Arquivos Diários: 16 abril, 2008

O MERCADO DO CRISTIANISMO por márcio salgues

 

 

Domingo é dia de marketing e proselitismo. Só em uma avenida próxima de onde moro há doze igrejas, entre católicas e evangélicas nas suas mais diversas ramificações, eu mesmo contei. Em outra das maiores avenidas do Recife há uma quantidade ainda maior de templos cristãos.

As faixas de pedestres se tornaram num palco ao ar livre a cada sinal vermelho, onde crianças carentes que fazem malabarismos com pedaços de cabos de vassouras – as mais experientes acendem as pontas desses paus fazendo as manobras com tochas – disputam espaço com religiosos imbuídos da tarefa de propagar o cristianismo. Em vários semáforos, duas pessoas estendem faixas com versículos bíblicos ou mensagens apocalípticas diante dos carros parados, enquanto o restante do grupelho segue distribuindo folhetos entre os motoristas e pessoas às janelas dos ônibus.O que não deixa de ser curioso sob a própria ótica cristã… Enquanto uns pedem comida, outros distribuem panfletos e lançam palavras ao vento, deixando de enxergar os mais necessitados bem ali ao seu lado.

A idéia básica é que todos pregam a mesma coisa: a salvação por meio de Jesus Cristo. Mas a prática mostra justamente, que predominam, em qualquer situação, as mesmas regras do neoliberalismo e da livre concorrência de mercado – no caso, o mercado de almas e contribuintes em potencial. Para tanto, qualquer diferencial é válido a fim de maximizar os benefícios oferecidos e minimizar as deficiências. Afinal, para que tantas denominações diferentes a poucos metros de distância se todos pregam a mesma coisa e tem o mesmo objetivo teoricamente?

Em um certo ponto existem três igrejas diferentes vizinhas. O “cliente-alma perdida” passa na frente, verifica as ofertas que variam de “loja” para “loja” – da simples hóstia aos mais mirabolantes milagres – é convidado a entrar, como numa grande feira livre, e seduzido – quando não induzido – a filiar-se àquela instituição. Algo como você entrar numa loja e o vendedor tentar lhe vender o produto a todo custo. Faz lembrar também a enorme campanha que o PT tem feito em busca de novos filiados, com bonitos outdoors, onde jovens exibem seu cartãozinho plástico do partido. O PT nasceu de pessoas que sofreram a repressão militar na própria pele. Hoje ser petista é moda; O PT virou uma mais uma grife para “patricinhas” e “mauricinhos”. Outros partidos, também tentando angariar neófitos, têm dado mostras de “indignação” com o governo na TV, como se com eles a coisa fosse diferente de “tudo isso que ainda continua aí”. Mas, voltando ao assunto, na disputa por neófitos cristãos, padres e pastores mais instruídos, aliás, fazem uso de técnicas de oratória e de persuasão impressionantes.

Até o Pop Marcelo Rossi… Digo, Padre Marcelo Rossi tem tido apoio da CNBB na sua megacruzada marqueteira cinematográfica em busca dos fiéis que debandaram para outros apriscos. No cristianismo como na política, está valendo de tudo. Na política já existem tucanos vermelhos e petistas com bico de tucano. Na igreja valem de danças aeróbicas a entrevistas com entidades espirituais umbandistas como uma certa “Pomba-gira” ou o um tal de “Tranca-rua”. Por que não tem nenhuma entidade com nome de “John” ou “Hans”? Como se não bastassem as mazelas deixadas por nossa colonização escravocrata, será que até as mazelas espirituais tem que vir dos cultos afro-brasileiros?

O cristianismo se dividiu tanto que se tornou um grande emaranhado de ramificações saídas da mesma raiz, a seita judaica formada pelos seguidores de Jesus após sua morte. Todas essas ramificações surgiram da “boa intenção” de seguir fielmente os ensinamentos de Jesus. Essa ânsia fervorosa foi tal que, deixou um rastro de sangue de milhões de vidas na nossa história, e ainda hoje alguns milhares de pessoas continuam morrendo brutalmente em nome do cristianismo. Basta dar um volta pelo mundo para ver. É um alívio ver que, pelo menos no Brasil e em boa parte do Ocidente a Igreja é um movimento pop e não provoca a morte de ninguém, exceto quando surge algum louco fanático.

O mundo seria muito melhor se não houvessem surgido as tantas religiões, clamando ser portadoras da verdade, que temos hoje, e fosse regido tão somente pela razão e por uma ética universal. É lógico que isso é um delírio assim como a “Utopia” de Thomas Morus, pois o homem se diversifica culturalmente de forma constante. No livro “Deus e os homens”, Voltaire, um dos maiores expoentes do iluminismo francês, nos diz que não houve idéia melhor que pudesse por um freio aos homens a fim de julgar seus sentimentos mais ocultos, do que a idéia de um deus que pune ou recompensa a cada indivíduo conforme seus atos.

Enquanto o cristianismo brasileiro se limitar à disputa por fiéis por meio do uso das técnicas de marketing e das Leis de Mercado tudo bem. Afinal o Mercado é quem dita as regras em tudo mesmo. Todavia, um trabalho que focasse mais os problemas sociais por parte das igrejas seria bem vindo, para que os nossos indigentes tivessem um pouco mais de dignidade humana no resto de existência que lhes sobra, e chegassem no céu um pouco mais nutridos.

“Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem! ”

 

 

HÁ ÉTICA PARA A PATERNIDADE? por mônica caetano

 

 Seria a Ética uma representação do amor?

 

E se for, será uma forma singular de viver?

 

A liberdade real,existe a partir de nosso interior, possibilitando desta forma a construção de um caminho próprio, o que significa administrar nossos próprios desejos. Conseqüentemente pode-se criar a Ética sob tal fundamento, o  que acarretará, se, se preocupa com o bem comum, considerar o outro em relação à nossos desejos.

 

A Ética é o verbo, podendo existir somente na ação do sujeito.

Ela é a essência do ato, onde um ser se faz existir.

Poder-se-ia dizer então, que ela surgiu quando: “… e o verbo se fez carne…!”

Acredito que não!

Ela existiu antes que surgisse a carne, e, através dela, aquela se fez.

Surge dela então , o HOMEM!

Mas o que ele fez da Ética?

E o que faz ainda hoje?

 

Será que o homem respeita a si mesmo em nome da ética que procura instituir?

 

Para que o homem possa trazer em si a realidade ética; para que seus atos configurem uma ética, é necessário que a mudança atinja sua formação como indivíduo através da Educação em seu desenvolvimento.

 

Os modelos que hoje se apresentam, podem servir como tais, à esta prerrogativa?

 

O que proponho à uma reflexão ,é o ato de paternizar o que se cria a partir de si mesmo, ou seja, a essência de si mesmo. Não proponho discutir a questão da verdade pois, não acredito ser passível de discussão tal questão.  Caso a verdade seja outra, está também na essência do homem, pois se criou e produziu tal verdade, novamente realizou através da Paternidade.

Na busca do PAI.

 

“Ter um filho representa basicamente receber uma missão e ter uma grande oportunidade. Missão de criar um ambiente , através do amor e da estrutura necessária para que o novo ser se realize” ( SHINYASHIKI,1992)

 

“ Ser pai de uma criança é apresenta-la a si mesma e ao mundo, com carinho, atenção e respeito. ´apresentar ao convidado não só o mundo e as pessoas, mas também a si mesmo- seus sentimentos, seu jeito de ser, de agir – e depois, respeitosamente, deixa-lo escolher a melhor maneira de curtir sua viagem ao planeta.” ( SHINYASHIKI,1992)

 Mas, como os homens têm realizado tal missão até aqui?

Como estão conhecendo o mundo as crianças que até aqui chegam?

Que fundamentos têm suportado a ética da paternidade até o momento?

Que ética tem se aplicado à questão da criança no tocante à sua identificação e reconhecimento como indivíduo, a partir do momento de sua concepção?

 

Que ética social impera até aqui, possibilitando que tantas crianças sejam abandonadas e não reconhecidas em seus direitos por seus progenitores?

O que acontece com o indivíduo que ao se relacionar com o outro, esquece do que é básico para si e para o outro?

 

A maior fraqueza dos homens em seus relacionamentos tem sido a omissão, a ausência.

 

O grande desafio para o HOMEM, em seu processo de crescimento, é aprender a ver a beleza do cotidiano, o fascínio do aprofundamento, a grandeza das coisas simples e saber renovar os  relacionamentos com as pessoas que ama.

 

Mas onde tem origem esta dificuldade? O que leva à existência desta ausência congênita?

 

“As famílias temem e tratam bem aqueles que praticamente desconhecem; desrespeitam aqueles que pertencem a ela, com quem deveriam ter ligação e afeto”. (WIMER, p13, 1994).

 

A ausência do pai, tem gerado nos filhos homens, um sentimento de medo em relação às mulheres. Enquanto que a presença do pai possibilita ao filho manter uma profunda conexão com a figura masculina que ele vai formando para si. Terá no pai um modelo de felicidade que se obtém na convivência com pessoas queridas. Não sofrerá influência daquela clássica imagem de que voltar para casa é um sufoco e de que a felicidade está na rua, o que representa uma farsa.

 

“ Se cada homem se dedicar à sua própria modificação, a felicidade será uma conseqüência natural de filhos bem formados, e seremos todos uma sociedade mais equilibrada e feliz”.(IÇAMI TIBA ,p.13, in: A paternidade faz a diferença,1994).

 

Não há receitas e muito menos segredos, para exercermos a verdadeira PATERNIDADE. Ser pai é um fator de grandes mudanças em nossas vidas uma das atividades mais difíceis de ser exercida. Entretanto, a maioria o faz, quando o faz, de acordo com os modelos que tiveram. Criou-se tanta regra para se poder conviver e amar, que se negou o essencial.

 

É necessário encontrarmos os ajustes na relação pai-filho, isto é, precisamos dar mais saúde ao adulto para que ele se doe mais à criança. Se temos que pertencer, que seja então, a grupos saudáveis.

Quando se traz dentro de si a idéia do pertencer saudável, há uma identificação também com a dor do outro. Neste aspecto, o filho que cresce com a sensação de pertencer à família e a um grupo, entende a dor do pai porque não está contra ele.

Compreensão gera compreensão, sem manipulação.

Não há regras e normas que ensine o que é ser pai, mas, só o exercício desta ação pelo indivíduo possibilita tal essência. O que certamente possibilita esse exercício, sem dúvida alguma é o AMOR. Não há possibilidade daquele que ama e é amado, não realizar com sabedoria a arte de ser pai. Paternizar é um ato acima de tudo de amor. Já na criação o fez assim o Criador, mesmo que a verdade seja outra; o ato foi de Amor. 

 

Reflito assim que, na natureza humana podemos distinguir claramente duas espécies bastante diferenciadas e que são percebidas em sua essência através de seus atos: o que ama e é amado, e o que não foi amado e não conhece o amor. Novamente retorno ao início de tudo; sorte dos primeiros que foram refletidos em espelhos saudáveis, que realizam-se pelo trilhar que puderam favorecer e, lamentável a não sorte daqueles que, ainda estão na busca de si mesmos por não identificarem sua imagem devido o espelho a que tiveram acesso ser opaco e sem brilho, ofuscando assim a possibilidade de se fazerem humanos na essência da vida.

 

Mas aos que tiveram a sorte maior, é possível tentar amparar à esses que vagam na dor, com o toque e a palavra que podem fazer inscrever, embora tardiamente aquilo que a tanto buscam, o Amor.

 

Façamos da atitude Ética, a Paternidade que faltou a tantos outros, possibilitando a reflexão, em algum momento, sobre a essência da vida.

 

Fácil não é pois, não há ideal e sim real.

Mas como o real é construído através da ação dos indivíduos, é possível fazer dos paternizados no amor, a figura, e não o fundo, tentando criar um movimento tal, neste panorama, onde a figura passe a existir em maior dimensão que o fundo, até que, em algum tempo, possa-se perceber a figura em destaque, por não haver mais um fundo tão escurecido pela dor.

Eu só posso estar bem, na medida em que o outro está bem.

Estar melhor do que o mundo, não me faz bem, porque este bem é relativo e momentâneo.

O bem absoluto está ligado a uma relação integral com o outro.

 

 “ Hay hombres que luchan un dia y son buenos

    Hay otros que luchan un año y son mejores

    Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos

    Pero hay los que luchan toda la vida

    Esos son los ímprescindibles”  ( Bertold Brech)

 

                                              SOu filha de  PAI imprenscindível !!!

 

 

Mônica Caetano da Silva, Professora, Pedagoga , Mediadora e  Psicóloga

 

1964 – ENTREVISTA COM DOM PAULO EVARISTO ARNS – efeitos ainda persistem

Para o cardeal Arns, regime tornou o Estado mais esbanjador e incapaz de distribuir riquezas

O cardeal Paulo Evaristo Arns, que esteve à frente da Arquidiocese de São Paulo entre 1970 e 1998, foi uma das pessoas que mais se destacaram na denúncia e no combate às violações de direitos humanos durante a ditadura. Tornou-se uma espécie de emblema na defesa dos direitos humanos, segundo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Uma curiosidade da biografia desse frade franciscano é que em 1964 ele apoiou o golpe militar – assim como a maioria do clero brasileiro – com medo do comunismo. Após ser nomeado bispo, seria uma peça fundamental na virada da Igreja que, de aliada, passou a figurar entre os principais inimigos do regime. Nesta entrevista, o cardeal, aposentado, conta como mudou de posição e avalia que os brasileiros ainda sofrem os efeitos da ditadura, que tornou o Estado mais pesado e menos capaz de distribuir as riquezas.

Estado – A Igreja apoiou o golpe, mas depois rompeu com o regime. O senhor poderia sinalizar o momento dessa inflexão?

D. Paulo – Minha mudança ocorreu com a cassação dos antigos presidentes. Quando cassaram o Juscelino Kubitschek, o Jânio Quadros e um grupo de pessoas de importância política, embora se possa discutir seus valores, minha simpatia acabou. As pessoas eram cassadas, sem julgamento, por ordem superior, como se fosse questão administrativa. Outro fator importante: ao ser nomeado bispo-auxiliar de São Paulo, em 1966, fui trabalhar na zona norte, onde fica a maioria dos presídios. Ao visitá-los, descobri a tortura. Em 1970, num sábado à tarde, quando sabia que os delegados saíam para passear, vesti minha indumentária de cardeal e arrisquei: fui ao Dops tentar ver os presos torturados. Quando tentaram me barrar, ergui a voz, disse que era o arcebispo de São Paulo e que a Constituição me assegurava o direito de visitar os religiosos. Entrei e conheci as pessoas torturadas. Eram tantas. Saí de lá dizendo: “Não é possível conviver com um regime que tortura.”

Estado – Apesar das divergências, a Igreja e o regime sempre tentaram manter o diálogo. O senhor teve bom relacionamento com os militares?

D. Paulo – Os militares nunca fecharam totalmente a possibilidade de diálogo. Em São Paulo houve só uma exceção, o general Humberto Souza e Mello, um gordo, cujo apelido era Jumbo. Apesar de todas as minhas tentativas, ele nunca quis dialogar e certa vez chegou a pensar em me confinar na sede da arquidiocese. Mas foi desautorizado pelo ministro do Exército, Orlando Geisel. O sucessor dele, o Ednardo D’Ávila Mello, deposto da chefia do 2.º Exército pelo Ernesto Geisel, após as mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, nas mãos da polícia, foi um choque para mim. Parecia elegante e educado, mas logo descobri que não respeitava nem a ética nem a religião.

Estado – E quanto ao sucessor dele, o general Dilermando Gomes Monteiro?

D. Paulo – Ele se tornou meu amigo. Chegamos a conversar até três vezes por dia. Falávamos de tudo, abertamente. Só uma coisa ele não me concedeu: licença para visitar as câmaras de tortura, que todos sabíamos que existiam, na Rua Tutóia. Respondeu que podia até perder o cargo se atendesse ao meu pedido. Ele era uma voz discordante no governo.

Estado – Mas ele era o comandante do 2.º Exército em 1977, quando a PM, sob o comando do coronel Erasmo Dias, invadiu e depredou a PUC.

D. Paulo – O Erasmo tinha poder absoluto em São Paulo. Mandava mais que o governador Paulo Egydio.

Estado – O senhor foi submetido a algum tipo de humilhação pelas autoridades militares?

D. Paulo – Existe um protocolo, entre o governo brasileiro e o Vaticano, no qual o cardeal tem a mesma posição de um vice-presidente. Eles observaram isso até o fim. Só me lembro de uma grosseria, quando telefonei para um general e perguntei se poderia me responder. Ele perguntou: “É d. Paulo Evaristo?” Respondi que sim. Ele desligou. Também passei por um episódio desagradável com o Médici. Fui reclamar das injustiças praticadas em São Paulo e ele respondeu que eu estava defendendo bandidos e que meu lugar era na sacristia. Praticamente me expulsou da sala, quando levantou e disse “muito obrigado”. Na despedida, me desculpei por tê-lo desagradado, mas insisti que era tudo verdade.

Estado – Qual foi o pior momento que enfrentou?

D. Paulo – Lembro particularmente de três deles. O primeiro foi o assassinato, na Rua Tutóia, do estudante Alexandre Vanucchi Leme, que estudava na USP. Eles o mataram e depois disseram que havia se matado na prisão. Na celebração que fizemos em memória dele, a catedral ficou cheia de estudantes. O segundo momento foi a morte de Vladimir Herzog, da TV Cultura, que eu admirava como homem e como jornalista. Telefonei para o general Golbery, com quem eu me dava muito bem, e contei o ocorrido. Ouvi ele bater na mesa, enquanto dizia: “Isso é uma traição!” No culto ecumênico que fizemos na Sé em homenagem a Vlado, eu lembrei o mandamento “Não matarás”, dizendo que é maldito quem mancha suas mãos com o sangue de seu irmão. O terceiro momento de grande dificuldade foi a invasão da PUC.

Estado – Como recebeu a informação, dada por Elio Gaspari, de que o presidente Ernesto Geisel considerava a tortura inevitável?

D. Paulo – Fiquei surpreso. O general Golbery sempre assegurou que o Geisel não aceitava a tortura e lutava contra ela, desde o governo do Castello Branco. Agora soube que ele apoiava a tortura como forma de obter informações que não seriam conseguidas de outra maneira. Um chefe de polícia de São Paulo, chamado Bauer, já havia me dito isso certa vez e eu respondi: “Quem aceita isso, não é cristão. Trata-se de um atentado gravíssimo contra a dignidade da pessoa.”

Estado – Como vê João Goulart?

D. Paulo – Conversei várias vezes com ele. Era um homem bom, mas fraco. Não foi feito para governar. Se tivesse aceitado a idéia do parlamentarismo e nomeado um primeiro ministro forte, dando-lhe apoio, talvez tivesse salvado o País dessa transição para o regime militar.

Estado – Passados 40 anos do golpe, que balanço o senhor faz?

D. Paulo – Os militares se meteram numa coisa para a qual não estavam preparados. Se um civil tivesse assumido a Presidência, a história seria totalmente diferente. Cada militar que assumia o poder era mais duro que o outro, com exceção do Geisel, que teve de ser mais aberto, pois a revolução ameaçava explodir em sangue. Na minha opinião, os efeitos da revolução ainda não acabaram. Foram herdadas dela, entre outras coisas, as relações que hoje temos com os operários e com as forças armadas. A revolução também agravou o problema da distribuição de renda. Como disse o próprio general Médici, o Brasil ficou mais rico, mas o povo se tornou mais pobre. A revolução empobreceu o povo e o Estado, que se tornou mais esbanjador e menos capaz de distribuir as riquezas.

POR ROLDÃO ARRUDA – O ESTADO