos os seus valores morais e cristãos…

O asco de Nietzsche chegava ao extremo de, mesmo sendo filho de alemães, alegava ser judeu, apenas para se distanciar ainda mais do povo alemão, que valorizava menos suas obras literárias que os povos vizinhos. Mesmo com essa pouca influência em sua própria pátria, a maior parte da classe operária da Alemanha na época já havia lido algum livro de Nietzsche, a população tinha um nível cultural alto, destacavam-se ainda nessa época compositores, pintores e artistas respeitados em todo o mundo, como por exemplo o compositor Wagner, inicialmente um dos ídolos e posteriormente mais um objeto de críticas de Nietzsche, devido ao seu xonofobismo.

Nietzsche odiava a Alemanha.
Nietzsche nunca conheceu o Brasil.

Nietzsche provavelmente não teria conseguido reunir em um só livro todas suas críticas humanas, culturais e religiosas, caso tivesse nascido ao final do século 20, no Brasil. Faltaria espaço para descrever séculos de desvalorização da cultura, da falta de criatividade de nossos pintores, escritores, escultores, músicos, salvo meia-dúzia destes. Precisaria também de um livro especial para descrever como o brasileiro se tornou aquilo que ele realmente é: “humano, demasiado humano.”

O filósofo alemão poderia também procurar as origens dessa “Transvaloração de todos os valores” em nosso povo. Seriam os governantes os culpados? Mas não somos nós que os elegemos? Ou seria a mídia? Os veículos de comunicação através da história teriam alguma influência sobre a mente de todos nós? Ou eles apenas foram adequados a transmitir aquilo que temos capacidade de compreender?

Poderia ser ainda a falta de nacionalismo de nosso povo… Bom, se isto resolvesse algo, a Alemanha teria progredido culturalmente de uma maneira incrível durante o período do nazismo, algo que a queima de livros, a cegueira da população diante do sistema e a caça aos artistas “decadentes” não permitiram.

Onde estaria então o problema?

Nietzsche morreu após sérios problemas mentais, que o atingiram fortemente durante os seus últimos anos de vida. Talvez o “excesso” de problemas com os alemães e a sociedade da época tivesse causado isto.

Quanto tempo será que o filósofo mais crítico de toda a história sobreviveria vivendo no Brasil, e como ele aprenderia a sobreviver nessa sociedade deteriorada, violenta e aculturada?

O Brasil precisa urgentemente de um Nietzsche, não só para criticar e cobrar todas essas coisas, que já são corriqueiras, mas também para acrescentar algo realmente útil à nossa literatura, a nossa cultura e ao nosso desenvolvimento humano, nem que para isto, precise “bater” duramente em todos os pontos fracos de nosso sistema.

 

 

EFEITOS COLATERAIS DE UMA LEITURA por helena sut

 

“O homem que tenta ser bom o tempo todo está fadado à ruína entre os inúmeros outros que não são bons.”
Nicolau Maquiavel

Cedo aos conselhos do jornalista e escritor Claudio Ribeiro e me lanço à leitura do livro “As 48 leis do poder” para amadurecer minhas percepções nas relações sociais e políticas. A compreensão de algumas intrigas que cercam os ambientes cotidianos pode ser uma forma de dissipar o conflito interior marcado por silêncios e frustrações.

Apesar de já ter lido O Príncipe de Maquiavel e A arte de Prudência de Baltasar Grácian e de não me considerar tão ingênua ou “boazinha”, os ensinamentos com exemplos das leis observadas e suas interpretações do livro de Robert Greene me assombram. Um universo de desonestidades, dissimulações e ingratidões se descortina em cada mandamento ultrapassado. Manipulações desnudam a virtude como uma palavra morta, um verbete sem significado.

Infelizmente os fatos reunidos pelo autor, que sustentam as leis hostis, são reais e revelam personagens conhecidos da história desde os tempos mais remotos. Os exemplos não se limitam aos cenários políticos, expandem-se nas relações mais íntimas e regem o amor, a doação, enfim, todas as ações humanas.

Os jogos do poder estão distantes das brincadeiras comportadas dos infantes. Tantas regras norteiam os primeiros ensinamentos para depois de alguns anos se tornarem fragilidades a serem superadas num mundo de astúcia e malícia. As relações do poder não são marcadas por sentimentos nobres, mas por razões definidas que quando bem articuladas culminam no poder…

Seduzida pela curiosidade e pela coerência na organização das idéias, leio as primeiras vinte e cinco leis de uma só vez. A narrativa me alcança como uma leitora incauta entregue à ficção e me desperta para os fatos históricos transcritos com a seriedade de um manual de comportamento a ser respeitado. Perco o fôlego ao perceber a gratidão como um peso muito forte a ser suportado e a infelicidade vista como um motivo seguro de afastamento, rendo-me exausta, sem forças para prosseguir.

Não se deixar contagiar pelo fracasso alheio, não recorrer ao sentido de gratidão ou misericórdia, apelar sempre para o egoísmo do outro a fim de conseguir seus objetivos… Não há como ficar à margem observando o curso dos rios, a violência das águas devasta a orla e carrega os vitoriosos e afogados.

Desisto. Demoro a dormir, a cabeça lateja com tantos males. Será? Quando me liberto do turbilhão de maus pensamentos, o inconsciente me trai. Sonhos… Estou sozinha e tensa, aquartelada num castelo. Além da porta, ouço os passos de minha pequena filha. Os ensinamentos do livro alertam: não confie em quem conhece as suas fragilidades, os seus amigos mais próximos serão os primeiros a lhe traírem… Sinto medo, dissimulo minha presença numa ausência cruel… Paranóia. Anoitece e permaneço observando o vasto oceano num turvado horizonte. Aproximo-me do mar, mergulho na tentativa de me lavar dos maus presságios e de me libertar da culpa, mas a água está cheia de sargaços fétidos, que se fixam em meu corpo e me prendem num fundo lamacento.

Acordo assustada. Quase sinto o contato das pardas algas. Tento me desvencilhar das cobertas e derrubo o volume entreaberto na cabeceira. Um estrondo seco. Aparentemente inofensivo, o livro pode ser uma arma fatal a destruir a inocência que fortalece os poemas de amor e o olhar empático com o próximo. Sinto o vazio de me sentir desvirginada num estupro consentido.

Guardo o livro com o marcador bem no centro, como um umbigo cicatrizado, a prova de minha coragem em enfrentar os primeiros mandamentos, os vestígios de minha covardia em abandonar a leitura para não me perder num oceano corrompido sem os portos seguros dos sentimentos enraizados na gratidão, solidariedade, esperança e compaixão.