1964 – ENTREVISTA COM DOM PAULO EVARISTO ARNS – efeitos ainda persistem

Para o cardeal Arns, regime tornou o Estado mais esbanjador e incapaz de distribuir riquezas

O cardeal Paulo Evaristo Arns, que esteve à frente da Arquidiocese de São Paulo entre 1970 e 1998, foi uma das pessoas que mais se destacaram na denúncia e no combate às violações de direitos humanos durante a ditadura. Tornou-se uma espécie de emblema na defesa dos direitos humanos, segundo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Uma curiosidade da biografia desse frade franciscano é que em 1964 ele apoiou o golpe militar – assim como a maioria do clero brasileiro – com medo do comunismo. Após ser nomeado bispo, seria uma peça fundamental na virada da Igreja que, de aliada, passou a figurar entre os principais inimigos do regime. Nesta entrevista, o cardeal, aposentado, conta como mudou de posição e avalia que os brasileiros ainda sofrem os efeitos da ditadura, que tornou o Estado mais pesado e menos capaz de distribuir as riquezas.

Estado – A Igreja apoiou o golpe, mas depois rompeu com o regime. O senhor poderia sinalizar o momento dessa inflexão?

D. Paulo – Minha mudança ocorreu com a cassação dos antigos presidentes. Quando cassaram o Juscelino Kubitschek, o Jânio Quadros e um grupo de pessoas de importância política, embora se possa discutir seus valores, minha simpatia acabou. As pessoas eram cassadas, sem julgamento, por ordem superior, como se fosse questão administrativa. Outro fator importante: ao ser nomeado bispo-auxiliar de São Paulo, em 1966, fui trabalhar na zona norte, onde fica a maioria dos presídios. Ao visitá-los, descobri a tortura. Em 1970, num sábado à tarde, quando sabia que os delegados saíam para passear, vesti minha indumentária de cardeal e arrisquei: fui ao Dops tentar ver os presos torturados. Quando tentaram me barrar, ergui a voz, disse que era o arcebispo de São Paulo e que a Constituição me assegurava o direito de visitar os religiosos. Entrei e conheci as pessoas torturadas. Eram tantas. Saí de lá dizendo: “Não é possível conviver com um regime que tortura.”

Estado – Apesar das divergências, a Igreja e o regime sempre tentaram manter o diálogo. O senhor teve bom relacionamento com os militares?

D. Paulo – Os militares nunca fecharam totalmente a possibilidade de diálogo. Em São Paulo houve só uma exceção, o general Humberto Souza e Mello, um gordo, cujo apelido era Jumbo. Apesar de todas as minhas tentativas, ele nunca quis dialogar e certa vez chegou a pensar em me confinar na sede da arquidiocese. Mas foi desautorizado pelo ministro do Exército, Orlando Geisel. O sucessor dele, o Ednardo D’Ávila Mello, deposto da chefia do 2.º Exército pelo Ernesto Geisel, após as mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, nas mãos da polícia, foi um choque para mim. Parecia elegante e educado, mas logo descobri que não respeitava nem a ética nem a religião.

Estado – E quanto ao sucessor dele, o general Dilermando Gomes Monteiro?

D. Paulo – Ele se tornou meu amigo. Chegamos a conversar até três vezes por dia. Falávamos de tudo, abertamente. Só uma coisa ele não me concedeu: licença para visitar as câmaras de tortura, que todos sabíamos que existiam, na Rua Tutóia. Respondeu que podia até perder o cargo se atendesse ao meu pedido. Ele era uma voz discordante no governo.

Estado – Mas ele era o comandante do 2.º Exército em 1977, quando a PM, sob o comando do coronel Erasmo Dias, invadiu e depredou a PUC.

D. Paulo – O Erasmo tinha poder absoluto em São Paulo. Mandava mais que o governador Paulo Egydio.

Estado – O senhor foi submetido a algum tipo de humilhação pelas autoridades militares?

D. Paulo – Existe um protocolo, entre o governo brasileiro e o Vaticano, no qual o cardeal tem a mesma posição de um vice-presidente. Eles observaram isso até o fim. Só me lembro de uma grosseria, quando telefonei para um general e perguntei se poderia me responder. Ele perguntou: “É d. Paulo Evaristo?” Respondi que sim. Ele desligou. Também passei por um episódio desagradável com o Médici. Fui reclamar das injustiças praticadas em São Paulo e ele respondeu que eu estava defendendo bandidos e que meu lugar era na sacristia. Praticamente me expulsou da sala, quando levantou e disse “muito obrigado”. Na despedida, me desculpei por tê-lo desagradado, mas insisti que era tudo verdade.

Estado – Qual foi o pior momento que enfrentou?

D. Paulo – Lembro particularmente de três deles. O primeiro foi o assassinato, na Rua Tutóia, do estudante Alexandre Vanucchi Leme, que estudava na USP. Eles o mataram e depois disseram que havia se matado na prisão. Na celebração que fizemos em memória dele, a catedral ficou cheia de estudantes. O segundo momento foi a morte de Vladimir Herzog, da TV Cultura, que eu admirava como homem e como jornalista. Telefonei para o general Golbery, com quem eu me dava muito bem, e contei o ocorrido. Ouvi ele bater na mesa, enquanto dizia: “Isso é uma traição!” No culto ecumênico que fizemos na Sé em homenagem a Vlado, eu lembrei o mandamento “Não matarás”, dizendo que é maldito quem mancha suas mãos com o sangue de seu irmão. O terceiro momento de grande dificuldade foi a invasão da PUC.

Estado – Como recebeu a informação, dada por Elio Gaspari, de que o presidente Ernesto Geisel considerava a tortura inevitável?

D. Paulo – Fiquei surpreso. O general Golbery sempre assegurou que o Geisel não aceitava a tortura e lutava contra ela, desde o governo do Castello Branco. Agora soube que ele apoiava a tortura como forma de obter informações que não seriam conseguidas de outra maneira. Um chefe de polícia de São Paulo, chamado Bauer, já havia me dito isso certa vez e eu respondi: “Quem aceita isso, não é cristão. Trata-se de um atentado gravíssimo contra a dignidade da pessoa.”

Estado – Como vê João Goulart?

D. Paulo – Conversei várias vezes com ele. Era um homem bom, mas fraco. Não foi feito para governar. Se tivesse aceitado a idéia do parlamentarismo e nomeado um primeiro ministro forte, dando-lhe apoio, talvez tivesse salvado o País dessa transição para o regime militar.

Estado – Passados 40 anos do golpe, que balanço o senhor faz?

D. Paulo – Os militares se meteram numa coisa para a qual não estavam preparados. Se um civil tivesse assumido a Presidência, a história seria totalmente diferente. Cada militar que assumia o poder era mais duro que o outro, com exceção do Geisel, que teve de ser mais aberto, pois a revolução ameaçava explodir em sangue. Na minha opinião, os efeitos da revolução ainda não acabaram. Foram herdadas dela, entre outras coisas, as relações que hoje temos com os operários e com as forças armadas. A revolução também agravou o problema da distribuição de renda. Como disse o próprio general Médici, o Brasil ficou mais rico, mas o povo se tornou mais pobre. A revolução empobreceu o povo e o Estado, que se tornou mais esbanjador e menos capaz de distribuir as riquezas.

POR ROLDÃO ARRUDA – O ESTADO 

 

5 Respostas

  1. Sou Católica Apostólica Romana,nunca aceitei a famigerada teologia da libertação.Com todo respeito a Dom Paulo,ele está faltando com a verdade.Fala muito sobre as torturas dos militares,e nada sobre os Terroristas e a ditadura comunista que ao modo de Cuba,China,U.Soviética,queriam implantar no Brasil.Teve torturas dos dois lados,porque ele não fala?Bem,iremos todos acertar as contas com o CRIADOR.

    1. você pode ser católica, mas um cristão de verdade não diz estas coisas……

  2. Boa tarde,

    Gostaria de enviar um e-mail a vocês para que encaminhassem um email para D.Evaristo Arns.

    Estou tentando localizar o e-mail do referido religioso sem sucesso. Obrigada.

  3. Lendo essa entrevista fico pensando, quanta violência,
    falta de respeito com ideias e pessoas. Sinceramente fico arrepiada
    Avani

  4. D. Paulo como sempre lúcido e esclarecedor.
    Foi mais importante do que todos os políticos do MDB para deter um pouco a mão criminosa da ditadura.

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